terça-feira, março 18, 2014

Epílogo


A vida e os amor continuaram nesse último assentamento de vida humana do planeta Terra, mas as coisas não continuaram exatamente as mesmas.
Eu não era a mesma.
Esse era o meu primeiro renascimento em um corpo da mesma espécie. Achei a mudança muito mais difícil do que trocar de planeta, pois eu já tinha muitas expectativas como humana.
Além disso, eu também herdei muitas coisas de Pet, e nem todas muito agradáveis.
Eu tinha herdado um grande pesar por Girando nas Nuvens. Eu sentia saudade da mãe que eu nunca conhecera, e agora pranteava pelo sofrimento dela. Talvez não houvesse como ter felicidade nesse planeta sem uma dose igual de dor para equilibrar.
Eu herdara algumas limitações inesperadas. Eu estava acostumada com um corpo forte, ágil e alto – um corpo que podia correr quilômetros, ficar sem comida e água, carregar peso, e alcançar prateleiras altas. Esse corpo era fraco – e não só fisicamente. Esse corpo se encolhia com timidez toda vez que eu me sentia insegura, o que acontecia constantemente ultimamente.
Eu também herdara um papel diferente na comunidade. As pessoas carregavam coisas para mim agora e me deixavam entrar primeiro nos lugares. Me davam as tarefas mais fáceis e na metade das vezes acabavam tirando o trabalho das minhas mãos. Pior do que isso, eu precisava da ajuda. Meus músculos eram flácidos e não estavam acostumados com o trabalho. Eu me cansava facilmente, e minhas tentativas de esconder isso não enganavam ninguém. Eu provavelmente não conseguiria correr um quilômetro sem parar.
Havia mais nesse tratamento fácil que só fraqueza física, porém. Eu estava acostumada com um rosto bonito, mas um que as pessoas eram capazes de olhar com medo, desconfiança e até ódio. Meu rosto novo desafiava tais emoções. As pessoas tocavam meu rosto constantemente, na bochecha ou no queixo, erguendo meu rosto para ver melhor. Eu frequentemente recebia carícias na cabeça (a parte mais fácil de se alcançar já que eu era menor do que todo mundo exceto as crianças) e meus cabelos eram afagados tão regularmente que eu já nem percebia quando acontecia.
Aqueles que nunca me aceitaram antes faziam isso tanto quanto os amigos. Mesmo Lucina só ofereceu uma resistência simbólica quando suas crianças começaram a me seguir como dois bichinhos de estimação. Liberdade em particular, pulava no meu colo em todas as oportunidades, enterrando o rosto no meu cabelo. Isaiah era grande demais para tais demonstrações, mas ele gostava de segurar minha mão – que tinha o mesmo tamanho da dele – enquanto conversava animadamente comigo sobre Aranhas e Dragões, futebol e pilhagens. As crianças não chegavam nem perto de Melanie, a mãe deles havia assustado-os tanto antes para que agora ele fossem convencidos do contrário.
Até Maggie e Sharon, apesar de tentarem não olhar para mim, não conseguiam manter a mesma rigidez antiga na minha presença.
Meu corpo não foi a única mudança. As monções chegaram finalmente ao deserto, e eu gostei.
Eu nunca havia sentido o cheiro da chuva no deserto antes – só lembrava vagamente dele pelas memórias das memórias de Melanie, realmente uma memória vaga – e agora o cheiro dominava as cavernas, deixando-as com o cheiro fresco e quase perfumado. O cheiro grudava no meu cabelo e me seguia por toda parte. Eu o sentia nos sonhos.
Além disse, Pétalas Abertas para a Lua viveu em Seatle a vida inteira, e o céu constantemente azul e o calor era tediosos para o meu sistema, quase irreais, como um céu carregado o tempo todo de nuvens seria para esses moradores do deserto. As nuvens eram excitantes, uma mudança contra o céu pálido. Elas tinham profundidade e movimento. Elas formavam desenhos no céu.
Havia uma grande quantidade de rearrumação a ser feita nas cavernas de Jeb, e a mudança para a sala de jogos – que agora era o gigantesco quarto de dormir – era um bom treinamento para as mudanças que se seguiriam.
Cada espaço era necessário, então quartos não podiam ficar vagos. Mesmo assim, somente os novatos, como Candy – que lembrou o nome dela finalmente – e Lacey suportaram pegar o quarto que foi de Wes. Eu fiquei com pena de Candy devido a sua futura colega de quarto, mas a Curandeira nunca demonstrou nenhum descontentamento com a perspectiva.
Quando as chuvas acabassem, Jamie iria se mudar para um canto livre na caverna de Brandt e Aaron. Melanie e Jared o haviam expulsado do quarto deles para o quarto de Ian antes de eu renascer no corpo de Pet; Jamie não era mais tão jovem para que precisasse de uma explicação.
Kyle estava trabalhando em aumentar a pequena caverna que havia sido o cômodo de Walter para que estivesse pronto quando o deserto estivesse seco novamente. Ele não era grande o suficiente para mais de uma pessoa, e Kyle não ficaria lá sozinho. À noite, na sala de jogos, Sunny dormia encolhida contra o peito de Kyle, como uma gatinha que fez amizade com um cachorro enorme – um rottweiler em que ela confiava completamente. Sunny estava sempre com Kyle. Eu não conseguia lembrar de vê-los separados desde que abri esses olhos cinza-prateados pela primeira vez.
Kyle parecia constantemente em choque, tão distraído pelo relacionamento impossível, que não conseguia realmente prestar atenção em mais nada. Ele não havia desistido de Jodi, mas como Sunny se agarrou a ele, ele a manteve ao seu lado com delicada atenção.
Antes da chuva, todos os espaços estavam ocupados, então fiquei com Doc no hospital que não mais me assustava. As macas não eram confortáveis, mas era um lugar muito interessante para se estar. Candy lembrava os detalhes da vida de Canção de Verão melhor do que a sua própria; o hospital era um lugar cheio de milagres agora.
Após a chuva, Doc não dormiria mais no hospital. Na primeira noite na sala de jogos, Sharon arrastara seu colchão e o colocara ao lado dele sem explicação. Talvez fosse a fascinação de Doc com a Curandeira que motivou Sharon, apesar de eu duvidar que Doc tivesse notado o quão bonita a mulher mais velha era; sua fascinação com ela era por seu conhecimento fenomenal. Ou talvez fosse apenas porque ela estava pronta para perdoar e esquecer. Eu esperava que fosse esse o caso.
Seria bom pensar que Sharon e Maggie pudessem ter se suavizado com o tempo. Eu não iria ficar mais no hospital também.
A conversa crucial com Ian podia nunca ter acontecido se não fosse por Jamie. Minha boca ficava seca e minhas mãos suadas só de pensar em trazer o assunto à tona. E se aqueles sentimentos no hospital, aqueles perfeitos momentos de certeza logo após ter acordado nesse corpo, tivessem sido uma ilusão? E se eu me lembrasse deles errado? Eu sabia que nada havia mudado para mim, mas como ter certeza se Ian sentia a mesma coisa? O corpo pelo qual ele se apaixonara estava bem aqui!
Eu esperava que ele estranhasse – todos nós estranhávamos. Se era difícil para mim, uma alma acostumada com essas mudanças, o quão difícil devia ser para os humanos?
Eu trabalhava para deixar o resto do ciúme e os ecos do amor que eu ainda sentia por Jared para trás. Eu não queria e nem precisava deles. Ian era o parceiro para mim. Mas às vezes eu me pegava olhando para Jared e me sentia confusa. Às vezes eu via Melanie tocar o braço ou a mão de Ian e então me afastava depressa, como se ela lembrasse de repente de quem eu era. Até Jared, que tinha menos motivos para se sentir incerto, ocasionalmente encontrava meu olhar confuso com um olhar tão confuso quanto o meu. E Ian... Claro que isso devia ser muito mais difícil para ele. Eu entendia isso.
Nós estávamos juntos tanto quanto Kyle e Sunny. Ian constantemente tocava meu rosto e cabelo, sempre estávamos de mãos dadas. Mas quem não respondia assim a esse corpo? E não era platônico para todo mundo? Por que ele não me beijou de novo como no primeiro dia? Talvez ele nunca conseguisse me amar dentro desse corpo, por mais apelativo que ele parecesse ser para os outros humanos ali.
Essa preocupação era pesada no meu peito naquela noite em que Ian carregava meu catre – porque era pesado demais para mim – para a escura sala de jogos.

Chovia pela primeira vez em mais de seis meses. Houve risos e reclamações enquanto as pessoas sacudiam suas roupas de cama e arrumavam os colchões nos lugares. Eu vi Sharon com Doc e sorri.
— Aqui, Peg — Jamie chamou, acenando para que eu me juntasse a ele onde ele havia arrumado seu colchão ao lado do de Ian.
— Tem espaço para nós três agora.
Jamie era a única pessoa que me tratava quase exatamente como antes. É verdade que fazia concessões ao meu físico insignificante, mas ele nunca se surpreendia ao me ver entrar em um cômodo ou ficava chocado quando as palavras da Peregrina saíam por esses lábios.
— Você realmente não quer esse catre, quer, Peg? Eu aposto que se juntarmos os colchões você cabe aqui — Jamie sorriu enquanto chutava os colchões os unindo sem esperar eu concordar. — Você não ocupa muito espaço.
Ele pegou o catre de Ian e o colocou fora do caminho. Então se acomodou na ponta do colchão dele e virou de costas para nós.
— Ei, Ian. — Ele acrescentou sem se virar. — Eu falei com Brandt e Aaron e acho que vou me mudar para o quarto deles. Bom, eu estou morto. Boa noite.
Eu encarei a forma imóvel de Jamie por um longo momento. Ian estava tão imóvel quanto Jamie. Ele não devia estar tendo uma crise de pânico, certo? Talvez pensando em uma forma de se livrar da situação?
— Apagando as luzes! — Jeb gritou do outro lado do quarto. — Todos calem a boca para eu dormir.
As pessoas riram, mas o levaram a sério como sempre. Uma por uma, as quatro lâmpadas foram apagadas até o cômodo estar negro.
A mão de Ian encontrou a minha, estava morna. Ele notou o quão fria e úmida a minha pele estava? Ele se abaixou de joelhos no colchão me levando com ele. Eu o segui e deitei no ponto onde os colchões se encontravam. Ele não soltou minha mão.
— Assim está bom? — Ian sussurrou. Havia outras conversas murmuradas em volta, o fluxo do riacho impedia de se entender as palavras.
— Sim, obrigada — respondi.
Jamie rolou, balançando o colchão e batendo em mim.
— Oops. Desculpa, Peg. — Ele sussurrou, e então eu o ouvi bocejar.
Automaticamente eu me movi para dar mais espaço a ele. Ian estava mais perto do que eu pensei. Eu me assustei quando bati contra ele, então tentei voltar para onde eu estava. Mas seus braços me circundaram, me segurando contra seu corpo.
Era a sensação mais estranha de todas, ter os braços de Ian assim em volta de mim dessa forma não-platônica. Estranhamente me lembrava do Corta Dor, como se eu estivesse em agonia e percebesse que seu toque afastava a dor.
Essa sensação afastou minha timidez. Eu girei para ficar de frente para ele, e ele me abraçou mais apertado contra ele.
— Assim está bom? — sussurrei, repetindo a pergunta dele.
Ele beijou minha testa.
— Melhor do que bom.
Nós ficamos em silêncio por alguns minutos. A maioria das outras conversas havia morrido. Ele se inclinou para que os lábios ficassem no meu ouvido e sussurrou mais baixo do que antes.
— Peg, você acha...? — ele ficou em silêncio.
— Sim?
— Bem, parece que eu tenho um quarto inteiro para mim agora. Isso não está certo.
— Não. Não tem espaço suficiente para você ficar sozinho.
— Eu não quero ficar sozinho, mas...
Por que ele não pedia?
— Mas o quê?
— Você teve tempo o suficiente para acertar as coisas? Eu não quero te apressar. Eu sei que é confuso... com Jared...
Eu demorei um momento para processar o que ele estava dizendo, mas então soltei umas risadinhas. Melanie não era de dar risadinhas, mas Pet era, e o corpo dela me traía nesse momento mais do que inoportuno.
— O que? — ele quis saber.
— Eu estava dando um tempo para você acertar as coisas — expliquei em um sussurro. — Eu não queria te apressar – por que eu sei que é confuso. Com Melanie.
Ele quase deu um pulo de surpresa.
— Você achou...? Mas Melanie não é você. Eu nunca estive confuso.
Eu estava sorrindo no escuro agora.
— E Jared não é você.
Sua voz estava mais apertada quando ele respondeu.
— Mas ele ainda é o Jared. E você o ama.
Ian estava com ciúme de novo? Eu não devia sentir prazer por uma emoção negativa, mas eu tinha que admitir que era encorajador.
— Jared é meu passado, outra vida. Você é o meu presente.
Ele ficou quieto por um momento. Quando falou novamente, sua voz estava grossa com emoção.
— E seu futuro, se você quiser.
— Sim, por favor.
E então me beijou da maneira menos platônica que era possível sob a presente circunstância, e fiquei superfeliz ao lembrar que tinha sido esperta o suficiente para mentir sobre minha idade.
As chuvas passariam, e quando passassem, Ian e eu estaríamos juntos, parceiros no mais verdadeiro sentido da palavra. Isso era uma promessa e uma obrigação que eu nunca tinha tido em todas as minhas vidas. Pensar nisso me deixava cheia de alegria, ansiedade, timidez e muito impaciente, tudo ao mesmo tempo – me fazia sentir humana.

Após tudo isso ser acertado, Ian e eu éramos ainda mais inseparáveis. Então quando chegou a hora de testar o meu novo rosto nas outras almas, claro que ele foi comigo. Essa pilhagem foi um alívio para mim depois de tantas semanas de frustração. Já era ruim o bastante que meu corpo fosse fraco e inútil nas cavernas; eu não pude acreditar quando os outros não quiseram me deixar usar o meu corpo para a única coisa que seria perfeito para ele fazer.
Jared especificamente aprovou a escolha de Jamie por causa do rosto vulnerável que ninguém jamais duvidaria, essa estrutura delicada que qualquer se sentiria compelido a proteger, mas mesmo ele estava achando difícil colocar sua teoria em prática. Eu tinha certeza que incursionar seria tão fácil como era antes, mas Jared, Jeb, Ian e outros – exceto Jamie e Mel – debateram por dias, tentando achar outra solução. Era ridículo.
Eu os vi olhando de soslaio para Sunny, mas ela ainda não havia sido testada, não era confiável. Além disso, Sunny não tinha a menor intenção de colocar um pé do lado de fora. Só a palavra incursão a fazia encolher de terror. Kyle não iria conosco; Sunny tinha ficado histérica na única vez que mencionamos isso.
No final a praticidade venceu. Eles precisavam de mim.
Era bom ser necessária.
Os suprimentos estavam minguando, essa seria uma longa viagem. Jared estava liderando, como sempre, então não preciso nem dizer que Melanie estava incluída. Aaron e Brandt se voluntariaram. Não que precisássemos dos músculos, eles só estavam cansados de ficar presos.
Nós íamos longe para o norte, e eu estava excitada para ver novos lugares – para sentir o frio novamente. Excitação não era muito bem controlada nesse corpo. Eu estava inquieta e agitada a noite quando chegamos à formação rochosa onde a van e o grande caminhão de mudança estavam escondidos. Ian estava rindo de mim porque eu mal conseguia ficar parada enquanto colocávamos as roupas e coisas que precisaríamos na van. Ele segurava minha mão e dizia que era para me manter na superfície de planeta.
Eu chamei atenção? Muito distraída para o ambiente? Não, claro que não foi isso. Não houve nada que eu pudesse fazer. Foi uma armadilha, e era tarde demais para nós no minuto em que chegamos.
Nós congelamos quando os feixes de luzes surgiram da escuridão direto no rosto de Jared e Melanie. Os meus olhos, meu rosto, o que podia ter nos ajudado, ficaram obscurecidos, escondidos na sombra feita pelas costas largas de Ian.
Meus olhos não foras cegados pela luz, e a lua estava clara o bastante para eu ver claramente os Buscadores que estavam em maior número; eram oito contra seis. Eu via bem o suficiente para ver como suas mãos estavam, as armas nelas, erguidas e apontadas para nós. Apontadas para Jared e Mel, Brandt e Aaron – nossa única arma não sacada – e uma arma apontada mortalmente certeira no peito de Ian.
Por que eu deixei ele vir comigo? Por que ele tinha que morrer também? As perguntas durante o choque de Lily ecoaram na minha cabeça: Por que a vida e o amor continuam? Qual o propósito?
Meu frágil e pequeno coração se partiu em milhões de pedaços e eu procurei pela pílula em meu bolso.
— Todo mundo parado, e todos calmos — o homem no centro do grupo de Buscadores gritou. — Esperem, calma aí, não engulam nada! Minha nossa, calma! Esperem, olha!
O homem virou a lanterna para o seu próprio rosto. Seu rosto era de um marrom queimado de sol e muito marcada, como uma rocha erodida pelo vento. Seu cabelo era escuro com um pouco de branco nas têmporas, e enrolado bagunçado em volta das orelhas. E seus olhos – seus olhos eram castanhos escuros. Só castanho escuro, nada mais.
— Viu? — ele disse. — Certo, agora, não atirem em nós e nós não atiraremos em vocês. Certo? — E ele colocou a arma que estava carregando no chão. — Pessoal, vamos. — Ele disse, e os outros colocaram as armas nos coldres – nos quadris, tornozelos, costas... tantas armas. — Nós encontramos seu esconderijo aqui – muito engenhoso, tivemos sorte em encontrá-lo. E decidimos ficar por aqui e nos apresentarmos. Não é todo dia que se acha outra célula rebelde. — Ele riu uma risada que veio fundo de sua garganta. — Olha para a cara de vocês! O quê? Vocês não achavam que eram os únicos resistindo? — ele riu novamente.
Nenhum de nós se mexeu.
— Acho que eles estão em choque, Nate. — Outro homem disse.
— Nós os assustamos quase até a morte — uma mulher disse. — O que você esperava?
Eles esperaram, mudando o peso de um pé para o outro, enquanto continuávamos sem nos mover.
Jared se recuperou primeiro.
— Quem são vocês?
O líder riu novamente.
— Eu sou Nate – prazer, apesar de achar que você ainda não está sentindo o mesmo. Esse é Rob, Evan, Blake, Tom, Kim e Rachel aqui comigo. — Ele gesticulava pelo grupo enquanto falava, e os humanos assentiam aos ouvir seus nomes. Eu notei um homem, um pouco no fundo, que Nate não havia apresentado. Ele tinha cabelos vermelhos brilhantes que se destacavam – especialmente por ele ser o mais alto do grupo. Era o único que parecia não estar armado. Ele também me encarava atentamente, então eu desviei o olhar. — Mas há vinte e dois de nós no total — Nate continuou.
Nate estendeu a mão.
Jared respirou fundo e deu um passo à frente. Quando ele se moveu, o resto de nosso grupo exalou o ar ao mesmo tempo.
