terça-feira, março 18, 2014

Traída


Talvez eu devesse ter corrido na direção contrária. Mas ninguém estava me segurando agora, e mesmo que a voz dele estivesse fria e zangada, era a mim que ele chamava. Melanie estava ainda mais ansiosa que eu enquanto eu me encaminhava em direção a luz azul. Eu hesitei ao virar a curva.
Ian estava a alguns passos de mim, postado sobre os calcanhares, pronto para agir em qualquer movimento hostil que Jared pudesse fazer contra mim.
Jared estava sentado no chão, em um dos colchonetes que Jamie e eu havíamos deixado ali. Ele parecia ainda mais cauteloso do que Ian, mas só pelos olhos, sua postura era mais relaxada.
— Relaxa — Jared disse para Ian. — Eu só quero conversar. Eu prometi ao garoto, e eu vou manter a palavra.
— Onde está Kyle?
— Roncando. Sua caverna pode desabar devido às vibrações.
Ian não se moveu.
— Eu não estou mentindo Ian. E eu não vou matar a coisa. Jeb está certo, não importa o quão confusa essa situação esteja, Jamie tem tanto direito quanto eu, e como ele foi totalmente iludido, então eu duvido que ele vá me dar o sinal verde.
— Ninguém foi iludido — Ian rosnou.
Jared abanou com a mão afastando a discussão.
— A coisa não corre nenhum perigo de minha parte, é o quero dizer. — Pela primeira vez, ele olhou para mim, avaliando como eu me apertava contra a parede, vendo minhas mãos tremerem. — Eu não vou machucá-la de novo. — Ele disse para mim.
Eu dei um pequeno passo para frente.
— Você não tem que falar com ele se não quiser, Peg — Ian disse rapidamente. — Não é um dever ou uma tarefa a ser cumprida. Não é obrigatório. Você pode escolher.
Jared ergueu uma sobrancelha – as palavras de Ian o confundiram.
— Não — sussurrei. — Eu vou falar com ele. — Eu dei mais um curto passo, Jared virou a palma da mão para cima e agitou os dedos duas vezes, me encorajando a aproximar.
Eu caminhava lentamente, cada passo um movimento individual seguido por uma pausa. Eu parei a meio metro dele. Ian me seguia como uma sombra, firme ao meu lado.
— Eu gostaria de falar a sós com ela, se você não se importar — Jared disse.
— Eu me importo.
Eu pus minha mão levemente em seu braço.
— Não, Ian, tudo bem. Vá dormir um pouco. Eu ficarei bem.
Ian examinou meu rosto, dúvida em seu olhar.
— Isso não é nenhum desejo de morte é? Para poupar o garoto? — ele perguntou.
— Não, Jared não mentiria para Jamie sobre isso.
Jared me olhou furtivamente quando eu disse seu nome com confiança.
— Por favor, Ian — implorei. — Eu quero falar com ele.
Ian me olhou por um longo minuto, e então olhou muito sério para Jared. Ele pronunciou cada sentença como uma ordem.
— O nome dela é Peg, não coisa ou troço. Você não a tocará. Qualquer marca que você deixe nela, eu farei em dobro nesse sua pele inútil. — Eu tremi ao ouvir a ameaça.
Ian voltou-se abruptamente e saiu pelo corredor escuro.
Fez-se silêncio um momento, enquanto nós dois observávamos o lugar vazio por onde ele desapareceu. Eu olhei para o rosto de Jared primeiro, enquanto ele ainda olhava para o corredor. Quando ele se virou e encontrou meu olhar, eu olhei para o chão.
— Uau. Ele não está brincando, né?
Eu a levei como uma pergunta retórica.
— Por que você não se senta? — ele me convidou, dando batidinhas no colchonete ao seu lado.
Pensei por um momento, então fui sentar encostada na mesma parede que ele, mas perto
do buraco, colocando todo o espaço do colchonete entre nós. Melanie não gostou, ela queria sentar perto dele, para que eu pudesse sentir o cheiro e o calor dele. Eu não queria isso – e não porque estivesse com medo de ele me machucar, ele não parecia irritado no momento. Eu simplesmente não queria ficar próximo a ele. Alguma coisa em meu peito doía ao tê-lo tão perto – tê-lo me odiando tão perto.
Ele me observava, sua cabeça inclinada para o lado, eu só pude cruzar o olhar com o dele por segundos e então tive que olhar para o outro lado.
— Desculpe pela noite passada – pelo seu rosto. Eu não devia ter feito isso.
Eu encarava minhas mãos cruzadas no colo.
