terça-feira, março 18, 2014

Pronta


Foi um pequeno tribunal dessa vez, não como o julgamento pela vida de Kyle. Ian trouxe só Jeb, Doc e Jared. Ele sabia, sem eu precisar dizer, que Jamie não podia ser tolerado em parte alguma nesses procedimentos.
Melanie teria que dar esse adeus por mim. Eu não conseguiria encarar isso, não com Jamie. Eu não ligava se era covardia minha. Eu não faria.
Somente uma lâmpada azul, um fraco círculo de luz no piso de pedra. Nós nos sentamos em torno do círculo de luz; eu estava sozinha, os quatro homens de frente para mim. Jeb até trouxe a arma – como se fosse o martelo do juiz e para fazer parecer mais oficial. O cheiro sulfuroso me recordava dos dias do meu luto, havia algumas memórias que eu não me arrependeria de perder.
— Como ela está? — perguntei a Doc enquanto sentávamos, antes que eles pudessem começar. Esse tribunal era uma perda do meu tempo já curto. Eu estava preocupada com coisas mais importantes.
— Qual delas? — ele respondeu.
Eu o encarei por alguns segundos, e então meus olhos se arregalaram.
— Sunny? Já?
— Kyle achou que seria cruel fazê-la sofrer por mais tempo. Ela estava... infeliz.
— Eu gostaria de ter podido dizer adeus — sussurrei para mim mesma. — E boa sorte. Como está Jodi?
— Sem responder ainda.
— O corpo da Curandeira?
— Trudy a tirou de lá. Eu acho que elas foram pegar algo para comer. Elas estão tentando achar um nome temporário que ela goste, para podermos chamar ela de algo além de "O Corpo.” — Ele sorriu fracamente.
— Ela vai ficar bem, tenho certeza. — Eu disse, tentando acreditar nas palavras. — E Jodi também. Tudo vai dar certo.
Ninguém falou nada das minhas mentiras. Eles sabiam que eu falava para mim mesma.
Doc suspirou.
— Eu não quero ficar longe de Jodi por muito tempo. Ela pode precisar de alguma coisa.
— Certo — concordei. — Vamos acabar logo com isso.
Quanto mais rápido melhor. Porque não importava o que fosse dito aqui, Doc havia concordado com meus termos. E ainda assim uma parte idiota de mim tinha esperança... esperança de que alguma solução aparecesse e tornasse tudo perfeito, que me permitisse ficar com Ian, Mel e Jared de um jeito que ninguém sofresse por isso. Era melhor acabar com essa esperança impossível logo.
— Okay — Jeb disse. — Peg, qual o seu lado disso?
— Eu vou devolver Melanie. — Firme, breve; sem razão para discutirem.
— Ian, qual o seu?
— Nós precisamos da Peg aqui.
Firme, breve; ele estava me copiando.
Jeb acenou para si mesmo.
— Essa é uma questão complicada. Peg, por que eu devia concordar com você?
— Se fosse você, você iria querer seu corpo de volta. Você não pode negar isso a Melanie.
— Ian? — Jeb perguntou.
— Nós temos que pensar no bem maior, Jeb. Peg já nos trouxe mais saúde e segurança que jamais tivemos. Ela é vital para a sobrevivência de nossa comunidade – de toda a raça humana. Uma pessoa não pode ficar acima disso.
Ele está certo.
Ninguém te perguntou.
Jared falou.
— Peg, o que Mel acha disso?
Há! Ela disse.
Eu encarei os olhos de Jared, e a coisa mais estranha aconteceu. Toda a harmonia pela qual eu havia acabado de passar foram empurrados para o fundo, na menor parte do meu corpo, o espacinho que eu ocupava fisicamente na cabeça de Mel. Todo o resto ansiava por Jared com desespero, uma fome meio louca. Esse corpo não pertencia a mim ou a Melanie – pertencia a ele.
Realmente, não havia espaço para nós duas aqui.
— Melanie quer o corpo dela de volta. Ela quer a vida dela de volta.
Mentirosa. Diga a verdade.
Não.
