terça-feira, março 18, 2014
Necessária
Eu congelei e olhei rapidamente por cima do ombro para ver se tinha alguém atrás de mim.
— Gladys era a esposa dele — Jamie sussurrou. — Ela não escapou.
— Gladys — Walter disse para mim, indiferente à minha reação. — Você acredita que eu tenho um câncer? Quais as chances, hein? Nunca fiquei doente na minha vida toda... — Sua voz foi sumindo até eu não conseguir mais ouvi-lo, mas seus lábios continuaram a se mover. Ele estava muito fraco para erguer a mão, seus dedos se esticaram em direção a mim.
Ian me cutucou para ir em frente.
— O que eu devo fazer? — suor brotava na minha testa, e não tinha nada a ver com o calor úmido.
—... vovô viveu até os cento e um anos — Walter continuou, audível novamente. — Ninguém nunca teve câncer na minha família, nem mesmo os primos. A sua tia Regan teve câncer de pele, não teve?
Ele olhou para mim confiante, esperando uma resposta. Ian me cutucou nas costas.
— Bem... — eu murmurei.
— Talvez tenha sido a tia de Bill — Walter decidiu.
Eu lancei um olhar de pânico a Ian, que deu de ombros.
— Socorro — eu pedi a ele.
Ele gesticulou para que eu pegasse os dedos de Walter que ainda tateavam.
A pele de Walter estava translúcida de tão branca. Eu podia ver o fraco fluxo de sangue nas veias azuis nas costas de sua mão. Eu ergui sua mão cuidadosamente, preocupada com os ossos delicados. Ela estava tão leve que parecia oca.
— Ah, Gladdie, tem sido difícil sem você. Aqui é um bom lugar, você vai gostar, mesmo quando eu me for. Muitas pessoas para falar – eu sei como você gosta de ter as suas conversas... — o volume da voz dele caiu novamente, mas seus lábios ainda formavam as palavras que ele queria compartilhar com sua esposa, mesmo quando fechou os olhos e sua cabeça virou para o lado.
Ian encontrou um pano úmido e começou a limpar o rosto suado de Walter.
— Eu não sou boa em... em mentir — sussurrei, observando os lábios murmurantes de Walter para garantir que ele não me ouvia. — Eu não quero perturbá-lo.
— Você não tem que dizer nada — Ian me garantiu. — Ele não está lúcido o bastante para se importar.
— Eu pareço com ela?
— Nem um pouco... eu vi uma foto dela. Ruiva das fortes.
— Aqui, deixe-me fazer isso.
Ian me deu o trapo eu limpei o suor do pescoço de Walter. Mãos ocupadas sempre me faziam sentir mais confortável. Walter continuava a murmurar. Eu achei tê-lo ouvido dizer: “Obrigado, Gladdie, isso é bom.”
Eu não notei que os roncos de Doc haviam parado. Sua voz familiar estava de repente atrás de mim, gentil demais para me assustar.
— Como ele está?
— Delirante — Ian suspirou. — Será o conhaque ou a dor?
— Mais a dor, eu acho. Eu trocaria meu braço direito por um pouco de morfina.
— Talvez Jared produza outro milagre — Ian sugeriu.
— Talvez.
Eu enxugava o rosto pálido de Walter distraída, ouvindo mais intensamente agora, mas eles não disseram o nome de Jared novamente.
Ele não está aqui, Melanie suspirou.
Está procurando ajuda para Walter, concordei.
Sozinho, ela acrescentou.
Pensei na última vez em que eu o tinha visto – o beijo, a crença...Ele provavelmente queria algum tempo para si mesmo.
Espero que ele não esteja lá fora tentando se convencer de que você é uma super-talentosa atriz-Buscadora de novo.
Isso é possível, claro.
Melanie gemeu silenciosamente.
Ian e Doc murmuravam em vozes baixas sobre coisas sem nenhuma importância, na maioria era só Ian atualizando Doc das novidades nas cavernas.
— O que aconteceu com o rosto de Peg? — Doc perguntou baixinho, mas ainda assim eu podia ouvir.
— Um pouco mais do mesmo de sempre — Ian disse numa voz contida.
Doc fez um som descontente e estalou a língua. Ian contou um pouco sobre o que aconteceu na aula de hoje, sobre as perguntas de Geoffrey.
