terça-feira, março 18, 2014
Vinculados
Jeb abriu espaço para mim, empurrando as pessoas com o rifle como se eles fossem ovelhas e a arma o cajado do pastor.
— Já chega — ele rosnava para aqueles que reclamavam. — Vocês terão a chance de dar a bronca nele mais tarde. Todos nós iremos. Mas vamos resolver isso antes, okay? Deixem-me passar.
Pelo canto do olho eu vi Sharon e Maggie se afastarem, distanciando-se do restabelecimento da razão, e mais do que tudo, longe de qualquer envolvimento meu. Ambas com as mandíbulas contraídas, ainda olhando para Kyle.
Jared e Ian foram os últimos a serem afastados por Jeb. Eu passei a mão pelo braço dos dois quando passei, querendo acalmá-los.
— Okay, Kyle — Jeb disse, batendo o cano da arma na mão. — Nem tente se explicar, porque não tem justificativa. Eu estou dividido entre te expulsar ou atirar em você bem agora.
O rostinho, pálido apesar da pele bronzeada, espiou pelo cotovelo de Kyle novamente, uma onda de cabelos pretos, longos e encaracolados. A boca da garota estava aberta com terror, seus olhos alertas. Eu conseguia, pelo menos achava que conseguia, ver um brilho prateado no fundo dos olhos pretos.
— Mas no momento, vamos nos acalmar — Jeb se virou, a arma mantida baixa, agora protegendo Kyle e o rostinho atrás dele. Ele olhou para a multidão. — Kyle trouxe uma visitante e vocês a estão assustando pra caramba, gente. Acho que podemos mostrar um comportamento melhor do que esse. Agora, todos vocês deem o fora e vão fazer algo útil. Minhas plantas estão morrendo. Alguém faça alguma coisa, sim?
Ele esperou até a multidão dispersar lentamente. Agora que eu podia ver seus rostos, podia dizer que eles já estavam se recuperando, a maioria pelo menos. Isso não era tão ruim, não depois do que eles estavam esperando pelos últimos dias. Sim, Kyle era um idiota egoísta, seus rostos pareciam dizer, mas pelo menos ele estava de volta, nenhum dano feito. Nada de evacuação, nenhum perigo dos Buscadores. Não mais do que o normal, pelo menos. Ele trouxe outra lacrais para casa, mas e daí? As cavernas não andavam cheias delas ultimamente? Não era mais tão chocante quanto costumava ser.
Muitos voltaram para seus almoços interrompidos, outros para a irrigação, outros para seus quartos. Logo, somente Jared, Ian e Jamie ficaram para trás, além de mim. Jeb olhou para os três com uma expressão rígida; sua boca abriu, mas antes que ele conseguisse dar a ordem para eles irem, Ian pegou minha mão, e Jamie pegou a outra. Eu senti outra mão no meu pulso, bem acima da mão de Jamie. Jared. Jeb revirou os olhos ao ver como eles se agarraram em mim para evitar a expulsão e virou as costas.
— Obrigado Jeb — Kyle disse.
— Cala essa boca Kyle, mantenha a merda da boca fechada. Eu estou falando sério sobre atirar em você seu verme inútil.
Houve um fraco gemido atrás de Kyle.
— Okay, Jeb. Mas não dá para guardar as ameaças de morte para quando estivermos sozinhos? Ela já está aterrorizada. Você se lembra como esse tipo de coisa assustou a Peg — Kyle sorriu para mim – eu senti o choque no meu rosto em reação – e então ele se virou para a garota escondida atrás dele com a mais expressão mais gentil que eu já havia visto em seu rosto. — Olha Sunny, essa é a Peg, aquela que eu te falei. Ela vai nos ajudar – ela não vai deixar ninguém te machucar, assim como eu.
A garota – ou era uma mulher? Ela era muito pequena, mas havia curvas sutis no corpo que sugeria mais maturidade do que o tamanho indicava – olhou fixamente para mim, seus olhos arregalados com medo. Kyle pôs os braços em volta de sua cintura, e ela o deixou a puxar para o lado. Ela se encostou ali, como se ele fosse uma âncora, seu pilar de segurança.
— Kyle tem razão. — Nunca achei que fosse dizer isso. — Eu não vou deixar ninguém te machucar. Seu nome é Sunny? — perguntei suavemente.
Os olhos da mulher foram para o rosto de Kyle.
— Está tudo bem. Você não precisa ter medo da Peg. Ela é como você. — Ele virou para mim. — O nome dela mesmo é maior que isso... algo sobre o gelo.
— Luz do Sol Através do Gelo — ela sussurrou para mim.
Eu vi os olhos de Jeb brilharem com sua curiosidade insaciável.
— Mas ela não se incomoda de ser chamada de Sunny. Ela disse que tudo bem — Kyle me assegurou.
Sunny assentiu. Seus olhos iam do rosto de Kyle para o meu. Os outros homens estavam em total silêncio e imóveis. O pequeno círculo de calma tranquilizou-a um pouco, eu podia ver isso. Ela certamente sentiu a mudança na atmosfera. Não havia hostilidade em torno dela, nenhuma mesmo.
— Eu também já fui Urso, Sunny — falei, tentando fazê-la se sentir mais confortável. — Eles me chamavam de Vida nas Estrelas lá. E de Peregrina aqui.
— Vida nas Estrelas — ela sussurrou, seus olhos ficando impossivelmente maiores. — Cavaleira da Besta.
Eu suprimi um gemido.
— Suponho que você tenha vivido na segunda cidade de cristal.
— Sim. Eu ouvi a história tantas vezes...
— Você gostava de ser Urso, Sunny? — perguntei. Eu realmente não queria entrar nessa história agora. — Você era feliz lá?
Seu rosto entristeceu imediatamente com a pergunta; seus olhos fixos no rosto de Kyle e cheio de lágrimas.
— Desculpe — me desculpei na hora, olhando também para Kyle procurando uma explicação.
Ele deu alguns tapinhas no braço dela.
— Não tema. Você não será ferida. Eu prometi.
Eu mal pude ouvir a resposta dela.
— Mas eu gosto daqui. Eu quero ficar.
Sua palavras trouxeram um nó para minha garganta.
— Eu sei, Sunny, eu sei — Kyle colocou a mão na cabeça dela num gesto tão doce que deixou meus olhos úmidos, e manteve a cabeça dela contra o peito.
Jeb limpou a garganta, e Sunny estremeceu. Era fácil imaginar o frágil estado em que os nervos dela deviam estar. Almas não foram feitas para lidar com violência e terror.
Eu lembrava que há algum tempo atrás Jared havia me interrogado; ele perguntou se eu era como as outras almas. Eu não era, assim como a outra alma que eles lidaram, a minha Buscadora. Sunny, no entanto, parecia personificar a essência da minha gentil e tímida espécie, nós só éramos poderosos em grande número.
— Desculpe Sunny — Jeb disse. — Eu não quis assustar você. Mas talvez fosse melhor sairmos daqui.
Seus olhos avaliaram a caverna, onde algumas pessoas ainda permaneciam nas saídas, nos observando. Ele encarou com dureza Reid e Lucina, e elas se enfiaram no corredor em direção à cozinha.
— Provavelmente é melhor irmos até Doc. — Ele continuou com um suspiro, dando a mulher assustada um olhar de lamento. Eu imaginava que ele estivesse triste por perder novas histórias.
— Certo — Kyle disse. Ele manteve seu braço firme em volta da pequena cintura de Sunny e a guiava em direção ao túnel sul.
Eu seguia bem atrás, rebocando os outros que ainda me seguravam.
Jeb parou, e todos paramos com ele. Ele bateu o cano da arma no quadril de Jamie.
— Você não tem escola, garoto?
— Ahh, Tio Jeb, por favor. Por favor? Eu não quero perder...
— Leva sua bunda pra sala.
Jamie se virou para me olhar, mas Jeb estava absolutamente certo. Isso não era algo que eu queria que Jamie visse. Eu movimentei a cabeça negativamente para ele.
— E chame Trudy no caminho — eu lhe disse. — Doc precisa dela.
Os ombros de Jamie caíram, e ele soltou minha mão, a mão de Jared desceu pelo pulso tomando o lugar.
— Eu perco tudo — Jamie resmungou enquanto ia na direção oposta.
— Obrigada, Jeb — murmurei quando Jamie não estava ouvindo.
— De nada.
O longo túnel pareceu mais negro que o de costume, porque eu podia sentir o medo da mulher irradiando a minha frente.
— Está tudo bem — Kyle murmurou para ela. — Não há nada aqui que vá te machucar, e eu estou aqui.
Eu me perguntava quem era esse estranho que havia vindo no lugar de Kyle. Eles checaram os olhos dele? Eu não conseguia acreditar que ele carregava toda essa gentileza dentro desse corpo enorme e raivoso. Devia ser Jodi, estar tão perto do que ele queria. Mesmo sabendo que esse era o corpo de Jodi eu me surpreendi ao ver que ele estendia a gentileza para a alma dentro dele. Eu teria pensado que tal compaixão estava além dele.
— Como está a Curandeira? — Jared me perguntou.
— Ela acordou, bem antes de eu vir procurar vocês — respondi.
Eu ouvi mais do que um suspiro de alívio na escuridão.
— Mas ela está desorientada, e muito assustada — avisei a todos. — Ela não consegue lembrar seu nome. Doc está trabalhando com ela. Ela vai ficar ainda mais assustada quando ver todos vocês. Tentem ficar quietos e se mover lentamente, okay?
— Sim, ok. — As vozes concordaram.
— E, Jeb, será que dava para deixar a arma para trás? Ela ainda está com um pouco de medo dos humanos.
— Hmm... okay — Jeb respondeu.
— Medo de humanos? — Kyle murmurou.
— Nós somos os caras maus — Ian o lembrou, apertando minha mão.
Eu apertei de volta, feliz pelo calor de seu toque, a pressão de seus dedos. Por quanto tempo mais eu teria a sensação de uma mão quente na minha? Quando seria a última vez que eu andaria por esse túnel? Seria esta, a última?
Não. Ainda não, Mel sussurrou.
Eu comecei a tremer de repente. A mão de Ian apertou a minha novamente e a de Jared também. Nós caminhamos em silêncio por um tempo.
— Kyle? — A voz tímida de Sunny chamou.
— Sim?
— Eu não quero voltar para os Ursos.
— Você não tem que voltar. Você pode ir para algum outro lugar.
— Mas não posso ficar aqui?
— Não. Desculpe, Sunny.
Houve uma sutil mudança na respiração dela e eu fiquei feliz por estar escuro. Ninguém podia ver as lágrimas que rolavam pelo meu rosto. Eu não tinha uma mão livre para enxugá-las, então as deixei cair na minha camiseta.
Nós finalmente chegamos ao final do túnel. A luz do sol fluía no hospital, refletindo as partículas de poeira dançando no ar. Eu podia ouvir Doc murmurando lá dentro.
— Isso é ótimo. — Ele estava dizendo. — Continue pensando nos detalhes. Você sabe seu velho endereço... o nome não deve estar longe, certo?
— Cuidado — sussurrei.
Kyle parou pouco antes do arco, Sunny ainda agarrada nele, e gesticulou para eu ir na frente. Eu respirei fundo e entrei lentamente. Anunciei minha presença em uma voz baixa e calma.
— Olá.
A hospedeira da Curandeira se assustou e arquejou, dando um gritinho.
— Só eu novamente — eu lhe disse.
— É Peg — Doc lembrou-lhe.
A mulher estava sentada agora, e Doc sentado do lado dela com a mão em seu braço.
— É a alma. — A mulher sussurrou ansiosamente para Doc.
— Sim, mas ela é uma amiga.
A mulher me olhou com desconfiança.
— Doc? Você tem mais algumas visitas. Tudo bem?
Doc olhou a mulher.
— Eles são todos amigos, tá bom? Mais humanos que vivem aqui comigo. Nenhum deles sonharia em te machucar. Eles podem entrar?
A mulher hesitou, então acenou.
— Tubo bem — sussurrou.
— Esse é Ian — eu disse, apontando para ele. — E Jared, e Jeb. — Um por um, eles entraram no cômodo e ficaram ao meu lado. — E esse é Kyle e... hã... Sunny.
Os olhos de Doc se arregalaram ao ver Kyle, Sunny grudada nele, entrar no quarto.
— Há mais alguém? — a mulher murmurou.
Doc limpou a garganta, tentando se recompor.
— Sim. Há várias pessoas morando aqui. Todos... bem, a maioria humana — ele acrescentou, encarando Sunny.
— Trudy está vindo — eu disse a Doc. — Talvez Trudy pudesse... — olhei rapidamente para Sunny e Kyle — ...encontrar um quarto para ela descansar?
Doc acenou, ainda com olhos arregalados.
— Essa é uma boa idéia.
— Quem é Trudy? — a mulher sussurrou.
— Ela é muito boa. Ela vai cuidar de você.
— Ela é humana, ou é como aquela ali? — ela fez uma sinal de cabeça em minha direção.
— Ela é humana.
Isso pareceu acalmá-la um pouco.
— Uhh — Sunny gemeu atrás de mim.
Eu me virei e a vi olhando os criotanques com os Curandeiros. Eles estavam no meio da mesa de Doc, as luzes acima vermelhas. No chão, perto da mesa, os sete outros tanques vazios.
Lágrimas corriam pelos olhos dela, e ela enterrou o rosto no peito de Kyle.
— Eu não quero ir! Eu quero ficar com você! — Ela lamentava para o homenzarrão em quem parecia confiar completamente.
— Eu sei, Sunny, Desculpe.
Sunny começou a soluçar.
Eu piquei rapidamente, tentando manter as lágrimas longe dos olhos. Eu cruzei o pequeno espaço até onde Sunny estava, e passei a mão em seu cabelo.
— Eu preciso falar com ela por um momento Kyle — murmurei.
Ele acenou, seu rosto perturbado, e a puxou gentil para o lado.
— Não, não.
— Está tudo bem — prometi. — Ele não vai a lugar nenhum. Eu só quero te fazer algumas perguntas.
Kyle a virou de frente para mim, e ela me abraçou com força. Eu a puxei para o canto mais distante do quarto, bem longe da mulher sem nome. Eu não queria que nossa conversa a confundisse ou a assustasse ainda mais. Kyle nos seguiu, nunca se afastando mais do que alguns centímetros. Nós sentamos no chão, de frente para a parede.
— Nossa — Kyle murmurou. — Eu não achei que fosse ser assim. Isso é uma droga.
— Como você a encontrou? E como a pegou? — perguntei. A garota chorosa não reagiu quando eu fiz as perguntas para ele, só continuava a chorar no meu ombro. — O que aconteceu? Por que ela está assim?
— Bem, eu achei que ela podia estar em Las Vegas. Eu fui lá primeiro, antes de ir para Portland. Veja bem, Jodi era muito próxima a mãe e era lá que Doris vivia. Eu pensei, vendo você com Jamie e Jared, que ela iria para lá, mesmo não sendo a Jodi. E eu estava certo. Eles estavam todos lá na mesma casa, a casa de Doris. Doris e seu marido, Warren... eles tinham outros nomes, mas eu não ouvi direito... e Sunny. Eu os observei o dia todo até a noite. Sunny estava no quarto da Jodi, sozinha. Eu invadi depois que todos estavam dormindo. Peguei Sunny, a coloquei nos ombros e pulei a janela. Eu achei que ela fosse gritar, então fui correndo para o jipe. Depois fiquei com medo por ela não estar gritando. Ela estava tão quieta! Fiquei com medo de ela... você sabe. Como o cara que nós pegamos uma vez.
Eu estremeci – eu tinha uma memória mais recente.
— Então eu a tirei do ombro, e ela estava viva, só me encarando, com os olhos arregalados. Ainda sem gritar. Eu a carreguei para o jipe. Eu tinha planejado amarrá-la, mas... ela não parecia tão perturbada. Pelo menos ela não tentava fugir. Então só coloquei o cinto de segurança e dirigi. Ela só me encarou durante um tempão então finalmente disse: "Você é o Kyle,” e eu disse "Sou, e quem é você?", e ela me disse o nome dela. Como é mesmo?
— Luz do Sol Através do Gelo — Sunny murmurou. — Mas eu gosto de Sunny. É bonito.
— Enfim — Kyle continuou após limpar a garganta. — Ela não se importou em conversar comigo. Ela não estava com medo como eu achei que ela fosse ficar. Então nós conversamos. — Ele ficou em silencio por um momento. — Ela ficou feliz de me ver.
— Eu sonhava com ele o tempo todo — Sunny sussurrou para mim. — Toda noite. Eu ficava esperando que os Buscadores o encontrassem, eu sentia tanta saudade dele... quando o vi, achei que fosse o sonho de novo.
Eu engoli com dificuldade.
Kyle esticou o braço e pôs a mão na bochecha dela.
— Ela é boazinha, Peg. Não dá para gente mandá-la para um lugar realmente bom?
— É isso que eu queria perguntar a ela. Onde você viveu, Sunny?
Eu estava vagamente consciente das vozes dos outros, dando oi para Trudy. Nós estávamos de costas para eles. Eu queria ver o que estava acontecendo, mas também estava feliz de não ter a distração. Tentei me concentrar na alma entristecida.
— Só aqui e com os Ursos. Eu vivi cinco vidas lá. Mas eu gosto mais daqui. Eu não tive nem um quarto da expectativa de vida daqui!
— Eu sei. Acredite, eu entendo. Tem algum lugar que você gostaria de ir? Para as Flores talvez? É bom, eu estive lá.
— Eu não quero ser um planta — ela resmungou no meu ombro.
— As Aranhas... — comecei, mas desisti. As Aranhas não eram uma boa opção para ela.
— Eu estou cansada do frio. E eu gosto de cores.
— Eu sei — suspirei. — Eu não fui Golfinho, mas ouvi dizer que é bom lá. Tem cores, mobilidade, famílias...
— Eles são todos tão distantes. Quando eu chegar lá, Kyle vai ter... ele vai... — ela soluçou e começou a chorar de novo.
— Não tem outras opções? — Kyle perguntou ansioso. — Não tem mais lugares lá fora?
Eu podia ouvir Trudy falando com a hospedeira da Curandeira, mas me desliguei da conversa. Que os humanos cuidassem dos seus no momento.
— Não lugares para onde as naves estejam indo — disse eu. — Há muitos mundos, mas somente alguns, a maioria os mais novos, ainda estão abertos para receber moradores. E eu lamento Sunny, mas tenho que te mandar para longe. Os Buscadores querem encontrar meus amigos aqui, e eles a trarão de volta se puderem para você mostrar o caminho.
— Eu nem vi o caminho — ela soluçava. Meu ombro estava molhado com suas lágrimas. — Ele cobriu meus olhos.
Kyle olhou para mim como se eu pudesse produzir algum tipo de milagre para que tudo saísse perfeito. Como os remédios que consegui, uma espécie de mágica. Mas eu sabia que não havia mágica, nem finais felizes – pelo menos não para a metade alma da equação.
Eu olhei para Kyle desanimada.
— Só tem os Ursos, as Flores e os Golfinhos — eu disse. — Não vou enviá-la para o Planeta do Fogo.
A pequena mulher estremeceu ao ouvir o nome.
— Não se preocupe, Sunny. Você vai gostar dos Golfinhos. Eles vão ser legais. É claro que serão.
Ela chorou mais forte ainda.
Eu suspirei e continuei.
— Sunny, eu preciso te perguntar sobre a Jodi.
Kyle se enrijeceu ao meu lado.
— O que tem ela? — Sunny perguntou num resmungo.
— Ela... ela está aí com você? Você consegue ouvi-la?
Sunny ergueu a cabeça e olhou para mim.
— Eu não entendo o que você quer dizer.
— Ela fala com você? Você tem consciência de seus pensamentos?
— Do meu... corpo? Os pensamentos dela? Ela não tem nenhum. Eu estou aqui agora.
Eu acenei lentamente.
— Isso é ruim? — Kyle perguntou.
— Eu não sei o bastante para dizer. Provavelmente não é bom.
Os olhos de Kyle se estreitaram.
— Há quanto tempo você está aí, Sunny?
Ela franziu atesta, pensando.
— Faz quanto tempo Kyle? Cinco anos? Seis? Você sumiu antes de eu ir para casa.
— Seis — ele disse.
— E quantos anos você tem? — perguntei.
— Vinte e sete.
Aquilo me surpreendeu – ela era uma coisinha tão pequena, parecia tão jovem. Difícil acreditar que ela era seis anos mais velha que Melanie.
— Por que isso importa? — Kyle perguntou.
— Eu não tenho certeza. Só parece que quanto mais tempo a pessoa vive como humano antes de virar uma alma, melhores as chances de... recuperação. Quanto mais tempo de vida, mais memórias, conexões, mais anos sendo chamado pelo nome certo... eu não sei.
— Vinte e um anos é o suficiente? — Ele perguntou, desespero na voz.
— Nós vamos descobrir.
— Não é justo! Por que você pode ficar? Por que eu não posso ficar, se você pode?
Eu tive que engolir em seco.
— Isso não seria justo, não é, Sunny? Mas eu não vou ficar. Eu tenho que ir também. E breve. Talvez nós duas iremos juntas. — Talvez ela ficasse mais conformada se achasse que eu iria para os Golfinhos com ela. Quando ela descobrisse que não, Sunny teria um hospedeiro diferente com diferentes emoções e sem laços com os humanos. Talvez. De qualquer forma, seria tarde demais. — Eu tenho que ir também, Sunny, como você. Eu tenho que devolver o meu corpo também.
E então, bem de trás de nós, a voz de Ian, dura e surpresa, quebrou o silêncio como o estalido de um chicote.
— O quê?
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