terça-feira, março 18, 2014
Libertada
Jeb me deixou chorar sem interromper. Ele não fez comentários durante os soluços e nem durante o período em que fiquei assoando. Só quando eu já estava totalmente em silêncio por uma boa meia hora é que ele falou.
— Ainda está acordada?
Eu não respondi. Eu estava muito habituada ao silêncio.
— Você que sair daí para se esticar? — ele ofereceu. — Minha coluna está doendo só de pensar nesse estúpido buraco.
Ironicamente, considerando minha semana de silêncio enlouquecedor, eu não estava com ânimo para companhia. Mas essa oferta eu não podia recusar. Antes de poder pensar no assunto, minhas mãos estavam me puxando para a saída.
Jeb estava sentado de pernas cruzadas no colchonete. Eu o observei esperando por alguma reação enquanto eu esticava meus braços e pernas e girava os ombros, mas ele estava com os olhos fechados. Como da vez em que Jamie veio me visitar, ele parecia estar dormindo.
Quanto tempo fazia que eu vira Jamie? E como ele estava agora? Meu coração já aflito, deu um pequeno apertão.
— Se sente melhor? — Jeb perguntou, seus olhos se abrindo.
Eu dei de ombros.
— Vai ficar tudo bem. — Ele deu um sorriso grande esticando a face toda. — Aquelas coisas que eu disse para Jared, bem, eu não vou dizer que eumenti, porque é tudo verdade se você olhar por um certo ângulo, não é bem a verdade, mas é o que ele precisava ouvir.
Eu só o encarei; não entendi uma palavra do que ele estava dizendo.
— Enfim, Jared precisa descansar. Não de você, filha — adicionou rapidamente — mas da situação. Ele vai ganhar mais perspectiva quando estiver fora.
Eu me perguntava como Jeb sabia quais palavras iam me magoar, e mais que isso, por que ele se importava se as palavras dele iriam me machucar, ou mesmo por que ele se importava com minhas dores. Sua bondade para comigo era de certo modo assustadora, pois era incompreensível. Pelo menos as ações de Jared faziam sentido. As tentativas de Kyle e Ian de me matar, a vontade do doutor de me machucar – esses comportamentos eram lógicos. O que Jeb queria de mim?
— Não fique tão triste — Jeb recomendou. — Há um lado bom em tudo isso. Jared estava sendo muito teimoso sobre você, e agora que ele está temporariamente fora da história, podemos fazer as coisas mais confortáveis.
Minhas sobrancelhas se franziram enquanto eu tentava entender o que ele queria dizer.
— Por exemplo — ele continuou. — Esse espaço nós normalmente usamos como depósito. Agora, quando o Jared e os rapazes voltarem, nós poderemos arrumar um lugar novo para você. Alguma coisa um pouco maior talvez? Que tenha uma cama? — ele sorriu de novo enquanto balançava a oferta em minha frente.
Eu esperei que ele reconsiderasse, dizer que estava brincando. Ao invés disso, seus olhos – da cor de calças de brim desbotadas – ficaram muito, muito gentis. Algo em sua expressão trouxe o nó de volta a minha garganta.
— Você não precisa voltar para o buraco, querida. A pior parte já passou.
Eu descobri que não podia duvidar da honestidade em seu rosto. Pela segunda vez em uma hora, coloquei minhas mãos no rosto e chorei.
Ele levantou e, meio sem jeito, afagou meus ombros. Ele parecia não ficar à vontade com lágrimas.
— Pronto, pronto — murmurou ele.
Eu me controlei mais rapidamente agora.
— Boa garota — disse, dando-me tapinhas outra vez. — Bom, nós teremos que ficar aqui até termos certeza que Jared realmente foi embora e pode mais nos pegar. — Ele sorriu de modo conspiratório. — Depois, nós vamos nos divertir um pouco.
Eu me lembrei que sua ideia de diversão geralmente envolvia confrontos armados.
Ele riu de minha expressão.
— Não se preocupe. Enquanto esperamos, você pode descansar. Eu aposto que mesmo esse colchonete fininho vai parecer um luxo para você.
