terça-feira, março 18, 2014

Condenada


O corpo hospedeiro da Buscadora se chamava Lacey, um nome meigo, suave e feminino. Lacey. Tão inapropriado quanto o tamanho. Algo como chamar um pit bull de Fofo.
Lacey era tão estridente quanto a Buscadora – e continuava a ser reclamona.
— Vocês tem que me perdoar por falar e falar. — Ela insistiu, não nos dando opção. — Eu andei gritando lá dentro por anos e nunca conseguindo falar por mim mesma. Eu tenho muito guardado.
Que sorte a nossa. Eu quase fiquei feliz por estar partindo.
Em resposta à minha própria pergunta, não, o rosto não era menos repugnante sem a Buscadora. Até porque a diferença não era tão grande assim.
— Por isso nós não gostávamos de você. — Ela me disse naquela primeira noite, sem alterar o tempo verbal ou o plural. — Ela não conseguia me fazer calar a boca. Por isso virou Buscadora, na esperança de lidar com hospedeiros resistentes. E então ela pediu para ser designada para você, para observar como você fazia. Ela estava com inveja, não é patético? Ela queria ser forte como você. Nós realmente ficamos satisfeitas quando achamos que Melanie havia ganhado. Eu acho que isso não aconteceu, né? Acho que você venceu. Então, por que você veio para cá? Por que está ajudando os rebeldes?
Eu expliquei, sem muita vontade, que Melanie e eu éramos amigas. Ela não gostou disso.
— Por quê? — ela perguntou.
— Ela é uma boa pessoa.
— Mas por que ela gosta de você?
O mesmo motivo.
— Ela diz que pelo mesmo motivo.
Lacey fez uma cara de desgosto.
— Fez uma lavagem cerebral nela, hein?
Uau, ela é pior que a primeira.
Sim, concordei. Agora eu entendo por que a Buscadora era tão odiosa. Imagina ter isso na sua cabeça o tempo todo?
Eu não era a única coisa a qual Lacey tinha objeções.
— Vocês não tem um lugar melhor para viver? É tão sujo aqui. Não tem nenhuma casa ou algo assim? Como assim dividir quartos? Tarefas a cumprir? Eu não entendo. Eu tenho que trabalhar? Eu acho que você não está entendendo...
Jeb lhe deu a turnê de costume no dia seguinte, tentando explicar, através de dentes cerrados, a forma como todos vivíamos ali. Quando eles passaram por mim – comendo na cozinha com Ian e Jamie – ele me lançou um olhar que claramente perguntava por que eu não havia deixado Aaron atirar nela enquanto isso ainda era uma opção.
A turnê dela foi mais lotada que a minha. Todos queriam ver o milagre por si mesmos. Não parecia importar para a maioria que ela fosse... difícil. Ela era bem-vinda. Mais que bem-vinda. Novamente, eu senti um pouco do amargo ciúme. Mas era bobagem. Ela era humana. Ela representava esperança. Ela pertencia à essas cavernas. Ela estaria aqui por muito tempo após eu ter partido.
Sorte sua!, Mel sussurrou sarcasticamente.
Falar para Ian e Jamie sobre o que havia acontecido não foi difícil e doloroso como eu esperara. Isto por que, por diferentes motivos, eles estavam totalmente sem ideia do que aconteceria. Nenhum deles chegou à conclusão de que eu iria partir.
Com Jamie eu entendi o porquê. Mais do que ninguém, ele havia aceitado Mel e eu como o pacote fechado que éramos. Ele era capaz, com sua mente jovem e aberta, de aceitar a realidade de nossa dupla personalidade. Ele nos tratava como duas e não uma. Mel era tão real, tão presente para ele. Da mesma forma que ela era para mim. Ele não sentia falta dela porque a tinha. Ele não via a necessidade da nossa separação.
Eu não tinha certeza de por que Ian não entendeu. Estaria ele fascinado pelo potencial? As mudanças que isso significava para a sociedade de humanos aqui? Eles estavam todos espantados com a ideia de que ser capturado – o fim – não era mais definitivo. Havia um meio de voltar. Parecia natural para ele que eu tivesse salvado a Buscadora; era coerente com a ideia que ele fazia da minha personalidade.
Ou talvez ele só não tivesse considerado isso direito, ver o que aconteceria eventualmente por estar distraído. Distraído e irado.
— Eu devia tê-lo matado anos atrás — Ian reclamava enquanto nos preparávamos para nossa incursão. Minha última; eu tentava não me concentrar nisso. — Não, nossa mãe devia tê-lo afogado ao nascer.
