terça-feira, março 18, 2014
Morta
Eu estava tão absorvida em pensamentos que gritei com terror, e estava tão aterrorizada que o grito foi só um esguicho.
— Desculpe. — O braço de Jared circundou meu ombro, me confortando. — Desculpe. Eu não quis te assustar.
— O que você está fazendo aqui? — exigi, ainda arfando.
— Seguindo você. Eu estou te seguindo a noite toda.
— Bem, pare agora.
Houve uma hesitação e seus braços não se moveram. Eu me retorci para me livrar, mas ele segurou meu pulso, firme. Eu não ia me livrar facilmente.
— Você está indo ver Doc? — ele perguntou, e não havia confusão na pergunta. Era óbvio que ele não estava falando de uma visita social.
— Claro que estou — sibilei as palavras para ele não ouvir o pânico em minha voz. — O que mais eu posso fazer depois de hoje? Não vai melhorar em nada. E essa não é uma decisão que caiba a Jeb.
— Eu sei. Estou do seu lado.
Me deixou irritada o fato de as suas palavras ainda terem o poder de me magoar, levar lágrimas aos meus olhos. Eu tentei me segurar pensando em Ian – ele era a âncora, como Kyle havia sido para Sunny – mas era difícil com as mãos de Jared em mim, com o seu cheiro no meu nariz. Era como tentar isolar um violino com toda uma orquestra tocando...
— Então me deixe ir, Jared. Vá embora. Eu quero ficar sozinha. — As palavras saíram firmes, rápidas e duras. Era fácil ver que não era mentira.
— Eu devia ir com você.
— Você terá Melanie de volta em breve. Eu só estou pedindo alguns minutos, Jared. Me dê isso, pelo menos.
Outra pausa; sua mão não relaxou.
— Peg, eu iria para ficar com você.
As lágrimas rolaram, e eu estava grata pela escuridão.
— Eu não sentiria assim — sussurrei. — Então não há necessidade.
É claro que Jared não devia estar lá. Eu não ia viver como um Golfinho ou uma Flor, sempre lamentando pelos amores que deixei para trás, todos os mortos quando eu abrisse os olhos novamente – se eu tivesse olhos. Este era omeu planeta, e eles não me obrigariam a partir. Eu ficaria na terra, na gruta escura com meus amigos. Um túmulo humano para a humana que eu me tornei.
— Mas, Peg, Eu... Há tanto que eu queria te dizer.
— Eu não quero sua gratidão, Jared. Pode acreditar em mim quanto a isso.
— O que você quer? — ele sussurrou, sua voz contida. — Eu te daria qualquer coisa.
— Cuide da minha família. Não deixe que os outros os matem.
— É claro que vou cuidar deles. — Ele dispensou meu pedido bruscamente. — Eu quis dizer você. O que eu posso te dar?
— Eu não posso levar nada comigo Jared.
— Nem ao menos uma lembrança? O que você quer?
Eu enxuguei as lágrimas com minha mão livre, mas outras tomaram o lugar rapidamente. Não, eu não podia nem levar uma lembrança.
— O que eu posso te dar Peg? — ele insistiu.
Eu respirei fundo e tentei manter a voz regular.
— Me dê uma mentira, Jared. Diga-me que você quer que eu fique.
Não houve hesitação dessa vez. Ele me abraçou na escuridão, firme contra seu peito. Ele pressionou os lábios na minha testa e eu senti sua respiração mover meu cabelo quando ele falou.
Melanie estava segurando o fôlego na minha cabeça. Ela estava tentando com firmeza se enterrar novamente, tentando me dar alguma liberdade nesses últimos minutos. Talvez ela estivesse com medo de ouvir essas mentiras. Ela não iria querer essas memórias quando eu me fosse.
— Fique, Peg. Conosco. Comigo. Eu não quero que você vá. Por favor. Eu não consigo imaginar isso aqui sem você. Eu não sei como... — Sua voz falhou.
