terça-feira, março 18, 2014
Lembrada
Eu já havia sido avisada sobre isso. O início pareceria com o fim. Mas dessa vez o fim foi uma surpresa maior do que em todas as minhas nove vidas. Maior que pular num poço de um elevador. Eu não esperava mais memórias, mais pensamentos. Que fim era esse?
O sol estava se pondo – as cores todas rosadas, elas me fizeram lembrar da minha amiga... qual seria o nome dela aqui? Algo com... ondulações. Ela era uma linda Flor. As flores daqui eram tão sem vida e chatas. Mas o cheiro era maravilhoso. Cheiros eram a melhor parte desse lugar.
Passos atrás de mim. Será que Girando nas Nuvens me seguiu de novo? Eu não preciso de uma jaqueta. Está quente aqui – finalmente! – e eu quero sentir o ar na minha pele. Eu não vou olhar para ela. Talvez ela pense que não a ouvi e vá embora. Ela é cuidadosa comigo, mas eu sou quase uma adulta. Ela não pode cuidar de mim como uma mãe para sempre.
"Com licença?" Alguém diz, e eu não conheço a voz.
Me viro para olhar para ela, e eu não conheço o rosto também. Ela é bonita.
O rosto na memória me fez voltar a mim mesma num solavanco. Aquele era o meu rosto! Mas eu não lembrava disso...
"Oi" eu disse.
“Oi. Meu nome é Melanie.” Ela sorri para mim. “Eu sou nova na cidade e... eu acho que me perdi.”
“Oh! Onde você está tentando ir? Eu te levo. Nosso carro está ali atrás..."
“Não, não é longe. Eu saí para uma caminhada, mas agora não consigo achar o caminho de volta para a Rua Becker.”
Uma nova vizinha – que bom. Eu amo novos amigos.
“Você está bem perto,” digo a ela. “É só virar a esquina por ali, mas você pode cortar por aquele beco ali. Te leva direto lá.”
“Você podia me mostrar? Desculpe, qual o seu nome?”
“Claro! Venha comigo. Eu sou Pétalas Abertas para a Lua, mas minha família me chama de Pet. De onde você é Melanie?”
Ela ri.
“Você quer dizer San Diego ou o Mundo Cantor, Pet?”
“Tanto faz.” Eu rio também. Eu gosto do sorriso dela. “Há dois Morcegos nessa rua. Eles vivem naquela casa amarela com os pinheiros.”
“Eu vou ter que dizer olá para eles.” Ela murmura, mas a voz dela havia mudado, estava tensa. Ela está olhando para o beco como se esperasse ver alguém.
E há alguém. Duas pessoas, um homem e um garoto. O garoto passa a mão pelo longo cabelo preto como se estivesse nervoso. Talvez preocupado por estar perdido também. Seus olhos bonitos estão muito abertos e excitados. O homem está muito imóvel.
Jamie. Jared. Meu coração batia forte, mas a sensação era peculiar, errada. Muito pequena e... frágil.
“Esses são meus amigos, Pet.” Melanie me diz.
“Oh! Olá.” Eu estico a mão para o homem – ele está mais perto.
Ele a segura, e seu aperto é muito forte.
Ele me puxa para ele, eu não entendo. Isso está errado. Eu não gosto.
Meu coração bate mais forte, e eu estou com medo. Eu nunca tive medo assim antes. Eu não entendo.
Sua mão se move em direção ao meu rosto e eu ofego. Aspiro a névoa que vem da mão dele. Uma nuvem prateada com sabor de cereja.
“O que...” quero perguntar, mas não consigo os ver mais. Eu não consigo ver nada...
Não houve mais nada.
— Peg? Você consegue me ouvir, Peg? — Uma foz familiar perguntou.
Esse não era o nome certo... era? Meus ouvidos não reagiam a ele, mas algo reagia. Eu não era Pétalas Abertas para a Lua? Pet? Era isso? Não, não estava certo. Meu coração batia mais rápido, um eco da lembrança do medo. Uma visão de uma mulher com cabelos vermelhos e brancos e bondosos olhos verdes veio à minha memória. Era minha mãe? Mas... não a minha mãe, era?
Um som, uma voz baixa ecoava à minha volta.
— Peg. Volte. Nós não vamos deixar você ir.
A voz era familiar, mas também não era. Parecia... eu?