— Ele é seu irmão.
— Eu não sei por que você continua dizendo isso. Você está tentando me fazer sentir pior?
Todos estavam furiosos com Kyle; os lábios de Jared estavam comprimidos em uma linha rígida, Jeb acariciava a arma com mais freqüência que o normal.
Jeb havia estado excitado, planejando se unir a nós nessa incursão, a sua primeira desde que eu havia chegado aqui. Ele estava particularmente animado com a ideia de ver o campo de decolagem de perto. Mas agora, com Kyle nos colocando em perigo, ele ficou para trás só por precaução. Não ter as coisas a seu modo o deixou de péssimo humor.
— Ficar para trás com aquela criatura — resmungou para si mesmo, esfregando o cano do rifle de novo – ele não estava nada feliz com o novo membro de sua comunidade. — Perdendo toda a diversão — ele cuspiu no chão.
Todos nós sabíamos onde Kyle estava. Assim que ele soube como a Buscadora-lacraia tinha magicamente se transformado na humana Lacey, ele havia escapado sorrateiramente pelos fundos. Eu esperava vê-lo no grupo que pediria a morte da Buscadora (eu mantive o criotanque o tempo todo nos braços; dormia levemente, uma mão sempre tocando a superfície lisa), mas ele não estava em lugar algum, e Jeb controlara a resistência facilmente sem ele.
Foi Jared quem notou que o jipe não estava mais lá. E Ian associou as duas ausências.
— Ele foi atrás de Jodi — Ian grunhiu. — Onde mais pode ser?
Esperança e desespero. Eu tinha lhes dado um, Kyle o outro. Ele os trairia antes mesmo que pudessem curtir a esperança?
Jared e Jeb queriam adiar a viagem até que soubéssemos se Kyle havia tido sucesso – o que levaria três dias, sob as melhores circunstâncias, se Jodi ainda vivesse em Oregon. Se ele pudesse encontrá-la lá.
Havia um outro lugar, outra caverna para onde podíamos evacuar. Um lugar muito menor, sem água, então não poderíamos ficar lá por muito tempo. Eles debateram se deviam se mudar imediatamente ou esperar. Mas eu estava com pressa. Eu vi os olhares para o tanque em meus braços. Ouvi os murmúrios. Quanto mais tempo eu mantivesse a Buscadora aqui, maiores as chances de eles a matarem. Tendo conhecido Lacey, eu comecei a ter pena da Buscadora. Ela merecia uma vida calma e pacífica com as Flores.
Ironicamente, foi Ian quem me ajudou a acelerar a viagem. Ele ainda não tinha visto onde tudo isso daria. Mas eu fiquei feliz por ele me ajudar a convencer Jared que não havia tempo para esperar Kyle. Também fiquei grata por ele estar de volta com a função de guarda-costas. Eu sabia que podia confiar a Ian o brilhante criotanque mais que ninguém. Ele era o único que eu deixava segurar quando eu precisava de meus braços. Ele era o único que conseguia enxergar no pequeno recipiente uma vida a ser protegida. Ele podia ver aquela forma como um amigo, algo que podia ser amado. Ele era o melhor dos aliados. Eu estava tão grata a Ian, e muito grata pela ignorância, por ele estar livre da dor por enquanto.
Nós tínhamos que sermos rápidos, no caso de Kyle estragar tudo. Iríamos para Phoenix novamente, para uma das muitas comunidades que cercavam a cidade. Havia um grande campo de pouso e decolagem ao sul, em uma cidade chamada Mesa, com várias instalações de Cura nas proximidades. Era isso que eu queria – dá-los o máximo que podia antes de eu ir. Se nós levássemos um Curandeiro, então tínhamos a chance de preservar a memória do Curandeiro no corpo do hospedeiro. Alguém que entendesse os remédios e seus usos. Alguém que soubesse como chegar fácil aos estoques. Doc adoraria isso. Eu imaginava todas as perguntas que ele ficaria doido para perguntar.
Mas, primeiro o campo de decolagem.
Eu estava triste por Jeb estar perdendo isso, mas ele teria muitas outras oportunidades no futuro. Apesar de estar escuro, uma longa linha de pequenas naves de corpo afilado se aproximavam para pousar enquanto outras decolavam em um fluxo sem fim.
