terça-feira, março 18, 2014

Amalgamados


Ian encarava nós três com tal fúria, que Sunny se encolheu com terror. Era uma coisa estranha – como se Kyle e Ian tivessem trocado de rosto. Exceto que o rosto de Ian continuava perfeito. Bonito, mesmo enfurecido.
— Ian? — Kyle perguntou. — Qual o problema?
Ian falou entre dentes.
— Peg. — Ele grunhiu e esticou a mão. Parecia que ele estava fazendo um enorme esforço para manter a mão aberta e não fechada em punho.
Ops. Mel pensou.
Desesperança passou por mim. Eu não queria dizer adeus a Ian, e agora eu teria. Claro que eu teria. Teria sido errado escapar no meio da noite como uma ladra e deixar as despedidas por conta de Melanie.
Ian, cansado de esperar, agarrou meu braço e me ergueu do chão. Quando Sunny parecia que ia junto, ainda abraçada comigo, Ian a sacudiu até ela soltar.
— Qual o seu problema? — Kyle exigiu.
Ian meteu o pé na cara de Kyle.
— Ian! — protestei.
Sunny se jogou na frente de Kyle – que estava segurando o nariz e lutando para se erguer – e tentou protegê-lo com seu corpinho minúsculo. Isso o desequilibrou, ele voltou para o chão, gemendo.
— Vem — Ian rosnou, me arrastando para longe deles sem nem olhar para trás.
— Ian...
Ele me arrastou rudemente, me impossibilitando de falar. Isso era ótimo. Eu não tinha ideia do que falar.
Eu vi o rosto dos outros passarem num borrão. Eu estava preocupada se isso não iria perturbar a mulher sem nome. Ela não estava acostumada com raiva e violência. Então nós paramos abruptamente. Jared estava bloqueando a saída.
— Você perdeu o juízo, Ian? — ele perguntou, chocado e revoltado. — O que você vai fazer com ela?
— Você sabia sobre isso? — Ian gritou de volta, me empurrando para frente. Atrás de nós respirações altas. Ele os estava assustando.
— Você vai machucá-la.
— Você sabia o que ela está planejando? — Ian rosnou.
Jared encarou Ian, seu rosto fechado. Ele não respondeu.
Isso era resposta suficiente para Ian.
O punho de Ian acertou Jared tãoo rápido que eu nem vi – eu só senti o movimento de seu corpo e vi Jared ser lançado no corredor escuro.
— Ian, pare — pedi.
— Pare você! — ele rugiu para mim.
Ele me puxou pelo túnel, eu tinha quase que correr para acompanhar seus passos largos.
— O’Shea! — Jared gritou atrás de nós.
— Eu vou machucá-la? — Ian gritou de volta por cima do ombro, sem diminuir o passo. — Eu vou? Seu porco hipócrita!
Não havia nada além do silêncio e da escuridão atrás de nós agora. Eu tropecei no escuro, tentando manter o passo dele. Então comecei a sentir a dor do aperto de Ian no meu braço, sua mão grande estava deixando meus dedos dormentes. Ele acelerou o passo, e minha respiração virou um gemido de dor.
O som fez Ian parar. Sua respiração soava arfante na escuridão.
— Ian... Ian, eu... — gaguejei, incapaz de terminar. Eu não sabia o que dizer, imaginando seu rosto cheio de ira.
Seus braços me apanharam abruptamente, fazendo meu pés fugirem de debaixo de mim, e agarraram meus ombros antes que eu pudesse cair. Ele começou a correr novamente, agora me carregando. Suas mãos não eram mais raivosas, ele me aconchegava contra o peito.
Ele passou pela grande praça, ignorando os olhares surpresos e alguns suspeitos. Muitas coisas estavam acontecendo nas cavernas nesse momento. Os humanos – Violetta, Geoffrey, Andy, Paige, Aaron, Brandt e outros que eu não consegui ver – estavam perturbados. Ver Ian correndo por eles, com expressão de raiva e comigo nos braços, os perturbou.
Mas eles ficaram para trás. Nós não paramos até alcançarmos as portas na entrada do quarto dele e de Kyle. Ele chutou a vermelha – ela acertou o piso de pedra com eco – e me colocou no colchão no chão.
Ian ficou em pé na minha frente, seu peito se movendo forte com a exaustão e a fúria. Por um segundo ele se virou e com um movimento colocou a porta de volta no lugar. E então estava me olhando novamente.
