terça-feira, março 18, 2014
Reduzida
— Mel? — ele perguntou novamente, a esperança que ele não queria sentir, colorindo seu tom de voz.
Minha respiração saía aos soluços, depois do choque.
— Você sabe que era com você Mel. Você sabe disso. Não era com a... coisa. Você sabe que eu não estava beijando a coisa.
Meu soluço seguinte foi mais alto, um gemido doloroso. Por que ele não podia ficar quieto? Eu tentei segurar a respiração.
— Se você está aí, Mel... — ele pausou.
Melanie odiou o "se". Outro soluço vinha dos meus pulmões, e eu engasguei.
— Eu te amo — Jared disse. — Mesmo que você não esteja aí, que não possa me ouvir. Eu te amo.
Eu segurei a respiração outra vez, mordendo meu lábio até sangrar. A dor física não me distraiu tanto quanto eu queria.
Ficou silencioso fora do buraco, e silencioso dentro também, enquanto eu ficava melancólica. Eu ouvia intensamente, concentrada nos sons. Ee não queria pensar. Não havia som.
Eu estava torcida na mais impossível posição. Minha cabeça estava no ponto mais baixo, o lado esquerdo do meu rosto pressionado no chão de rocha. Meus ombros estavam encostados na ponta de uma caixa, o direito mais alto que o esquerdo. Meu quadril formava um ângulo na posição contrária, com meu osso direito encostando na parede.
A luta com as caixas havia deixado hematomas, eu podia senti-los se formando. Eu sabia que tinha que arrumar um jeito de explicar para Ian e Jamie que eu havia feito isso comigo mesma, mas como? O que eu diria? Como eu diria que Jared havia me beijado para fazer uma experiência, como dar um choque em um rato de laboratório para ver sua reação?
Por quanto tempo mais eu seria capaz de ficar nessa posição? Eu não queria fazer nenhum barulho, mas sentia que minha espinha se partiria a qualquer momento. A dor ficava mais insuportável a cada segundo. Eu não suportaria ficar em silêncio por muito tempo. Um gemido já estava lutando para sair pela minha garganta.
Melanie não tinha nada para me dizer. Ela estava quieta trabalhando em seu alívio e fúria. Jared finalmente falou com ela, reconheceu sua existência. Ele tinha dito que a amava. Mas ele tinha me beijado. Ela estava tentando se convencer que não havia razão para ficar magoada, tentando acreditar em todas as razões pelas quais aquilo não era o que parecia. Tentando, mas não conseguindo. Eu podia ouvir tudo isso, mas era internamente controlado. Ela não estava falando comigo, estava me dando um gelo, no sentido infantil da frase.
Eu senti uma raiva não familiar dela. Não como no início, quando eu a temia e a queria erradicada da minha mente. Não, eu senti o meu próprio senso de traição agora. Como ela podia estar com raiva de mim? Como aquilo fazia sentido? Como poderia ser minha culpa se eu me apaixonara por ele depois deela impor as memórias dele em mim? Eu me importava com o fato de ela estar sofrendo, mas a minha dor não significava nada para ela. Ela gostava disso. Humanos são cruéis.
Lágrimas, muito mais fracas do que as outras, corriam por meu rosto em silêncio. A hostilidade dela para comigo fervia em minha mente.
Abruptamente, a dor em minhas costas era demais.
— Aii — eu gemi, empurrando a rocha e as caixas tentando sair. Eu não me importava mais com o barulho, eu só queria sair. Eu jurei a mim mesma que nunca entraria aqui novamente – preferiria a morte a isso. Literalmente.
Era mais difícil sair que foi entrar. Eu me agitei e contorci até que sentir que estava piorando as coisas, torra como um pretzel assimétrico. Eu comecei a chorar de novo, como uma criança, com medo de nunca sair dali.
Melanie suspirou. Prenda o seu pé na entrada do buraco e puxe seu corpo para fora, ela sugeriu.
Eu a ignorei, lutando para livrar meu torso de um canto particularmente afiado. Fui espetada nas costelas.
Não seja infantil, ela resmungou.
Nossa, excelente conselho, vindo de você.
