terça-feira, março 18, 2014
Abandonada
— Quem é a Buscadora de preto? Por que ela ainda está procurando? — O grito de Jared foi ensurdecedor, ecoando de todos os lados. Eu me escondi atrás das minhas mãos esperando o primeiro golpe.
— Ah... Jared? — Ian murmurou. — Talvez você devesse me deixar...
— Fique fora disso!
A voz de Ian chegou mais perto, e as rochas fizeram um som áspero quando ele tentou entrar no pequeno buraco já lotado.
— Você não consegue ver que ela está muito assustada para falar? Deixe-a em paz por um momen...
Eu ouvi algo raspar o chão quando Jared se moveu, e então uma pancada. Ian xingou. Eu espiei pelos dedos e vi que Ian não estava mais visível e que Jared estava de costas para mim.
Ian cuspiu e gemeu.
— Essa já é a segunda — e eu compreendi que o soco que era para mim tinha sido desviado pela intervenção de Ian.
— E estou pronto para a terceira. — Jared murmurou e se voltou para me encarar, trazendo a luz com ele; ele tinha agarrado a lâmpada com a mão que havia batido em Ian. A caverna parecia quase brilhar após tanto tempo na escuridão. Jared falou novamente, estudando meu rosto na nova iluminação, fazendo de cada palavra uma sentença.
— Quem. É. A. Buscadora?
Eu deixei minhas mãos caírem e olhei fixamente para seus olhos impiedosos. Incomodava-me o fato de que alguém tivesse sofrido pelo meu silêncio – mesmo que fosse alguém que havia tentado me matar.
A expressão de Jared se suavizou um pouco ao ver a mudança em minha expressão.
— Eu não preciso te machucar. — Ele disse baixo, não muito seguro do que dizia. — Mas preciso saber a resposta da minha pergunta.
Essa nem ao menos era a pergunta certa – não era um segredo que eu fosse obrigada a proteger.
— Me conta — ele insistiu, seus olhos com frustração e infelicidade.
Eu era mesmo uma covarde? Eu preferia acreditar que sim – que o meu medo da dor foi o que me motivou a falar. Mas a verdadeira razão pela qual falei foi muito mais patética. Eu queria agradá-lo, esse humano que me odiava tanto.
— A Buscadora — comecei, minha voz rouca e fraca. Eu tinha passado muito tempo sem falar.
Ele interrompeu, impaciente.
— Nós sabemos que é uma Buscadora.
— Não, não apenas uma Buscadora. — Eu sussurrei. — A minha Buscadora.
— Como assim sua Buscadora?
— Designada para mim, para me seguir. Ela é a razão... — eu me segurei antes de dizer a palavra que significaria a nossa morte. Parei antes de dizer nós. A grande verdade que eles veriam como a grande mentira – brincando com seus desejos mais íntimos, suas dores mais profundas. Ele nunca reconheceria que seu desejo pudesse ser verdade. Ele só veria uma mentirosa perigosa vigiando através dos olhos que ele amara.
— A razão? — ele exigiu.
— A razão pela qual eu fugi — eu disse baixinho. — A razão pela qual eu vim para cá.
Não era inteiramente verdade, tampouco era inteiramente mentira.
Jared me encarava, sua boca semi aberta, enquanto ele tentava processar a informação. Pelo canto do olho, eu pude ver Ian olhando pelo buraco novamente, seus vívidos olhos azuis arregalados de surpresa. Havia sangue escuro sobre seus lábios claros.
— Você fugiu de uma Buscadora? Mas você é um deles! — Jared lutou para se recompor, para voltar ao interrogatório. — Por que ela a seguiria você? O que ela quer?
Engoli em seco; o som estranhamente alto.
— Ela quer você. Você e Jamie.
Sua expressão se fechou.
— E você estava tentando trazê-la aqui?
Eu sacudi a cabeça.
— Eu não... eu... — Como eu podia explicar? Ele nunca aceitaria a verdade.
— Você o quê?
— Eu... não queria dizer a ela. Eu não gosto dela.
Ele piscou confuso de novo.
— Vocês não têm todos que gostar de todo mundo?
— É o que se espera — admiti, ruborizando de vergonha.
— Quem lhe contou sobre esse lugar? — Ian perguntou sobre os ombros de Jared.