Eu respirei fundo e me ergui para ficar de joelhos, as mão para cima, desejando que uma mágica aparecesse nelas. Algo que eu pudesse dar a ele, algo que eu pudesse dizer. Mas minhas mãos estavam vazias.
— Você. Não. Vai. Me. Deixar. — Seus olhos brilhavam – queimando mais forte do que eu já havia visto – chamas azuis.
— Ian — sussurrei. — Você tem que entender que... que eu não posso ficar. Você tem que entender isso.
— Não! — ele gritou.
Eu deixe-me cair no colchão, e Ian se abaixou, engatinhando de joelhos. Ele enterrou a cabeça na minha barriga, seus braços envolveram minha cintura. Ele tremia, tremia forte, e chorava com desespero.
— Não, Ian, não. — Eu implorava. Isso era muito pior do que a raiva. — Por favor, não.
— Peg — ele gemeu.
— Ian, por favor. Não fique assim. Não. Desculpe. Por favor.
Eu chorava também, tremendo também, mas podia ser porque ele me sacudia.
— Você não pode ir embora.
— Eu tenho que ir. Eu preciso — solucei.
Então choramos sem palavras por um tempo.
As lágrimas dele secaram antes das minhas. Eventualmente ele se ergueu e me puxou para seus braços de novo. Ele esperou até eu ser capaz de falar.
— Desculpe. — Ele murmurou. — Eu fui mesquinho.
— Não, eu é que me desculpo. Eu devia ter te contado quando você não adivinhou. Eu só... não consegui. Eu não queria te dizer... te magoar... me magoar. Foi egoísta.
— Nós precisamos conversar sobre isso, Peg. Não é algo marcado a fogo.
— É sim.
Ele sacudiu a cabeça, contraindo a mandíbula.
— Há quanto tempo? Há quanto tempo você está planejando isso?
— Desde a Buscadora — murmurei.
Ele acenou, parecendo esperar por essa resposta.
— E você achou que tinha que revelar seu segredo para salvá-la. Eu posso entender isso. Mas isso não significa que você tem que ir a algum lugar. Só porque agora Doc sabe... isso não significa nada. Se eu tivesse pensado, por um momento, que uma ação levava a outra, eu não teria ficado parado lá e deixado você mostrar a ele. Ninguém vai te forçar a deitar na maca de execução. Eu quebrarei a mão dele se ele tentar tocar em você!
— Ian, por favor.
— Eles não vão fazer isso, Peg. Você me ouviu? — Ele estava gritando novamente.
— Ninguém está me obrigando a nada. Eu não mostrei a Doc como fazer a separação por causa da Buscadora. O fato de ela estar aqui só acelerou o processo. Eu fiz para salvar a Mel, Ian.
Suas narinas se expandiram, mas ele não disse nada.
— Ela está presa aqui. É como uma prisão... pior do que isso; eu nem consigo descrever. Ela é como um fantasma. E eu posso libertá-la. Eu posso devolver a vida dela.
— Você merece uma vida também, Peg. Você merece ficar.
— Mas eu a amo, Ian.
Ele fechou os olhos, e seus lábios ficaram mortalmente pálidos.
— Mas eu amo você. Isso não importa?
— Claro que sim. Muito. Você não entende? Isso só faz ser mais... necessário.
Seus olhos se abriram de repente.
— É tão horrível que eu te ame? É isso? Eu posso ficar de boca fechada. Eu nunca mais falo nada assim. Você pode ficar com Jared se é isso que você quer. Só quero que fique.
— Não, Ian! — Eu segurei seu rosto entre minhas mãos. — Não. Eu te amo também. Eu, a pequena lacraia prateada na cabeça dela. Mas meu corpo não ama você. Não pode amar você. Eu nunca vou poder amar você nesse corpo, Ian. Ele me puxa em duas direções. É insuportável.
Eu podia aguentar isso, mas ficar observando, enquanto ele sofria por causa das minhas limitações físicas? Isso não.
Ele fechou os olhos novamente. Seus cílios negros e longos estavam úmidos. Eu podia ver o brilho das lágrimas.
Vá em frente, Mel suspirou. Faça o que você precisa fazer. Eu... vou para o outro cômodo.
Obrigada.
Eu envolvi o pescoço dele com os braços e o puxei mais para perto até seus lábios tocarem os meus. Ele me abraçou, puxando-me mais forte contra seu peito. Nossos lábios estavam se movendo juntos, se fundindo como se nunca fossem se dividir, como se a separação não fosse a coisa inevitável que era, e eu podia sentir o sabor de nossas lágrimas. As dele e as minhas.
Algo começou a mudar.