— Teria sido conveniente se Melanie tivesse sido possuída por um Curandeiro — Doc brincou.
Eu vacilei, mas eles estavam atrás de mim e provavelmente não perceberam.
— Nós temos sorte que foi a Peg — Ian disse em minha defesa. — Ninguém mais...
— Eu sei — Doc interrompeu, gentil como sempre, — eu devia dizer: pena que Peg não se interessou mais por medicina.
— Desculpe — murmurei. — Eu fui descuidada ao aproveitar os benefícios da boa saúde sem nem ao menos ficar curiosa.
Uma mão tocou o meu ombro.
— Você não tem nada do que se desculpar — Ian disse.
Jamie estava muito quieto. Eu olhei em volta e o vi deitado na maca onde Doc estava cochilando.
— Está tarde — Doc comentou. — Walter não vai a lugar nenhum. Vocês deviam dormir um pouco.
— Nós voltaremos — Ian prometeu. — Nos avise se quiser alguma coisa, para qualquer um dos dois.
Eu coloquei a mão de Walter no colchão. Seus olhos se abriram imediatamente, focados em mim com mais consciência do que antes.
— Você está indo? — ele disse fracamente. — Você precisa ir tão cedo?
Eu peguei sua mão novamente.
— Não, eu não tenho que ir.
Ele sorriu e fechou os olhos novamente. Seus dedos apertaram os meus. Ian suspirou.
— Você pode ir — eu disse a ele. — Eu não me importo. Leve Jamie para a cama.
Ian olhou pelo quarto.
— Só um minuto. — Ele disse, e então pegou a maca mais perto dele. Não era pesada – ele a ergueu facilmente e a colocou próximo à Walter. Eu estiquei meu braço ao limite para que Ian colocasse a maca. Então ele me pegou, tão facilmente como levantou a maca e me colocou em cima dela. Os olhos de Walter não se abriram.
Eu suspirei baixinho, surpresa pelo jeito casual como Ian era capaz de colocar as mãos em mim – como se eu fosse humana.
Ian apontou com o queixo em direção a mão de Walter e a minha.
— Você acha que consegue dormir assim?
— Sim, tenho certeza que sim.
— Durma bem então. — Ele sorriu para mim, então se virou e pegou Jamie da outra maca. — Vamos garoto — ele murmurou, carregando Jamie sem o menor esforço, como se ele não fosse nada mais que um bebezinho. Os passos abafados de Ian sumiram à distância até que eu não consegui ouvir mais.
Doc bocejou e se sentou em uma mesa que ele construiu com pedaços de madeira e uma porta de alumínio, levando a luz difusa com ele. O rosto de Walter estava muito escuro para eu ver, e isso me deixava nervosa. Parecia que ele já tinha morrido. Eu me confortava pelo fato de seus dedos ainda estarem firmes nos meus.
Doc começou a folhear alguns papeis, murmurando para si mesmo, e eu fui me afastando do leve som...
Walter me reconheceu pela manhã.
Ele não acordou até Ian aparecer para me acompanhar de volta; o milharal tinha que ser limpo das espigas antigas. Eu prometi Doc que traria café da manhã antes de ir trabalhar. A última coisa que fiz foi afastar meus dedos dormentes da mão de Walter.
Seus olhos se abriram.
— Peg — ele disse baixo.
— Walter? — eu não tinha certeza de por quanto tempo ele me reconheceria, ou se ele lembraria da noite passada.
Sua mão se fechou no ar vazio, então eu lhe dei a minha mão esquerda, a que não estava dormente.
— Você veio me ver. Que bom. Eu sei... com os outros de volta... Deve ser difícil... para você... seu rosto...
Ele estava tendo dificuldade em formar as palavras, e seus olhos focavam e desfocavam. Era bem típico dele que suas primeiras palavras fossem cheias de preocupação.
— Está tudo bem Walter. Como você está se sentindo?
— Ah... — ele gemeu baixinho. — Não muito... Doc?
— Bem aqui — Doc murmurou, ao lado dele.
— Tem mais conhaque?
— Claro.
Doc já estava preparado. Ele posicionou uma grossa garrafa de vidro nos lábios de Walter e cuidadosamente derramou o líquido marrom escuro em sua boca. Walter se arrepiava com cada gole que queimava em sua garganta. Um pouco da bebida escorreu pelo canto da boca e caiu no travesseiro. O cheiro ardeu no meu nariz.