Onde estava Pet? Eu não conseguia encontrá-la. Apenas milhares de lembranças vazias. Uma casa cheia de fotos mas sem habitantes.
— Use o Acordar. — Uma voz disse. Eu não reconheci essa.
Algo roçou no meu rosto, leve como o toque de neblina. Eu conhecia o cheiro. Era grapefruit. Eu respirei fundo e minha mente clareou.
Eu pude perceber que estava deitada... mas isso também parecia errado. Não havia... o suficiente de mim. Eu me senti encolhida.
Minhas mãos estavam mais quentes que o restante de mim, e era porque estavam sendo seguradas. Seguradas por mãos grandes, mãos que a engoliam completamente.
O cheio era estranho – abafado e meio mofado. Eu lembrava do cheiro... mas certamente eu nunca o havia sentido antes.
Eu não via nada além do vermelho – o interior das minhas pálpebras. Eu queria abrir os olhos, então fui buscar os músculos certos para fazer isso.
— Peregrina? Nós estamos todos esperando por você, querida. Abra os olhos.
Essa voz, essa respiração morna no meu ouvido, era ainda mais familiar. Uma sensação estranha passou pelas minhas veias ao ouvir esse som. Um sentimento que eu nunca, nunca senti antes. O som me fez respirar mais forte e meus dedos tremerem.
Eu queria ver o rosto que vinha com aquela voz.
Uma cor inundou minha mente – uma cor que me chamava de uma vida distante – um azul brilhante. Todo o universo era azul...
E finalmente eu soube meu nome. Sim, estava certo. Peregrina. Eu era Peregrina. Peg, também. Eu lembrava disso agora.
Um toque leve no meu rosto – uma pressão morna nos meus lábios, nas minhas pálpebras. Ah, era ali que eles estavam. Eu podia fazer elas piscarem agora que eu sabia onde as encontrar.
— Ela está acordando! — alguém comemorou excitado.
Jamie. Jamie estava aqui. Meu coração deu um pequeno salto.
Levou um momento para meus olhos se focarem. O azul que feriu meus olhos estava errado – muito pálido, desbotado demais. Não era o azul que eu queria.
Uma mão tocou meu rosto.
— Peregrina?
Eu olhei para o som. O movimento da minha cabeça e pescoço pareceu estranho. Não era como costumava a ser, mas, ao mesmo tempo, era como sempre havia sido. Meus olhos finalmente acharam o azul que eu procurava. Safira, neve e meia-noite.
— Ian? Ian, onde estou? — o som da voz que saiu da minha garganta me assustou. Alta e cheia de emoção. Familiar, mas não minha. — Quem sou eu?
— Você é você — Ian me disse. — E está exatamente onde devia estar.
Eu puxei minha mão das mãos gigantes que a seguravam. Eu queria tocar meu rosto, mas a mão de outra pessoa veio na minha direção e eu congelei.
Eu tentei mover minha mão de novo, para me proteger, mas isso moveu a mão acima de mim. Eu comecei a tremer e as mãos tremeram.
Oh.
Eu abri e fechei a mão, olhando-a com cuidado.
Essa era minha mão? Essa coisinha minúscula? Era a mão de uma criança, exceto pelas longas unhas em rosa e branco lixadas em curvas perfeitamente suaves. A pele era clara, com um ligeiro toque argênteo, e então inteiramente coberta de sardas douradas.
Era a estranha combinação de prata e ouro que trouxe a imagem de volta: eu podia ver um rosto em minha mente, refletida no espelho.
A memória me desequilibrou por um momento, porque eu não estava acostumada a tanta civilização – ao mesmo tempo, eu só conhecia a civilização. Uma bonita cômoda com todos os tipos de frivolidades e coisinhas delicadas em cima dela. Uma profusão de pequenas garrafas de vidro contendo perfumes que eu amava – eu amava? Ou ela amava? Uma orquídea em um vaso, um conjunto de escovas e pentes de prata.
O grande espelho redondo tinha uma moldura de flores de metal. O rosto no espelho era arredondado também, não oval. Pequeno. A pele do rosto tinha a mesma sugestão de prateado – prateado como o luar – que a mão, com outro punhado de sardas douradas de ambos os lados do nariz. Grandes olhos cinzentos, a prata da alma reluzindo ligeiramente por trás da cor suave, enquadrada por espessos cílios dourados. Lábios rosa-claros, carnudos e redondos, como os de um bebê. Dentes pequenos e certinhos atrás deles. Uma covinha no queixo. E em toda parte, cabelos dourados ondulados que se mantinham longe da face num halo brilhante e caíam abaixo e onde o espelho mostrava.
