terça-feira, março 18, 2014
Esquecida
— Elizabeth? — perguntei. — Ana? Karen? Qual o seu nome? Ora, vamos. Eu sei que você sabe.
O corpo da Curandeira estava frouxo e imóvel na maca. Muito tempo havia se passado – quanto, eu não tinha certeza. Horas e mais horas. Eu ainda não tinha dormido, apesar de o sol estar alto no céu. Doc havia retirado a proteção dos buracos no teto, e o sol brilhava pelas rachaduras, aquecendo minha pele. Eu movi o rosto da mulher de forma que seu rosto não ficasse direto na luz. Eu toquei seu rosto levemente, afastando seus cabelos castanhos com alguns fios brancos do rosto.
— Julie? Brittany? Angela? Patrícia? Estou chegando perto? Fale comigo, por favor.
Todos exceto Doc – que roncava baixinho em uma das macas no canto do hospital – haviam ido há várias horas. Alguns para enterrar o corpo hospedeiro que perdemos. Eu estremeci, pensado em sua pergunta, e na forma súbita como seu rosto ficou mole.
Por quê?, ele havia me perguntado.
Eu queria tanto que a alma tivesse esperado pela resposta, então eu poderia explicar a ele. Ele podia ter entendido. Afinal de contas, o que era mais importando do que o amor? Para uma alma isso não era o mais importante? E amor teria sido a minha resposta.
Se ele tivesse esperado, ele teria visto a verdade nisso. Se ele entendesse, teria deixado o corpo viver. Mas o pedido teria feito pouco sentido para ele. O corpo era o corpo dele, não uma entidade separada. Seu suicídio era apenas isso para ele, não um assassinato. Só uma vida havia sido perdida. E talvez ele estivesse certo.
Pelo menos as almas tinham sobrevivido. A luz vermelho-escura do tanque dele brilhava ao lado do tanque dela. Eu não podia pedir maior comprometimento dos meus humanos que isso; poupar a vida da alma nessas circunstâncias.
— Mary? Margaret? Susan? Jill?
Apesar de Doc estar dormindo e, não fosse por isso, eu estivesse sozinha, eu podia sentir o eco da tensão dos outros que partiram, ela ainda estava no ar. A tensão permanecia porque a mulher não havia acordado quando o efeito do clorofórmio acabou. Ela não tinha se mexido. Ela respirava, seu coração batia, mas ela não havia respondido a nenhuma tentativa de Doc de revivê-la.
Era tarde demais? Ela estava perdida? Já teria partido? Estaria tão morta quanto o corpo do homem? Todos eles estavam? Somente alguns, como Lacey e Melanie – os mais resistentes – podiam ser trazidos de volta? Todo o resto estava perdido?
Não seria Lacey uma anomalia? Melanie voltaria da forma que ela... ou até isso estava em questão?
Eu não estou perdida! Eu estou aqui. Voz mental de Mel estava defensiva. Ela se preocupava também.
Sim, você está aqui. E vai continuar aqui, prometi eu.
— Eu sei que você tem um nome — disse à mulher. — É Rebecca? Alexandra? Olivia? Algo mais simples? Jane? Jean? Joan?
Era melhor do que nada, eu pensei amargurada. Pelo menos eu lhes dei uma forma de se ajudarem caso algum deles fosse pego. Eu podia ajudar pelo menos os da resistência.
Não parecia o suficiente.
— Você não está me ajudando — murmurei. Eu peguei sua mão. — Seria bom se você fizesse um esforço. Meus amigos ficarão muito deprimidos. Boas noticias cairão bem. Além disso, com o Kyle por aí... Vai ser difícil evacuar todo mundo mesmo sem ter que carregar você também. Eu preciso que você ajude. É sua família aqui sabe? São os da sua espécie. Eles são muito bons. A maioria deles. Você vai gostar.
O rosto gentil estava vago na inconsciência. Ela era bem bonita – seus traços bem simétricos no rosto oval. Quarenta e cinco anos, talvez menos, talvez mais. Era difícil dizer sem nenhum movimento no rosto.
— Eles precisam de você — continuei, implorando. — Você pode ajudá-los. Você sabe tantas coisas que eu nunca soube. Doc se esforça muito. Ele merece uma ajuda. Ele é um bom homem. Você foi Curandeira por um bom tempo, esse cuidado com o bem-estar das pessoas deve ter ficado em você também após esse tempo. Eu acho que você vai gostar de Doc... seu nome é Sarah? Emily? Kristen?
Eu acariciei sua bochecha, mas não houve resposta, então peguei sua mão novamente. Eu olhei para o céu azul pelos buracos no teto. Minha mente vagando.
— Eu me pergunto o que eles farão se Kyle nunca voltar. Por quanto tempo eles se esconderão? Eles teriam que arrumar outro lar em outro lugar? Eles são muitos... não vai ser fácil. Eu gostaria de poder ajudá-los, mas mesmo se eu pudesse ficar, não tenho solução alguma. Talvez eles conseguissem ficar por aqui... de algum jeito. Talvez Kyle não estrague tudo.
Eu ri sem humor pensando nas chances. Kyle não era um homem cuidadoso. De qualquer modo, até a situação se resolver, eu seria necessária. Talvez, se houvesse Buscadores procurando, eles fossem precisar de meus olhos infalíveis. Poderia levar um longo tempo, e isso me fez sentir mais acalorada que o sol na minha pele. Fez-me sentir grata que Kyle fosse tão impetuoso e egoísta.
Quanto tempo levaria até eles estarem seguros novamente?
— Como será que fica isso aqui quando está frio? Eu mal lembro de como é sentir frio. E se chover? Tem que chover alguma hora, não tem? Com todos esses buracos no teto deve ficar bem molhado. Onde todos dormem? — suspirei. — Talvez eu chegue a ver isso. Provavelmente não. Você não está nem um pouco curiosa? Se você acordasse, você teria as respostas.Eu estou curiosa. Talvez eu pergunte a Ian sobre isso. É engraçado imaginar as coisas mudando por aqui... Suponho que o verão não pode durar para sempre.
Seus dedos se moveram por um segundo em minha mão.
Isso me pegou de surpresa, porque minha mente estava meio longe da mulher no catre, começando a me afundar em melancolia, que estava muito presente nesses dias. Eu olhei para ela; não havia mudanças – a mão na minha estava frouxa, seu rosto ainda sem expressão. Talvez eu tivesse imaginado o movimento.
— Eu disse algo que você se interessou? Do que eu estava falando? — pensei rapidamente, observando seu rosto. — Foi a chuva? Ou a ideia de mudança? Você tem muitas à sua frente, não tem? Mas você tem que acordar primeiro.
Seu rosto ainda vazio, sua mão imóvel.
— Então você não liga para mudanças. Não posso dizer que te culpo. Eu não queria nenhuma mudança também. Você é como eu? Você gostaria que o verão durasse para sempre?
Se eu não tivesse observando seu rosto tão atentamente, não teria visto o minúsculo movimento sob as pálpebras.
— Você gosta do verão? — perguntei esperançosa.
Seus lábios se moveram.
— Verão? Verana?
Sua mão tremeu.
— Seu nome é... Verana? Verana? É um nome bonito.
Sua mão se fechou em punhos, seus lábios se abriram.
— Volte Verana. Eu sei que você consegue. Verana? Ouça-me. Abra os olhos.
Seus olhos piscaram rapidamente.
— Doc! — chamei por cima do ombro. — Doc, acorda!
— Hã?
— Acho que ela está acordando! — eu me virei para a mulher. — Vamos Verana. Você pode fazer isso. Eu sei que é difícil. Verana, Verana, Verana. Abra os olhos.
Seu rosto se contorceu. Ela estava com dor?
— Traga o Corta Dor, Doc. Depressa.
A mulher apertou minha mão e seus olhos se abriram. Eles não se focaram no início, só giraram por toda a sala. Que visão estranha esse lugar devia ser para ela.
— Você vai ficar bem Verana. Você vai ficar bem. Você consegue me ouvir?
Seus olhos se voltaram para mim, as pupilas contraídas. Ela encarou, absorvendo meu rosto. Então se encolheu, se afastando de mim, se contorcendo na maca. Um gemido de pânico saiu de seus lábios.
— Não, não, não — ela chorava. — Chega.
— Doc!
Ele estava lá, do outro lado do catre, como antes quando estávamos operando.
— Está tudo bem, moça — ele assegurou. — Ninguém vai te machucar aqui.
A mulher tinha os olhos fechados, e ela se encolhia no colchão.
— Eu acho que o nome dela é Verana.
Ele olhou para mim e fez uma careta.
— Olhos, Peg — ele disse baixinho.
Eu pisquei e percebi que o sol estava no meu rosto.
— Ah — deixei a mulher tirar a mão da minha.
— Não, por favor. — A mulher implorava. — De novo não.
— Shh — Doc murmurou. — Verana? As pessoas me chamam de Doc aqui. Ninguém vai fazer nada com você. Você vai ficar bem.
Eu me afastei, indo para as sombras.
— Não me chame assim — a mulher choramingava. — Esse não é o meu nome. É o dela, é o dela! Não o repita novamente!
Eu havia descoberto o nome errado.
Mel se indignou com a culpa que eu sentia. Não é sua culpa. Verana é um nome humano também.
— Claro que não — Doc prometeu. — Qual o seu nome?
— Eu... eu... eu não sei... O que aconteceu? Quem sou eu? Não me faça ser outra pessoa de novo.
Ela se virou e torceu no catre.
— Calma. Tudo vai ficar bem, eu prometo. Ninguém vai fazer você ser outra pessoa além de você mesma, e você vai lembrar o seu nome. Ele vai voltar aos poucos.
— Quem é você? Quem é ela? Ela é... como eu era. Eu vi os olhos dela.
— Eu sou Doc. E eu sou humano como você. Vê? — ele moveu seu rosto na luz e piscou para ela. — Nós somos só nós. Há muitos humanos aqui. Eles ficarão tão felizes de conhecer você.
Ela estremeceu.
— Humanos! Eu tenho medo de humanos.
— Não, não tem. A... pessoa que estava no seu corpo tinha medo de humanos. Ela era uma alma, lembra? E lembra antes disso? Antes de ela estar aí? Você era humana, e agora você é humana de novo.
— Eu não consigo lembrar o meu nome.
— Eu sei, você vai lembrar.
— Você é médico?
— Sou.
— Eu era... ela também era. Uma... Curandeira. Como um médico. Seu nome era Canção de Verão. Quem sou eu?
— Nós vamos descobrir, prometo.
Eu me movi em direção à saída. Trudy seria uma boa opção para ajudar, ou talvez Heidi. Alguém com um rosto tranquilo.
— Ela não é humana! — a mulher sussurrou para Doc, seus olhos notaram o meu movimento.
— Ela é uma amiga. Não tema. Ela me ajudou a te trazer de volta.
— Onde está Canção de Verão? Ela estava assustada. Havia humanos...
Eu passei pela porta enquanto ela estava distraída.
Eu ouvi Doc responder atrás de mim.
— Ela vai para outro planeta. Você lembra onde ela estava antes de vir para cá?
Eu adivinhei a resposta pelo nome dela.
— Ela era.. um Morcego? Ela podia voar... ela cantava... eu lembro... Mas não era aqui. Onde estou?
Eu me apressei pelo túnel para encontrar ajuda para Doc. Eu fiquei surpresa quando vi a luz da grande caverna, surpresa por tudo estar tão quieto. Estávamos no meio do dia. Devia ter alguém ali, mesmo que só de passagem.
Eu saí do corredor à luz brilhante do meio-dia, e o espaço gigantesco estava completamente vazio.
As folhas no jardim estavam verdes escuras. A terra muito seca – o material para irrigar estava posto ao lado, mas ninguém para fazer. Tudo abandonado ao lado do campo. Eu fiquei muito quieta, tentando ouvir algo. A caverna enorme estava silenciosa, e o silêncio era agourento. Onde estavam todos?
Teriam eles evacuado sem mim? Uma pontada de dor e medo passou pelo meu corpo. Mas eles não iriam embora sem Doc, claro. Eles nunca deixariam Doc para trás. Eu queria voltar pelo túnel para garantir que Doc não havia sumido também.
Eles não iriam sem nós, tampouco, sua tola. Jared, Jamie e Ian não nos deixariam para trás.
Você tem razão. Está certa. Vamos... ver na cozinha?
Eu corri pelo corredor silencioso, ficando mais ansiosa conforme o silêncio continuava. Talvez fosse a minha imaginação. Claro que tinha que ter algo para ouvir.Se eu conseguisse me acalmar e diminuir a respiração, eu ouviria as vozes.
Alcancei a cozinha e estava vazia também. Vazia de pessoas. Nas mesas, almoços consumidos pela metade foram abandonados. Pasta de amendoim nos últimos pães frescos. Maçãs e latas de refrigerantes.
Meu estômago me lembrou que eu não havia comido o dia todo, mas eu mal notei a contração de fome. O pânico era muito mais forte.
E se... e se eles não conseguiram evacuar a tempo?
Não! Não. Nós teríamos ouvido algo. Alguém teria... ou eles teriam... Eles ainda estariam aqui, procurando. Eles não desistiriam sem checar tudo. Então não pode ser isso.
A não ser que eles estejam procurando agora.
Eu girei rápido de volta para a porta, meus olhos buscando na escuridão. Eu tinha que avisar Doc. Nós tínhamos que sair daqui, se fôssemos os dois últimos.
Não! Eles não podem ter ido!
Jamie, Jared... Seus rostos estavam tão claros como se eles tivessem sido colados nas minhas pálpebras.
E o rosto de Ian, conforme eu ia adicionando minhas imagens às de Melanie. Jeb, Trudy, Lily, Geoffrey. Nós o traremos de volta. Nós os caçaremos um por um e os traremos de volta.Eu não deixarei eles levarem minha família!
Se eu ainda tivesse qualquer dúvida de que lado estava, esse momento teria acabado com ela. Eu nunca me senti tão segura de algo em todas as minhas vidas. Meus dentes estavam cerrados, rilhando audivelmente.
E então, o barulho, o burburinho de vozes que eu esperava ansiosamente ouvir ecoava pelas cavernas. Eu me apoiei na parede, em uma sombra e fiquei lá escutando.
A grande horta. Dá pra ouvir os ecos.
Parece um grupo grande.
Sim, mas dos seus ou dos meus?
Nossos ou deles, ela corrigiu.
Eu andei pelo corredor, ficando nas sombras mais escuras. Nós podíamos ouvir as vozes mais claramente agora, e algumas delas eram familiares. Isso significava alguma coisa? Quanto tempo levaria para Buscadores treinados fazerem a inserção?
Quando alcancei a entrada da grande caverna, os sons ficaram mais claros, e alívio me inundou – porque o burburinho de vozes eram iguais as do meu primeiro dia aqui. Iradas ao ponto do assassinato.
Kyle devia estar de volta.
Alívio em conflito com dor enquanto eu me aproximava para ver o que estava acontecendo. Alívio porque meus humanos estavam seguros. E dor porque se Kyle estava seguro de volta, então...
Eles ainda precisam de você Peg. Muito mais do que de mim.
Eu tenho certeza que podíamos arrumar desculpas para sempre, Mel. Sempre haverá um motivo.
Então fique.
Com você como minha prisioneira?
Nós paramos de discutir quando vimos a confusão na caverna.
Kyle estava de volta – o mais fácil de achar, o mais alto na multidão, o único de frente para mim. Ele estava encurralado na parede mais distante. Apesar de ele ser a causa da zangada barulheira, não era sua fonte. Seu rosto estava conciliatório, em súplica. Suas mãos esticadas para o lado, palmas para trás, como se tivesse algo atrás dele e ele estivesse tentando proteger.
— Só se acalmem, está bem? — Sua voz profunda superava a cacofonia. — Se afasta Jared, você a está assustando!
Vi de relance o cabelo preto atrás do cotovelo dele – um rosto desconhecido, com olhos arregalados de medo olhando a multidão.
Jared estava mais perto de Kyle. Eu podia ver que sua nuca que estava de um vermelho vivo. Jamie segurava um dos seus braços, tentando controlá-lo. Ian estava ao lado, braços cruzados, os ombros rígidos. Atrás deles, todos os humanos, exceto Doc e Jeb estavam unidos pela raiva. Atrás de Jared e Ian, eles gritavam perguntas.
— No que você estava pensando?
— Como ousa?
— Por que diabos você voltou?
Jeb estava no canto ao fundo, só observando.
O cabelo brilhante de Sharon chamou minha atenção. Eu estava surpresa de vê-la, com Maggie, bem no meio da multidão. Elas não eram muito parte da comunidade desde que Doc e eu curamos Jamie. Nunca no meio das coisas.
É a discussão, Mel deduziu. Elas não estavam confortáveis com felicidade, mas elas ficam bem com a fúria.
Pensei que Melanie provavelmente tinha razão. Que... perturbador.
Eu ouvi uma voz esganiçada lançando algumas das perguntas e percebi que Lacey era parte da multidão também.
— Peg? — A voz de Kyle superou o barulho da multidão novamente, e eu olhei para ele, e encontrei seus profundos olhos azuis em mim. — Finalmente você chegou! Pode, por favor, me dar uma ajudinha aqui?
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