— Melhor? — Doc perguntou após um longo momento.
Walter grunhiu. Não me pareceu uma confirmação. Seus olhos fecharam.
— Mais? — Doc perguntou.
Walter sorriu e então gemeu.
Doc xingou baixo.
— Onde está Jared? — ele murmurou.
Eu enrijeci ao ouvir o nome. Melanie ficou toda atenta e então relaxou novamente.
O rosto de Walter relaxou, e ele encostou a cabeça para trás.
— Walter? — murmurei.
— A dor é muita para ele ficar consciente. Deixe-o assim — Doc disse.
Minha garganta parecia inchada.
— O que eu posso fazer?
A voz de Doc estava desolada.
— Tanto quanto eu. Ou seja, nada. Eu sou um inútil.
— Não fique assim, Doc. — Eu ouvi Ian murmurar. — Isso não é culpa sua. O mundo não funciona mais do jeito que funcionava. Ninguém espera mais do que isso de você.
Meus ombros caíram. Não, o mundo deles não funcionava mais do mesmo jeito.
Um dedo encostou no meu braço.
— Vamos — Ian suspirou.
Eu acenei e comecei a soltar a minha mão novamente.
Os olhos de Walter se abriram novamente, sem ver.
— Gladdie? Você está aí? — ele implorou.
— Hum... estou aqui. — Eu disse incerta, deixando seus dedos segurarem os meus.
Ian deu de ombros.
— Eu vou trazer comida para vocês.
E saiu.
Eu esperava ansiosa pelo seu retorno, nervosa com a confusão de Walter, que murmurava o nome de Gladys o tempo inteiro, mas ele parecia não querer nada de mim, pelo que eu estava grata.
Após um tempo, meia hora talvez, eu comecei a tentar ouvir os passos de Ian no corredor, me perguntando por que ele demorava tanto. Doc ficou em sua mesa o tempo todo, encarando o nada com os ombros caídos. Era fácil ver o quão impotente ele se sentia.
E então eu ouvi algo, mas não eram passos.
— O que é isso? — eu perguntei a Doc em um murmúrio, Walter estava quieto novamente, talvez inconsciente. Eu não queria perturbá-lo.
Doc se virou para mim e inclinou a cabeça para ouvir ao mesmo tempo.
O som era um estranho bater de asas, achei ter ouvido ficar um pouco mais alto, mas então ele desapareceu.
— Que estranho — Doc disse. — Parece com... — Ele pausou, sua testa franzindo com concentração enquanto o som não familiar sumia.
Nós estávamos ouvindo atenciosamente, então escutamos os passos quando eles ainda estavam muito longe. Não combinavam com o que eu esperava, o passo regular e tranquilo de Ian. Ele estava correndo – desenfreado.
Doc reagiu imediatamente. Ele correu rapidamente para encontrar Ian. Eu gostaria de ver o que estava errado também, mas eu não queria perturbar Walter removendo minha mão novamente. Eu ouvi com atenção então.
— Brandt? — Eu ouvi Doc dizer surpreso.
— Onde está? Onde está? — o outro homem exigiu sem fôlego. Os passos correndo pararam só por um segundo, depois continuaram, não tão rápido.
— Do que você está falando? — Doc perguntou.
— A parasita! — Brandt sibilou impacientemente, ansiosamente, enquanto passava pela entrada.
Brandt não era grande como Kyle e Ian; ele provavelmente era só alguns poucos centímetros mais alto que eu, mas ele era forte e sólido como um rinoceronte. Seus olhos correram pelo cômodo, seu olhar focou no meu rosto por meio segundo e então ele olhou para a figura de Walter e então correu pelo cômodo de novo e parou em mim novamente.
Doc alcançou Brandt então, seus longos dedos segurando os ombros de Brandt quando ele deu um passo na minha direção.
— O que você está fazendo? — Doc perguntou. Pela primeira vez sua voz parecia um rugido.
Antes de Brandt responder, o barulho estranho voltou, indo de suave para extremamente alto, com uma rapidez que nos deixou todos congelados. As batidas se seguiram rapidamente, balançando o ar quando ficaram muito altas.
— Isso... isso é um helicóptero? — Doc perguntou.