— Você não precisa ter medo de mim.
Eu acenei, sem olhar para ele.
Ele resmungou.
— Eu achei que você tinha dito que falaria comigo.
Eu dei de ombros. Eu não conseguia encontrar minha voz com o peso da hostilidade dele entre nós.
Eu o ouvi se mover. Ele engatinhou no colchonete até estar do meu lado – do jeito que Melanie queria. Muito perto – era difícil pensar direito, respirar normalmente – mas eu não consegui me afastar. Estranhamente, pois era isso que ela queria de início, Melanie ficou irritada de repente.
O que foi?, perguntei, surpresa com a intensidade da emoção dela.
Eu não gosto dele perto de você. Não está certo. Eu não gosto do jeito como você quer ele perto.
Pela primeira vez desde que abandonamos a civilização juntas, eu senti ondas de hostilidade emanando dela para mim. Eu fiquei chocada. Isso não era justo.
— Eu só tenho uma pergunta — Jared disse, nos interrompendo.
Eu olhei para ele e então me encolhi – tanto devido a dureza em seu olhar como do ressentimento da Melanie.
— Você por provavelmente adivinhar o que é. Jeb e Jamie passaram a noite inteira tagarelando comigo...
Eu esperei pela pergunta, encarando o saco de arroz, meu travesseiro da noite passada. Em minha visão periférica, eu vi sua mão se erguer, e me espremi contra a parede.
— Eu não vou te machucar — ele disse de novo, impaciente, e pôs a mão áspera em meu
queixo, virando o meu rosto para ele.
Meu coração se acelerou quando ele me tocou, e havia muita umidade em meus olhos. Eu pisquei tentando limpá-los.
— Peg — ele disse meu nome lentamente, de má vontade, dava para notar pelo tom de voz. — Melanie ainda está viva aí... ainda é parte de você? Diga-me a verdade.
Melanie me atacou com a força bruta de uma bola de demolição. Era fisicamente doloroso, como uma dor de cabeça que se alastrava pelo corpo, exatamente nos pontos onde ela forçava.
Pare com isso! Você não consegue entender?
Era tão óbvio na linha de seus lábios, nas linhas rígidas em volta de seus olhos. Não importava o que nós disséssemos.
Ele já me considera uma mentirosa, disse-lhe. Ele não quer a verdade... ele só quer evidências, algo para provar para Jamie e Jeb que sou uma mentirosa, uma Buscadora, para que ele tenha permissão para me matar.
Melanie se recusava a responder e a acreditar em mim, foi uma batalha mantê-la quieta.
Jared observava o suor brotando na minha testa, o estranho tremor que correu por minha espinha, e seus olhos se apertaram. Ele segurou firme no meu queixo, não me deixando esconder o rosto.
Jared, eu te amo, ela tentou gritar. Eu estou aqui.
Meus lábios não se moveram, mas eu me surpreendi por ele não conseguir ler as palavras facilmente nos meus olhos.
O tempo passava lentamente enquanto ele esperava por minha resposta. Era agonizante ter que encarar seus olhos, ter que ver o desgosto ali. Como se isso não fosse o bastante, a raiva de Melanie continuava a me cortar por dentro. Seu ciúme corria amargamente por meu corpo, deixando-o poluído.
Mais tempo se passou, e as lágrimas se acumularam de forma que eu não pude mais contê-las. Elas escorreram pelas minhas bochechas até a palma de Jared. A expressão dele não mudou.
Finalmente, eu não aguentei mais. Fechei os olhos e forcei a cabeça para baixo. Ao invés de me machucar, ele soltou meu queixo.
Ele suspirou, frustrado.
Eu esperava que ele fosse embora. Eu encarava minhas mãos novamente, esperando por isso. Meu coração marcava os minutos. Ele não se moveu. Eu não me movi. Ele parecia esculpido em pedra ao meu lado. Combinava com ele, essa imobilidade de pedra, combinava com a expressão rígida e a dureza de seus olhos.
Melanie refletiu sobre esse Jared, comparando-o com o homem que ele costumava ser. Ela se lembrou de um dia comum da resistência...

“Argh!” Jared e Jamie resmungaram juntos.
Jared se joga no sofá de couro e Jamie se esparrama no carpete. Eles estão assistindo um jogo de basquete na televisão de tela grande. Os parasitas que viviam nessa casa estavam no trabalho e nós já havíamos enchido o jipe com tudo o que podíamos carregar. Tínhamos horas para relaxar até que precisássemos desaparecer novamente.
Na TV, dois jogadores estão em discutindo educadamente na linha lateral. A câmera está perto; nós podemos ouvir o que eles dizem.