— Eu não saberia dizer... eu não conhecia... só via as linhas. As linhas no álbum. Eu as desenhei para a Buscadora... mas nós não sabíamos o que eram. Ela ainda acha que são de um mapa de estrada. — Eu não conseguia parar de falar. Tentei fazer as palavras saírem mais devagar, para me proteger de algum lapso.
— Como assim você não sabia o que elas eram? Você está aqui. — As mãos de Jared vieram em minha direção, mas caíram no meio do caminho.
— Eu... eu estava tendo problemas com a minha... com a... memória dela. Eu não entendia... não conseguia acessar tudo. Havia paredões. Foi por isso que a Buscadora foi designada a mim, a fim de que aguardasse que eu desvendasse o resto. — Falei demais, falei demais. Eu
mordi a língua.
Ian e Jared trocaram um olhar. Eles nunca tinham ouvido nada assim antes. Eles não confiavam em mim, mas queriam acreditar que isso era possível. Eles queriam muito. Isso os fez temer.
A voz de Jared saiu com súbita aspereza.
— Você conseguiu acessar minha cabana?
— Não por um longo tempo.
— E aí contou para a Buscadora.
— Não.
— Não? Por que não?
— Por que... quando consegui lembrar... eu não quis contar a ela.
Os olhos de Ian estavam esbugalhados.
A voz de Jared mudou, ficou baixa, quase gentil. Muito mais perigosa que gritar.
— Por que você não quis contar a ela?
Minha mandíbula fechou firmemente. Esse não era o segredo, mas mesmo assim, era um segredo que ele teria que arrancar de mim. Nesse momento minha determinação teve pouco a ver com autopreservação, mas muito com orgulho. Eu não iria dizer àquele homem que me desprezava que eu o amava.
Ele observou o desafio em meus olhos, e pareceu entender o que ele precisaria fazer para arrancar essa resposta de mim. Ele decidiu ignorar a pergunta – ou talvez voltar a ela mais tarde.
— Por que você não foi capaz de acessar tudo? Isso é... normal?
Essa pergunta era muito perigosa também. E pela primeira vez eu disse uma mentira deslavada.
— Foi uma grande queda. O corpo foi danificado.
Mentir não foi fácil para mim; ela soou totalmente falsa. Jared e Ian reagiram ao falso tom: a cabeça de Jared pendeu para um lado e uma das sobrancelhas negras de Ian se ergueu.
— Por que essa Buscadora não está desistindo da busca, como os demais? — Ian perguntou.
De repente, eu estava exausta. Sabia que eles podiam continuar com aquilo a noite toda, que continuariam noite adentro se eu continuasse a responder, e eventualmente eu cometeria um erro. Assim, encostei na parede e fechei os olhos.
— Eu não sei — sussurrei. — Ela não é como as outras almas. Ela é... irritante.
Ian deu uma risada – um som de espanto.
— E você? Você é como as outras... almas? — Jared perguntou.
Eu abri os olhos e o encarei, esgotada, por um longo momento. Que pergunta idiota, pensei. Então fechei os olhos com força, enterrei o rosto nos joelhos e pus os braços em volta da cabeça.
Ou Jared entendeu que eu não falaria mais nada ou então seu corpo estava reclamando da posição. Ele resmungou enquanto se espremia para sair do buraco levando a lâmpada consigo, e então deu um suspiro ao se espreguiçar.
— Esta foi inesperada — Ian murmurou.
— Mentiras, é claro — Jared murmurou de volta. Eu mal conseguia ouvir as palavras. Eles provavelmente não percebiam como o som ecoava para dentro da bolha. — Mas... não estou entendendo direito no que ela quer que a gente acredite... aonde ela está tentando nos levar.
— Eu não acho que ela esteja mentindo. Bem, exceto por aquela vez. Você notou?
— É parte da atuação.
— Jared, quando foi que você conheceu um parasita que capaz de mentir sobre o que quer que seja? Exceto os Buscadores, é claro?
— O que isso aí deve ser.
— Tá falando sério?
— É a melhor explicação.
— Ela... isso é a coisa mais distante de uma Buscadora que eu já vi. Se um Buscador tivesse a mínima ideia de onde nos encontrar, teria trazido um exército.
— E não teria encontrado nada. Mas ela... a coisa entrou aqui, não foi?
— Quase morreu meia dúzia de vezes...
— Ainda está respirando não está?