— Mentirosa — Ian disse. — Eu consigo ver você discutindo com ela. Aposto que ela concorda comigo. Ela é uma boa pessoa. Ela sabe o quanto precisamos de você.
— Mel sabe tudo o que eu sei. Ela será capaz de ajudar vocês. E a hospedeira da Curandeira. Ela sabe mais do que eu jamais soube. Vocês ficarão bem. Vocês estavam bem antes de eu vir aqui. Vocês vão sobreviver, assim como antes.
Jeb bufou, franzindo o cenho.
— Eu não sei, Peg. Ian tem uma certa razão.
Eu olhei para o homem mais velho e então vi Jared fazendo o mesmo. Eu desviei o olhar e troquei um olhar com Doc. Seu rosto estava cheio de dor. Ele entendeu o lembrete que eu estava lhe dando. Ele havia prometido. Esse tribunal não o anulava.
Ian estava observando Jared – ele não percebeu nossa troca silenciosa de olhares.
— Jeb — Jared protestou. — Só tem uma decisão a se tomar aqui. Você sabe disso.
— É mesmo, garoto? Parece que tem um barril cheio delas para mim.
— Aquele é o corpo de Melanie!
— E da Peg também.
Jared engasgou com a resposta dele e teve que começar de novo.
— Você não pode deixar Mel presa lá – é como assassinato, Jeb.
Ian se inclinou na direção da luz, seu rosto subitamente furioso novamente.
— E o que isso vai fazer com Peg? E o resto de nós, se você a mandar embora?
— Você não liga para o resto! Você só quer manter Peg à custa de Melanie – nada mais importa para você.
— E você quer ter Melanie à custa de Peg – nada mais importa para você! Então com isso a coisa fica empatada, no final só importa o que é melhor para os outros.
— Não! O que importa é o que Melanie quer! Aquele é o corpo dela!
Os dois estavam agachados, quase em pé, punhos cerrados e suas expressões contorcidas de raiva.
— Calma, garotos. Parem com isso agora mesmo — Jeb ordenou. — Isso é um tribunal e nós vamos ficar calmos e manter a cabeça no lugar. Nós temos que pensar em todos os lados.
— Jeb... — Jared começou.
— Cala a boca! — Jeb mordeu o lábio inferior por um minuto. — Certo, é assim que eu vejo as coisas. Peg tem razão...
Ian se ergueu.
— Opa. Senta. Deixa eu terminar.
Jeb esperou até Ian, com os tendões no pescoço muito visíveis, estar sentado.
— Peg tem razão — Jeb disse. — Mel precisa do corpo dela de volta. Mas — ele acrescentou rapidamente quando Ian ficou tenso novamente — eu não concordo com o resto, Peg. Eu acho que nós precisamos muito de você, criança. Nós temos os Buscadores lá fora procurando por nós, e você pode falar com eles. O resto de nós não pode fazer isso. Você salva vidas. Eu tenho que pensar no bem da minha comunidade.
Jared falou entre os dentes.
— Então a gente arruma outro corpo para ela. Óbvio.
O rosto de Doc se iluminou. As grossas sobrancelhas de Jeb se ergueram. Os olhos de Ian se arregalaram. Ele olhou para mim, considerando...
— Não! Não!
— Por que não Peg? — Jeb perguntou. — Não me parece uma má ideia.
Eu engoli e respirei fundo para minha voz não sair histérica.
— Jeb. Me ouça. Eu estou cansada de ser um parasita. Você consegue entender isso? Você acha que eu quero ir para outro corpo e começar isso tudo de novo? Sentir culpada por tirar a vida de um outro alguém? Eu preciso ter mais alguém me odiando? Eu já nem sou uma alma direito... eu amo vocês, brutos humanos, demais. É errado estar aqui, e eu odeio isso.
Eu respirei fundo de novo. E falei entre as lágrimas que agora caíam.
— E se as coisas mudarem? E se vocês me colocarem em um corpo de outra pessoa, roubar outra vida e sair errado? E se esse corpo me lançar atrás de um outro amor, de volta às almas? E se vocês não puderem mais confiar em mim? E se da próxima vez eu os trair? Eu não quero machucar vocês.