Eu olhei do rosto dele para o colchonete no chão e depois de volta para ele.
— Vá em frente — disse. — Você está com a aparência de alguém que precisa dormir. Eu vou ficar de olhos nas coisas.
Comovida, uma nova umidade surgiu em meus olhos, eu afundei no colchonete e deitei minha cabeça no travesseiro. Era o paraíso, apesar de Jeb o chamar de fino. Eu me estiquei em todo o meu tamanho, estendendo os dedos dos pés e das mãos. Ouvi minhas juntas estalarem. Então me deixei amolecer no colchão. Parecia que ele estava me abraçando, apagando todos os pontos doloridos. Eu suspirei.
— Faz bem ver uma coisa dessas — Jeb murmurou. — É como uma coceira nas costas que você não consegue coçar, saber que alguém sob seu teto está sofrendo.
Ele se acomodou no chão a alguns centímetros de mim e começou a cantarolar baixinho. Eu estava dormindo antes dele terminar a primeira estrofe.
Quando acordei, eu sabia que havia dormido profundamente por muito tempo, mais do que jamais havia dormido desde que cheguei aqui. Nada de dores, nada de interrupções assustadoras. Eu teria me sentido excelente, se não fosse o fato de que acordar no travesseiro me lembrava de que Jared havia ido embora. O travesseiro ainda tinha o cheiro dele. E era um cheiro bom, nada parecido com o jeito que eu estava cheirando.
De volta a não mais que sonhos, Melanie disse desamparada.
Eu só lembrava do meu sonho vagamente, mas sabia que havia sido com Jared, como eu sempre sonhava quando dormia profundamente, a ponto de sonhar.
— Bom dia, filha — Jeb disse, parecendo animado.
Eu abri as pálpebras para olhar para ele. Ele ficara sentado contra a parede a noite toda? Ele não parecia cansado, mas eu me senti culpada por monopolizar as melhores acomodações.
— Os rapazes partiram há um tempão. — Ele disse entusiasmado. — Que tal uma turnê? — Ele acariciou a arma presa na cintura inconscientemente.
Meus olhos se arregalaram, olhando para ele com descrença. Uma turnê?
— Hey, não fique nervosinha. Ninguém vai te incomodar. E você eventualmente vai precisar encontrar os caminhos por aqui.
Ele ergueu a mão para me ajudar a levantar. Eu a peguei automaticamente. Minha cabeça girando enquanto eu tentava processar o que ele estava dizendo. Eu precisaria encontrar os caminhos por aqui? Por quê? E o que ele quis dizer com "eventualmente"? Por quanto tempo ele esperava que eu sobrevivesse?
Ele me ajudou a levantar e me guiou adiante. Eu havia esquecido como era me mover pelos túneis escuros com uma mão me guiando. Era tão fácil – andar assim quase não necessitava de concentração.
— Vejamos — Jeb murmurou. — Talvez a ala direita, arranjaremos um lugar decente para você. E então as cozinhas... — Ele continuou planejando sua turnê, continuando enquanto passávamos pela fissura estreita para o túnel claro que ia dar na câmara maior. Quando o som de vozes nos alcançou eu senti minha boca ficar seca. Jeb continuou falando comigo, não percebendo ou ignorando meu medo.
— Eu aposto que as cenouras estarão brotando hoje — ele dizia, enquanto me levava para a praça central. A luz me cegou, e eu não pude ver quem estava lá, mas eu podia dizer que seus olhos estavam em mim. O súbito silêncio foi sinistro como sempre.
— É — Jeb continuou. — Eu sempre acho tão bonito. O verde brotando é sempre um prazer de se ver.
Ele parou e apontou para eu olhar. Eu olhei naquela direção mas meus olhos demoraram a se ajustar. Demorou um momento, mas então eu vi do que ele estava falando. E eu também vi que havia cerca de quinze pessoas aqui hoje, todas me olhando de modo hostil. Mas eles estavam ocupados.
