terça-feira, março 18, 2014
Separada
Nós trouxemos nosso saque pelo túnel sul, e isso significava que o jipe teria que ser removido antes do amanhecer. Minha objeção principal em usar a entrada maior era que a Buscadora ouviria a comoção que nossa chegada certamente causaria. Eu não sabia se ela fazia alguma ideia do que eu iria fazer, e eu não queria dar nenhum motivo para ela matar o hospedeiro e a si mesma. A história que Jeb havia me contado – sobre o homem que simplesmente entrou em colapso sem deixar nenhuma evidência do estrago dentro de seu crânio – me assombrava.
O hospital não estava vazio. Quando eu saí da espremida última bolha de espaço para dentro do escritório de Doc, eu o encontrei se preparando para a operação. Sua mesa estava posta, nela, um lampião de propano – a melhor iluminação que tínhamos disponível – esperava para ser acesa. Os bisturis brilhavam à luz azulada da lâmpada solar.
Eu sabia que Doc concordaria com meus termos, mas vê-lo ocupado nele enviou uma onda de náusea nervosa por mim. Ou talvez fosse só a memória daquele outro dia que me enjoava, o dia em que eu o peguei com sangue nas mãos.
— Você voltou — ele disse com alívio. Eu percebi que ele estava preocupado conosco, assim como todos se preocupavam quando alguém deixava a segurança das cavernas.
— Nós lhe trouxemos um presente — Jared disse quando saiu atrás de mim. Ele se ergueu e enfiou a mão no buraco para pegar uma caixa. Com um floreio, ele a ergueu, mostrando a etiqueta ao lado.
— Curar! — Doc comemorou. — Quanto vocês pegaram?
— Duas caixas. E nós encontramos um jeito melhor de renovar o estoque do que ter Peg se esfaqueando.
Doc não riu da piada de Jared. Ao invés disse se virou para me encarar. Ambos devíamos estar pensando a mesma coisa: Conveniente, já que Peg não estará mais por aqui.
— Vocês conseguiram os criotanques? — ele perguntou.
Jared notou o seu olhar e a tensão. Ele olhou para mim, sua expressão impossível de ler.
— Sim — respondi. — Dez deles. Era o máximo que cabia no carro.
Enquanto eu falava, Jared deu um puxão na corda atrás dele. Com um som de rocha solta, a segunda caixa de Curar, seguida pelos tanques, deslizou pelo chão atrás dele. Os tanques soaram como metal no chão, apesar de serem feitos de um elemento que não existia neste planeta. Eu lhe disse que os criotanques vazios não precisavam ser manuseados com cuidado, eles eram construídos para suportar muito mais que um simples arrasto pela rocha. Eles brilhavam no chão agora, parecendo lisos e imaculados.
Doc pegou um, soltando-o da corda, e o girou em suas mãos.
— Dez? — O numero pareceu surpreendê-lo. Ele achava que eram muitos? Ou não o suficiente? — Eles são difíceis de usar?
— Não. Extremamente fáceis. Eu vou lhe mostrar.
Doc acenou com a cabeça, seus olhos examinando a estrutura alienígena. Eu podia sentir Jared me olhando. Eu mantive os olhos em Doc.
— O que Jeb, Aaron e Brandt disseram? — eu perguntei.
Doc levantou a cabeça, olhando-me nos olhos.
— Eles... concordaram com seus termos.
Eu concordei com a cabeça, não convencida.
— Não vou te mostrar a não ser que eu acredite nisso.
Jared nos encarava, confuso e frustrado.
— O que você disse a ele? — Doc me perguntou cauteloso.
— Só que eu salvaria a Buscadora — virei para olhar na direção de Jared, sem encontrar seu olhar. — Doc me prometeu que se eu mostrasse a ele como fazer a separação, vocês dariam às almas salvo-conduto para outra vida em outro planeta. Sem mortes.
Jared acenou pensativo, seus olhos indo para Doc.
— Eu posso concordar com esses termos. E garantir que os outros o sigam. Eu assumo que você tenha um plano para tirá-los do planeta?
— Não será mais difícil do que o que fizemos hoje. Só o oposto: acrescentar ao invés de tirar.
— Okay.
— Você... tem alguma hora marcada em sua cabeça para isso? — Doc perguntou. Ele tentou soar desinteressado, mas o interesse era audível em sua voz.
Ele queria a resposta que havia fugido dele por tanto tempo. Eu tentei dizer a mim mesma que não era pressa de me matar.