Eu sei. Ela hesitou, então cedeu. Certo, desculpe-me. Eu sou infantil. Veja, eu sou humana. É difícil ser justa às vezes. Nós nem sempre sentimos a coisa certa, fazemos a coisa certa. O ressentimento ainda estava lá, mas ela estava tentando perdoar e esquecer que eu havia dado uns amassos no verdadeiro amor dela – era assim que ela via a coisa toda.
Eu enganchei meu pé na beirada do buraco e puxei. Meu joelho encostou no chão, e eu usei o apoio para tirar minhas costelas da ponta. Ficou mais fácil esticar a perna e firmar meu outro pé. Finalmente minhas mãos encontraram o chão e eu engatinhei de ré, caindo no colchonete verde-escuro. Eu fiquei deitada por um momento, de barriga para baixo, respirando. Eu tinha certeza que Jared havia ido embora, mas eu não me certifiquei disso imediatamente. Só respirei, até me sentir preparada para erguer a cabeça.
Eu estava sozinha. Tentei me segurar no alívio e esquecer a tristeza do fato. Era melhor estar sozinha, menos humilhante.
Eu me encolhi no colchonete, pressionando o rosto no tecido. Eu não estava com sono, mas estava cansada. O peso esmagador da rejeição de Jared era tão pesado que me deixou exausta. Eu fechei os olhos e tentei pensar em coisas que não me fariam chorar novamente. Qualquer coisa menos no olhar de Jared quando ele se afastou de mim...
O que Jamie estava fazendo agora? Ele sabia onde eu estava, ou estava procurando por mim? Ian dormiria por um bom tempo, ele parecia tão exausto. Kyle acordaria logo? Ele viria me procurar? Onde estava Jeb? Eu não o havia visto o dia todo. Doc estava mesmo bebendo até a inconsciência? Isso não combinava com ele...
Eu acordei lentamente, despertada pelo ronco do meu estômago. Eu fiquei deitada quieta por alguns minutos, tentando me orientar. Era noite ou dia? Por quanto tempo eu dormi ali sozinha?
Meu estômago não seria ignorado por muito mais tempo, então rolei e fiquei de joelhos. Eu devia ter dormido por muito tempo para estar com tanta fome, perdido uma ou duas refeições.
Considerei comer algo da pilha de suprimentos do buraco – afinal de contas eu já havia danificado quase tudo, talvez até destruído alguma coisa. Mas isso só me faria sentir ainda mais culpada. Eu iria pegar alguns pães na cozinha.
Eu estava meio magoada – além da dor principal – por ter ficado aqui em baixo sozinha por tanto tempo e ninguém ter vindo me procurar – que atitude vaidosa; por que alguém se importaria com o que acontecesse comigo? – então eu fiquei aliviada e feliz por ver Jamie sentado na entrada da caverna grande, suas costas viradas para o mundo humano atrás dele, obviamente esperando por mim.
Meus olhos se acenderam e os dele também. Ele se ergueu, alívio em seu rosto.
— Você está bem. — Ele disse, e adoraria que isso fosse verdade. — Quer dizer, eu não achei que Jared estivesse mentindo, mas ele disse que achava que você queria ficar sozinha, e Jeb disse que não era para eu ir checar você e que era para eu ficar aqui, onde ele podia ver que eu não estava me esgueirando até lá, mas mesmo eu achando que você não estava machucada nem nada, era difícil não saber com certeza, sabe?
— Eu estou bem — eu disse. Mas abri os braços buscando conforto. Ele me abraçou pela cintura e eu fiquei surpresa de notar que quando estávamos de pé sua cabeça alcançava meu ombro.
— Seus olhos estão vermelhos. — Ele murmurou. — Ele foi cruel com você?
— Não. — Afinal de contas, as pessoas não eram intencionalmente cruéis com ratos de laboratórios, eles só queriam informações.
— Seja lá o que você disse a ele, eu acho que ele acredita em nós agora. Sobre Mel. Como ela se sente?
— Ela está feliz por isso.
Ele assentiu satisfeito.
— E você?
Eu hesitei, procurando por uma resposta que fosse verdadeira.
— Dizer a verdade é mais fácil para mim do que tentar escondê-la.
Minha evasão pareceu satisfazê-lo.
Atrás dele, a luz na horta estava avermelhada e diminuía. O sol já havia se posto no deserto.
