terça-feira, março 18, 2014

Batizada


Eu fiquei bem perto de Jamie, ligeiramente à frente. Queria ficar o mais longe possível dos dois homens que nos seguiam. Jamie andava em algum lugar no meio, não muito seguro de onde ele queria estar.
Eu não fui capaz de me concentrar direito no resto da excursão. Minha atenção não estava focada no segundo conjunto de hortas por onde ele me levou – uma com milho crescendo à altura da cintura, no calor escaldante dos espelhos brilhantes – nem na caverna de teto baixo chamada "sala de recreação". Essa era totalmente negra, e bem no fundo, subterrânea, mas ele me disse que eles traziam luzes quando eles queriam jogar. A palavra jogo não fazia sentido para mim, não aqui nesse grupo de sobreviventes raivosos e tensos, mas eu não pedi explicação. Havia mais água aqui, uma fonte minúscula e sulfurosa que Jeb comentou que às vezes eles usavam como uma segunda latrina, pois a água não era boa para beber.
Minha atenção estava dividida entre os homens andando atrás de nós e o garoto ao meu lado. Ian e o doutor realmente se comportaram surpreendentemente bem. Ninguém me atacou por trás – e eu imaginava se meus olhos podiam acabar na parte de trás da cabeça por causa do esforço para ver se eles estavam prestes a fazê-lo. Os dois seguiram sossegadamente, as vezes falando entre si com vozes baixas. Seus comentários giravam em torno de nomes que eu conhecia e apelidos para lugares e coisas que podiam ou não estar nas cavernas. Eu não entendia nada.
Jamie não disse nada, mas olhava muito para mim. Quando eu não estava tentando manter os olhos nos homens, eu o observava também. Isso deixava pouco tempo para admirar as coisas que Jeb me mostrava, mas ele não parecia notar minhas preocupações.
Alguns dos túneis eram muito longos – as distâncias escondidas em baixo da terra eram impressionantes. Às vezes completamente escuros, mas Jeb e os outros nunca nem pausaram, claramente familiares com o caminho, e acostumados a viajar na escuridão. Era mais difícil para mim agora do que quando Jeb e eu estávamos sozinhos. No escuro qualquer barulho parecia com um ataque. Até a conversa casual de Ian com o doutor parecia um disfarce para um movimento nefasto.
Paranoica, Melanie comentou.
Se for esse o preço para nos manter viva, que seja.
Eu queria que você prestasse mais atenção no tio Jeb, isso é fascinante.
Faça o que você quiser com o seu tempo.
Eu só posso ver e ouvir o que você vê e ouve, Peregrina, ela me disse. Então mudou de assunto. Jamie parece bem, não acha? Não está tão infeliz.
Ele parece... cauteloso.
Depois do maior percurso até aqui na escuridão úmida, estávamos quase chegando a um pouco de luz.
— Aqui é parte mais ao sul do sistema de túneis subterrâneos — Jeb explicava enquanto andava. — Não é muito conveniente, mas tem boa luz o dia todo. Por isso nós fizemos aqui a ala hospitalar. É aqui que Doc trabalha.
No momento em que Jeb anunciou onde estávamos, meu corpo congelou e minha juntas travaram; eu estagnei, meus pés plantados no chão. Meus olhos, abertos em terror, iam do rosto de Jeb para o rosto do doutor.
Tudo havia sido um ardil, então? Esperar para o teimoso do Jared sair para nos trazer até aqui? Eu não conseguia acreditar que eu havia andado até aqui por vontade própria. Como era idiota!
Melanie estava tão pasma quanto eu. Também podíamos ter nos embrulhado para presente para eles!
Eles me encararam de volta: Jeb sem expressão; o doutor parecendo tão surpreso quanto eu, mas não apavorado.
Eu teria me afastado violentamente do toque da mão que senti em meu braço, se a mão não fosse tão familiar.
— Calma — disse Jamie, a mão pousada hesitantemente logo abaixo do meu cotovelo. — Calma, está tudo bem. É verdade. Não é mesmo tio Jeb? — Jamie olhou para o velho. — Está tudo certo, não está?