O amplo quadrado escuro que ficava no centro da caverna não estava mais escuro. Metade dele estava coberto de flocos verdes primaveris, como Jeb havia dito. Era bonito. E incrível.
Não era de admirar que ninguém pisasse naquele espaço. Era uma horta.
— Cenouras? — eu murmurei.
Ele respondeu no tom de voz normal.
— Só essa metade que está verde. A outra metade é espinafre. Deve brotar em alguns dias.
As pessoas no espaço voltaram ao trabalho, ainda me olhando de vez em quando, mas principalmente se concentrando no que estavam realizando. Agora era fácil entender o que eles faziam – entender os barris sobre rodas e as mangueiras – agora que eu reconheci a horta.
— Irrigação? — eu sussurrei novamente.
— Isso mesmo. Seca muito rápido nesse calor.
Eu assenti em concordância. Ainda era cedo, eu imaginava, mas eu já estava suando. O calor que emanava da luminosidade acima se espalhava pela caverna. Eu tentei examinar o teto novamente, mas era muito claro para encarar. Eu puxei a barra da camiseta de Jeb e apontei para o teto.
— Como vocês fazem?
Jeb sorriu, parecendo animado com a minha curiosidade.
— Do mesmo jeito que mágicos fazem – com espelhos, filha. Centenas deles. Demorei um tempão para colocá-los lá. É bom ter uma ajuda extra quando eles precisam de uma limpeza. Veja bem, só há quatro aberturas no teto para ter a luminosidade que eu queria. O que você acha?
Ele pôs os ombros eretos, orgulhoso.
— Brilhante — sussurrei. — Surpreendente.
Jeb sorriu e concordou, gostando da minha reação.
— Vamos continuar. — Ele sugeriu. — Há muito o que fazer hoje.
Ele me guiou por um túnel novo, um amplo tubo formado naturalmente que corria a partir da caverna grande. Era um território novo. Meus músculos se retesaram, eu me movia com as pernas rígidas, sem dobrar os joelhos.
Jeb deu uns tapinhas em minha mão, mas fora isso, ignorava o meu nervosismo.
— Aqui ficam principalmente os dormitórios e depósitos. Os tubos são mais próximos da superfície aqui, então é melhor para obter alguma luz.
Ele apontou para uma estreita rachadura brilhante no teto sobre nossas cabeças. A tenda projetava um ponto de luz branca do tamanho da mão de um humano no chão.
Chegamos a uma bifurcação – não realmente uma bifurcação, pois havia braços demais. Era um entrocamento de corredores que mais parecia um polvo.
— Terceira a partir da esquerda. — Ele disse, e olhou para mim com expectativa.
— Terceira a partir da esquerda? — eu repeti.
— Isso mesmo. Não esqueça. É fácil se perder por aqui, e isso não seria bom para você. As pessoas aqui a esfaqueariam com a mesma facilidade com que indicariam a direção correta.
Eu estremeci.
— Obrigada — murmurei com certo sarcasmo.
Ele riu como se minha resposta o divertisse.
— Não há motivo para se ignorar a verdade. Dizer em voz alta não piora nada.
Não a melhora, tampouco, mas eu não disse isso. Eu estava começando a gostar daquilo um pouquinho. Era bom ter alguém com quem conversar. Jeb era, se nada mais, boa companhia.
— Um, dois, três — ele contou, e então me levou pelo terceiro corredor a partir da esquerda.
Nós passamos por várias entradas redondas cobertas por variadas portas improvisadas. Algumas eram cobertas com tecido, outras com papelão emendado. Um buraco tinha duas portas de verdade – uma madeira de vermelha e a outra de metal prateado – apoiadas sobre a entrada.
— Sete — Jeb contou, e parou diante de uma entrada circular um pouco pequena, o ponto mais alto apenas alguns centímetros acima da minha cabeça. Esse cômodo protegia a privacidade com um biombo verde-jade – do tipo que se poderia separar ambientes em uma sala elegante. Havia uma estampa de flor de cerejeira atravessando a seda. — Este é o único lugar em que consegui pensar por enquanto. O único que é adequado para ser habitado por um humano. Vai continuar vazio por algumas semanas, e pensaremos em algo melhor quando for preciso.