Meu rosto ou o dela?
Era o rosto perfeito para uma Flor da Noite. A tradução exata de uma Flor para humano.
— Cadê ela? — minha voz alta e aguda exigiu. — Cadê a Pet? — Sua ausência me assustava.
Eu nunca tinha visto uma criatura mais indefesa do que essa meia-criança com seu rosto de luar e seu cabelo de luz do sol.
— Ela está bem aqui — Doc me assegurou. — No tanque e pronta para ir. Nós achamos que você podia nos dizer para onde mandá-la.
Eu olhei em direção a sua voz. Quando o vi parado à luz do sol, um criotanque em suas mãos, um fluxo de memórias da vida antiga veio a mim.
— Doc! — exclamei nessa voz pequena e frágil. — Doc, você prometeu! Você me deu sua palavra Eustace! Por quê? Por que não cumpriu sua palavra?
Uma sensação de tristeza e dor passou por mim. Esse corpo não estava acostumado a essas agonias. Ele se retraiu à ferroada.
— Mesmo um homem honesto às vezes cede à coação, Peg.
— Coação — outra voz terrivelmente familiar zombou.
— Eu diria que uma faca na garganta conta como coação, Jared.
— Você sabia que eu não a usaria de verdade.
— Sabia nada. Você foi muito persuasivo.
— Uma faca? — Meu corpo tremeu.
— Shh. Tá tudo bem — Ian murmurou. Seu hálito soprou fios dourados no meu rosto, e eu os afastei – um gesto rotineiro. — Você realmente achou que nós íamos deixar você ir assim? Peg! — ele suspirou, mas era um suspiro de alegria.
Ian estava feliz. Isso tornou minha preocupação mais leve, mais fácil de suportar.
— Eu te disse que não queria ser uma parasita — sussurrei.
— Deixa eu passar. — Minha voz antiga mandou. E então eu pude ver o meu rosto, o forte, com a pele morena, a linha reta das sobrancelhas sobre olhos redondos e escuros, as bochechas proeminentes... Eu o vi direito, não como um reflexo como eu sempre tinha visto antes.
— Ouça, Peg. Eu sei exatamente o que você não quer ser. Mas nós somos humanos, somos egoístas e nós não fazemos sempre a coisa certa. Nós não vamos deixar você ir. Acostume-se.
A forma que ela falou, a cadência e o tom, não a voz, trouxe de volta todas as conversas silenciosas, a voz em minha cabeça, minha irmã.
— Mel? Mel, você está bem!
Ela sorriu e então se inclinou para abraçar meus ombros. Ela era bem maior do que lembrava ser.
— Claro que estou. Não foi esse o motivo do drama todo? E você vai ficar bem também. Nós não fomos idiotas quanto a isso. Não pegamos o primeiro corpo que vimos.
— Deixa! Deixa que eu conto! — Jamie se enfiou ao lado de Mel. Estava ficando muito cheio em volta do catre.
Eu peguei a mão dele e a apertei. Minhas mãos estavam muito fracas. Ele podia sentir a pressão?
— Jamie!
— Oi, Peg! Isso é legal, não é? Você é menor que eu agora! — Ele sorriu triunfante.
— Mas ainda mais velha. Eu tenho quase... — e então parei, mudando a frase de repente. — Meu aniversário será em duas semanas.
Eu podia estar desorientada e confusa, mas eu não era estúpida. A experiência de Melanie não ia ser desperdiçada. Eu aprendi com elas. Ian era tão cheio de honra quanto Jared, e eu não ia passar pela frustração que Mel passou.
Então eu menti me dando um ano extra.
— Eu vou fazer dezoito.
Pelo canto do olho eu vi Mel e Ian se surpreenderem. Esse corpo parecia mais jovem do que a idade que tinha, quase dezessete.
Foi essa pequena mentira, essa afirmação para o meu parceiro, que me fez perceber que eu iria ficar aqui. Que eu ficaria com Ian e com o resto da minha família. Minha garganta apertou, estranhamente inchada.