“Eu acredito que eu fui o último a tocar na bola – ela é sua.”
“Eu não tenho tanta certeza. Eu não gostaria de ter nenhuma vantagem injusta. É melhor esperarmos o tira teima.”
Os jogadores apertaram mãos, se cumprimentando com tapinhas nos ombros.
“Isso é ridículo.” Jared resmunga.
“Não suporto isso.” Jamie concorda, espelhando o tom de Jared perfeitamente, ele soa mais parecido com Jared a cada dia – uma das muitas formas que sua adoração a seu herói havia tomado. “Não tem mais nada passando?”
Jared passa pelos canais até encontrar um campo com pistas de corridas. Os parasitas estão promovendo as Olimpíadas no Haiti. Pelo que pudemos ver, os alienígenas estão todos excitados com isso. Muitos deles tinham bandeiras olímpicas em casa. Mas não é a mesma coisa. Todo mundo que participa ganha uma medalha. Patético.
Mas não tem como arruinar uma corrida de cem metros. Esportes individuais são muito mais interessantes que quando eles tentam competir um contra o outro diretamente. Eles são melhores em faixas separadas.
“Mel, vem relaxar.”Jared chama.
Eu estou parada na porta de trás por hábito, não me preparando para fugir. Não por medo. Só hábito, nada mais.
Eu vou até Jared. Ele me puxa para o seu colo e acomoda minha cabeça sobre o seu queixo.
“Confortável?” ele pergunta.
“Sim.” Eu respondo, porque estou realmente, completamente confortável, aqui, na casa de um parasita.
Papai costumava dizer muitas coisas engraçadas – como se estivesse falando uma língua própria: Dar no pé, aurora da minha vida, abelhudo, novinho em folha, estar com a bola toda, canoa furada e algo sobre ensinar padre a rezar missa. Um das suas favoritas era seguro como um lar.
Me ensinado a andar de bicicleta, minha mãe preocupada na porta: “Calma Linda, essa rua é segura como um lar.” – Convencendo Jamie a dormir com a luz apagada: “Aqui é seguro como um lar, filho, nenhum monstro em quilômetros.”
Então de repente o mundo se transformou em um pesadelo medonho, e a frase virou uma piada de humor negro para Jamie e para mim. Lares eram o lugar mais perigoso que conhecíamos.
Escondidos na moita, observando um carro sair da garagem de uma casa isolada, decidindo se fazíamos uma incursão por comida, ou se era muito perigoso. “Você acha que os parasitas vão ficar fora muito tempo?” “De jeito nenhum – esse lugar é seguro como um lar. Vamos dar o fora.”
E agora, eu posso sentar aqui e assistir televisão como há cinco anos, como se mamãe e papai estivessem no outro cômodo e eu nunca tivesse passado uma noite escondida num cano de esgoto com Jamie e um monte de ratos enquanto usurpadores de corpos procuravam pelos ladrões que tinham fugido com um saco de pão e uma tigela de espaguete frio.
Eu sabia que mesmo que nós tivéssemos sobrevivido por vinte anos sozinhos, nós nunca seríamos de encontrar esse sentimento por nós mesmo. O sentimento de segurança. Mais do que segurança, até... felicidade. Segurança e felicidade – duas coisas que eu não imaginei sentir novamente.
Jared nos fazia sentir assim sem tentar, só por ser Jared.
Eu respirei o cheiro de sua pele e senti o calor do seu corpo.
Jared faz tudo parecer seguro, tudo ficar feliz. Até mesmo os lares.

Ele ainda me faz sentir segura, Melanie percebeu, sentindo o calor onde os nossos braços estavam separados por poucos centímetros, mesmo que ele não saiba que eu esteja aqui.
Eu não me sentia segura. Amar Jared me fazia sentir menos segura do que qualquer outra coisa que eu pudesse pensar. Eu me perguntava se Melanie e eu amaríamos Jared se ele sempre tivesse sido como ele era agora, e não o sorridente Jared de nossas memórias, o que viera a Melanie cheio de esperança e milagres. Teria ela o seguido se ele fosse assim, tão duro e cínico? Se a perda do seu pai sorridente e de seus irmãos o tivessem deixado frio da forma que a perda de Melanie havia feito?
É claro. Mel estava segura. Eu teria amado Jared de qualquer forma. Mesmo assim, ele está ligado a mim.
Eu me perguntei se isso também era verdade para mim. Eu o amaria se ele fosse assim nas memórias dela?
Então eu fui interrompida. Sem nenhum aviso, Jared começou a falar, como se estivéssemos no meio de uma conversa.