— É — Brandt respondeu. — É a Buscadora – a mesma de antes, a que está procurando pela coisa.
Ele apontou com o queixo para mim.
Minha garganta estava de repente muito apertada – o ar se movendo por ela era pouco, não o bastante. Eu me senti tonta.
Não, agora não, por favor.
Qual o problema dela?, Mel rugiu na minha cabeça. Por que ela não nos deixa em paz?
Nós não podemos deixar que ela os machuque!
Mas como a impedi-la?
Eu não sei. Isso é tudo minha culpa!
Minha também, Peg. Nossa.
— Você tem certeza? — Doc perguntou.
— Kyle conseguiu ver pelos binóculos. É a mesma de antes.
— Está procurando aqui? — A voz de Doc de repente horrorizada. Ele deu meia-volta, seus olhos olhando para a entrada. — Onde está Sharon?
Brandt negou com a cabeça.
— Só está voando em círculos. Começa em Picacho e voa em todas as direções. Não parece estar focando em nenhum lugar perto. Sobrevoou algumas vezes no lugar onde deixamos o carro.
— Sharon? — Doc perguntou novamente.
— Ela está com as crianças e Lucina. Estão bem. Os homens estão arrumando as coisas no caso de termos que sair hoje, mas Jeb diz que é improvável.
Doc suspirou, então foi até a mesa. Ele se apoiou nela como se tivesse corrido uma longa distância.
— Então não é nada de mais — murmurou.
— Não. Só teremos que ficar quietos por alguns dias — Brandt o garantiu. Seus olhos buscando pelo cômodo novamente, parando em mim a cada segundo. — Você tem alguma corda a mão? — ele perguntou.
Ele puxou a ponta de um lençol em uma maca vazia, examinando-o.
— Corda? — Doc repetiu sem entender.
— Para a parasita. Kyle me mandou aqui para guardá-la.
Meus músculos se contraíram involuntariamente, minha mão apertou os dedos de Walter muito forte, e ele se mexeu. Eu tentei me forçar a relaxar enquantomantinha os olhos em Brandt. Ele estava esperando por Doc.
— Você está aqui para guardar Peg? — Doc disse, sua voz dura novamente. — E o que o faz pensar que isso é necessário?
— Pelo amor de Deus, Doc. Não seja idiota. Você tem uns buracos no teto bem grandes e muitos metais refletores.
Brandt gesticulou para um dos armários encostados na parede mais distante.
— Deixe sua atenção dispersar por um minuto e a coisa vai estar mandando sinais para a Buscadora.
Eu engasguei em choque; no espaço silencioso o som pareceu alto.
— Viu? Acertei o plano na primeira tentativa.
Eu queria me enterrar para fugir daqueles olhos protuberantes da minha Buscadora, e mesmo assim ele imaginava que eu queria guiar ela até aqui. Trazê-la para matar Jamie, Jared, Jeb, Ian... Eu me senti desfalecer com a ideia.
— Você pode ir Brandt — disse Doc num tom gélido. — Eu ficarei de olho na Peg.
Brandt ergueu uma sobrancelha.
— O que aconteceu com vocês? Com você, Ian, Trudy e o resto? É como se vocês estivessem hipnotizados. Se os olhos de vocês não estivessem normais...
— Vá em frente e pense o que quiser. Mas caia fora enquanto estiver pensando.
Brandt sacudiu a cabeça.
— Eu tenho um trabalho a fazer.
Doc caminhou em direção a Brandt, parando quando ficou entre mim e ele, cruzando os braços no peito.
— Você não irá tocar nela.
As hélices do helicóptero se fizeram ouvir. Nós ficamos muito quietos, sem respirar, até que ele desapareceu.
Brandt balançou a cabeça quando ficou quieto novamente. Ele não falou, só foi até a mesa de Doc e pegou a cadeira. Ele carregou-a até o armário na parede oposta, colocou-a no chão e se sentou. Ele se inclinou para frente, mãos no joelho, e me encarou. Um abutre esperando a vitima parar de se mover.
A mandíbula de Doc se apertou.
— Gladys — Walter murmurou, acordando do seu sono. — Você está aqui.
Muito nervosa para falar com Brandt observando, eu só acariciei sua mão. Seus olhos nublados olhavam para mim, vendo traços que não estavam lá.
— Dói, Gladys. Dói muito.