— Eu tenho que levar o jipe de volta. Vocês podem esperar? Eu gostaria de assistir isso.
— Claro, Jared — Doc concordou.
— Não vou levar muito tempo — Jared prometeu enquanto se metia novamente no túnel.
Disso eu tinha certeza. Não levaria tempo suficiente.
Doc e eu não falamos até que o som de Jared se arrastando ter se dissipado.
— Você não falou sobre... Melanie? — ele perguntou com suavidade.
Eu sacudi a cabeça.
— Acho que ele vê onde isso vai dar. Deve ter adivinhado o plano.
— Mas não tudo. Ele não vai permitir...
— Ele não terá o que dizer — interrompi severamente. — É tudo ou nada, Doc.
Doc suspirou. Após um momento de silêncio, se esticou e olhou a saída.
— Eu vou falar com Jeb, preparar as coisas.
Ele pegou uma garrafa na mesa. Clorofórmio. Eu tinha certeza que as almas tinham algo melhor, eu teria que tentar achar para Doc antes de ir.
— Quem sabe sobre isso?
— Só Jeb, Aaron e Brandt por enquanto. Todos querem assistir.
Isso não me surpreendia; Aaron e Brandt estariam cheios de suspeitas.
— Não diga a mais ninguém. Não essa noite.
Doc acenou e então desapareceu no corredor escuro.
Eu fui me sentar encostada na parede. O mais longe possível do catre preparado. Logo, logo, eu teria a minha chance em cima dela.
Tentando pensar em algo além dessa cruel realidade, percebi que não ouvia Melanie desde... Quando foi a última vez que ela havia falado comigo? Quando eu fiz o acordo com Doc? Eu estava surpresa de que o arranjo para dormir próximo ao jipe não arrancara uma reação dela.
Mel?
Nenhuma resposta.
Não era como antes, então eu não entrei em pânico. Eu definitivamente podia senti-la em minha cabeça, mas ela estava... me ignorando? O que ela estava fazendo?
Mel? O que está acontecendo?
Nenhuma resposta.
Você está com raiva de mim? Desculpa sobre antes, no jipe. Eu não fiz nada, você sabe disso, então não é justo...
Ela me interrompeu, exasperada. Ah. Pare. Eu não estou com raiva de você. Me deixe em paz.
Por que você não quer falar comigo?
Sem resposta.
Eu a pressionei um pouco mais, tentando perceber a direção de seus pensamentos. Ela tentou me manter fora, erguer o paredão, mas ele estava muito fraco devido ao desuso. Eu vi o plano dela.
Eu tentei manter meu tom mental calmo. Você perdeu o juízo?
De certa forma, Ela brincou sem vontade.
Você acha que se você se fizer desaparecer, isso me parará?
O que mais eu posso fazer para te parar? Se tiver uma ideia melhor, compartilhe.
Eu não entendo Melanie. Você não os quer de volta? Não quer estar com Jared novamente? Com Jamie?
Ela hesitou, lutando contra a resposta óbvia. Sim, mas... Eu não posso... Ela precisou de um momento para se recompor. Eu não posso ser a sua morte, Peg. Não suporto isso.
Eu vi a profundidade de sua dor, e lágrimas se formaram em meus olhos.
Eu também te amo, Mel. Mas não há espaço suficiente para nós duas aqui. Neste corpo, nesta caverna, nas vidas deles...
Eu discordo.
Olhe, apenas pare de tentar se aniquilar, ok? Por que se eu achar que você é capaz disso, eu farei Doc fazer o procedimento hoje. Ou direi a Jared. Imagine o que ele faria.
Eu imaginei por ela, sorrindo um pouco através das lágrimas. Lembra? Ele disse que não garantia o que faria ou não para te trazer de volta. Eu pensei naqueles beijos ardentes no corredor... pensei em outros beijos e em outras noites na memória dela. Meu rosto aqueceu enquanto eu ruborizava.
Golpe baixo.
Com certeza.
Eu não vou desistir.
Você foi avisada. Nada de tratamento de silêncio.
Nós pensamos em outras coisas então, coisas que não machucariam. Como para onde nós mandaríamos a Buscadora. Mel era toda a favor do Planeta das Brumas depois da história de hoje. Mas eu achava que o Planeta das Flores era mais adequado. Não havia lugar mais suave no universo, a Buscadora precisava de um longo período de vida comendo luz do sol.
Nós pensamos em minhas memórias, as boas. Os castelos de gelo, as noites de música e os sóis coloridos. Eles eram como conto de fadas para ela. E ela me contou contos de fada também. Espelhos mágicos, maçãs envenenadas, sereias que queriam ter alma...