Jamie acariciou meu rosto, chamando minha atenção de volta a ele. Fiquei surpresa ao ver como a sua mão parecia grande na minha bochecha.
— Eles me deixaram ir à incursão para te pegar.
— Eu sei — murmurei. — Eu lembro... Bem, Pet lembra de ter ver lá. — Eu encarei Mel, que deu de ombros.
— Nós tentamos não assustá-la — Jamie disse. — Ela é tão... aparentemente frágil, sabe. E boazinha também. Nós a escolhemos juntos, mas eu que decidi! Veja bem, Mel disse que tinha que ser alguém jovem – alguém que tivesse maior porcentagem de vida como alma... ou algo assim. Mas não muito jovem, porque ela sabia que você não ia querer ser criança. E então Jared gostou desse rosto, porque ele disse que ninguém jamais poderia... desconfiar dele. Você não parece nada perigosa. Você parece o oposto de perigosa. Jared disse que qualquer pessoa que te visse iria querer te proteger naturalmente, né Jared? Mas fui eu que dei a palavra final, porque eu estava procurando alguém que parecesse com você. E achei ela parecida com você. Porque ela meio que parece um anjo, e você é boa assim. E muito bonita. Eu sabia que você tinha que ser bonita.
Jamie deu um sorriso imenso.
— Ian não foi. Ele só ficou aqui sentando com você – disse que não ligava para sua aparência. Não deixou ninguém nem colocar um dedo no seu tanque, nem mesmo eu ou Mel. Mas Doc me deixou ver dessa vez. Foi muito legal. Eu não sei por que você não queria deixar eu ver antes. Mas eles não me deixaram ajudar. Ian não deixou ninguém pegar em você além dele.
Ian apertou minha mão e se inclinou para sussurrar algo em meu ouvido através do cabelo. Sua voz era tão baixa que só eu podia ouvir.
— Eu segurei você na minha mão, Peregrina. E você era tão linda...
Meus olhos ficaram úmidos.
— Você está gostando, né? — Jamie perguntou, sua voz preocupada agora. — Você não está zangada? Não tem ninguém aí com você, tem?
— Eu não estou exatamente zangada — sussurrei. — E eu... eu não achei ninguém aqui dentro. Só as memórias de Pet. Ela tem estado aqui dentro desde... eu não consigo lembrar quando ela não estava. Não consigo lembrar de nenhum outro nome.
— Você não é uma parasita — Melanie disse com firmeza, pegando uma mecha de cabelo e deixando os fios dourados escorrerem pelos dedos. — Esse corpo não pertencia a Pet, mas não havia mais ninguém para reivindicá-lo. Nós esperamos para ter certeza. Tentamos acordá-la quase por tanto tempo quanto tentamos com Jodi.
— Jodi? O que aconteceu com a Jodi? — Eu exclamei, minha voz ficando mais alta, como de um pássaro, com a ansiedade. Eu tentei me sentar, e Ian me ajudou – não precisou esforço nenhum, nenhuma força para mover meu corpo minúsculo com seus braços me apoiando. Eu podia ver o rosto de todos agora.
Doc, já sem lágrimas nos olhos. Jeb, espiando ao lado de Doc, sua expressão satisfeita e queimando de curiosidade ao mesmo tempo. Em seguida, uma mulher que eu não reconheci por um segundo, pois seu rosto estava mais animado do que já havia visto, e eu não havia visto muito mesmo assim – Mandy, a ex-Curandeira. Mais perto de mim, Jamie, com seu sorriso iluminado e animado, Melanie ao lado dele, e Jared atrás dela, suas mãos em sua cintura. Eu sabia que as mãos dele nunca estariam bem se não estivessem tocando o corpo dela – meu corpo! Que ele iria mantê-la o mais perto possível, odiando qualquer distância que aparecesse entre eles.
Isso doeu.
O delicado coração nesse peito pequeno estremeceu. Ele nunca havia se partido antes, e não entendia essa memória. Eu fiquei triste ao saber que ainda amava Jared, que não estava livre do ciúme do corpo que ele amava. Meu olhar voltou para Mel e pelo movimento da boca dela, que costumava ser minha, percebi que ela havia compreendido.
Eu continuei a olhar em volta do círculo de rostos em volta da minha cama, enquanto Doc, após uma pausa, respondia à minha pergunta.