— Eu sou Jared. — Ele apertou a mão de Nate, e sorriu. — Essa é Melanie, Aaron, Brandt, Ian e Peg. Há trinta e sete de nós no total.
Quando Jared falou meu nome, Ian mudou levemente de posição, tentando me esconder completamente da visão dos outros humanos. Foi só aí que percebi que eu ainda estava em perigo, tanto quanto se fossem Buscadores. Como no início. Eu tentei ficar perfeitamente imóvel.
Nate piscou ao ouvir a revelação de Jared, e então arregalou os olhos.
— Uau. Essa é a primeira vez que somos superados nesse quesito.
Agora Jared quem piscou.
— Você encontrou outros?
— Há três células separadas de nós que conhecemos. Onze com Gail, sete com Russel e oito com Max. Nós mantemos o contato. — De novo, a risada do fundo da garganta. — A pequena Ellen, de Gail, decidiu que queria ficar com meu amigo Evan aqui. Carlos ficou com a Cindy, do Russel. E, claro, todo mundo precisa do Cal de vez em quando... — ele parou de falar abruptamente, olhando desconfortável em volta, como se tivesse dito algo que não devia. Seus olhos passaram brevemente no ruivo alto no fundo, que ainda olhava para mim.
— Bom, melhor esclarecer isso logo. — O homem baixinho ao lado de Nate disse.
Nate lançou um olhar cheio de suspeita para nossa fileira.
— Okay, Rob está certo. Vamos resolver isso. — Ele respirou fundo. — Está bem, todos fiquem calmos e prestem atenção. Com calma, por favor. Isso incomoda as pessoas às vezes.
— Todas às vezes. — O que se chamava Rob murmurou. Sua mão pousou acima da arma em sua coxa.
— O que é? — Jared perguntou sem flexão na voz.
Nate suspirou e então gesticulou para o homem alto com o cabelo vermelho. O homem deu um passo à frente, um sorriso pequeno no rosto. Ele tinha sardas, como eu, só que mais. Elas eram mais escuras, apesar de ele ser bem branco. Seus olhos eram escuros – azul-marinho, talvez.
— Esse aqui é o Cal. Ele está com a gente, então não percam a cabeça. Ele é meu melhor amigo – salvou minha vida centenas de vezes. Ele é da família, e nós não gostamos quando alguém tenta matá-lo.
Uma das mulheres lentamente tirou a arma do coldre e apontou para o chão.
O ruivo falou pela primeira vez em uma voz distintamente gentil.
— Não, está tudo bem, Nate. Vê? Eles têm um na turma deles também. — Ele apontou diretamente para mim e Ian ficou tenso. — Parece que eu não fui o único a se aculturar.
Cal sorriu para mim, e cruzou o espaço vazio, a terra de ninguém entre os dois grupos, com a mão estendida para mim.
Eu dei um passo me afastando de Ian, ignorando o aviso mudo, de repente à vontade e segura.
Eu gostei da forma como Cal havia colocado: aculturar-se.
Cal parou à minha frente, abaixando um pouco a mão para compensar a considerável diferença de altura entre nós. Eu peguei sua mão – que era dura e calejada em comparação à minha pele delicada.
— Flores Vivas Calcinadas — ele se apresentou.
Meus olhos se abriram ao ouvir o nome. Mundo do Fogo – que inesperado.
— Peregrina — eu lhe disse.
— É... extraordinário te conhecer, Peregrina. E eu achava que era o único.
— Nem perto disso — respondi, pensando em Sunny nas cavernas. Talvez não fôssemos nem um pouco raros como pensávamos.
Ele ergueu uma sobrancelha ao ouvir minha resposta, intrigado.
— É mesmo? — ele disse. — Bem, então talvez haja esperança para esse planeta, afinal de contas.
— É um mundo estranho — murmurei, mais para mim do que para a outra alma aculturada.
— O mais estranho de todos — ele concordou.

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