A primeira parte era a pura verdade, mas eu estava mentindo loucamente na segunda. Eu esperava que eles não percebessem. Ajudaria o fato de que eu estava meio incoerente, soluçando. Eu nunca os machucaria. O que aconteceu comigo aqui era permanente, parte dos átomos que constituíam meu pequeno corpo. Mas talvez, se eu desse uma razão para eles me temerem, eles aceitariam mais facilmente o que viria.
E minhas mentiras funcionaram, pela primeira vez. Eu vi a troca de olhares preocupados que Jeb e Jared trocaram. Eles não tinham pensado nisso – eu me tornando não confiável, um perigo. Ian já estava se movendo para por os braços em torno de mim. Ele secou minhas lágrimas contra seu peito.
— Está tudo bem querida. Você não tem que ir a lugar algum. Nada vai mudar.
— Espere aí, Peg — Jeb disse, seus olhos subitamente muito atentos. — Como é que a sua ida para outro planeta vai ajudar? Você ainda vai ser uma parasita.
Ian se enrijeceu com as palavras duras.
E eu também me enrijeci porque, como sempre, Jeb era esperto demais.
Eles esperaram por minha resposta, todos menos Doc, que sabia qual a resposta seria. A única que eu não podia dar. Eu tentei dizer somente coisas verdadeiras.
— É diferente em outros planetas, Jeb. Não há resistência. E os hospedeiros são diferentes. Eles não são individualizados como os humanos, suas emoções são mais sutis. Não parece com o roubo de uma vida. Não como aqui. Ninguém vai me odiar. E eu estarei muito longe para machucar vocês. Vocês ficarão mais seguros...
A última parte soava demais como uma mentira, então eu parei de falar.
Jeb me encarou através de olhos estreitos, e eu afastei o olhar dele.
Eu tentei não olhar para Doc, mas eu não consegui evitar um rápido olhar para garantir que ele entendia. Seus olhos encontraram os meus, claramente miseráveis, então eu soube que ele havia entendido.
Quando eu rapidamente desviei o olhar, peguei Jared encarando Doc. Teria ele visto a comunicação silenciosa?
Jeb suspirou.
— Isso está... complicado. — Seu rosto ficou sombrio enquanto ele pensava no dilema.
— Jeb... — Ian e Jared disseram juntos. Ambos pararam e se encararam.
Isso tudo era uma perda de tempo e eu somente tinha algumas horas. Só mais algumas poucas horas, eu sabia disso com certeza.
— Jeb — falei com suavidade, minha voz pouco audível, e todos se viraram para mim. — Você não tem que decidir agora. Doc precisa checar Jodi e eu gostaria de vê-la também. Além disso, eu não comi o dia todo. Por que você não pensa nisso durante a noite? Nós podemos conversar novamente amanhã. Temos tempo para pensar sobre isso.
Mentiras. Eles perceberiam?
— É uma boa ideia, Peg. Acho que todos nós precisamos de uma pausa. Vá comer alguma coisa, e todos nós pensaremos nisso pela noite.
Eu tive o cuidado de não encarar Doc, mesmo quando falei com eles.
— Eu irei te ajudar com a Jodi depois que eu comer, Doc. Te vejo mais tarde.
— Okay — Doc disse cheio de cuidado.
Por que ele não conseguia manter um tom de voz casual? Ele era humano –deveria ser um bom mentiroso.
— Com fome? — Ian murmurou e eu concordei. Eu deixei ele me ajudar a levantar. Ele segurou minha mão e eu soube que ele iria me manter bem por perto. Isso não me preocupava. Ele dormia profundamente, como Jamie.
Enquanto saíamos do cômodo escuro, eu podia sentir olhos nas minhas costas, mas não sabia de quem era. Só havia mais algumas coisas para fazer. Três, para ser precisa. Só mais três tarefas a serem completadas.
Primeiro, eu comi.