Ele era um bom mentiroso. E ele devia estar muito, muito seguro de mim para dizer essas coisas. Eu descansei contra ele por um momento, mas podia sentir o tempo me afastando. O tempo havia acabado. O tempo estava acabado.
— Obrigada — sussurrei, e eu tentei me afastar.
Seus braços se firmaram.
— Eu não acabei.
Nossos rostos só estavam há alguns centímetros de distância, e ele acabou com essa distância, e mesmo nessa situação, meu último suspiro nesse planeta, não pude evitar de responder. Gasolina e fogo – explodimos novamente.
Mas não foi a mesma coisa. Eu conseguia sentir isso. Isso foi por mim. Foi o meu nome que ele murmurou ao segurar esse corpo – e ele pensou nele comomeu corpo. Eu podia sentir a diferença. Por um momento éramos somente nós ali, Jared e Peregrina, ambos queimando.
Ninguém jamais mentiu melhor com o corpo como Jared mentiu nos meus últimos momentos, e por isso eu estava grata. Eu não iria levar isso comigo, claro, pois eu não iria a lugar nenhum, mas aliviava um pouco da dor de partir. Eu podia acreditar na mentira. Eu podia acreditar que ele sentiria minha falta, tanto que minasse um pouco da felicidade. Eu não devia querer isso, mas era bom acreditar nisso mesmo assim.
Eu não podia ignorar o tempo, os segundos passando em contagem regressiva. Mesmo em chamas, eu sentia o tempo me puxando, me sugando pelo corredor, me afastando do calor e do sentimento.
Consegui afastar meus lábios dos dele. Nós arfamos no escuro, nossas respirações mornas no rosto um do outro.
— Obrigada — eu disse novamente.
— Espere...
— Eu não posso... Eu não consigo suportar mais. Okay?
— Okay. — Ele sussurrou.
— Eu só quero mais uma coisa: deixe-me fazer isso sozinha. Por favor.
— Se... se você tem certeza de que é isso que você quer... — ele não continuou, inseguro.
— É o que eu preciso, Jared.
— Então ficarei aqui. — Ele disse conformado.
— Eu mando o Doc buscar você quando acabar.
Seus braços ainda estavam em torno de mim.
— Você sabe que Ian vai tentar me matar por deixar você fazer isso, não sabe? Talvez eu devesse deixar. E Jamie. Ele nunca vai perdoar nenhum de nós.
— Eu não posso pensar neles agora. Por favor. Deixe-me ir.
Lentamente, com uma relutância palpável que aqueceu parte do vazio frio no meu corpo, Jared me soltou.
— Eu te amo, Peg.
Eu suspirei.
— Obrigada, Jared. Você sabe o quanto eu te amo. Com todo o meu coração.
Coração e alma. Não a mesma coisa, no meu caso. Eu tenho estado dividida por muito tempo. Era hora de fazer alguém inteiro novamente, mesmo que isso me excluísse.
Os segundos correndo me empurrando para o final. Ficou frio quando ele não me segurava mais. Ficava mais frio a cada passo que eu dava.
Só minha imaginação, claro. Ainda era verão aqui. Sempre seria verão para mim.
— O que acontece aqui quando chove, Jared? — perguntei baixinho. — Onde as pessoas dormem?
Ele precisou de um momento para responder, e eu podia ouvir as lágrimas na voz dele.
— Nós... — ele engoliu em seco. — Nós vamos para a sala de jogos. Todo mundo dorme lá junto.
Eu acenei para mim mesma. Eu imaginei como seria o clima; estranho com tantas personalidades conflitantes? Ou divertido? Uma quebra de rotina? Como uma festa do pijama?
— Por quê?
— Eu só queria... imaginar. Como seria. — A vida e os amores continuariam. Mesmo se continuassem sem mim, a ideia me trouxe uma certa alegria. — Adeus Jared. Mel está dizendo até logo.
Mentirosa.
— Espere... Peg...
Eu me apressei pelo túnel, fugindo da possibilidade de que ele conseguisse me fazer acreditar em suas mentiras e me convencesse a ficar. Só havia silêncio atrás de mim.