Claro, nós não tínhamos muito tempo para histórias.
Todos retornaram juntos. Jared voltou pela entrada principal. Levou tão pouco tempo – talvez ele só houvesse levado o jipe até a entrada norte e o escondido lá. Com pressa.
Eu ouvi suas vozes se aproximando, sérias, baixas, e sabia pelo tom que a Buscadora estaria com eles. Sabia que havia chegado à primeira etapa da minha morte.
Não.
Preste atenção. Você vai ter que ajudá-los com isso quando eu...
Não!
Mas ela não estava contestando minhas instruções, apenas a conclusão do pensamento.
Jared era quem carregava a Buscadora. Ele apareceu primeiro, os outros atrás. Aaron e Brandt estavam com as armas em punho – para o caso de ela estar fingindo inconsciência e pular em cima deles e atacá-los com suas mãos minúsculas. Jeb e Doc vieram por último, e eu sabia que o olhar de Jeb estaria em mim. O quanto ele já teria entendido com a mente louca e intuitiva dele?
Eu me mantive concentrada na tarefa às mãos.
Jared deitou a Buscadora na maca com excepcional gentileza. Isso poderia ter me incomodado antes, mas agora me tocava. Eu entendia que ele fazia isso por mim, desejando que pudesse ter me tratado assim no início.
— Doc, cadê o Corta Dor?
— Eu vou pegar para você — murmurou.
Eu olhava o rosto da Buscadora enquanto esperava, me perguntando como ele ficaria depois de a libertar. Teria alguma coisa ali? A hospedeira estaria vazia ou a dona estaria lá? Esse rosto seria menos repugnante para mim quando outra consciência olhasse para mim daqueles olhos?
— Aqui está — Doc pôs o tubo na minha mão.
— Obrigada.
Eu peguei um quadradinho de papel e devolvi o recipiente para ele.
Eu me vi relutante em tocar a Buscadora, mas fiz minhas mãos se moverem e coloquei o tecido sobre sua língua. Seu rosto era muito pequeno – fazia minhas mãos parecerem muito grandes. O tamanho mínimo dela sempre me pareceu errado, inapropriado. Eu fechei sua boca. Estava úmida – o remédio se dissolveria rapidamente.
— Jared, você poderia virá-la de barriga para baixo? — pedi.
Ele fez como eu pedi – novamente com gentileza. Bem aí a lanterna de propano acendeu. A caverna estava subitamente clara, quase como se fosse dia. Eu olhei para cima e vi que Doc havia coberto os buracos no teto para impedir a luz de chamar atenção. Ele fizera muitos preparativos enquanto estávamos fora.
Estava muito quieto. Eu podia ouvir a respiração calma da Buscadora e as respirações mais fortes dos homens ali. Alguém mudou o peso do corpo para outro pé. Seus olhares tinham um peso físico sobre minha pele.
Eu engoli, tentando manter minha voz normal.
— Doc, eu preciso de Curar, Limpar, Fechar e Suavizar.
— Bem aqui.
Eu afastei os grossos cabelos pretos da Buscadora do caminho, expondo a pequena linha rosada na base do crânio. Olhei sua pele olivácea e hesitei.
— Você pode cortar, Doc? Eu não... eu não quero fazer isso.
— Sem problemas, Peg.
Eu só vi as suas mãos quando ele veio se postar à minha frente. Ele havia colocado uma fileira de cilindros brancos no catre próximo ao ombro da Buscadora. O bisturi piscou à luz brilhante, refletindo no meu rosto.
— Segure o cabelo dela.
Eu usei as duas mãos para manter o pescoço livre.
— Eu queria poder dar uma limpada — Doc murmurava para si mesmo.
— Não é necessário, nós temos Limpar.
— Eu sei — ele suspirou. O que ele realmente queria era a rotina, o estado mental que o acalmava.
— De quanto espaço você precisa? — ele perguntou, parando com a lâmina a meio centímetro da pele.
Eu podia sentir o calor dos outros corpos atrás de mim, se aproximando para ver melhor. Eles tinham o cuidado de não tocar nenhum de nós.
— Só o comprimento da cicatriz. É o suficiente.
Isso não pareceu o bastante para ele.
— Tem certeza?
— Sim. Oh! Espere!
Doc se retraiu. Eu percebi que estava fazendo o contrário. Eu não era Curandeira. Não era feita para isso. Minhas mãos estavam tremendo. Eu não conseguia tirar os olhos do corpo dela.