Não seria legal deixar Mel com um corpo atormentado pela fome. Além disso, a comida era melhor agora que eu incursionava com eles. Algo para se esperar ansiosamente e não suportar.
Fiz Ian pegar a comida e trazer para mim enquanto eu me escondia no campo onde o arroz substituía o milho. Disse a Ian que a verdade, para que ele pudesse me ajudar: Eu estava evitando Jamie. Eu não queria assustá-lo com essa decisão. Seria mais difícil para ele do que para Jared ou Ian – eles tinham, cada um, um lado. Jamie nos amava a ambas, ele ficaria ainda mais dividido.
Ian não discutiu comigo. Nós comemos em silêncio. Seu braço firme na minha cintura.
Segundo, eu fui ver Sunny e Jodi.
Eu esperara ver três criotanques brilhantes na mesa de Doc, e fiquei surpresa por só haver dois: os dos Curandeiros. Doc e Kyle estavam em volta da maca onde Jodi deitava inerte. Caminhei rapidamente para eles, pronta para exigir saber onde Sunny estava, mas quando cheguei perto, vi que Kyle carregava um criotanque ocupado em um dos braços.
— Você precisa ser delicado com isso — murmurei.
Doc estava tocando o pulso de Jodi, contando. Seus lábios comprimidos em uma linha fina quando ouviu minha voz, e ele teve que começar novamente.
— É, Doc me disse — Kyle respondeu, seu olhar nunca deixando o rosto de Jodi. Manchas roxas começavam a se formar abaixo de seus olhos. Teria seu nariz quebrado de novo? — Eu estou sendo cuidadoso. Eu só... não queria deixar ela sozinha ali. Ela estava tão doce e tão triste.
— Tenho certeza que ela gostaria disso, se ela soubesse.
Ele concordou com a cabeça, ainda olhando para Jodi.
— Há alguma coisa que eu devia estar fazendo aqui? Há alguma maneira de ajudar?
— Fale com ela, diga o nome dela, fale sobre coisas que ela lembraria. Incluindo Sunny. Isso ajudou com a hospedeira da Curandeira.
— Mandy — Doc corrigiu. — Ela diz que não é bem isso, mas é perto.
— Mandy — repeti. Não que eu fosse precisar lembrar. — Onde ela está?
— Com Trudy. Essa foi uma jogada perfeita,Trudy é exatamente a pessoa certa. Eu acho que ela a colocou para dormir.
— Isso é bom. Mandy vai ficar bem.
— Espero que sim — Doc sorriu, mas isso não afetou muito sua expressão sombria. — Eu tenho muitas perguntas para ela.
Eu olhei para a pequena mulher – ainda era impossível acreditar que ela era mais velha do que meu corpo. Seu rosto estava tão vago e frouxo, me assustou um pouco – ele estava tão vibrante e vivo quando Sunny estava lá dentro. E se Mel...
Eu ainda estou aqui.
Eu sei. Você vai ficar bem.
Como Lacey.
Ela estremeceu, e eu também.
Como Lacey, nunca.
Eu toquei o braço de Jodi levemente. Ela era bem parecida com Lacey em alguns aspectos. A pele olivácea, cabelos negros e pequenina. Elas podiam ser irmãs, salvo que o rosto doce de Jodi nunca poderia parecer repulsivo.
Kyle estava travado, segurando a mão dela.
— Assim, Kyle. — Eu disse, passando a mão no braço dela novamente. — Jodi? Jodi, você pode me ouvir? Kyle está esperando por você. Ele se meteu em muita encrenca para te trazer aqui... todo mundo que o conhece quer espancá-lo — sorri para o grandalhão em questão, seus lábios curvados para cima, mas ele nem olhou para cima para ver o meu sorriso.
— Não que você esteja surpresa de ouvir isso — Ian disse atrás de mim. — Quando é que esse não foi o caso, hein, Jodi? É bom te ver de novo, querida. Apesar de não saber se você se sente assim. Deve ter sido um alívio ter se livrado desse idiota por tanto tempo.
Kyle não havia percebido que seu irmão estava ali, colado na minha mão, até ele falar.