— Então, por sua causa, Jeb e Jamie estão convencidos de que é possível ter algum tipo de consciência depois de ser apanhado. Ambos têm certeza de que a Mel continua por aqui.
Ele bateu devagarzinho com o punho em minha cabeça. Eu me encolhi, e ele deixou a mão cair.
— Jamie acha que ela fala com ele. — Ele revirou os olhos. — Não é nada justo brincar com o garoto desse jeito, mas claro, isso considerando-se um sentido de ética que obviamente não se aplica.
Eu envolvi os braços em torno de mim mesma.
— Jeb, no entanto, tem razão em uma coisa – e é isso que está me matando. O que você está procurando? A investigação dos Buscadores não foi bem direcionada, e eles nem mesmo... suspeitaram. Eles pareciam estar procurando só por você, e não por nós. Então talvez eles não soubessem o que você planejava. Talvez você esteja agindo por conta própria, certo? Alguma coisa tipo infiltrada. Ou...
Era mais fácil ignorá-lo quando eles especulava tão bobamente. Eu me concentrei em meu joelho. Eles estavam sujos, como sempre, preto e púrpura.
— Talvez eles estejam certos... sobre a parte de não matar você pelo menos.
Inesperadamente, seus dedos afagaram levemente os pelos que suas palavras haviam arrepiado em meu braço. Sua voz era suave quando ele voltou a falar.
— Ninguém vai te machucar. Desde que você não cause problemas... — Ele deu de ombros. — Eu posso entender o ponto de vista deles, e talvez, de alguma forma doentia, seja mesmo errado, como eles dizem. Talvez não haja nenhuma razão justificável... exceto que Jamie...
Minha cabeça se ergueu bruscamente – seus olhos estavam profundos, observando minha reação. Eu me arrependi ter mostrado interesse e voltei a olhar meu joelho.
— Me assusta ver como ele está ficando apegado. Eu não devia tê-lo deixado para trás, eu nunca imaginei... E eu não sei o que fazer sobre isso. Ele acha que Mel ainda está viva aí. Como ele vai se sentir quando...
Eu percebi que ele disse quando e não se. Não importava que promessas ele me fazia, ele não achava que eu iria durar muito.
— Estou surpreso por você ter conquistado Jeb — ele refletiu, mudando de assunto. — Ele é um velho experiente e sagaz, vê mentiras facilmente. Até agora.
Ele pensou por um minuto.
— Você não está muito a fim de conversar, está?
Houve outro longo silêncio.
Suas palavras vieram numa torrente súbita agora.
— A parte que fica me incomodando é: e se eles estiverem certos? Como eu vou saber? Eu odeio como a lógica deles faz sentido para mim. Tem que haver outra explicação.
Melanie lutou novamente para falar, não tão fortemente como antes, dessa vez sem esperança de conseguir vencer. Eu mantive meus lábios e meus braços parados. Jared se moveu, desencostando da parede de modo que seu corpo estava virado em minha direção. Eu observei o movimento com o canto do olho.
— Por que você está aqui? — ele murmurou.
Eu espiei o seu rosto. Estava gentil, carinhoso, quase como Melanie se lembrava. Eu senti meu controle escapando, meus lábios tremiam. Manter meus braços no lugar tomava toda minha força. Eu queria tocar seu rosto. Eu queria. Melanie não gostava nada disso.
Se você não vai me deixar falar, pelo menos mantenha suas mãos para você, ela sibilou.
Eu estou tentando. Desculpe. Eu lamentava mesmo. Aquilo a magoava. Nós duas estávamos magoadas, mágoas diferentes. Era difícil dizer quem estava pior no momento.
Jared me observava com curiosidade.
— Por quê? — ele perguntou suavemente. — Sabe, Jeb tem essa ideia louca de que você está aqui por causa de Jamie e de mim. Não é maluquice?
Minha boca se abriu um pouco; eu rapidamente mordi meu lábio inferior.
Jared se inclinou para frente lentamente e pegou meu rosto com suas mãos. Meus olhos se fecharam.
— Você não vai me dizer?
Eu sacudi a cabeça, sem ter certeza de quem fez isso. Era eu dizendo não, ou Melanie dizendo não pode?
Suas mãos se apertaram sobre minha mandíbula.
Eu abri os olhos, e seu rosto estava a centímetros do meu. Meu coração flutuava, meu estômago sofreu uma queda – eu tentei respirar, mas meus pulmões não obedeciam.