— Eu sei — sussurrei. — Doc?
Ele já estava lá, o conhaque nas mãos.
— Abra, Walter.
O som do helicóptero continuava, longe, mas ainda assim perto demais. Doc estremeceu, algumas gotas do conhaque espirraram no meu braço.
Foi um dia horrível. O pior da minha vida nesse planeta, mesmo incluindo o meu primeiro dia nas cavernas e o último dia quente e seco no deserto, tão perto da morte.
O helicóptero sobrevoou por algum tempo sem parar. Às vezes mais de uma hora se passava, e eu pensava que tinha acabado. Então o som voltava e eu via a expressão obstinada da Buscadora na minha mente, seus olhos protuberantes escaneando o deserto em
busca de algum sinal de vida humana.
Eu tentei afastá-la, tentando me concentrar nas minhas memórias do deserto, das formas torcidas, sem cor, como se eu pudesse de algum jeito garantir que ela não visse nada, como se eu pudesse convencê-la a ir embora.
Brandt não tirou o olhar suspeito de mim. Eu sempre podia senti-lo, apesar de raramente olhar para ele. Ficou um pouco melhor quando Ian voltou com o café da manhã e o almoço ao mesmo tempo. Ele estava todo sujo por causa dos preparativos para uma possível retirada – seja lá o que isso significasse. Eles tinham algum lugar para ir? Quando Brandt explicou porque ele estava ali, Ian o olhou de tal forma que ficou mais parecido com Kyle.
Então Ian pegou outra maca e colocou ao lado da minha, de forma a ficar no campo de visão de Brandt, me escondendo.
O helicóptero, o olhar de Brandt, nada disso era tão ruim. Em um dia comum – se é que havia um dia comum aqui – qualquer uma dessas coisas poderia ser angustiante. Hoje, não significavam nada.
Ao meio-dia, Doc deu a Walter a última gota de conhaque. Alguns minutos depois, ou assim me pareceu, Walter começou a gemer e se contorcer de dor, sem conseguir respirar direito. Seus dedos apertaram e machucaram os meus, mas se eu os afastasse, os gemidos viravam gritos. Eu me afastei uma vez para ir ao banheiro; Brandt me seguiu, o que fez Ian me seguir também. Quando voltamos – quase correndo – os gritos de Walter já não soavam mais humanos.
O rosto de Doc estava cheio de agonia. Walter se acalmou um pouco depois que eu falei com ele, deixando-o pensar que sua esposa estava por perto. Era um mentira fácil, uma mentira gentil. Brandt fazia pequenos barulhos de irritação, mas eu sabia que ele estava errado em estar irritado. Nada mais importava além da dor de Walter.
Os gemidos e convulsões continuaram, e Brandt caminhava de um lado para o outro, tentando ficar o mais longe possível do barulho.
Jamie veio procurar por mim, trazendo comida para quatro, quando a luz começava a alaranjar. Eu não o deixei ficar, fiz Ian levá-lo à cozinha para comer, fiz ele Ian prometer que iria vigiá-lo para que ele não voltasse. Walter não conseguia evitar de gemer quando suas convulsões mexiam a perna quebrada, e o som era quase insuportável. Jamie não precisava ter isso gravado na memória da maneira que ficaria na minha e na de Doc. Talvez na de Brandt também, mesmo que ele fizesse o que podia para ignorar Walter, tampando os ouvidos e murmurando uma canção fora de tom.
Doc não tentava se afastar do sofrimento de Walter, ao invés disso, sofria com ele. O choro de Walter marcava a pele de Doc, como garras. Era estranho ver tanta compaixão em um humano, especialmente em Doc. Eu não conseguia mais vê-lo da mesma forma depois de ver ele sofrer com a dor de Walter. Tão grande era sua compaixão, que ele parecia sangrar internamente. Enquanto eu o observava, era impossível acreditar que Doc fosse uma pessoa cruel, o homem simplesmente não podia ser um torturador. Eu tentei lembrar o que me fez acreditar nisso – alguém havia falado algo? Eu não acreditava. Eu é que devia ter tirado conclusões precipitadas em meu terror.
Eu duvidava que pudesse desconfiar de Doc novamente após essa noite. No entanto, eu sempre acharia esse hospital um lugar horrível.