— Você lembra do Ian, é claro. Nunca conseguiu me superar em nada, mas continua tentando. Ei, Ian —Kyle adicionou, nunca movendo os olhos — você não tem nada para me dizer?
— Na verdade, não.
— Estou esperando um pedido de desculpas.
— Pois continue esperando.
— Você acredita que ele me deu um chute na cara, Jodi? Sem motivo nenhum.
— Quem precisa de motivo, né Jodi?
Era estranhamente agradável, a briga entre os irmãos. A presença de Jodi a mantinha leve e descontraída. Gentil e engraçada. Eu teria acordado para isso. Se eu fosse ela, eu já estaria sorrindo.
— Continue assim Kyle — murmurei. — Assim mesmo. Ela vai voltar.
Eu gostaria de conhecê-la, ver como ela era. Eu só conseguia ver as expressões de Sunny.
Como seria para todos aqui conhecer Melanie pela primeira vez? Pareceria a mesma coisa para eles, como se não houvesse diferença? Eles entenderiam mesmo que eu havia ido ou Melanie simplesmente preencheria o meu papel?
Talvez eles a achassem completamente diferente. Talvez tivessem que se ajustar a ela novamente. Talvez ela se encaixasse ali como eu nunca consegui. Eu a via, como era de se imaginas, no centro de uma multidão de rostos amigáveis. Nos imaginei com Liberdade nos braços e os humanos que nunca confiaram em mim sorrindo em boas-vindas.
Por que isso trouxe lágrimas aos meus olhos? Eu era assim tão insignificante?
Não. Mel me garantiu. Eles sentirão sua falta... claro que sim. Todas as melhores pessoas daqui sentirão a sua perda.
Ela parecia ter finalmente aceitado minha decisão.
Não aceitei, descordou ela. Eu só não consigo ver uma maneira de te impedir. E eu posso sentir quanto está perto. Estou assustada também. Isso não é engraçado? Estou absolutamente aterrorizada.
Somos duas.
— Peg? — Kyle disse.
— Sim?
— Desculpe.
— Humm... por quê?
— Por ter tentado te matar. — Ele disse casualmente. — Imagino que eu estava errado.
Ian suspirou em choque.
— Por favor, me diga que você tem alguma coisa que grave por aqui, Doc.
— Não. Desculpe, Ian.
Ian balançou a cabeça.
— Esse momento devia ser preservado. Eu nunca imaginei que fosse viver para ver o dia em que Kyle O’Shea admitira estar errado. Vamos lá, Jodi. Esse choque tem que te acordar.
— Jodi, amor, você não vai me defender? Diga a Ian que eu nunca estive errado antes. — Ele riu.
Isso era bom. Era bom saber que eu havia conquistado a aceitação de Kyle antes de partir. Eu não esperava tanto. Não havia mais o que fazer aqui. Não havia necessidade de prolongar. Ou Jodi acordaria ou não, isso não afetaria o meu caminho.
Então fui para minha terceira e última proeza: Eu menti.
Eu dei um passo para trás, me afastando do catre e me espreguicei.
— Estou cansada, Ian.
Era realmente uma mentira? Não soava falso. Havia sido um longo, longo dia, este meu último. Fiquei acordada a noite toda. Não dormia desde a última incursão. Eu devia mesmo estar exausta.
Ian acenou.
— Aposto que está. Você não ficou acordada com a Curandeira... com a Mandy a noite toda?
— Fiquei — bocejei.
— Boa noite, Doc — Ian disse, me puxando para a saída. — Boa-sorte, Kyle. Nós voltaremos de manhã.
— Boa noite, Kyle — murmurei. — Até mais, Doc.
Doc me olhou, mas Ian estava de costas para ele e Kyle estava olhando para Jodi. Retornei o olhar de Doc com firmeza e determinação.
Ian caminhou comigo pelo túnel negro, sem falar nada. Eu estava feliz por ele não estar no clima para conversa. Eu não teria sido capaz de me concentrar na conversa. Meu estômago estava se contorcendo em estranhas posições.