Ele dobrou o biombo para o lado, e uma luz mais brilhante que a do corredor nos iluminou. O quarto revelado me deu uma estranha sensação de vertigem – possivelmente por ser muito mais alto do que largo. Lá dentro a sensação era de se estar em uma torre ou em um silo, não que eu já houvesse estado em algum desses lugares, mas foram essas as comparações que Melanie fez.
O teto, duas vezes mais alto que a largura do lugar, era cheiro de rachaduras. Como trepadeiras de luz, as frestas faziam um círculo e quase se encontravam. Pareceu-me perigoso, instável. Mas Jeb não demonstrava medo de desabamento e me acompanhava para dentro.
Havia um colchão de casal no chão, com cerca de um metro de espaço sobrando de cada lado dele. Os dois travesseiros e os dois cobertores torcidos em duas pilhas de cada lado do
colchão fazia parecer que o quarto era ocupado por duas pessoas. Uma vara grossa de madeira estava apoiada horizontalmente na parede oposta à altura dos ombros, as pontas encaixadas em buracos na parede. Sobre ela estavam penduradas algumas camisetas e dois pares de jeans. Um banquinho de madeira estava encostado na parede ao lado do cabide improvisado, e no chão ao lado dele havia uma pilha de livros usados.
— Quem? — eu perguntei a Jeb, sussurrando novamente. Esse lugar pertencia tão obviamente a alguém, que eu não sentia mais que estávamos sozinhos.
— Um dos rapazes na excursão. Eles estarão fora por um bom tempo. Nós vamos encontrar alguma coisa até lá.
Eu não gostei – não do quarto, mas da ideia de ficar nele. A presença do dono era forte apesar dos poucos pertences. Independente de quem fosse, não ia ficar feliz de me ter
ali. Ele odiaria.
Jeb pareceu ler minha mente – ou talvez a expressão em meu rosto fosse tão clara que ele nem precisou.
— Opa, calma. — Ele disse. — Não se preocupe com isso. Essa é a minhacasa, e esse é só um dos meus quartos de hóspedes. Eu digo quem é e quem não é hospede aqui. Nesse momento, você é minha hospede, e eu estou te oferecendo este quarto.
Continuei sem gostar, mas não ia chatear Jeb. Prometi a mim mesma que não ia mexer em nada ali, mesmo se isso significasse dormir no chão.
— Bem, vamos continuar. Não se esqueça: terceira corredor a partir da esquerda, sétima porta.
— Biombo verde — acrescentei.
— Exatamente.
Jeb me levou de volta pelo grande espaço da horta, circundando o perímetro até o outro lado, através do maior túnel de saída. Quando passamos pelos irrigadores, eles se enrijeceram e se viraram, com medo de me ter pelas costas.
Esse túnel era bem iluminado, os buracos por onde a luz entrava eram muito regulares para serem naturais.
— Nós estamos ainda mais perto da superfície agora. Vai ficando mais seco, mas mais quente também.
Eu percebi isso quase que imediatamente. Ao invés de cozidos no vapor agora estávamos sendo assados. O ar era menos abafado mofado. Eu podia sentir o gosto da poeira do deserto. Havia mais vozes à frente. Tentei me preparar para a reação inevitável. Se Jeb insistia em me tratar como... como uma humana, como uma hóspede bem vinda, eu teria que me acostumar. Não havia motivo para eu ficar nervosa toda vez. Meu estômago começou a se contorcer infeliz de todo modo.
— Por aqui é a cozinha — Jeb me disse.
A princípio parecia que estávamos em outro túnel, um lotado de pessoas. Eu me pressionei contra a parede tentando manter distância. A cozinha era um longo corredor com um teto alto, mais alto do que largo, como o meu novo quarto. A luz era forte e quente. Ao invés de pequenos buracos nas rochas, esse lugar continha enormes buracos abertos.