Eu reconheci a intenção nos seus olhos; eu sabia como ele iria se mover, sabia exatamente como era a sensação dos seus lábios. E, contudo, foi tão novo para mim, um primeiro mais impactante que qualquer outro, quando sua boca pressionou a minha.
Eu acho que a intenção era só tocar os lábios nos meus, de leve, mas as coisas mudaram quando nossas peles se encontraram. Sua boca tornou-se firme e rude, suas mãos firmaram meu rosto enquanto sua boca se movia contra a minha com movimentos urgentes. Era tão diferente de lembrar, tão mais forte. Minha cabeça girava incoerente.
O corpo se rebelou. Eu não o controlava mais – ele me controlava. Não era Melanie – o corpo era mais forte do que nós duas. Nossas respirações ecoavam alto: a minha frenética e ofegante; a dele, selvagem, quase um rosnado.
Meus braços se libertaram do meu controle. Minha mão esquerda alcançou o seu rosto, seu cabelo.
Minha mão direita foi mais rápida. Não era minha.
O punho de Melanie acertou a mandíbula dele, afastando o rosto dele do meu com um som surdo de carne contra carne.
A força do soco não foi forte o bastante para afastá-lo de verdade, mas ele se afastou de mim no instante que nossos lábios não estavam mais unidos, avaliando boquiaberto e com olhos horrorizados a minha expressão horrorizada.
Eu olhei para o punho ainda fechado, com tanta repulsa como se eu tivesse encontrado um escorpião crescendo no meu braço. Um arquejo de aversão saiu da minha garganta. Eu agarrei o punho direito com a mão esquerda, tentando impedir Melanie de usar meu corpo para violência novamente.
Eu olhei para Jared. Ele estava olhando para o punho que eu segurava também, o choque indo embora, surpresa tomando seu lugar. Naquele instante sua expressão estava totalmente aberta. Eu podia facilmente ler seus pensamentos que eram claros em seu rosto.
Não era isso que ele estava esperando. Ele tinha sim expectativas, isso era óbvio de se ver. Aquilo havia sido um teste. Um teste que ele achou que estava pronto para avaliar. Um teste em que os resultados ele havia antecipado com confiança. Mas ele se surpreendeu.
Isso significava que deu certo ou falhou?
A dor no meu peito não foi uma surpresa. Eu já sabia que coração partido era mais que uma expressão.
Em uma situação de lutar ou fugir, eu nunca teria escolha, sempre seria fugir para mim. Como Jared estava entre mim e o corredor, eu me virei e me lancei para dentro do buraco cheio de caixas.
As caixas se amassaram e rasgavam conforme eu as pressionava contra a parede e o chão. Eu abri caminho me espremendo no espaço impossível, passando por cima das caixas mais pesadas e amassando as outras. Eu senti seus dedos arranharem meu pé quando ele tentou agarrar meu tornozelo, e eu chutei uma das caixas mais pesada entre nós. Ele gemeu, e o desespero era como uma mão apertando meu pescoço, eu não tinha tido a intenção de machucá-lo de novo. Não era minha intenção atacar. Eu só queria fugir.
Eu não ouvi meu próprio soluço, mesmo alto como estava, até que eu não pude ir mais fundo e o som das caixas e plásticos pararem. Quando de fato me ouvi, escurei arquejos dilacerados e violentos de agonia, e fiquei mortificada.
Muito mortificada, muito humilhada. Eu estava horrorizada comigo mesma, pela violência que eu permiti correr pelo meu corpo, conscientemente ou não, mas não era por isso que eu chorava. Eu chorava porque aquilo havia sido um teste e, burra, idiota, idiota e emocional criatura que eu era; eu queria que tivesse sido real.
Melanie estava em agonia também, e era difícil separar a dupla dor, eu sentia como se fosse morrer porque não tinha sido real; ela sentia como se fosse morrer porque, para ela, havia sido real. De tudo que ela havia perdido com o fim do mundo dela, tanto tempo atrás, ela nunca havia se sentido traída. Quando o pai dela levou os Buscadores atrás dos próprios filhos, ela sabia que não eraele. Não houve traição, só dor. O pai dela estava morto. Mas Jared estava vivo e era ele mesmo.
Ninguém te traiu, sua tola, gritei para ela. Eu queria que a dor dela parasse. Era demais o peso extra da dor dela. A minha era suficiente.
Como ele pôde? Como? Ela disse, me ignorando.
Nós chorávamos, além do nosso controle.
Uma palavra nos trouxe de volta do limite da histeria.
Da entrada do buraco, a voz rouca e baixa de Jared – baixa e estranhamente infantil –perguntou:
— Mel?

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