domingo, março 16, 2014
Lembrada
Eu sabia que começaria pelo fim, e que o fim pareceria a morte por estes olhos. Eu tinha sido avisada.
Não estes olhos. Meus olhos. Esta sou eu agora.
O idioma que me vi usando era estranho, mas fazia sentido. Entrecortado, delimitado, despojado e linear. Impossivelmente mutilado em comparação com muitos que eu já usara, mas ainda assim conseguia encontrar fluidez e expressão.
Às vezes, beleza. Meu idioma pátrio.
Com o mais verdadeiro instinto de minha espécie, liguei-me seguramente dentro do centro de pensamento do corpo, geminando-me inescapavelmente a cada uma de suas respirações e a cada reflexo até que aquilo não fosse mais uma entidade separada. Era eu.
Não o corpo, meu corpo.
Senti a sedação ceder e a lucidez tomar seu lugar. Tratei de me firmar para o violento assalto da primeira lembrança, que, na verdade, seria a última – os derradeiros momentos que este corpo havia experimentado, a recordação do fim. Eu tinha sido amplamente avisada do que aconteceria agora. Essas emoções humanas seriam mais fortes, mais vitais que os sentimentos de qualquer outra espécie que eu tinha sido. Eu tinha tentado me preparar.
A lembrança veio. E, conforme eu havia sido avisada, não era algo para o que fosse possível estar preparada, jamais.
A lembrança ardia com cores nítidas e sons retumbantes. O frio na pele dela, a dor tomando seus membros, queimando-os. O gosto em sua boca era violentamente metálico. E houve a sensação nova, o quinto sentido que eu nunca tinha experimentado, que tomava partículas no ar e as transformava em estranhas mensagens, prazeres, avisos para o cérebro – os odores. Eles me distraíam, eram desconcertantes para mim, mas não para a memória dela. A memória não tinha tempo para as novidades do olfato. A memória era apenas medo.
O medo travou-a numa disfunção, espicaçando os membros embotados e desajeitados a prosseguir, mas, ao mesmo tempo, estorvando-os. Fugir, correr – era tudo o que ela podia fazer.
Eu falhei.
A memória que não era minha era tão assustadoramente forte e clara, que dilacerou meu controle – sobrepujou o distanciamento, o conhecimento de que aquilo era apenas uma memória, não eu. Tragada no inferno que foi o último minuto da vida dela, eu era ela e estava correndo.
Está tão escuro. Não estou enxergando nada. Não dá para ver o chão. Não dá para enxergar minhas mãos estendidas diante de mim. Corro às cegas e tento ouvir a perseguição que posso sentir atrás de mim, mas minha pulsação é tão alta em meus ouvidos, que abafa qualquer outro som. Está frio. Não devia importar agora, mas machuca. Estou com muito frio.
O ar no nariz dela era desconfortável. Ruim. Um cheiro ruim. Por um segundo, esse desconforto me livrou da recordação. Mas foi somente um segundo, e então fui arrastada outra vez, e meus olhos se encheram de lágrimas horrorizadas.
Estou perdida; nós estamos perdidos. Acabou.
Eles estão bem atrás de mim agora, alto e perto. São tantas pisadas! Estou sozinha. Falhei.
Os Buscadores estão chamando. O som de suas vozes embrulha meu estômago. Vou vomitar.
“Está tudo bem, tudo bem”, mente alguém, tentando me acalmar, tentando me fazer ir mais devagar. A voz dela está transtornada pelo esforço da respiração.
“Cuidado!”, grita outra pessoa em advertência.
“Não se machuque”, pede uma delas. Uma voz profunda, cheia de preocupação.
Preocupação!
O calor disparou em minhas veias, e um ódio violento quase me sufocou. Eu nunca tinha sentido uma emoção como aquela em todas as minhas vidas.
Por outro segundo mais, a repulsa me afastou da lembrança. Um guincho alto e penetrante trespassou meus ouvidos e pulsou em minha cabeça. O som se fragmentou ao longo de minhas vias aéreas. Havia uma dor fraca em minha garganta.
Gritando, explicou meu corpo. Você está gritando.
Fiquei paralisada em choque, e o som parou abruptamente.
Isso não foi uma recordação.
Meu corpo – ela está pensando! Falando comigo!
Mas naquele momento a recordação foi mais forte que a surpresa.
“Por favor”, gritam eles. “É perigoso aí adiante!”