Eu dirigia a velha van enquanto os outros iam atrás – Ian com o criotanque, claro. Eu circulei o campo, ficando visível no terminal movimentado. Era fácil perceber as grandes e brilhantes naves brancas que deixavam o planeta. Elas não decolavam com a mesma freqüência que as menores. Todas que eu vi estavam estacionadas, nenhuma se preparando para partir imediatamente.
— Tudo está etiquetado. — Eu reportei aos outros, invisíveis na traseira escura. — Mas olhem, isso é muito importante. Evitem naves para os Morcegos e especialmente para as Algas Visionárias. As Algas estão somente a um sistema de distância – só leva uma década para ir e voltar. Muito pouco. As Flores são as mais distantes, e os Golfinhos, Ursos e Aranhas, todos levam pelo menos um século de ida. Mandem as naves para esses locais.
Eu dirigia lentamente, próximo às naves.
— Isso vai ser fácil. Eles têm todo tipo de veículos de entrega por aqui e nós não chamamos atenção. Ah, estou vendo um caminhão de tanques... igual aquele do hospital, Jared. Tem um homem ali... ele está colocando-os em um carrinho. Ele está descarregando-os... — eu dirigi ainda mais lentamente, tentando dar uma olhada melhor. — Isso! Bem naquela nave. Bem ali, naquele espaço aberto. Eu vou circular e agir quando ele estiver na nave.
Eu continuei, examinando a cena pelos espelhos. Havia uma placa acesa na parte lateral do tubo que conectava a dianteira da nave com o terminal. Eu sorri quando li as palavras ao contrário. Essa nave estava indo para o Planeta das Flores. Tinha que ser.
Eu fiz o retorno lentamente quando o homem desapareceu na nave.
— É agora — sussurrei enquanto estacionava numa sombra feita pela asa cilíndrica de uma nave próxima. Eu só estava a alguns metros do caminhão de tanques. Havia alguns técnicos trabalhando perto da frente da neve que ia para as Flores, e mais à frente, outros trabalhando na pista antiga. Eu seria só mais uma figura na noite.
Eu desliguei o motor e desci, tentando parecer casual, como se só estivesse fazendo meu trabalho. Eu dei a volta até a traseira da van e abri a porta. O tanque estava bem na beirada, a luz no topo brilhando vermelha, indicando que estava ocupado. Eu o ergui com cuidado e fechei a porta.
Eu mantive um passo tranquilo enquanto caminhava até a traseira aberta do caminhão. Mas minha respiração acelerou. Isso parecia mais perigoso do que o hospital, e isso me preocupava. Eu esperava mesmo que meus humanos arriscassem suas vidas desse jeito?
Eu estarei aqui. Eu farei isso, assim como você. Isso se você conseguir o que quer, é claro.
Obrigada Mel.
Eu tive que me forçar a não ficar olhando por sobre o ombro para onde o homem havia desaparecido. Eu coloquei o tanque gentilmente no topo da coluna mais próxima do caminhão. O acréscimo, uma entre centenas, não era perceptível.
— Adeus — sussurrei. — Mais sorte com seu próximo hospedeiro.
Eu voltei para a van o mais lentamente que eu suportava.
Estava silencioso na van quando dei a ré e saí debaixo da grande nave. Eu olhei para onde tínhamos saído, meu coração batendo muito forte. Pelo retrovisor, vi que o homem ainda não havia voltado. Então perdi as naves de vista.
Ian passou para o banco passageiro.
— Não pareceu tão difícil.
— O timing foi perfeito. Vocês podem ter que esperar mais da próxima vez.
Ian pegou minha mão.
— Você é um bom amuleto da sorte.
Eu não respondi.
— Você se sente melhor agora que ela está segura?
— Sim.
Eu vi sua cabeça virar rápido em minha direção quando ouviu o som inesperado de mentira em minha voz. Eu não encontrei seu olhar.
— Vamos pegar uns Curandeiros — murmurei.
Ian ficou em silêncio e pensativo enquanto percorríamos a curta distância até o pequeno hospital.
Eu achava que a segunda missão é que seria o desafio, o perigo. O plano era que eu iria – se os números e condições fossem boas – tentar atrair um Curandeiro ou dois para fora, alegando que um amigo estava ferido na van. Um truque antigo, mas que funcionaria muito bem com os Curandeiros insuspeitos.
Mas acabou que não precisei nem entrar. Eu parei no estacionamento no momento em que dois Curandeiros ainda de jaleco entravam no carro. Seus plantões haviam terminado, eles estavam indo para casa. O carro estava bem na entrada. Ninguém à vista.
Ian aquiesceu tenso com um gesto de cabeça.