Eles ficaram quietos por um longo tempo. Tanto tempo que eu comecei a pensar em me mover, mas eu não queria fazer barulho ao deitar. Eu queria que Ian fosse embora para que eu pudesse dormir. A adrenalina me deixou muito desgastada quando saiu do meu sistema.
— Acho que vou falar com Jeb — Ian finalmente sussurrou.
— Oh, essa é uma ótima ideia. — Jared comentou cheio de sarcasmo.
— Você se lembra da primeira noite? Quando ela pulou entre você e Kyle? Aquilo foi bizarro.
— Só estava tentando arrumar um jeito de continuar viva, escapar.
— Dando o sinal verde para Kyle matá-la? Bom plano.
— Funcionou.
— A arma de Jeb funcionou. Ela sabia que ele estava vindo?
— Você está pensando demais Ian. É isso que a coisa quer.
— Eu não acho que você esteja certo. Eu não sei por quê... mas acho que a coisa não quer que nós pensemos nela de forma alguma. — Eu ouvi Ian se levantando. — Sabe o que é realmente esquisito? — ele perguntou, sua voz não era mais que um sussurro.
— O quê?
— Eu me sinto culpado... culpado mesmo... vendo ela se assustar por nossa causa. Ver as marcas roxas no pescoço dela.
— Você não pode deixar a coisa te influenciar assim — Jared estava subitamente perturbado. — Isso aí não é humano. Não se esqueça disso.
— Só porque não é humana você acha que isso significa que ela não sente dor?— Ian perguntou enquanto sua voz sumia à distância. — Que ela não se sente exatamente como uma garota levando uma surra... uma surra dada por nós?
— Controle-se — Jared gritou atrás dele.
— Te vejo por aí, Jared.
Jared permaneceu ali por um longo tempo após Ian sair; ele caminhou por um tempo, para lá e para cá, e então sentou no colchonete, bloqueando minha luz, e murmurava incompreensivelmente para si mesmo. Eu desisti de esperar ele dormir, e me estiquei o melhor que pude. Ele se sobressaltou ao som de movimento, e então começou a resmungar novamente.
— Culpado! — rosnou ele em tom de crítica. — Deixando-se influenciar. Como Jeb, como Jamie. Não posso deixar isso continuar. É bobagem deixar esse troço viver.
Os pelos de meu braço se arrepiaram, mas eu tentei ignorar. Se eu entrasse em pânico toda vez que ele pensasse em me matar, eu nunca teria um momento de paz. Eu virei de bruços tentando mudar a posição da minha coluna, e ele se sobressaltou outra vez devido ao barulho. Eu tinha certeza que ele ainda estava refletindo quando eu finalmente dormi.
Quando acordei, Jared estava sentado no colchonete onde eu podia vê-lo, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça apoiada sobre o punho.
Eu não sentia que tivesse dormido mais de uma hora ou duas, mas eu estava muito dolorida para voltar a dormir. Ao invés disso fiquei pensando na visita de Ian, preocupada que Jared fosse se esforçar ainda mais para me manter isolada depois da reação estranha de Ian. Por que Ian não podia ter ficado de boca fechada a respeito de se sentir culpado? Se ele sabia que era capaz de sentir culpa, então por que saía por aí estrangulando as pessoas? Melanie estava irritada com Ian também, e nervosa quanto às consequências dos escrúpulos dele.
Nossas preocupações foram interrompidas após alguns minutos.
— Sou só eu — ouvi Jeb gritar. — Não se exalte.
Jared ergueu a arma.
— Vá em frente e atire em mim, garoto. Vá em frente. — A voz de Jeb chegava mais perto a cada palavra.
Jared suspirou e abaixou a arma.
— Por favor, vá embora.
— Preciso falar com você — Jeb disse, bufando ao sentar-se ao lado de Jared. — Olá, você — ele disse em minha direção, balançando a cabeça.
— Você sabe que eu odeio isso — Jared murmurou.
— Sei.
— Ian já me contou sobre os Buscadores....
— Eu sei. Eu estava falando agorinha com ele sobre isso.
— Ótimo. Então o que você quer?
— Não é bem o que eu quero. Trata-se do que todos precisam. Nosso estoqueestá baixo. Nós precisamos de um giro de suprimento realmente completo.
— Ah — murmurou Jared; esse assunto não era o que ele estava esperando.
Após uma curta pausa ele disse:
— Mande Kyle.
— Certo — Jeb disse, se preparando para levantar.