— Estou com fome. — Eu disse a ele, e soltando-me de nosso abraço.
— Eu sabia que você estaria. Guardei uma coisa boa.
Eu suspirei.
— Pão está bom.
— Desista Peg. Ian diz que você se sacrifica demais, e que isso não é bom para você.
Eu fiz uma careta.
— Eu acho que ele tem razão — resmungou Jamie. — Mesmo que todos nós queiramos você aqui, você não vai pertencer a esse lugar enquanto não decidir que é daqui.
— Eu nunca pertencerei. E ninguém realmente me quer aqui, Jamie.
— Eu quero.
Eu não discuti com ele, mas ele estava errado. Não mentindo, por que ele acreditava no que dizia. Mas o que ele realmente queria era Melanie. Ele não nos separava do jeito que devia.
Trudy e Heidi estavam assando pão na cozinha e dividindo uma maçã verde brilhante e apetitosa. Elas revezavam as mordidas.
— Bom te ver Peg — Trudy disse sinceramente, cobrindo sua boca enquanto falava já que ainda estava mastigando. Heidi assentiu em cumprimento, seus dentes mordendo a maçã. Jamie me cutucou, tentando ser discreto, me mostrando que as pessoas me queriam aqui. Ele não levava esses gestos como cortesia comum.
— Vocês guardaram o jantar dela? — ele perguntou ansioso.
— Guardei — Trudy disse. Ela se inclinou ao lado do forno e voltou com uma bandeja de metal nas mãos. — Mantive-o quente. Provavelmente está meio ruim e duro agora, mas é melhor que o habitual.
Na bandeja estava um pedaço de carne bem grande. Minha boca começou a salivar, mesmo enquanto eu rejeitava a porção.
— É muito.
— Nós temos que comer todos os perecíveis nos primeiros dias — Jamie me encorajou. — Todo mundo come até não poder mais... É tradição.
— Você precisa de proteína — Trudy acrescentou. — Estamos comendo ração de caverna por tempo demais. Estou surpresa por todos estarem saudáveis.
Comi minha proteína enquanto Jamie observava com olhos de águia cada colherada viajar da bandeja para minha boca. Eu comi tudo para agradá-lo, apesar de o meu estômago doer de tanta comida.
A cozinha começou a encher novamente quando eu estava terminando. Alguns tinham maçãs nas mãos – todos dividindo com alguém. Olhos curiosos examinavam o lado machucado do meu rosto.
— Por que todos estão vindo para cá? — eu murmurei para Jamie. Estava escuro lá fora, a hora do jantar já tinha passado.
Jamie me olhou intensamente por um segundo.
— Para ouvir você ensinar — seu tom de voz acrescentava as palavras, é lógico.
— Você está brincando!
— Eu te disse que nada havia mudado.
Eu olhei a minha volta. Não era casa cheia. Nada de Doc, e nenhum dos viajantes que haviam retornado, o que significava nada de Paige. Nada de Jeb, nem Ian, nem Walter. Alguns outros também estavam ausentes: Travis, Carol, Ruth Ann. Mas ainda assim, havia mais gente do que eu imaginaria se eu tivesse considerado uma volta à rotina depois de um dia tão anormal.
— Nós podemos voltar aos Golfinhos? Foi onde paramos — Wes perguntou, interrompendo minha avaliação da sala. Eu podia ver que ele havia tomado para si a função de começar a festa, antes de estar vivamente interessado no ciclo de vida de um planeta alienígena.
Todos olharam para mim com expectativa. Aparentemente, a vida não mudara tanto quanto eu pensei.
Eu peguei a bandeja de pão das mãos de Heidi e me virei para colocá-la no forno. Eu comecei a falar ainda de costas.
— Então... é... humm... o terceiro grupo de avós... Eles tradicionalmente servem a comunidade, conforme a compreendem. Na Terra, eles seriam algo como fazendeiros, aqueles que saem de casa para trazer a subsistência. Eles são lavradores, em sua maioria. Eles cultivam algo que parece um vegetal, de onde eles tiram a seiva...
E a vida continuou.
Jamie tentou me convencer a não dormir no corredor de suprimentos, mas sua tentativa não foi convincente. Não havia outro lugar disponível. Teimoso como sempre, ele insistiu em dormir comigo. Eu imaginava que Jared não tinha gostado da ideia, mas como eu não o tinha visto no dia seguinte e nem no outro, não pude verificar a teoria.