Eu estacionei bem atrás do carro deles. Eles olharam para cima, surpresos. Eu abri a porta e saí. Minha voz estava cheia de lágrimas, meu rosto contorcido com remorso, e isso ajudou a enganá-los.
— Meu amigo está lá atrás – eu não sei o que está errado com ele.
Ele responderam com a preocupação instantânea que eu sabia que iriam. Eu me apressei em abrir a porta de trás, e eles seguiram bem atrás de mim. Ian vaio pelo outro lado. Jared estava pronto com o clorofórmio.
Eu não assisti.
Só levou alguns segundos. Jared colocou os corpos inconscientes na traseira, e Ian fechou a porta. Ian olhou para meus olhos inchados de lágrimas e sentou na direção. Ele segurava minha mão novamente.
— Desculpe, Peg. Eu sei que isso deve ser difícil para você.
— É. — Ele não tinha ideia do quanto, e das várias razões.
Ele pressionou meus dedos.
— Mas foi tudo bem pelo menos. Você é um excelente amuleto.
Foi tudo muito bem. Ambas as missões foram perfeitas, muito rápidas. O destino estava correndo contra mim.
Ele dirigiu de volta a autoestrada. Após alguns minutos, eu vi uma placa brilhante e familiar à distância. Eu respirei fundo e enxuguei os olhos.
— Ian, você poderia me fazer um favor?
— Qualquer coisa que você quiser.
— Eu quero comida de lanchonete.
Ele riu.
— Sem problemas.
Nós trocamos de lugar no estacionamento, e eu dirigi até o balcão de pedido no drive-thru.
— O que você quer? — eu perguntei a Ian.
— Nada. Eu vou só me divertir vendo você fazer algo para você mesma. Essa deve ser a primeira vez.
Eu não sorri da gracinha. Para mim, isso era meio que uma última refeição – o presente final para os condenados. Eu não deixaria as cavernas novamente.
— Jared, e você?
— O que você pedir.
Então eu pedi três cheeseburguers, três batatas fritas e três milk-shakesde morango.
Depois que peguei minha comida, Ian e eu trocamos de lugar de novo para eu poder comer enquanto ele dirigia.
— Eca. — Ele disse, me vendo mergulhar uma batata no milk-shake.
— Você devia tentar. É bom — ofereci a ele uma batata bem melada.
Ele deu de ombros e pegou. Ele mastigou.
— Interessante.
Eu ri.
— Melanie acha que é nojento também. Foi por isso que eu adquiri o hábito no início. Era engraçado como eu fazia de tudo para irritá-la.
Eu não estava com fome. Eu só queria ter algum sabor em particular para lembrar. Ian terminou com a metade do meu cheeseburguer quando eu fiquei cheia.
Nós chegamos em casa sem incidentes. Não vimos sinal algum da vigilância dos Buscadores. Talvez eles tenham aceito a coincidência. Talvez agora pensassem que era inevitável – perambule pelo deserto por tempo suficiente e algo ruim acontecerá com você. Nós tínhamos um ditado parecido com isso no Planeta das Brumas: Cruze muitos campos de neve sozinho e acabe como refeição para bestas de garras afiadas.
Era uma tradução tosca. Soava melhor na língua dos Ursos.
Havia uma grande recepção nos aguardando.
Eu sorri sem muita vontade para meus amigos: Trudy, Geofrey, Heath e Heidi. Meus verdadeiros amigos estavam diminuindo. Nada de Walter ou Wes. Eu não sabia onde Lily estava, isso me entristecia. Talvez eu não quisesse viver nesse planeta triste com tantas mortes. Talvez o nada fosse melhor.
Também me entristecia, por mais fútil que fosse, ver Lucina ao lado de Lacey, com Reid e Violetta do outro lado. Elas conversavam animadamente. Lacey carregava Liberdade no colo. Ele não parecia particularmente feliz com isso, mas feliz o suficiente por fazer parte da conversa dos adultos.
Eu nunca fora permitida chegar perto das crianças, mas Lacey já era ums deles. Confiável.
Nós fomos direto ao túnel sul, Jared e Ian sofriam com o peso dos Curandeiros. Ian carregava o mais pesado, o homem, e o suor escorria em sua pele delicada. Jeb afastou os outros da entrada e então nos seguiu.
Doc esperava por nós no hospital, esfregando as mãos distraído, como se as lavasse. O tempo continuava a correr. A lâmpada mais forte estava acessa. Os Curandeiros receberam o Corta Dor e foram deitados de barriga para baixo nas macas. Jared mostrou a Ian como ativar os tanques. Eles os mantinham prontos, Ian com arrepios devido ao frio. Doc estava sobre a mulher, os remédios enfileirados e um bisturi na mão.
— Peg? — ele chamou.
Meu coração se apertou dolorosamente.
— Você jura Doc? Todos os meus termos? Você me promete por sua própria vida?
— Prometo. Eu vou cumprir os seus termos, Peg. Eu juro.
— Jared?
— Sim. Absolutamente. Sem mortes, jamais.
— Ian?
— Eu os protegerei com minha vida, Peg.
— Jeb?
— É minha casa. Qualquer um que desafiar esse acordo terá que sair.
Eu acenei, lágrimas nos olhos.
— Okay, então. Vamos logo com isso.
Doc, excitado de novo, cortou a Curandeira até vermos o brilho prateado. Ele pôs o bisturi de lado.
— E agora?
Eu coloquei minhas mãos sob a dele.
— Passe o dedo por essa parte de trás. Consegue sentir? O formato dos segmentos? Eles ficam menores na parte anterior. Certo, no final, você vai sentir três... caroços pequenos. Você sente o que eu estou falando?
— Sim.
— Bom. Essas são as antenas anteriores. Comece aí. Agora, muito gentilmente, gire seu dedo para baixo do corpo. Ache a linha das conexões. São mais esticadas, como arames.
Ele acenou.
Eu o guiei até um terço do caminho, lhe disse para contar se ele não estivesse seguro. Não tínhamos tempo para contar com todo esse sangue correndo. Eu tinha certeza que o corpo da Curandeira nos ajudaria – tinha que ter alguma coisa para aquilo. Eu o ajudei a encontrar o nódulo maior.
— Agora esfregue levemente em direção ao corpo. Acaricie levemente.
A voz de Doc aumentou, ligeiramente em pânico.
— Está se movendo.
— Isso é bom – significa que você está fazendo certo. Dê tempo para ele se retrair. Espere ele se enrolar um pouco e então ponha em sua mão.
— Certo. — A voz dele tremia.
Eu estendi a mão para Ian.
— Me dê a sua mão.
Eu senti a mão de Ian na minha. Eu a virei e curvei os dedos em forma de taça, e a puxei para perto da mesa de operação.
— Dê a alma para Ian... com gentileza, por favor.
Ian seria o assistente perfeito. Quando eu tivesse morrido, quem mais teria tanto cuidado com meus pequenos parentes?
Doc passou a alma para Ian, então se virou para curar o corpo humano. Ian olhou a criatura acetinada e prateada em suas mãos, seu rosto cheio de admiração ao invés de nojo. Aqueceu meu interior ver sua reação.
— É bonito. — Ele murmurou, surpreso. Não importava o quanto ele se importasse comigo, ele havia sido condicionado a esperar um parasita, uma centopeia, um monstro. Limpar vários corpos mutilados não o havia preparado para a beleza ali.
— Eu também acho. Deixe-o deslizar para o tanque.
Ian segurou a alma em sua mão por um segundo mais, como se memorizando a visão e a sensação. Então com cuidado infinito, ele o deixou deslizar para o frio. Jared o mostrou como fechar a tampa.
Um peso saiu dos meus ombros.
Estava feito. Era tarde demais para mudar de ideia. Isso não era tão horrível quanto eu havia antecipado, porque eu sabia que esses quatro humanos cuidariam das almas como eu cuidaria. Quando eu fosse embora.
— Cuidado! — Jeb gritou de repente. A arma apareceu em sua mão, apontando além de nós.
Nós nos encolhemos, e o tanque de Jared caiu no chão quando ele pulou em direção ao Curandeiro, que estava de joelhos na maca, nos encarando em choque. Ian teve a presença de espírito de manter o tanque dele nas mãos.
— Clorofórmio! — Jared gritou enquanto ele continha o Curandeiro, empurrando-o de volta à maca. Mas era tarde demais.
O Curandeiro me encarava diretamente, seu rosto parecendo infantil com o choque. Eu sabia porque seus olhos estavam em mim – os raios da lanterna refletiam em nossos olhos, fazendo padrões de diamante na parede.
— Por quê? — ele me perguntou.
Então seu rosto ficou sem expressão, seu corpo relaxou, sem resistência, e caiu na maca. Dois fios de sangue escorreram de suas narinas.
— NÃO! — eu gritei, me lançando em direção ao seu corpo, sabendo que eratarde demais. — Não!

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