— Claro que sim. — Os olhos azul-claros desbotados de Jeb estavam calmos e claros. — Só estou mostrando a minha casa a vocês, garoto, só isso.
— Do que vocês estão falando? — Ian resmungou atrás de nós, parecendo irritado por não estar entendendo.
— Você achou que nós a trouxemos aqui de propósito, para Doc? — Jamie disse para mim, ao invés de responder a pergunta de Ian. — Nós não faríamos isso. Nós prometemos a Jared.
Eu encarei seu rosto determinado, querendo acreditar.
— Oh! — Ian disse ao compreender, e então riu. — Não era um plano ruim. Estou surpreso de não ter pensado nisso.
Jamie olhou feio para o grandalhão e deu um tapinha confortador em meu braço antes de remover a mão.
— Não fique assustada. — Ele disse.
Jeb continuou de onde ele havia parado.
— Então, essa grande câmara aqui tem algumas macas no caso de alguém se machucar ou ficar doente. Nós temos tido sorte nesse sentido. Doc não tem muito trabalho na emergência. — Jeb deu um sorriso largo para mim. — O seu pessoal jogou todos os nossos medicamentos fora quando tomaram conta das coisas. É difícil arranjar as coisas que precisamos.
Eu acenei levemente; o movimento distraído, nem mesmo prestei atenção ao movimento. Ainda estava me recuperando, tentando recolher os pedaços. O salão parecia bastante inofensivo, como se fosse usado apenas para curar as pessoas, mas fez meu estômago se revirar e contrair.
— O que você sabe sobre remédios alienígenas? — o doutor perguntou de repente, sua cabeça inclinada para o lado. Ele observava o meu rosto com expectativa curiosa.
Eu o encarei sem palavras.
— Ah, você pode falar com o Doc — Jeb me encorajou. — Ele é um cara bem decente, todas as coisas consideradas.
Eu balancei a cabeça uma vez. Eu queria responder a pergunta do doutor, dizer a ele que eu não sabia nada, mas eles me entenderam mal.
— Ela não vai revelar nenhum segredo comercial — Ian disse acidamente. — Vai, querida?
— Modos, Ian! — Jeb gritou.
— É um segredo? — Jamie perguntou, cauteloso, mas com evidente curiosidade.
Eu balancei a cabeça de novo. Todos me olharam confusos. Doc balançou a cabeça também, lentamente, decepcionado.
Eu respirei fundo, então suspirei.
— Eu não sou uma Curandeira. Eu não sei como eles... os medicamentos... funcionam. Só sei que de fato funcionam... eles curam, não tratam só dos sintomas. Não é tentativa e erro. É claro que os remédios humanos foram descartados.
Todos os quatro me encaravam sem expressão. Primeiro eles ficaram surpresos quando eu não respondi, e agora estavam surpresos por que eu respondi. Humanos eram impossíveis de agradar.
— Sua espécie não parece ter mudado muito as coisas que deixamos para trás — Jeb disse pensativamente após um momento. — Só coisas da medicina, e as espaçonaves ao invés de aviões. Fora isso, as coisas parecem ser as mesmas de antes... na superfície.
— Nós viemos conhecer, não mudar — sussurrei. — A saúde tem prioridade sobre a filosofia, no entanto.
Eu fechei minha boca com um som audível. Eu tinha que ser cuidadosa. Os humanos dificilmente quereriam umas lições sobre a filosofia das almas. Quem sabia o que os iria irritar? Ou o que os fariam perder a frágil paciência?
Jeb assentiu, ainda pensativo, e então nos levou para frente. Ele não estava mais tão entusiasmado enquanto continuava a turnê pelas cavernas conectadas da ala médica, não estava mais tão envolvido na apresentação. Quando nós viramos e voltamos pelo corredor escuro ele parou de falar completamente. Foi uma caminhada longa e silenciosa. Eu pensei no que eu disse, procurando por algo que pudesse tê-lo ofendido.