— Não dá para cozinhar durante o dia, é claro. A fumaça, sabe. Então nós meio que mantemos isso aqui como o refeitório até anoitecer.
Toda a conversação parou abruptamente, então as palavras de Jeb soaram claras para todo mundo ouvir. Eu tentei me esconder atrás dele, mas ele continuava a andar para frente.
Nós interrompemos o café da manhã, ou talvez o almoço.
Os humanos – cerca de uns vinte – estavam muito próximos aqui. Não como na caverna grande. Eu queria manter meus olhos no chão, mas não conseguia parar de examiinar o cômodo. Só por precaução. Eu podia sentir meu corpo se tencionar, querendo correr, mas para onde eu correria eu não fazia ideia.
Dos dois lados do corredor havia pilhas compridas de rochas. Na maior parte eram pedras vulcânicas roxas, com alguma substância de coloração mais clara – cimento? – entre elas, de modo a criar costuras, as mantendo juntas. No topo dessas pilhas havia diferentes pedras, de cor marrom e planas. Estavam coladas com a coisa cinza também. O produto final era uma superfície relativamente reta, como um balcão ou uma mesa. Era óbvio que tinham ambas as utilidades.
Os humanos sentavam em algumas, apoiavam-se em outras. Eu reconheci o pão que eles seguravam paralisados em cima da mesa e no meio caminho para a boca, congelados em descrença ao ver Jeb e sua turnê de uma pessoa. Algumas delas eram familiares. Sharon, Maggie, e o doutor eram o grupo mais próximo de mim. A prima e a tia de Melanie encaravam Jeb furiosamente – eu tinha a estranha convicção que eu podia ter ficado de cabeça para baixo e cantado as canções da memória de Melanie a plenos pulmões e elas ainda assim não olhariam para mim – mas o doutor me olhava com curiosidade franca e quase amigável, o que me fez gelar até os ossos.
No fundo do cômodo-corredor, eu reconheci o homem alto de cabelos negros e meu coração disparou. Eu achava que Jared tinha levado os irmãos hostis com ele para tornar o trabalho de Jeb de me manter viva mais fácil. Pelo menos era o mais novo, Ian, que havia, tarde demais, desenvolvido uma consciência – o que não era tão ruim quanto deixar Kyle. No entanto, essa consolação não diminuiu meu ritmo cardíaco.
— Todos estão satisfeitos tão rápido? — Jeb perguntou alto e sarcasticamente.
— Perdemos o apetite — Maggie murmurou.
— E quanto a você — ele disse, virando para mim — está com fome?
Um baixo grunhido passou por nosso auditório.
Eu sacudi a cabeça negativamente – um gesto curto mas claro. Eu nem ao menos sabia se estava com fome, mas eu sabia que eu não conseguiria comer em frente a essa multidão que adoraria me devorar.
— Bem, eu estou. — Ele resmungou.
Ele foi até o corredor entre os balcões, mas eu não segui. Eu não suportava a ideia de estar ao alcance dos outros. Eu fiquei pressionada contra a parede onde estava. Só Maggie e Sharon observaram ele ir até uma grande vasilha de plástico e pegar um pão. Todos os outros observavam a mim. Eu tinha certeza de que se eu movesse um milímetro eles teriam se lançado sobre mim. Eu tentei não respirar.
— Bem, vamos andando — Jeb sugeriu com a boca cheia enquanto caminhava de volta para mim. — Ninguém aqui parece poder se concentrar no almoço. São facilmente distraídos esses aqui.
Eu observava os humanos esperando movimentos repentinos, não realmente vendo seus rostos agora que já havia reconhecido alguns. Assim, foi só quando Jamie se levantou que eu notei que ele estava ali. Ele era uma cabeça menor que os adultos ao seu lado, mas mais alto que duas crianças menores que estavam no balcão do outro lado. Ele pulou rapidamente do seu lugar e seguiu Jeb.