Foi estranho outra vez fazer minhas tarefas com os seis viajantes de volta – como quando Jeb me levou pelos túneis pela primeira vez. Olhares hostis, silenciosos e raivosos. Foi mais difícil para eles do que para mim – eu estava acostumada. Eles, por outro lado, não estavam acostumados à maneira como todo mundo me tratava. Por exemplo, quando eu trabalhava na colheita de milho e Lily me agradeceu a cesta vazia, os olhos de Andy se arregalaram com a troca de palavras. Ou quando eu estava esperando na sala de banho pela minha vez com Heidi e Trudy, e Heidi começou a brincar com o meu cabelo. Estava crescendo, caindo nos meus olhos, e eu estava planejando cortá-lo de novo. Heidi estava tentando encontrar um estilo para mim, jogando as mechas de um lado para o outro. Brandt e Aaron – Aaron era o homem mais velho a ter ido na longa expedição e eu não lembrava de tê-lo visto antes – saíram e nos encontrou lá, Trudy rindo de alguma atrocidade que Heidi estava tentando criar no topo da minha cabeça, ambos os homens ficaram verdes e passaram por nós em silêncio, a passos largos.
Claro que essas coisinhas não eram nada. Kyle estava de volta nas cavernas agora, e embora ele obviamente estivesse sobre ordens de me deixar em paz, sua expressão deixava claro que essa restrição era repugnante para ele.
Eu estava sempre com alguém quando cruzava com ele, e eu me perguntava se essa não era a única razão para ele não ter feito nada além de me olhar com desprezo e curvar os dedos em garras. Isso trazia todo o pânico de volta da primeira semana que eu passei aqui, e eu teria sucumbido – voltado a me esconder evitando áreas movimentadas – mas algo mais importante que os olhares assassinos de Kyle chamou minha atenção naquela segunda noite.
A cozinha encheu-se novamente – eu não tinha certeza se era por interesse nas minhas histórias ou se pelas barras de chocolate que Jeb distribuía. Eu dispensei a minha, explicando para um infeliz Jamie que eu não conseguiria falar e comer ao mesmo tempo. Eu suspeitava que ele iria guardar uma para mim, teimoso como ele era.
Ian estava de volta ao seu lugar quente ao lado do forno, e Andy também estava lá, os olhos cheios de suspeitas, ao lado de Paige. Nenhum dos outros, incluindo Jared, estava lá. Doc também estava ausente, e eu me perguntava se ele ainda estava bêbado ou talvez com ressaca. E de novo, Walter não estava lá.
Geoffrey, marido de Trudy, foi o primeiro a me questionar esta noite. Eu fiquei satisfeita, apesar de não demonstrar, por ele parecer ter se unido ao grupo de humanos que me toleravam. Mas eu não pude responder suas perguntas direito, o que era uma pena. Suas perguntas eram como as de Doc.
— Eu realmente não sei nada sobre Cura — eu admiti. — Eu nunca fui a um Curandeiro antes... desde que eu cheguei aqui. Nunca fiquei doente. Tudo o que eu sei é que nós não escolhemos um planeta a não ser que pudéssemos manter o corpo do hospedeiro perfeito. Não há nada que não possa ser curado, desde um simples corte ou osso quebrado à uma doença. Velhice é a única causa de morte agora. Mesmo humanos saudáveis só vivem até certo período. E há acidentes, imagino, mas eles não ocorrem muito com almas. Nós somos cuidadosas.
— Humanos armados não são apenas um acidente — Alguém murmurou. Eu estava mexendo nos pães quentes; não vi quem falou e não reconheci a voz.
— É verdade. — Eu concordei.
— Então você não sabe o que eles usam para curar doenças? O que há nas medicações? — Geoffrey pressionou.
Eu sacudi a cabeça.
— Lamento. Não era algo pela qual eu me interessasse quando eu tinha acesso a informação. Infelizmente eu não dei o devido valor. Boa saúde é simplesmente um fato em todos os planetas em que vivemos.
As bochechas de Geoffrey ficaram ainda mais vermelhas que o normal. Ele olhou para baixo, meio que com raiva. O que eu havia dito que o ofendeu?