Jeb era muito estranho para eu entendê-lo. Os outros humanos, hostis e suspeitos pelo menos faziam sentido. Como eu podia esperar entender Jeb?
O passeio acabou abruptamente quando nós entramos na enorme caverna onde os brotos de cenoura faziam um tapete verde no chão escuro.
— O show acabou — Jeb disse amuado, olhando para Ian e o doutor. — Vão fazer algo útil.
Ian revirou os olhos para o médico, mas ambos se viraram com tranquilidade e foram em direção à saída maior – a que levava até a cozinha. Jamie hesitou olhando eles irem, mas não se moveu.
— Você vem comigo — Jeb disse-lhe, ligeiramente menos mau humorado. — Eu tenho um serviço para você.
— Okay — Jamie disse. Eu podia ver que o agradava ter sido escolhido.
Jamie caminhava ao meu lado novamente enquanto íamos em direção ao dormitório. Eu me surpreendi ao escolhermos o terceiro corredor a partir da esquerda, que Jamie parecesse saber exatamente onde estávamos indo. Jeb estava ligeiramente atrás de nós, mas Jamie parou imediatamente em frente ao biombo verde que cobria a entrada do sétimo quarto. Ele afastou o biombo, abrindo passagem para mim, mas ficou no corredor.
— Tudo bem se você ficar aí quietinha um pouco? — Jeb me perguntou.
Eu acenei, agradecida pela ideia de poder me esconder de novo. Eu entrei pela abertura e então dei alguns passos, não muito certa do que fazer. Melanie se lembrou que haviam livros aqui, mas eu jurei não tocar em nada.
— Eu tenho coisas para fazer garoto — Jeb disse para Jamie. — A comida não vai ficar pronta sozinha, sabe. Topa um serviço de guarda?
— Claro — Jamie disse com um grande sorriso. Seu magro peito inflou ao respirar fundo.
Meus olhos se arregalaram ao ver o rifle de Jeb ir para as mãos ansiosas de Jamie.
— Você é louco? — Eu gritei. Minha voz tão alta que eu não reconheci. Parecia que eu estava sussurrando há séculos.
Jeb e Jamie olhavam para mim, chocados. Eu estava no corredor com eles em um segundo. Eu quase peguei a arma das mãos do garoto. O que me impediu não foi o fato de que esse movimento provavelmente me mataria. O que me parou foi o fato de eu ser muito mais fraca do que humanos nesse sentido, mesmo para salvar o garoto eu não conseguia me fazer tocar na arma. Ao invés disso eu me virei para Jeb.
— No que você está pensando? Dar a arma para uma criança? Ele podia se matar!
— Jamie já passou por coisas o suficiente para ser chamado de homem, eu acho. Ele sabe como lidar com uma arma.
Os ombros de Jamie se aprumaram ao ouvir as palavras de Jeb e ele segurou a arma mais firme no peito.
Eu me embasbaquei ante a estupidez de Jeb.
— E se eles vierem me pegar com ele aqui? Você pensou que isso pode acontecer? Isso não é uma brincadeira. Eles irão machucá-lo para me pegar!
Jeb permaneceu calmo.
— Não acho que eles irão aparecer hoje. Aposto isso.
— Bem, eu não apostaria!
Eu estava gritando de novo. Minha voz ecoava pelas paredes do túnel – alguém com certeza iria escutar, mas eu não me importava. Melhor que eles viessem enquanto Jeb ainda estava aqui.
— Se você tem tanta certeza, então me deixe aqui sozinha. Deixe o que tiver que acontecer aconteça. Mas não coloque Jamie em perigo!
— É com a criança que você está preocupada, ou só está com medo de ele virar a arma contra você? — Jeb perguntou, sua voz quase indiferente.
Eu pisquei, minha raiva esquecida. Esse pensamento nem me ocorreu. Eu olhei abobada para Jamie, encontrei seu olhar surpreso, e vi que a ideia era chocante para ele também. Eu levei um minuto para recuperar minha linha de pensamento, e quando a recuperei, a expressão de Jeb havia mudado.Seus olhos estavam intensos, sua boca franzida – como se ele estivesse prestes a encaixar a última peça em um quebra-cabeça frustrante.