A dor dele não me machucava como a dor de Ian havia machucado. Porque a dor de Jared acabaria logo, a felicidade estava só há alguns minutos de distância. O final feliz.
O túnel sul pareceu ter somente um metro de comprimento. Eu podia ver a lanterna brilhante a frente, e eu soube que Doc estava esperando por mim.
Eu entrei no cômodo que sempre me assustou com os ombros erguidos. Doc estava com tudo preparado. No canto oposto e distante eu podia ver dois catres unidos, Kyle roncando com seu braço em cima da forma imóvel de Jodi. Seu outro braço ainda em volta do tanque de Sunny. Ela teria gostado disso. Eu gostaria de ter uma forma de contar para ela.
— Oi Doc — sussurrei.
Ele ergueu os olhos da mesa onde estava arrumando os remédios. Já havia lágrimas escorrendo em seu rosto.
E de repente, eu estava corajosa. Meu coração passou a bater num ritmo normal. Minha respiração se aprofundou e estabilizou. As partes mais difíceis acabaram.
Eu já fiz isso antes. Muitas vezes. Eu fechei os olhos e fui. Sempre sabendo que eu acordaria depois, mas ainda assim isso era familiar. Nada há o que temer.
Fui até a maca e sentei nela. Peguei o Corta Dor com a mão firme e abri a tampa. Eu não estava com dor dessa vez. Não física.
— Diga-me, Doc. Qual o seu nome verdadeiro?
Eu queria resolver todos os pequenos enigmas antes do fim.
Doc limpou as lágrimas com as costas da mão.
— Eustace. É um nome de família, e meus pais eram pessoas cruéis.
Eu ri uma vez. Então suspirei.
— Jared está esperando, lá na grande caverna. Eu prometi a ele que você o chamaria quando terminasse. Só espere até... até eu parar de me mover, okay? Até ser tarde demais para ele fazer qualquer coisa sobre minha decisão.
— Eu não quero fazer isso, Peg.
— Eu sei. Obrigado por isso, Doc. Mas você tem que se manter fiel à sua promessa.
— Por favor?
— Não. Você me deu a sua palavra. Eu fiz minha parte, não fiz?
— Fez.
— Então faça a sua. Deixe-me ficar com Wes e Walter.
Seu rosto fino se torcia enquanto ele tentava segurar um soluço.
— Você vai... sentir dor?
— Não, Doc — menti. — Eu não vou sentir nada.
Eu esperei a euforia chegar, o tempo de o Corta Dor fazer tudo brilhar como da última vez. Eu ainda não sentia nenhuma diferença.
Não devia mesmo ter sido o Corta Dor no final das contas – era apenas o fato de ser amada. Eu suspirei novamente.
Deitei no catre, de barriga para baixo, e deixei meu rosto de frente para ele.
— Vamos, Doc.
A garrafa abriu. Eu o ouvi balançar a garrafa no pano em sua mão.
— Você é a criatura mais nobre, e pura que já conheci. O universo será um lugar mais negro sem você. — Ele sussurrou.
Essas eram as suas palavras diante do meu túmulo, meu epitáfio, e fiquei feliz de ouvi-las.
Obrigada, Peg. Minha irmã. Eu nunca me esquecerei de você.
Seja feliz, Mel. Desfrute isso tudo. Por mim.
Eu irei, ela prometeu.
Adeus. Nós pensamos juntas.
As mãos de Doc pressionaram gentilmente o pedaço de pano no meu rosto. Eu respirei profundamente, ignorando o cheiro forte e ruim.
Ao inalar novamente, eu vi as três estrelas novamente. Elas não estavam me chamando; elas estavam me deixando ir, me deixando no universo negro. Eu vaguei por tantas vidas. Eu planei para a escuridão, e ele foi ficando cada vez mais brilhante. Não era mais negro – era azul. Um azul brilhante, vibrante e cálido. Eu flutuei nele sem medo algum.
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