Heath sentado ao lado dele deu tapinhas em seu ombro. Houve um silêncio carregado na sala.
— Hum... e sobre os Abutres... — perguntou Ian, mas as palavras eram forçadas, uma mudança de assunto deliberada. — Eu não sei se eu perdi essa parte, mas eu não lembro de você explicando por que eles não eram "gentis”.
Não era algo que eu houvesse explicado, mas eu tinha certeza que ele não estava realmente tão interessado – essa tinha sido a primeira pergunta que ele havia conseguido pensar.
Minha aula informal terminou mais cedo que o normal. As perguntas eram na maioria das vezes feitas por Ian e Jamie, as perguntas de Geoffrey tinham deixado todos preocupados.
— Bem, nós levantaremos cedo amanhã, colher o milho... — Jeb disse após um silêncio desconfortável, dispensando. As pessoas se levantaram e espreguiçavam, falando em vozes baixas não muito casuais.
— O que foi que eu disse? — eu murmurei para Ian.
— Nada. Eles estão pensando na mortalidade — ele deu um suspiro.
Meu cérebro humano fez uma daquelas deduções que eles chamam de intuição.
— Cadê o Walter? — eu perguntei, ainda murmurando.
Ian suspirou novamente.
— Na ala sul. Ele não está muito bem.
— E por que ninguém me disse nada?
— As coisas tem sido... difíceis para você ultimamente, então...
Eu balancei a cabeça impaciente.
— O que ele tem?
Jamie estava ao meu lado agora, e segurou a minha mão.
— Alguns dos ossos de Walter se partiram. Eles estão muito frágeis. — Ele disse em uma voz abafada. — Doc tem certeza que é câncer... em estágio final, segundo ele.
— Walt deve ter mantido a dor em segredo por muito tempo — Ian acrescentou com tristeza.
Eu estremeci.
— Então não há nada a ser feito? Nada mesmo?
Ian negou com a cabeça, mantendo os olhos brilhantes nos meus.
— Não por nós. Mesmo se nós não estivéssemos presos aqui, não haveria muita ajuda para ele. Nós nunca erradicamos essa doença.
Eu mordi meu lábio contra a sugestão que eu queria fazer. É claro que não havia nada a fazer por Walter. Qualquer um desses humanos preferiria morrer lentamente e com dor a trocar suas mentes pela cura do corpo. Eu podia entender isso... agora.
— Ele tem perguntado por você — Ian continuou. — Bem, ele diz seu nome as vezes; é difícil saber o que ele está querendo dizer... Doc está mantendo ele bêbado por causa da dor.
— Doc não se sente nada bem de estar ele mesmo usando tanto álcool — Jamie disse. — Péssima hora para os dois.
— Eu posso vê-lo? — perguntei. — Ou isso deixará os outros infelizes?
Ian franziu a testa e bufou.
— Isso seria bem a cara de alguns por aqui, se irritar por causa disso. — Ele sacudiu a cabeça. — Mas quem liga, certo? Se é o último desejo de Walt...
— Certo — concordei. A palavra último fez meus olhos arderem. — Se me ver é o que Walter quer, então eu acho que não importa o que os outros vão achar ou se vão ficar com raiva...
— Não se preocupe com isso... não vou deixar ninguém incomodar você. — Os lábios brancos de Ian se pressionaram em uma linha fina.
Eu me sentia ansiosa. Como se quisesse olhar em um relógio. O tempo havia parado de significar muito para mim, mas eu me sentia presa a um limite de tempo agora.
— Está muito tarde para ir hoje? Nós o perturbaríamos?
— Ele está dormindo em horários irregulares. Nós podemos ir vê-lo.
Eu comecei a andar imediatamente, arrastando Jamie porque ele ainda segurava a minha mão. A sensação de tempo passando, de término e fim, me empurrando para frente. Ian me alcançou rápido com suas pernas longas.
Na caverna da horta iluminada pelo luar nós passamos por outros que não nos deram atenção. Eu estava sempre com Jamie ou Ian e não causava curiosidade, mesmo que não estivéssemos passando pelos túneis de costume.