— Dê a arma para Ian ou qualquer um dos outros, eu não ligo. — Eu disse, minha voz lenta e equilibrada. — Só deixe o garoto fora disso.
O repentino e enorme sorriso no rosto de Jeb me lembrou, estranhamente, de um gato dando o bote.
— É a minha casa criança, e eu vou fazer o que eu quero. Eu sempre faço.
Jeb virou de costas e sumiu pelo corredor, assobiando. Eu o observei ir, minha boca permanecia aberta. Quando ele desapareceu, me virei para Jamie, que me observava com uma expressão emburrada.
— Eu não sou criança. — Ele murmurou em um tom mais grave que o normal, seu queixo erguido de modo desafiador. — Então... você devia... devia entrar no quarto.
A ordem não foi severa, mas não havia mais nada a fazer. Eu havia perdido a discussão por uma grande margem.
Sentei com minhas costas encostadas na rocha que formava um dos lados da abertura da caverna – um lugar em que eu podia me esconder atrás do anteparo meio aberto e ainda assim observar Jamie. Pus os braços em voltas das pernas e comecei a fazer o que eu sabia que faria enquanto essa situação insana continuasse: Eu me preocupei.
Eu também apurei meus olhos e ouvidos para perceber qualquer tipo de aproximação, para me preparar. Não importava o que Jeb dissera, eu impediria que qualquer um desafiasse a guarda de Jamie. Eu me entregaria antes que pedissem.
Sim, Melanie concordou sucintamente.
Jamie ficou parado no corredor por alguns minutos, a arma firme em suas mãos, não muito seguro de como fazer o seu trabalho. Ele começou a caminhar de um lado para o outro na frente do biombo, mas pareceu se sentir meio bobo depois de alguns passos. Então, se sentou no chão ao lado da abertura. A arma eventualmente se acomodou em suas pernas cruzadas, e seu queixo em suas mãos. Após um longo tempo, ele suspirou. Montar guarda não era tão excitante quanto ele esperava.
Eu não cansava de olhar para ele. Após cerca de uma ou duas horas, ele começou a olhar para mim novamente com movimentos rápidos. Seus lábios se abriram algumas vezes, mas então ele pensava melhor no que quer que ele estivesse prestes a dizer.
Eu apoiei meu queixo nos joelhos e esperei enquanto ele lutava consigo mesmo. Minha paciência foi recompensada.
— O planeta de onde você veio antes de estar dentro de Melanie — ele finalmente disse. — Como era lá? Era parecido com aqui?
A direção de seus pensamentos me apanhou desprevenida.
— Não — eu disse. Só com Jamie aqui parecia natural falar normalmente ao invés de sussurrar. — Não, era muito diferente.
— Você pode dizer como era lá? — ele perguntou, inclinando a cabeça para o lado do jeito que ele fazia quando ele estava muito interessado em uma das histórias de ninar de Melanie.
Então eu contei a ele.
Eu disse tudo sobre o planeta inundado das Algas Visionárias. Eu contei a ele sobre os dois sóis, a órbita elíptica, as águas cinzentas, a permanência imóvel das raízes, a incrível visão de milhares de olhos, as infinitas conversas silenciosas que todos podiam ouvir.
Ele ouviu com os olhos arregalados e um sorriso fascinado.
— Há mais lugares? — ele me perguntou quando fiquei em silêncio, tentando pensar em alguma coisa que eu houvesse esquecido. — As "Algas Visionárias" — ele riu uma vez à ideia — são os únicos outros alienígenas?
Eu ri.
— Dificilmente. É como achar que eu sou a única alma nesse mundo.
— Me conta.
Então eu falei sobre os Morcegos no Mundo Cantor – como era viver numa cegueira musical, como era voar. Eu contei a ele sobre o Planeta das Brumas – como era ter espessa pelagem branca e quatro corações para se manter aquecido, como evitar as bestas de garras afiadas.
Comecei a falar sobre o Planeta das Flores, sobre a cor e a luz, mas ele me interrompeu com uma nova pergunta.