Sua expressão era fechada, tensa, como se ele estivesse tentando resolver uma equação difícil. Ele me examinou com os olhos apertados enquanto se aproximava de Jeb. Agora eu não era mais a única que segurava a respiração. Os olhares dos outros saltavam em vaivém entre mim e o irmão de Melanie.
Oh, Jamie, Melanie pensou. Ela odiou a expressão triste e adulta em seu rosto, e eu provavelmente odiava ainda mais. Ela não se sentia tão culpada como eu por tê-la colocado lá.
Se ao menos nós pudéssemos mudá-la, ela suspirou.
É tarde demais. O que nós poderíamos fazer para arrumar as coisas agora?
Era só uma pergunta retórica, mas eu me peguei tentando respondê-la, e Melanie também. Não encontramos nada no breve segundo que procuramos, não havia nada a encontrar, eu tinha certeza. Mas nós duas sabíamos que continuaríamos procurando quando terminássemos essa turnê idiota e tivéssemos uma chance de pensar. Se nós vivêssemos tanto tempo.
— O que é, garoto? — Jeb perguntou sem olhar para ele.
— Só me perguntando o que você está fazendo — Jamie respondeu, sua voz tentando soar neutra, mas falhando.
Jeb parou quando chegou até mim e se virou para olhar Jamie.
— Eu a estou levando para dar uma volta. Como eu sempre faço para os recém-chegados.
Houve outro murmúrio baixo.
— Posso ir? — Jamie perguntou.
Eu vi Sharon balançar a cabeça fervorosamente, sua expressão revoltada. Jeb a ignorou.
— A mim não me incomoda... Se você se comportar.
Jamie deu de ombros.
— Sem problemas.
Eu tive que me mover – cruzar os dedos a minha frente. Eu queria tanto tirar o cabelo bagunçado de Jamie dos seus olhos e o abraçar forte. Algo que certamente não pegaria bem.
— Vamos — Jeb disse para nós dois.
Ele nos levou de volta por onde havíamos vindo. Jeb andava de um dos meus lados e Jamie do outro. Jamie parecia tentar olhar para o chão, mas ele ficava me dando umas espiadas – assim como eu não conseguia evitar de espiá-lo. Sempre que nossos olhares se encontravam nós olhávamos para longe imediatamente.
Havíamos percorrido quase a metade do grande corredor quando ouvi passos rápidos atrás de nós. Minha reação foi instantânea e impensada. Eu pulei para o lado do corredor, arrastando Jamie para o lado, de modo a ficar entre ele e quem quer que estivesse vindo para me pegar.
— Ei! — Ele protestou, mas não afastou o meu braço.
Jeb foi tão rápido quanto eu. A arma saiu da sua cintura com velocidade incrível. Ian e o doutor ergueram as mãos sobre as cabeças.
— Nós podemos nos comportar também — o doutor disse.
Era difícil acreditar que esse homem de fala macia e expressão amigável era o torturador local; ele era ainda mais aterrorizante para mim devido o exterior benigno. Uma pessoa ficaria vigilante em uma noite escura e sinistra, ficaria pronta. Mas em um dia claro e luminoso? Como ela saberia que tinha que fugir se não via nenhum lugar para o perigo esconder-se?
Jeb encarou Ian, o cano da arma acompanhando o seu olhar.
— Eu não vim criar problemas, Jeb. Eu me comportarei tão bem quanto Doc.
— Ótimo — Jeb disse curtamente, guardando a arma. — Só não me teste. Eu não atiro em ninguém há muito tempo, e eu meio que sinto falta da emoção.
Eu engasguei. Todo mundo se virou e viu minha expressão horrorizada. O doutos foi o primeiro a rir, mas mesmo Jamie se juntou a ele logo depois.
— É uma piada — Jamie sussurrou para mim. Sua mão afastou-se de seu corpo quase que para pegar a minha, mas ele rapidamente a enfiou no bolso dos shorts. Eu deixei meu braço cair também.
— Bem o dia está passando — Jeb disse, ainda meio aborrecido. — Vocês vão ter que se apressar, porque eu não vou esperar. — Ele começou a andar antes mesmo de terminar de falar.
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