Eu havia terminado, minhas tarefas estavam cumpridas. Eu só tinha que esperar mais um pouco agora e não dormir. Apesar de estar cansada, isso não seria problema. Meu coração batia como um punho contra as constelas.
Nada mais de enrolação. Teria que ser essa noite, e Mel sabia disso também. O que havia acontecido hoje com Ian tinha me mostrado isso. Quanto mais tempo eu ficasse, mais lágrimas, discussões e brigas eu causaria. Melhores as chances de alguém deixar algo escapar e Jamie descobrir a verdade. Melhor deixar que Melanie explique após o ocorrido. Eu ficaria melhor assim.
Muito obrigada. Mel pensou, suas palavras correram rápido, seu medo estragando o sarcasmo.
Desculpe. Você não está se importando muito?
Ela suspirou. Como eu poderia? Eu faria qualquer coisa que você me pedisse, Peg.
Cuide deles por mim.
Eu faria isso de qualquer forma.
Ian também.
Se ele deixar. Eu tenho a impressão de que ele não vai gostar muito de mim.
Mesmo se ele não deixar.
Eu farei o que eu puder Peg. Prometo.
Ian parou no corredor na frente de seu quarto. Ele ergueu a sobrancelha e eu concordei com a cabeça. Melhor que ele pensasse que eu ainda estava me escondendo de Jamie. O que era verdade, também.
Ian afastou a porta vermelha, e eu fui direto para o colchão à direita. Eu me enrolei ali, entrelaçando as mãos na frente do corpo, tentando escondê-las atrás dos meus joelhos. Ian me abraçou, me mantendo apertado contra o peito. Isso teria sido agradável... eu sabia que ele ia se esparramar em todas as direções quando dormisse... salvo que ele podia me sentir
tremendo.
— Vai ficar tudo bem, Peg. Eu sei que nós vamos encontrar uma solução.
— Eu te amo de verdade, Ian. — Era a única forma que eu podia me despedir. A única forma que ele aceitaria. Eu sabia que ele lembraria disso depois e entenderia. — Com toda a minha alma, eu te amo.
— Eu também te amo de verdade, minha Peregrina.
Ele moveu seu rosto contra o meu até encontrar meus lábios e me beijou, lenta e gentilmente, o fluxo de rocha derretida escorrendo languidamente no centro na terra, até a minha tremedeira diminuir.
— Durma, Peg. Guarde para amanhã. Não vai acabar durante a noite.
Eu concordei, movendo meu rosto contra o dele e suspirei.
Ian estava cansado também. Eu não precisei esperar muito. Eu encarava o teto – as estrelas se movendo nas rachaduras. Eu podia ver três agora, onde antes só havia duas. Eu as vi piscar e pulsar contra a escuridão do espaço. Elas não me chamavam. Eu não tinha nenhum desejo de me unir a elas.
Um de cada vez, os braços de Ian me soltaram. Ele girou, ficando de barriga para cima, sussurrando enquanto dormia. Eu não ousava esperar mais. Eu queria demais ficar, dormir com ele e roubar mais um dia.
Eu me movi com cuidado, mas não corria o risco de ele acordar. Sua respiração estava pesada e regular. Ele não abriria os olhos até de manhã.
Eu passei os lábios em sua testa macia, me ergui e fui para a porta.
Não era tarde, e as cavernas não estavam vazias. Eu podia ouvir vozes ecoando em volta, ecos estranhos que podiam estar vindo de qualquer lugar. Eu não vi ninguém até estar na grande caverna.
Geoffrey, Heath e Lily estavam voltando da cozinha. Eu mantive os olhos baixos, apesar de estar muito feliz de ver Lily. Na breve olhada que eu dei nela, pude ver que ela pelo menos estava com os ombros erguidos. Ela era forte. Como Mel. Ela superaria.
Eu me apressei pelo corredor sul, aliviada quando cheguei a escuridão de lá. Aliviada e aterrorizada. Realmente havia acabado.
Estou com tanto medo, lamuriei-me.
Antes que Mel conseguisse responder, uma mão pesada caiu sobre meus ombros na escuridão.
— Indo a algum lugar?

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