— E os carinhas verdes, com a cabeça triangular e grandes olhos negros? Os de Roswell e tal. Eram vocês?
— Não, não éramos.
— Era tudo mentira?
— Eu não sei – talvez sim, talvez não. É um universo grande, e há muitas companhias lá fora.
— Como vocês vieram aqui então? Se vocês não eram os homenzinhos verdes, quem são vocês? Vocês têm de ter corpos para se locomover, certo?
— Certo. — Eu concordei surpresa, com o entendimento dele das coisas. Eu não devia ter me surpreendido – eu sabia o quão esperto ele era, sua mente era como uma esponja sedenta. — No início, nós usamos nossas identidades de Aranhas.
— Aranhas?
Eu contei a ele sobre as Aranhas – uma espécie fascinante. Brilhantes, as mais incríveis mentes que nós já nos deparamos, e cada Aranha tinha três. Três cérebros, um em cada segmento do corpo. Ainda não encontramos um problema que elas não pudessem solucionar. E, no entanto, elas eram tão friamente analíticas que raramente surgiam com um problema que tivessem tido curiosidade o bastante para resolverem por si mesmas. De todos os nossos hospedeiros, foram as Aranhas que nos melhor receberam. Elas mal notaram a diferença, e quando perceberam, pareciam apreciar a direção que tomávamos. As poucas almas que haviam caminhado na superfície do planeta das Aranhas antes da implantação nos disseram que era frio e cinza – não era de admirar que as Aranhas só enxergassem em preto e branco e só tivessem um senso de temperatura limitado. Elas viviam pouco, mas os filhos nasciam com todo o conhecimento que os pais possuíam, então nada era perdido.
Vivi com elas um curto período de vida e então parti sem desejo de voltar. A clareza extraordinária de meus pensamentos, as respostas fáceis que surgiam a qualquer pergunta sem esforço, a marcha e dança dos números não eram substitutos das emoções e das cores, as quais eu mal reconhecia naqueles corpos. Eu imaginava como qualquer alma podia ficar feliz lá, mas o planeta já era auto-suficiente há milhares de anos terrestres. Só continuava aberto para receber almas porque as Aranhas se reproduzem muito rapidamente – grandes sacos de ovos.
Eu comecei a contar para Jamie como a ofensiva havia sido lançada aqui. As Aranhas foram nossas melhores engenheiras – as espaçonaves construídas por elas viajavam silenciosamente e eram indetectáveis através das estrelas. Os corpos das Aranhas eram quase tão úteis quanto suas mentes: quatro longas pernas para cada um dos três segmentos – razão pela qual elas ganharam esse apelido aqui na Terra – e a mão de doze dedos em cada perna. Esses dedos com seis juntas eram longos, finos e fortes, capazes dos mais delicados procedimentos. Pequenas e escuras, mas com quase a mesma massa de uma vaca, as Aranhas não tiveram problemas com as primeiras inserções. Eram mais fortes que os humanos, mais inteligentes também, e estavam preparadas, o que os humanos não estavam...
Eu parei abruptamente no meio da sentença, quando vi o brilho cristalino na bochecha de Jamie. Uma grande gota de água salgada escorria lentamente pela face mais perto de mim.
Idiota, Melanie me reprovou. Você não pensou o quanto essa história significaria para ele?
E VOCÊ não pensou em me avisar antes?
Ela não respondeu. Sem dúvida ela havia ficado tão envolvida no relato da história quanto eu.
— Jamie — murmurei. Minha voz estava angustiada. A visão de sua lágrima havia causado uma coisa estranha na minha garganta. — Jamie, eu sinto muito. Eu não pensei.
Jamie sacudiu a cabeça.
— Tudo bem. Eu perguntei. Eu queria saber como tinha acontecido. — Sua voz estava áspera, tentando esconder a dor.
Foi instintivo, o desejo de me inclinar e enxugar a lágrima. Eu tentei a princípio ignorá-lo, eu não era a Melanie. Mas a lágrima ficou ali, imóvel, como se nunca fosse cair. Os olhos de Jamie fixos na parede branca, e seus lábios trêmulos.