— Jared, você poderia pegar um daqueles tanques para mim?
— Claro.
Eu o ouvi dar alguns passos, ouvi o som metálico do tanque que ele escolheu batendo nos outros.
— E agora?
— Há um círculo no topo da tampa. Pressione-o.
Eu ouvi o baixo zumbido do criotanque quando ele foi ligado. Os homens murmuraram e deram um passo para trás, se afastando dele.
— Okay, do lado deve ter um interruptor... mais como um disco, na verdade. Consegue ver?
— Sim.
— Gire completamente para baixo.
— Okay.
— Que cor está a luz no topo do tanque?
— Está... está indo de roxo para... azul. Azul-claro agora.
Eu respirei fundo. Pelo menos os tanques estavam funcionando.
— Ótimo. Abra a tampa e espere por mim.
— Como?
— Há um trinco abaixo da tampa.
— Foi. — Eu ouvi o clique, e então o sopro do mecanismo interno. — É frio!
— A ideia é essa.
— Como funciona? Qual a fonte de energia?
Eu suspirei.
— Eu sabia a resposta quando era uma Aranha. Eu não entendo agora. Doc, vá em frente. Estou pronta.
— Lá vamos nós — Doc sussurrou, enquanto passava a lâmina do bisturi com suavidade, quase graciosamente pela pele. Sangue escorreu pela lateral do pescoço dela, pingando na
toalha que Doc havia posto por baixo.
— Um pouco mais profundo. Bem abaixo do limite...
— Sim, estou vendo — Doc estava respirando rápido, excitado.
Prata brilhou no meio do sangue.
— Isso. Agora, segure o cabelo dela.
Doc e eu trocamos de lugar em um movimento rápido. Ele era bom em seu trabalho. Ele teria dado um excelente Curandeiro.
Eu não tentei esconder o que estava fazendo dele. Os movimentos eram muito sutis para ele ter a chance de entender. Ele não seria capaz de fazer isso até eu explicar.
Eu deslizei a ponta do dedo com cuidado pela parte de trás da criaturinha prateada até meu dedo estar quase completamente dentro do buraco quente na base do pescoço da hospedeira. Eu busquei o caminho até as antenas anteriores, sentindo as linhas rígidas das conexões esticadas até os recessos mais profundos da cabeça dela.
Eu girei o dedo em volta da parte de baixo do corpo da alma, afagando desde o primeiro segmento até a outra linha de conexões, tão rígidas e profusas como as cerdas de uma escova.
Senti com cuidado a conexão dessas cordas apertadas nas minúsculas articulações, não
maiores que a cabeça de um alfinete. Eu continuei descendo. Eu podia tê-las contado, mas levaria muito tempo. Seriam duzentas e setenta conexões, mas havia outra maneira de descobri-lo. Ali estava, a pequena crista que fazia essa junta ficar um pouco maior – ao invés de uma cabeça de alfinete, uma pequenina pérola. Era macia sob o meu dedo.
Eu pressionei com gentileza, massageando com carinho. Gentileza era sempre a conduta das almas. Nunca violência.
— Relaxe — eu disse num sussurro.
E, apesar da alma não poder me ouvir, obedeceu. Os ligamentos relaxaram, se soltando. Eu podia sentir os fios se retraindo, sentindo o corpo inchar levemente para absorver os fios. O processo não levou mais que algumas batidas de meu coração. Eu segurei o fôlego até sentir a alma se ondular sob o meu toque. Se libertando.
Eu a deixei dançar um pouco mais para fora, e então coloquei os dedos em volta do corpo minúsculo e frágil. Eu a ergui, prateada e brilhante, úmida com sangue que rapidamente escorria pela superfície macia, e aninhei-a na minha mão.
Era linda. A alma que eu nunca soube o nome brilhava como uma onda prateada em minha mão, como cetim prateado. Eu não podia odiar a Buscadora nessa forma. Um amor quase maternal me enchia.
— Durma bem, pequenina — sussurrei.
Eu me virei em direção ao suave som do criotanque, à minha esquerda. Jared o segurava abaixado e no ângulo certo, então tudo o que eu tinha que fazer era soltar a alma no ambiente surpreendentemente frio que saía da abertura. Eu a deixei escorregar até o pequeno espaço e então cuidadosamente fechei a tampa.
Eu peguei o criotanque de Jared, tomando-o com cuidado em vez de puxá-lo, virei-o com cuidado até estar na vertical, e então o abracei contra o peito. A parte externa do tanque estava na mesma temperatura que a sala. Eu o carregava protetoramente como qualquer mãe.