Jared suspirou. Pareceu que a sua sugestão havia sido um blefe. Ele retirou-a assim que Jeb concordou.
— Não. Kyle não. Ele é muito...
Jeb riu.
— Quase nos colocou em sérios problemas da última vez que saiu sozinho, né? Não é do tipo que pensa antes. E que tal Ian?
— Ian pensa demais.
— Brandt?
— Ele não é bom em longas incursões. Começa a entrar em pânico depois de algumas semanas. Comete erros.
— Okay, diga-me quem então.
Os segundos passaram, e eu ouvi a respiração de Jared, algumas vezes, a cada vez como se estivesse prestes a dar uma resposta a Jeb, mas então desistia.
— Ian e Kyle juntos? — Jeb sugeriu. — Talvez um possa equilibrar o outro.
Jared deu um suspiro.
— Como da última vez? Okay, okay, eu sei que tem que ser eu.
— Você é o melhor — concordou Jeb. — Você mudou nossas vidas quando apareceu por aqui.
Melanie e eu concordamos com um aceno para nós mesmas; aquilo não nos surpreendia.
Jared é mágico. Jamie e eu estávamos perfeitamente seguros quando os instintos de Jared nos guiava. Nunca nem chegamos perto de sermos pegos. Se fosse Jared em Chicago, tenho certeza de que ele teria sentido o cheiro da armadilha.
Jared inclinou o ombro em minha direção.
— E quanto a...?
— Fico de olho nela quando puder. E espero que leve Kyle com você, vai facilitar a coisas.
— Não será suficiente – sem Kyle e com você vigiando quando puder. Ela... essa coisa não vai durar muito tempo.
Jeb deu de ombros.
— Eu farei o meu melhor. É só isso que eu posso fazer.
Jared começou a balançar a cabeça para frente e para trás.
— Quanto tempo mais você pode ficar aqui? — Jeb perguntou.
— Eu não sei — Jared suspirou.
Houve um longo silêncio. Após alguns minutos Jeb começou a assobiar bem baixo. Finalmente Jared deixou escapar um longo suspiro que eu não percebi que ele estava segurando.
— Parto esta noite. — As palavras foram lentas, cheias de resignação, mas também com alívio. Sua voz até mesmo mudou um pouco, menos defensiva. Quase como se estivesse fazendo a transição de volta para quem ele era antes de nós aparecermos aqui. Deixando uma responsabilidade sair de seus ombros para colocar outra, mais bem-vinda em seu lugar. Ele estava desistindo de me manter viva, deixando a natureza – ou melhor, a justiça da multidão – seguir seu curso. Quando ele retornasse e eu estivesse morta, ele não teria nenhuma responsabilidade sobre isso. Ele não lamentaria. Tudo isso eu podia ouvir nas três palavras.
Eu conhecia a hipérbole humana para dor – coração partido. Melanie se lembrava de ter usado a frase ela mesma. Mas eu sempre a tomei por um exagero, uma descrição para algo que não tinha nenhuma relação com o corpo. Então, eu não esperava pela dor em meu peito. A náusea sim, o nó na garganta também, e sim, lágrimas queimando em meus olhos. Mas o que era essa sensação, rasgando em meu peito? Não tinha lógica.
E não era só rasgando, mas torcendo e puxando em diferentes direções, porque o coração de Melanie também se partiu, e era uma sensação separada. Um coração duplo para uma mente dupla. O dobro de dor.
Ele está indo embora, ela chorava. Nunca mais vamos vê-lo. Ela não questionou o fato de que íamos morrer.
Eu queria chorar com ela, mas alguém tinha que manter a cabeça fria. Eu mordi minha mão para conter os gemidos.
— Provavelmente é o melhor a se fazer — Jeb disse.
— Eu preciso ir organizar algumas coisas... — A mente de Jared já estava longe, muito longe desse corredor claustrofóbico.
— Eu assumo aqui, então. Faça uma viagem segura.
— Obrigado. Espero voltar a vê-lo, Jeb.
— Acho que sim.
Jared passou a arma para Jeb, se ergueu, bateu a poeira em suas roupas e então partiu, indo pelo corredor em seu passo apressado, sua cabeça em outras coisas. Nem ao menos um olhar em minha direção, nem um pensamento acerca do meu destino.
Eu ouvi o som de seus passos sumindo, e então, me esquecendo que Jeb estava lá, eu apertei o rosto em minhas mãos e chorei.
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