Quando a luz do dia desapareceu, o helicóptero fez o mesmo. Nós nos sentamos no escuro, não ousando acender sequer a luzinha azul. Demorou algumas horas até acreditarmos que a busca havia terminado.
Brandt foi o primeiro a aceitar isso, ele já tava de saco cheio do hospital também.
— Faz sentido eles desistirem — ele murmurou. — Nada para ver à noite. Eu vou levar sua luz comigo Doc, para que a parasita de estimação de Jeb não possa fazer nada, e vou dar o fora.
Doc não respondeu, nem ao menos olhou para o homem enquanto ele ia embora.
— Faça isso parar Gladdie, faça isso parar! — Walter me implorava. Eu enxugava o suor da testa dele enquanto ele esmagava minha mão.
O tempo parecia ficar mais lendo e parar, a noite escura parecia não ter fim. Os gritos de Walter ficavam mais frequentes e mais excruciantes.
Melanie estava longe, sabendo que não havia nada que pudesse fazer. Eu também teria me escondido se Walter não estivesse precisando de mim. Eu estava completamente sozinha na minha cabeça – exatamente como eu queria antes. Eu me sentia perdida assim.
Eventualmente, uma luz cinza baça começou a aparecer pelas aberturas acima. Eu estava no limite da consciência e sono, os gemidos de Walter impediam que eu dormisse totalmente. Eu podia ouvir o ronco de Doc atrás de mim e fiquei feliz por ele ter conseguido escapar por alguns momentos.
Eu não ouvi Jared entrando. Eu estava murmurando incoerente para Walter, tentando acalmá-lo.
— Eu estou aqui, bem aqui. — Eu murmurava, quando ele gritava o nome da esposa. — Shh, está tudo bem. — As palavras não tinham sentido. Mas era algo a dizer, e parecia que minha voz o acalmava.
Não sei quanto tempo Jared me observou com Walter antes de eu perceber que ele estava ali. Deve ter sido um bom tempo. Eu tinha certeza de que sua primeira reação seria raiva, mas quando ele falou, sua voz estava controlada.
— Doc — ele disse, e eu ouvi a maca atrás de mim mexer. — Doc, acorda.
Eu movi minha mão, levando-a ao rosto, desorientada, para ver o rosto que vinha com a voz inconfundível.
Seus olhos estavam em mim enquanto ele sacudia o ombro de Doc. Eles eram impossíveis de ler na luz fraca. Seus rosto não possuía expressão.
Melanie parecia ter acordado. Ela examinava sua expressão, tentando ler os pensamentos por trás da máscara.
— Gladdie! Não me deixe! Não! — O grito de Walter acordou Doc imediatamente.
Eu me virei para Walter, pegando sua mão novamente.
— Shhh, shhh! Walter, eu estou aqui. Eu não vou partir. Não vou, prometo.
Ele se acalmou, gemendo como uma criança. Eu passei o pano por sua testa, seus gemidos virando um choro baixo.
— O que é isso? — Jared murmurou atrás de mim.
— Ela foi o melhor anestésico que eu consegui encontrar — Doc disse.
— Bem, eu encontrei algo melhor do que uma Buscadora domesticada.
Meu estômago se contraiu, e Melanie sibilou na minha cabeça. Tão idiota, teimoso e cego!!, ela rosnou. Ele não acreditaria se você dissesse que o sol nasce no leste.
Mas Doc não ligava para mais nada.
— Você encontrou!
— Morfina... não tem muito. Eu teria chegado mais cedo, mas a Buscadora me impediu de vir.
Doc estava instantaneamente sem ação. Eu o ouvi mexer em alguns papéis, e ele comemorava feliz.
— Jared, você é o homem dos milagres!
— Doc, só um segundo...
Mas Doc estava já ao meu lado. Ele enfiou a fina agulha no braço que estava atado a mim. Eu virei o meu rosto para o lado. Me parecia tão invasivo espetar algo assim na pele dele.
No entanto, eu não podia discutir sobre o efeito. Em cerca de meio minuto, o corpo inteiro de Walter relaxou, sua respiração foi de dura e urgente para quieta e regular. Sua mão relaxou, soltando a minha.
Eu massageei minha mão esquerda com a direita, tentando fazer o sangue circular. Pequenas cãibras seguiram o fluxo do sangue em minha pele.
— Uh, Doc, não tem o suficiente para isso — Jared murmurou.