O perigo está atrás!, grito de volta em minha mente. Mas vejo o que eles estavam querendo dizer. Um tênue jorro de luz, vindo sei lá de onde, brilha no fim do corredor. Não é a parede cega ou a porta trancada, o beco sem saída que temi e esperei. É um buraco negro.
Um poço de elevador. Abandonado, vazio e condenado como aquele prédio. Outrora um esconderijo, hoje uma tumba.
Uma onda de alívio flui através de mim enquanto corro adiante. Há uma maneira. De modo algum de sobreviver, mas talvez de vencer.
Não, não, não! Este pensamento foi inteiramente meu, e lutei para me separar dela, mas estávamos juntas. E corríamos rápido para o limite da morte.
“Por favor!” Os gritos são mais desesperados.
Tenho vontade de rir ao saber que sou suficientemente rápida. Imagino as mãos deles tentando me agarrar apenas centímetros atrás de minhas costas. Mas sou tão rápida quanto preciso ser. Não faço sequer uma pausa no fim do andar. O buraco se abre para me encontrar no meio da passada.
O vazio me engole. Minhas pernas se agitam, inúteis. Minhas mãos agarram o ar, arranham-no, em busca de qualquer coisa sólida. Rajadas frias passam por mim como a ventania de um tornado.
Escuto o baque antes de senti-lo... O vento acabou.
E então há dor em toda parte... A dor é tudo.
Façam a dor parar.
Não era alto o bastante, murmuro com meus botões em meio à dor. Quando a dor vai parar? Quando?...
A escuridão engoliu a agonia, e senti-me fraca de gratidão por a lembrança ter chegado a esta finalíssima conclusão. A escuridão ocupou tudo, e eu estava livre.
Tomei fôlego para me acalmar, conforme era hábito deste corpo. Meu corpo.
Mas então a cor irrompeu de volta, a lembrança se erigiu e me engolfou novamente.
Não! Apavorei-me, temendo o frio e a dor... e o próprio medo.
Mas não era a mesma lembrança. Era uma lembrança dentro de uma lembrança – uma lembrança final, como um último suspiro – de algum modo, contudo, mais forte que a primeira.
A escuridão ocupou tudo menos isto: um rosto.
O rosto me era tão estranho quanto seriam para este novo corpo os tentáculos sinuosos e sem rosto de meu último hospedeiro. Eu vira esse tipo de rosto nas imagens que me deram para que eu me preparasse para este mundo. Foi difícil discerni-los, ver as minúsculas variações de cor e de formato que eram os únicos traços distintivos do individual. Tão parecidos, todos: o nariz centrado no rosto, olhos acima e boca abaixo, orelhas nos lados. Uma coleção de sentidos – todos, menos o tato – concentrados em um lugar. Pele sobre ossos, cabelos que crescem na parte superior da cabeça e em estranhas linhas peludas acima dos olhos. Alguns tinham mais pelos mais abaixo, na mandíbula; esses sempre eram machos. As cores variavam na escala do castanho, do creme-claro a um quase negro-escuro.
Afora isso, como distinguir um do outro?
Este rosto eu teria reconhecido entre milhões.
Este rosto era um duro retângulo, o formato dos ossos forte sob a pele. Em termos de cor, era de um leve castanho-dourado. Os cabelos eram apenas poucos tons mais escuros que a pele, menos onde reflexos louros os iluminavam, e cobriam somente a cabeça e as riscas acima dos olhos. As íris nos globos oculares brancos eram mais escuras que os cabelos, mas, como eles, tinham pontos de luz. Havia pequenos vincos em volta dos olhos, e as memórias dela me disseram que eram de sorrir e de estreitar os olhos sob o sol.
Eu nada sabia sobre o que era considerado beleza entre essas criaturas estranhas, mas, ainda assim, sabia que aquele rosto era bonito. Eu queria ficar olhando para ele. Assim que compreendi isso, ele desapareceu.
Meu, disse o pensamento alienígena que não deveria existir.
Outra vez, fiquei paralisada, atordoada. Não deveria haver ninguém aqui, exceto eu. E, contudo, o pensamento foi muito forte e muito consciente! Impossível. Como ela podia ainda estar aqui? Era eu agora.
Meu, repreendi-a, o poder e a autoridade que só a mim pertenciam fluindo pela palavra. Tudo é meu.
Então por que estou respondendo? Perguntava-me, quando as vozes interromperam meus pensamentos
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