A única exceção foi Kyle. Ele congelou quando viu seu irmão comigo. Seus olhos baixaram repentinamente ao ver a mão de Jamie na minha, e seus lábio torceram em uma expressão de desgosto.
Ian ergueu os ombros ao ver a expressão do irmão – sua boca se torceu espelhando a de Kyle – e ele deliberadamente pegou minha outra mão. Kyle fez um som como se ele estivesse prestes a vomitar e virou de costas para nós.
Quando nos estávamos na escuridão do longo corredor sul, eu tentei soltar minha mão, mas Ian a segurou com mais força.
— Eu gostaria que você não o deixasse com mais raiva ainda. — Eu lhe disse.
— Kyle está errado. Estar errado é quase um hábito dele. Ele vai demorar mais que todos para superar isso, mas isso não significa que nós temos que pegar leve por causa dele.
— Ele me assusta — admiti em um sussurro. — Eu não quero que ele tenha ainda mais motivos para me odiar.
Ian e Jamie apertaram minhas mãos ao mesmo tempo. E falaram simultaneamente.
— Não tenha medo — Jamie disse.
— Jeb deixou a opinião dele bem clara — Ian disse.
— Como assim? — eu perguntei olhando para Ian.
— Se Kyle não puder aceitar as regras de Jeb, então ele não será mais bem-vindo aqui.
— Mas isso é errado. Kyle pertence a aqui.
Ian bufou.
— Ele vai ficar... então vai ter que aprender a lidar com isso.
Nós não falamos mais enquanto andávamos pelo longo corredor. Eu estava me sentindo culpada – parecia ser uma emoção constante por aqui. Culpa, medo e coração partido. Por que foi que vim?
Porque, estranhamente, você pertence a este lugar também, Melanie suspirou. Ela estava muito consciente do calor das mãos de Ian e Jamie nas minhas.Onde mais você experimentou isso?
Em lugar nenhum, eu confessei, me sentindo ainda pior. Mas isso não me faz pertencer, não do jeito que você pertence.
Nós estamos juntas nessa Peg.
Como se eu precisasse ser lembrada...
Eu estava um pouco surpresa por ouvi-la tão claramente. Ela havia ficado quieta pelos últimos dois dias, esperando, ansiando, esperançosa de ver Jared novamente. Claro que eu eu fiquei similarmente ocupada.
Talvez ele esteja com Walter. Talvez seja lá que ele tenha estado, Melanie pensou esperançosa.
Não é por isso que estamos indo ver Walter.
Não. Claro que não. Seu tom estava arrependido, mas eu percebi que Walter não significava tanto para ela quanto para mim. Naturalmente ela estava triste por ele estar morrendo, mas ela aceitou isso desde o início. Eu, por outro lado, não conseguia aceitar. Walter era meu amigo, não dela. Foi a mim que ele havia defendido.
Uma daquelas luzinhas baças azuis nos recebeu quando chegamos à ala hospitalar. (Eu sabia agora que as lanternas eram alimentadas pela luz solar, deixadas no sol durante o dia para carregar.) Nós nos movíamos em silêncio e devagar.
Eu odiei aquela sala. No escuro, com as estranhas sombras, parecia ainda mais proibitiva. Havia um cheiro novo – o cômodo tinha uma cheiro forte de decomposição lenta, álcool e bile. Duas das macas estavam ocupadas. Os pés de Doc na ponta de um, eu reconheci seu leve ronco. No outro, aparentando fraqueza e desconsolo, Walter nos observava aproximar.
— Está bem para uma visita, Walt? — Ian sussurrou quando os olhos de Walter foram na direção dele.
— Ungh — Walter gemeu. Seus lábios caíam de sua face flácida, sua pele brilhava levemente devido a umidade.
— Você precisa de alguma coisa? — Eu murmurei. Eu libertei minhas mãos – elas balançaram impotentes entre mim e Walter.
Seus olhos reviraram sem foco. Eu dei um passo para frente.
— Há alguma coisa que possamos fazer por você? Qualquer coisa.
Seus olhos vaguearam até encontrar meu rosto. Abruptamente, eles focaram além do estupor da bebida e da dor.
— Finalmente — ele disse. Sua voz chiava e assobiava. — Eu sabia que você viria se eu esperasse o bastante. Oh, Gladys, eu tenho tanta coisa para te contar.
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