Eu olhei do rosto de Walter para Jared, ele estava de costas para mim, mas eu podia ver a surpresa na expressão de Doc.
— O suficiente para quê? Eu não vou guardar isso para dias piores, Jared. Eu tenho certeza que vamos desejar ter mais e logo, mas não vou deixar Walter gritar em agonia enquanto eu tenho uma forma de ajudá-lo.
— Não foi isso que eu quis dizer — Jared disse. Ele falou da forma como falava quando já havia pensado em algo por muito tempo e já houvesse decidido.
Doc franziu a testa, confuso.
— Há o suficiente para parar a dor por três ou quatro dias, apenas — Jared disse. — Se você der em doses.
Eu não entendi o que Jared estava dizendo, mas Doc entendeu.
— Ah. — Ele suspirou. Ele virou para olhar para Walter novamente, e eu vi o brilho das lágrimas se formando em seus olhos. Ele abriu a boca para falar, mas nada saiu.
Eu queria saber do que eles estavam falando, mas a presença de Jared me fez ficar quieta, trazia de volta a reserva que eu quase não sentia mais.
— Você não pode salvá-lo. Só pode evitar a dor, Doc.
— Eu sei — Doc disse. Sua voz fraca, como se ele estivesse segurando um soluço. — Você está certo.
O que está acontecendo?, perguntei. Já que Melanie estava aqui, eu pelo menos podia fazê-la útil.
Eles vão matar Walter, ela disse em um tom casual. Há morfina o suficiente para causar uma overdose.
Meu arquejo soou alto no cômodo silencioso, mas na verdade, foi apenas um suspiro. Eu não olhei para ver se os homens haviam percebido. Minhas lágrimas escorreram quando eu me inclinei no travesseiro de Walter.
Não, pensei. Ainda não.
Você prefere que ele morra gritando?
É que... eu não consigo suportar... o fim. É tão absoluto. Eu nunca vou ver meu amigo novamente.
Quantos dos seus amigos você voltou para visitar, Peregrina?
Eu nunca tive amigos assim antes.
Meus amigos em outros planetas eram um borrão em minha cabeça, as almas eram tão similares, quase iguais. Walter era distintamente ele mesmo. Quando ele se fosse, não haveria ninguém para preencher o seu lugar.
Eu abracei a cabeça de Walter e deixei minhas lágrimas caírem em seu rosto. Eu tentei parar de chorar, mas as lágrimas corriam mesmo assim.
Eu sei. Mais uma primeira vez para você, Melanie suspirou, e havia compaixão em seu tom. Compaixão por mim – essa era uma primeira também.
— Peg? — Doc chamou.
Eu só balancei a cabeça, incapaz de falar.
— Eu acho que você já ficou por aqui o bastante — ele disse. Eu senti sua mão leve e morna no meu ombro. — Você devia dar uma pausa.
Eu balancei a cabeça novamente.
— Você está exausta. Vá se limpar, esticar as pernas. Comer alguma coisa.
Eu olhei para ele.
— Walter ainda vai estar aqui quando eu voltar?
— Você quer isso?
— Eu gostaria de ter a chance de dar adeus. Ele é meu amigo.
Ele deu tapinhas no meu braço.
— Eu sei Peg. Eu também. Eu não estou com pressa. Vá respirar um pouco e depois volte. Walter vai dormir por um tempo.
Eu li seu rosto cansado e vi sinceridade ali.
Eu acenei e com cuidado coloquei a cabeça de Walter no travesseiro. Talvez se eu me afastasse um pouco, pudesse arrumar um jeito de lidar com isso. Eu não tinha certeza de como – eu não tinha experiência em dar adeus.
Como estava apaixonada por ele, eu tive que olhar para Jared antes de ir. Mel queria isso também, mas desejava poder me excluir do processo.
Ele estava me olhando. Eu tinha a impressão de que seus olhos estavam em mim há um bom tempo. Sua expressão estava cuidadosamente composta, mas havia surpresa e suspeita ali. Isso me cansava. Qual o objetivo de fingir ali? Mesmo se eu fosse uma boa mentirosa? Walter não poderia me defender agora. Eu não podia mais... iludi-lo.
Eu o encarei por um longo segundo, então me virei e fui para o corredor negro que era mais iluminado do que a expressão em seu rosto.
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