Olhei para a estranha na mesa. Doc já estava passando o Suavizar no ferimento fechado. Nós formávamos um bom time. Um cuidando da alma, outro do corpo. Todos eram cuidados.
Doc olhou para mim, seus olhos cheios de exultação e maravilha.
— Incrível — sussurrou. — Isso foi incrível.
— Bom trabalho — murmurei de volta.
— Quando você acha que ela acordará? — Doc perguntou.
— Depende de quanto clorofórmio ela inalou.
— Não muito.
— E se ela ainda estiver aí. Vamos ter que esperar para ver.
Antes que eu pudesse pedir, Jared ergueu a mulher sem nome da maca com carinho, virou-a para cima e a colocou em outra maca, mais limpa. Essa gentileza não me comoveu. Essa era para os humanos, para Melanie...
Doc foi com ele, verificando o pulso dela, conferindo suas pupilas. Ele iluminou seus olhos inconscientes com uma lanterna e observou suas pupilas contraírem. Nenhuma luz refletiu para cegá-lo. Ele e Jared trocaram um longo olhar.
— Ela conseguiu — Jared disse, sua voz baixa.
— Sim — Doc concordou.
Eu não ouvi Jeb se aproximar ao meu lado.
— Ótimo, garota. — Ele murmurou.
Eu dei de ombros.
— Sentindo um pouco de conflito?
Eu não respondi.
— É, eu também, querida, eu também.
Aaron e Brandt estavam conversando atrás de mim, suas vozes aumentando o volume com a excitação, respondendo aos pensamentos um do outro antes das perguntas serem feitas.
Nenhum conflito ali.
— Espere até os outros ouvirem sobre isso!
— Pense no...
— Nós devíamos pegar alguns...
— Agora mesmo. Eu estou pronto...
— Podem parar — Jeb cortou Brandt. — Nada de sair pegando almas até este criotanque estar em segurança a caminho para o espaço. Certo, Peg?
— Certo — concordei com uma voz firme, abraçando o tanque com mais força.
Brandt e Aaron trocaram um olhar de desagrado.
Eu iria precisar de mais aliados. Jeb, Jared e Doc eram somente três, apesar de certamente serem os mais influentes. Ainda assim, eles precisariam de apoio.
Eu sabia o que isso significava.
Significava falar com Ian.
Com outros também, mas Ian teria que ser um deles. Meu coração parecia escorregar no meu peito, se curvar sobre si mesmo. Eu havia feito muitas coisas que não queria desde que me uni aos humanos, mas não conseguia lembrar nada como essa dor afiada e aguda. Mesmo decidir trocar minha vida pela da Buscadora – e essa era uma dor grande, um campo de sofrimento, mas era fácil de lidar porque eu via um quadro mais amplo. Dizer adeus a Ian era como uma navalha afiada, tornava difícil ver o quadro mais amplo. Eu gostaria que houvesse outra fora, qualquer outra maneira de salvá-lo dessa mesma dor. Não havia nenhuma.
A única coisa pior seria dizer adeus a Jared. Essa iria queimar mais rápido porque ele não iria sentir dor alguma. Sua alegria se sobressairia sobre a pequena dose de culpa que ele poderia sentir por mim.
Quanto a Jamie, eu não estava planejando encarar esse adeus de forma alguma.
— Peg! — Doc chamou.
Eu me apressei para a cama em que Doc estava se inclinando. Antes de chegar lá, pude ver os minúsculos dedos se fecharem e abrirem.
— Ah — A voz familiar da Buscadora gemeu. — Hmmm.
O quarto ficou em total silêncio. Todos olhavam para mim, como se eu fosse a expert em humanos. Eu dei uma cotovelada em Doc, minhas mãos ainda abraçando o tanque.
— Fale com ela — murmurei.
— Umm... Oi? Você pode me ouvir... dona? Você está segura agora. Você consegue me entender?
— Ah. — Ela gemeu. Seus olhos se abriram, se focando rapidamente em Doc. Não havia nenhum desconforto em sua expressão – o Corta Dor estaria fazendo-a se sentir maravilhosa, é claro. Seus olhos eram pretos como ônix. Eles passaram pelo cômodo até me encontrar, e o reconhecimento foi rapidamente seguido por um olhar de desprezo. Ela olhou para Doc novamente.
— Bem, é bom tem minha mente de volta. — Ela disse em uma voz clara e alta. — Obrigada.
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