Ele não estava longe de mim. Eu estiquei a mão e passei o dedo na bochecha, a lágrima espalhou na pele e desapareceu. Agindo por instinto novamente, eu deixei minha mão na bochecha quente, acariciando seu rosto.
Por um curto segundo, ele fingiu me ignorar. Então cambaleou na minha direção, seus olhos fechados, seus braços me alcançando. Ele se encolheu ao meu lado, sua bochecha abrigada em meu ombro, onde antes se encaixava melhor, e chorou.
Essas não eram lágrimas de uma criança e isso as tornava mais profundas – o fato de ele chorar na minha frente tornou-as mais sagradas e dolorosas. Aquele era o choro de um homem no funeral de toda sua família.
Meus braços o envolveram, não se encaixando tão bem quanto antes, e eu chorei também.
— Me desculpe. — Eu ficava repetindo. Com essas palavras, eu me desculpava por tudo. Por termos encontrado esse planeta. Por o termos escolhido. Por eu ter sido colocada no corpo da irmã dele. Por tê-la trazido de volta e machucado ele novamente. Por ter feito ele chorar com minhas histórias insensíveis.
Eu não o soltei mesmo quando sua angústia diminuiu, eu não estava com pressa de deixá-lo. Parecia que o meu corpo estava faminto por isso desde o início, mas eu nunca havia entendido a fome. O laço misterioso entre mãe e filho – tão forte nesse planeta – não era mais um mistério para mim. Não havia laço maior que aquele que exigia sua vida pela vida de outro. Eu havia entendido isso antes; o não tinha entendido era o porquê. Agora eu sabia porque uma mãe daria sua vida pela de sua criança, e esse conhecimento mudaria para sempre a forma como eu via o universo.
— Eu tenho certeza que te ensinei melhor do que isso, criança.
Nós nos separamos com um pulo. Jamie se levantou, mas eu me enrolei mais ainda, me pressionando contra a parede.
Jeb se abaixou e pegou a arma que nós dois havíamos esquecido no chão.
— Você tem que cuidar de uma arma melhor do que isso Jamie. — Seu tom era muito afável, o que suavizou a critica. Ele se esticou para bagunçar o cabelo de Jamie.
Jamie se esquivou da mão de Jeb, seu rosto vermelho de humilhação.
— Desculpe — ele murmurou, e se virou como se para fugir. Ele parou após um passo, no entanto, e girou para olhar para mim.
— Eu não sei o seu nome — ele disse.
— Eles me chamam de Peregrina — sussurrei.
— Peregrina?
Confirmei com a cabeça.
Ele acenou também e então se afastou apressado. A sua nuca ainda estava vermelha.
Quando ele se foi, Jeb sentou-se onde Jamie havia sentado, e, como Jamie, ele colocou a arma no colo.
— Nome bem interessante esse seu. — Ele me disse. Ele parecia estar de volta ao humor falante. — Talvez algum dia você me dirá como o conseguiu. Aposto que tem uma boa história. Mas é meio que comprido, não acha? Peregrina?
Eu o encarei.
— Se importa se eu te chamar de Peg? Flui melhor.
Dessa vez ele esperou por uma resposta. Finalmente eu dei de ombros. Não me importava se ele me chamasse de ‘criança’, ‘garota’ ou algum outro apelido humano estranho. Eu acreditava que a intenção era bondosa.
— Okay, então Peg. — Ele sorriu, feliz pela sua invenção. — É legal me entender com você. Me faz sentir como se fôssemos velhos amigos.
Ele deu aquele sorriso enorme de abrir o rosto, e eu não pude evitar de sorrir de volta, apesar de meu sorriso ser mais pesaroso que feliz. Era para ele ser, supostamente, meu inimigo. Ele provavelmente era louco. E ele era meu amigo. Não que ele não fosse me matar se as coisas chegassem a esse ponto, mas ele não ia gostar. Com humanos, o que mais pode se esperar de um amigo?

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