Quando o corpo de Melanie tocava o de Jared, era como fogo selvagem – um fogo arrasador que correu pelo deserto e incinerou tudo em seu caminho.
Com Ian era diferente, tão completamente diferente, porque Melanie não o amava como eu. Então quando ele me tocava, era mais profundo e mais lento do que o fogo selvagem, era como o fluxo de lava abaixo da superfície da terra. Muito profundo para sentir o calor, mas se movia inexoravelmente, mudando as próprias fundações do mundo ao se mover.
Meu corpo relutante era uma névoa entre nós – uma espessa cortina, mas leve o suficiente para que eu pudesse ver através dela, ver o que estava acontecendo.
Aquilo me mudou, não a ela. Era quase um processo metalúrgico nas profundezas do ser que eu era, algo que já havia começado e estava quase terminando. Mas esse longo e ininterrupto beijo completou o trabalho – fundou essa nova criação. Inquebrável.
E eu comecei a chorar de novo, percebendo que devia estar mudando ele também, esse homem que era bom como uma alma, mas forte como só um humano podia ser.
Ele moveu os lábios para meus olhos, mas era tarde.
— Não chore, Peg. Não chore. Você vai ficar comigo.
— Oito vidas inteiras — sussurrei encostada em seu queixo, minha voz falhando devido ao choro. — Oito vidas inteiras e eu nunca achei ninguém que me segurasse em algum planeta, ninguém a quem seguisse quando os outros fossem embora. Eu nunca encontrei um parceiro. Por que agora? Por que você? Você não é da minha espécie. Como você pode ser meu parceiro?
— O universo é estranho.
— Não é justo! — reclamei, ecoando as palavras de Sunny. Não era mesmo justo. Como eu podia encontrar isto, encontrar o amor – agora, na hora final? E ter que deixá-lo? Era justo o meu corpo e alma não conseguirem se harmonizar? Era justo eu amar Melanie também?
Era justo Ian ter que sofrer também? Se alguém merecia felicidade, era ele. Não era justo ou certo ou... sadio. Como eu podia fazer isso com ele?
— Eu te amo — sussurrei.
— Não diz isso como se estivesse dizendo adeus.
Mas eu precisava.
— Eu, a alma chamada Peregrina, amo você, humano Ian. E isso nunca vai mudar, não importa o que possa acontecer. — Eu disse cuidadosamente, para que nada fosse mentira. — Se eu fosse um Golfinho, um Urso ou uma Flor, não importaria. Eu sempre amaria você, sempre lembrarei de você. Você será meu único parceiro.
Seus braços se enrijeceram e apertaram-me mais forte, e eu pude sentir a raiva de novo. Era difícil respirar.
— Você não vai vagar por lugar nenhum. Você vai ficar aqui.
— Ian...
Mas sua voz esta brusca agora – com raiva, mas também prática.
— Isso não é só por mim. Você é parte dessa comunidade, não vai ser mandada embora sem uma discussão. Você é muito importante para todos nós – mesmo para aqueles que nunca admitiriam. Nós precisamos de você.
— Ninguém está me mandando embora, Ian.
— Não, nem mesmo você mesma, Peregrina.
Ele me beijou novamente, sua boca brusca com o retorna da raiva. Suas mãos agarraram um punhado de meu cabelo e ele afastou nossos rostos um milímetro.
— Bom ou ruim? — ele perguntou.
— Bom.
— Foi o que pensei. — Sua voz foi uma lamúria.
Ele me beijou de novo. Seus braços tão apertados contra meu quadril, sua boca tão faminta sobre a minha, que eu estava tonta e arfando. Ele relaxou os braços um pouco e seus lábios foram para o meu ouvido.
— Vamos.
— Aonde nós vamos? — eu não ia a lugar algum, eu sabia disso. E mesmo assim meu coração se acelerou ao imaginar fugir para algum lugar, qualquer lugar com Ian. Meu Ian. Ele era meu, de um jeito que Jared nunca seria. Da forma que esse corpo nunca seria dele.
— Não me dê trabalho quanto a isso, Peregrina. Eu já estou meio fora de mim. — Ele nos pôs de pé.
— Onde? — insisti.
— Você vai descer pelo túnel sul, depois da plantação, até o final.
— A sala de jogos?
— Sim. E vai esperar lá até eu trazer o resto comigo.
— Por quê? — Suas palavras soaram loucas para mim. Ele queria jogar? Para aliviar a tensão?
— Porque isso será discutido. Eu estou pedindo um tribunal, Peregrina, e você vai ter que aceitar nossa decisão.

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