Trudy e Geoffrey, Heath, Paige e Andy, Brandt e até...
— Jodi não reagiu. Nós continuamos tentando o máximo que pudemos.
A Jodi havia se perdido então? Meu inexperiente coração doendo. Eu estava dando à frágil pobrezinha um despertar difícil.
Heidi e Lily, Lily sorrindo um pequeno sorriso aflito – mas sincero apesar da dor...
— Nós a mantivemos hidratada, mas não tinha como alimentá-la aqui. Nós nos preocupamos com atrofia... seus músculos, o cérebro...
Enquanto meu coração doía mais do que jamais havia doído – doía por uma mulher que eu nem conhecia – meus olhos continuaram a correr pelo círculo e então pararam.
Jodi, agarrada na cintura de Kyle, me encarava.
Ela sorriu timidamente, e eu a reconheci.
— Sunny!
— Eu consegui ficar! — ela disse, não exatamente vaidosa, mas quase. — Como você. — Ela olhou para o rosto de Kyle – que estava mais conformado do que eu já havia visto – e seu rosto ficou triste. — Mas eu estou tentando, eu estou procurando por ela. Vou continuar procurando.
— Kyle nos fez colocar Sunny de volta quando pareceu que íamos perder Jodi — Doc continuou discretamente.
Eu olhei para Kyle e Sunny por um momento, chocada, e então terminei o círculo.
Ian estava me olhando com um misto estranho de alegria e nervoso. Seu rosto mais alto do que antes, maior do que costumava a ser. Mas seus olhos ainda eram do azul que eu lembrava. A âncora que me segurou nesse planeta.
— Você está bem aí? — ele perguntou.
— Eu... eu não sei — admiti. — Isso é muito... estranho. Tão esquisito quanto mudar de espécie. Muito mais estranho do que pensei. Eu... eu não sei.
Meu coração se acelerou de novo olhando em seus olhos. E isso não era a lembrança de um amor de outra vida. Minha boca ficou seca, e meu estômago se contraiu. O ponto onde seu braço tocava minhas costas parecia mais vivo do que o resto do meu corpo.
— Você não se importa muito de ficar aqui, não é, Peg? Você acha que pode tolerar? — ele murmurou.
Jamie apertou minha mão. Melanie colocou a dela em cima da dele, então sorriu quando Jared acrescentou a dele a pilha. Trudy pôs a mão no meu pé. Geoffrey, Heath, Heidi, Andy, Paige, Brandt e mesmo Lily estavam me olhando ansiosos.
Kyle havia se aproximado, um sorriso aparecendo em seu rosto. O sorriso de Sunny era o de uma co-conspiradora.
Quanto Corta Dor Doc havia me dado? Tudo estava brilhando.
Ian afastou uma mecha de cabelo dourado do meu rosto e pôs a mão na minha bochecha. Sua mão era tão grande que só sua palma cobria da minha mandíbula ao início da testa. O contato enviou uma carga de eletricidade pela minha pele. A pele formigava levemente, o meu estômago seguindo o ritmo.
Eu podia sentir um fluxo morno nas bochechas, meu coração nunca havia se quebrado antes, mas também nunca havia inchado desse jeito. Aquilo me deixou tímida, foi difícil encontrar minha voz.
— Eu imagino que posso fazer isso — falei baixinho. — Se te faz feliz.
— Não é bom o suficiente, na verdade — Ian discordou. — Tem que te fazer feliz também.
Eu só conseguia encontrar seu olhar por alguns segundos de cada vez, a timidez, sensação nova e confusa, me fazia baixar os olhos para o colo toda hora.
— Eu... acho que... sim — concordei. — Eu acho que isso pode me fazer muito, muito feliz.
Feliz e triste, cheia de alegria e de aflição, segura e temerosa, amada e rejeitada, paciente e irritada, pacífica e selvagem, completa e vazia... tudo. Eu sentiria tudo. E seria tudo meu.
Ian ergueu meu rosto até eu olhar em seus olhos, minhas bochechas ruborizando forte.
— Então quer dizer que você vai ficar.
Ele me beijou, na frente de todo mundo, mas eu me esqueci da plateia rapidamente. Isso era certo e fácil, sem divisão, sem confusão, nenhuma objeção, só Ian e eu, a lava se movia por este corpo, o moldando também.
— Eu fico — concordei.
E minha décima vida começou.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário