terça-feira, março 18, 2014
Cansada
Jeb colocou as mãos atrás da cabeça e olhou para o teto escuro, sua expressão pensativa. Seu ânimo conversador ainda não tinha passado.
— Eu andei pensando muito sobre como é esse negócio... se ser apanhado. Vi acontecer mais de uma vez, cheguei perto algumas vezes eu mesmo. Como seria, eu me pergunto. Será que dói ter alguém enfiado na sua cabeça? Eu vi fazerem, sabia?
Meus olhos se arregalaram com surpresa, mas ele não estava olhando para mim.
— Parece que vocês usam algum tipo de anestesia, mas isso é um chute. Ninguém estava gritando em agonia nem nada, então não devia ser tão torturante.
Eu enruguei o nariz. Tortura. Não, essa era uma especialidade dos humanos.
— Aquelas histórias que você estava contando ao garoto eram muito interessantes.
Fiquei tensa e ele riu.
— É, eu estava ouvindo. Escutando escondido, admito. Sinto muito... era coisa grande, e você não falaria comigo do jeito que falou com Jamie. Eu realmente me impressionei com os morcegos, e as plantas e as aranhas. Dá a um homem o que pensar. Sempre gostei de ler sobre essas histórias doidas, inovadoras, de ficção cientifica e tudo mais. Eu devorava esse tipo de assunto. E o garoto é como eu – ele leu todos os livros que possuo, duas , três vezes cada. Deve ser uma delícia para ele ouvir algumas novas histórias. Para mim é, certamente. Você é uma boa contadora de histórias.
Eu mantive os olhos baixos. Mas eu me sentia amolecendo, baixando a guarda um pouco. Como qualquer um dentro desses corpos emotivos, eu ficava boba com elogios.
— Todo mundo aqui pensa que você nos perseguiu para nos entregar aos Buscadores.
A palavra lançou uma onda de choque por mim. Minha mandíbula enrijeceu e mordi minha língua. Senti o gosto do sangue.
— Que outra razão poderia ter? — ele continuou, sem notar minha reação, ouignorando-a. — Mas eles estão presos em noções pré-estabelecidas. Eu sou o único com perguntas... quer dizer, que tipo de plano era esse, vagar pelo deserto sem nenhum meio de voltar? — Ele riu. — Vagar... peregrinar... acho que essa é a sua especialidade, não é, Peg?
Ele se inclinou em minha direção e me deu uma leve cotovelada. Com muita incerteza, meus olhos oscilavam para o chão, para o rosto dele, para o teto e de volta ao chão. Ele riu novamente.
— Aquela caminhada chegou próximo de um suicídio na minha opinião. Definitivamente não é o modus operandi de uma Buscadora, se é que você me entende. Eu tentei entender. Usar a lógica, sabe? Então, se você não tinha reforço, e eu não vi sinal nenhum disso, e você não tinha como voltar, então seu objetivo era diferente. Você não tem sido muito falante desde que chegou aqui, exceto com o garoto há pouco, mas eu tenho ouvido o que vocêtem dito. Me parece que a razão de você quase ter morrido lá fora era uma ferrenha determinação de encontrar o garoto e Jared.
Eu fechei meus olhos.
— Só que, por que você se importaria? — Jeb perguntou, sem esperar resposta, só refletindo. — Então, é assim que eu vejo: ou você é uma excelente atriz... tipo uma Superbuscadora, uma espécie nova, mais furtiva que a primeira, com algum plano que eu não consigo imaginar, ou então você não está atuando. A primeira opção parece uma explicação complicada demais para o seu comportamento, antes e agora, e eu não engulo essa. Mas se você não está atuando...
Ele pausou por um momento.
— Passei muito tempo observando o seu pessoal. Eu ficava esperando eles mudarem, sabe, quando eles não precisassem mais agir como nós, por que não haveria mais para quem representar. Eu continuei observando e esperando, mas vocês continuaram agindo como humanos. Ficaram com a família de seus corpos, indo para piqueniques quando o tempo estava bom, plantando flores, pintando quadros e tudo mais. Eu me perguntei se vocês não estavam se tornando meio humanos. Se não temos alguma influência afinal de contas.
Ele esperou, me dando a chance de responder. Eu não respondi.
— Vi uma coisa alguns anos atrás que ficou na minha cabeça. Um homem e uma mulher, muito velhos, bem, seus corpos eram de um casal idoso. Juntos há tantos anos que a pele de seus dedos havia enrugado ao redor de suas alianças de casamento. Eles estavam de mãos dadas, e ele a beijou na bochecha, e ela enrubesceu sob as rugas. Ocorreu-me então que vocês continuam tendo os sentimentos que nós, porque, na verdade, vocês são nós, não apenas mãos controlando marionetes.
— É — eu murmurei. — Nós temos todos os mesmos sentimentos. Emoções humanas. Esperança, dor, e amor.
— Então, se você não está atuando... bem, então eu poderia jurar que você ama aqueles dois. Você ama. Peg, não só o corpo de Mel.
Abaixei minha cabeça em meus braços. O gesto equivalia a admitir, mas eu não me importava. Eu não podia suportar mais.
— Então, essa é você. Mas eu me pergunto sobre minha sobrinha, também. Como terá sido para ela, como seria para mim. Quando colocam alguém na sua cabeça, você simplesmente... some? É apagado? É como estar morto? Ou é como dormir? Você estaria consciente do controle? E o que te controla, estaria consciente de você? Você fica preso, gritando lá dentro?
Eu continuei sentada muito quieta, tentando manter meu rosto sem expressão.
— Claramente, suas memórias e comportamentos ficam para trás. Mas sua consciência... Eu não iria sem lutar. Diabos, eu sei que tentaria ficar... nunca fui do tipo que aceita não como resposta, qualquer um pode lhe confirmar. Eu sou um lutador. Todos nós aqui somos. E, sabe, eu definiria Mel como uma lutadora também.
Ele não moveu os olhos do teto, mas eu encarava o chão — olhava fixo, memorizando os padrões da poeira cinza-avermelhada.
— É, andei pensando nisso muito.
Eu podia sentir seus olhos em mim agora, apesar da minha cabeça ainda estar abaixada. Eu não me movi, exceto para respirar bem devagar. Custou-me muito manter a respiração controlada. Eu tive que engolir o sangue que ainda escorria na minha boca.
Por que nós sempre o consideramos como louco?, Mel se perguntou. Ele vê tudo. Ele é um
gênio.
Ele é ambas as coisas.
Bem, talvez isso signifique que nós não precisamos mais ficar caladas. Ele sabe. Ela estava esperançosa. Havia estado quieta ultimamente, ausente quase a metade do tempo. Não era tão fácil para ela se concentrar quando estava relativamente feliz. Ela vencera sua grande batalha para nos trazer aqui. Os segredos dela não estavam mais em risco; Jared e Jamie jamais seriam traídos pelas memórias dela.
Com a luta se deslocando para fora dela, era difícil para ela encontrar vontade para falar, mesmo comigo. Pude ver como a ideia da revelação – de ter outros humanos cientes da existência dela – a revigorou.
Jeb sabe, sim. Mas isso muda alguma coisa?
Ela pensou na forma com que os outros humanos olhavam para Jeb. Certo. Ela suspirou. Mas eu acho que Jamie... bem, eu não acho que ele saiba ou imagine, mas acho que ele sente a verdade.
Você pode estar certa. Vamos ver se isso faz bem a ele ou a nós, afinal.
Jeb só conseguiu ficar em silêncio por alguns segundos, e então estava falando de novo, nos interrompendo.
— É uma coisa muito interessante. Nem tão bangue! bangue! como nos filmes que eu gostava, mas ainda assim muito interessante. Eu gostaria de ouvir mais sobre aquelas aranhas. Eu estou realmente interessado... realmente curioso, com certeza.
Eu respirei fundo e ergui a cabeça.
— O que você quer saber?
Ele sorriu para mim de forma acolhedora, seus olhos se enrugando em meias-luas.
— Três cérebros, hein?
Confirmei com a cabeça.
— Quantos olhos?
— Doze; um em cada articulação da perna com o corpo. Nós não tínhamos pálpebras, só um monte de fibras, como cílios de palha de aço – para protegê-los.
Ele acenou, seus olhos brilhando.
— Tinham pelo, como as tarântulas?
— Não. Uma espécie de... armadura... escamada, como um réptil ou um peixe.
Eu relaxei contra a parede, me acomodando para uma longa conversa.
Jeb não me decepcionou nesse aspecto. Eu perdi a conta de quantas perguntas ele me fez. Ele queria detalhes – a aparência das Aranhas, seu comportamento, e como elas lidaram com a Terra. Ele não evitou os detalhes da invasão, pelo contrário, quase perecia gostar mais dessa parte do que do resto. Suas perguntas vinham rápido, logo depois das minhas respostas, e seus sorrisos eram frequentes. Quando ele estava satisfeito com as Aranhas, horas depois, ele quis saber mais sobre as Flores.
— Você não explicou nem pela metade — ele me lembrou.
Então eu disse sobre o mais calmo e bonito dos planetas. Quase toda vez que eu parava para respirar ele me interrompia com uma pergunta. Ele gostava de tentar adivinhar a minha resposta antes de eu falar e não parecia se incomodar ao errar.
— Então vocês comiam moscas? Aposto que sim... ou talvez algo maior, como um pássaro... como um pterodátilo!
— Não, usávamos a luz do sol para nos alimentarmos, como a maior parte das plantas aqui.
— Bem, isso não é lá tão divertido.
Às vezes eu me pegava rindo com ele. Nós estávamos falando dos Dragões quando Jamie apareceu com jantar para três.
— Oi Peregrina — ele disse, ligeiramente embaraçado.
— Oi Jamie — eu respondi, ligeiramente tímida, não muito certa se ele se arrependeria da proximidade que compartilhamos. Eu era, afinal de contas, um dos bandidos.
Mas ele sentou bem ao meu lado, entre mim e Jeb, cruzando as pernas e colocando a bandeja no meio de nós. Eu estava faminta e ressecada de tanta conversa. Peguei a tigela de sopa e a esvaziei em alguns goles.
— Devia ter imaginado que você estava só sendo educada no refeitório hoje. Tem que falar quando estiver com fome, Peg. Não leio pensamentos.
Eu não concordei com essa última parte, mas estava muito ocupada com a boca cheia de pão para responder.
— Peg? — Jamie perguntou.
Acenei, para que ele soubesse que eu não me incomodava.
— Combina com ela, não acha? — Jeb estava tão orgulhoso de si que eu me surpreendi de ele não se dar tapinhas nas costas, só para fazer efeito.
— Sim, eu acho. — Jamie disse. — Vocês estavam falando sobre dragões?
— Sim — Jeb disse entusiasmado. — Mas não do tipo lagarto. Eles são feitos de gelatina. Mas podem voar. Bem, mais ou menos. O ar é mais denso, gelatinoso também. Então é quase como nadar. E eles podem exalar ácido – isso é quase tão legal quanto fogo, não acha?
Eu deixei Jeb explicar a Jamie os detalhes enquanto eu comia mais do que a minha parte e secava a garrafa de água. Mal acabei a refeição, Jeb recomeçou com as perguntas.
— Agora, esse ácido...
Jamie não fazia perguntas como Jeb fazia, e eu fui mais cuidadosa sobre o que dizer com ele aqui. Dessa vez, contudo, Jeb não perguntou nada que pudesse a levar a algum assunto delicado, tenha sido por coincidência ou intencionalmente, eu não sabia.
A luz diminuiu lentamente até o corredor ficar escuro. Depois surgiu um reflexo pequenino e baço de luz, suficiente apenas, quando meus olhos se ajustaram, para eu poder ver o homem e o garoto ao meu lado.
Jamie se aproximou mais de mim quando a noite chegou. Eu não percebi que estava passando os dedos nos cabelos dele até ver Jeb olhando para minha mão. Então cruzei os
braços na frente do meu corpo.
Finalmente, Jeb bocejou um bocejo enorme, o que fez Jamie e eu fazermos o mesmo.
— Você conta histórias ótimas, Peg — Jeb disse quando nos espreguiçamos.
— É o que eu fazia... antes. Eu era professora, na Universidade de San Diego. Eu lecionava História.
— Uma professora! — Jeb repetiu excitado. — Isso não é incrível? Eis algo que podemos usar por aqui. A garota de Meg, Sharon, ensina para as três crianças, mas há muitas coisas em que ela não pode ajudar. Ela fica mais confortável com matemática e similares. Mas história...
— Eu só ensinava a nossa história — interrompi. Esperar ele tomar fôlego parecia que não ia funcionar. — Eu não ajudaria como professora por aqui. Não tenho nenhuma formação.
— Sua história é melhor que nada. Coisas que nós humanos precisamos saber, visto que nós vivemos num universo muito mais povoado do que imaginávamos.
— Mas eu não era uma professora de verdade — eu lhe disse, desesperada. Ele achava mesmo que alguém iria querer ouvir minha voz, ouvir minhas histórias? — Eu era meio que uma professora honorária, quase uma palestrante convidada. Eles só me quiseram... bem, por causa da história que vem com o meu nome.
— Essa era a próxima coisa que eu ia perguntar — Jeb disse complacente. — Nós poderemos falar sobre sua experiência lecionando mais tarde. Agora... por que eles te chamam de Peregrina? Eu ouvi um monte de nomes estranhos, Água Seca, Dedos no Céu, Queda Ascendente, todos misturados é claro, às Pamelas e aos Jimmys. Vou te dizer, é o tipo de coisa que deixa um homem doente de curiosidade.
Eu esperei até ter certeza de que ele havia terminado.
— Bem, a maneira como funciona é que geralmente uma alma experimenta um planeta ou dois... dois é a média... e então se instala em seu lugar favorito. Elas apenas se mudam para outro hospedeiro, no mesmo planeta, quando o seu corpo está próximo da morte. É muito desorientador mudar de um corpo para o outro. A maioria das almas odeia isso. Algumas nunca mudam do planeta em que nasceram. Ocasionalmente, as almas tem dificuldade em encontrar um bom lugar para si, e tentam uns três planetas. Eu conheci uma vez uma alma que tinha tentado cinco planetas antes de se decidir pelos Morcegos. Eu também gostava de lá... suponho que foi o mais próximo que estive de escolher um planeta. Se não fosse pela cegueira...
— Em quantos planetas você viveu? — Jamie perguntou baixinho. De algum jeito, enquanto eu estava falando, a mão dele encontrou o caminho até a minha.
— Este é o meu nono. — Eu disse, apertando seus dedos gentilmente.
— Nossa, nove! — Ele murmurou.
— É por isso que eles queriam que eu lecionasse. Qualquer um pode falar sobre as estatísticas, mas eu tenho experiência pessoal na maioria dos planetas que nós... tomamos. — Hesitei diante dessa palavra, mas não pareceu incomodar Jamie. — Só há três onde eu jamais estive – bem, agora quatro. Eles acabaram de abrir um mundo novo...
Esperei que Jeb começasse a fazer perguntas sobre o mundo novo, ou sobre os que eu não visitei, mas ele apenas brincava com a ponta da barba, distraído.
— Por que você nunca ficou em lugar nenhum? — Jamie perguntou.
— Eu nunca encontrei um lugar que tivesse gostado o bastante para ficar.
— E a Terra? Acha que vai ficar aqui?
Eu queria sorrir à sua confiança infantil – como se eu fosse ter a chance de mudar de hospedeiro. Como se fosse possível eu viver por mais um mês.
— A Terra é... muito interessante — murmurei. — É mais difícil do que qualquer outro lugar onde eu tenha estado antes.
— Mais difícil que o lugar com ar congelado e as bestas com garras afiadas? — ele perguntou.
— De certa maneira, sim. — Como eu poderia explicar que o Planeta das Brumas só atinge a gente a partir de fora... e que é muito mais difícil ser atacada por dentro.
Atacada, zombou Melanie.
Eu bocejei. Eu não estava pensando em você, eu disse a ela. Eu estava pensando nessas emoções instáveis, sempre me traindo. Mas você de fato me atacou, me impondo suas memórias desse jeito.
Aprendi minha lição, ela me assegurou friamente. Eu podia sentir o quanto ela estava consciente da mão que segurava a minha. Havia outra emoção crescendo lentamente nela que eu não reconhecia. Algo no limite da raiva, com uma ponta de desejo e uma porção de desespero.
Ciúme, ela me esclareceu.
Jeb bocejou novamente.
— Eu estou sendo absolutamente rude, acho. Você deve estar acabada... andou o dia todo e agora eu te mantenho acordada até metade da noite. Preciso ser um anfitrião melhor. Vamos Jamie, vamos embora e deixar Peg dormir um pouco.
Eu estava exausta. Como se tivesse tido um dia muito longo, e pelas palavras de Jeb, talvez não fosse só minha imaginação.
— Okay, tio Jeb — Jamie se ergueu agilmente do chão e então ofereceu a mão para o velho senhor.
— Obrigado, garoto — Jeb deu um suspiro ao levantar. — E obrigado a você também — ele acrescentou em minha direção. — Foi a melhor conversa que já tive em... bem, provavelmente toda minha vida. Descanse sua voz Peg, porque minha curiosidade é uma coisa poderosa. Ah, aí está ele! Já era hora.
Só então é que eu ouvi o som de passos se aproximando. Automaticamente, eu me encostei na parede e me arrastei até o fundo da caverna-quarto, e então me senti ainda mais exposta porque o luar era mais forte lá dentro.
Eu me surpreendi por esta ser a primeira pessoa a aparecer, o corredor parecia abrigar muita gente.
— Desculpe, Jeb. Eu fiquei conversando com Sharon e então perdi a noção do tempo...
Era impossível não reconhecer essa voz, gentil e tranquila. Meus estômago se contraiu, instável, e eu desejei que ele estivesse vazio.
— Nós não percebemos, Doc — Jeb disse. — Nós estávamos tendo o melhor momento das nossas vidas aqui. Algum dia você tem que fazer ela lhe contar algumas das histórias dela... é coisa de primeira. Não esta noite, é claro. Ela está bem cansada. Vemos você de manhã.
O doutor estava esticando um colchonete na frente da entrada da caverna, assim como Jared fazia.
— Fique de olho nisso aqui — Jeb disse, colocando a arma ao lado do colchonete.
— Você está bem Peg? — Jamie perguntou. — Você está tremendo.
Eu não havia percebido, mas todo o meu corpo tremia. Eu não respondi – minha garganta parecia inchada, fechada.
— Opa, opa — Jeb disse, procurando me acalmar. — Eu perguntei a Doc se ele não se importava em pegar um turno. Você não precisa se preocupar com nada. Doc é um homem honrado.
O médico deu um sorriso sonolento.
— Eu não irei te machucar... Peg, certo? Prometo. Eu só ficarei de guarda enquanto você dorme.
Eu mordi meus lábios, e os tremores não pararam.
Jeb pareceu achar que tudo estava acertado, porém.
— Boa noite, Peg. Boa noite, Doc. — Ele disse enquanto caminhava para o corredor.
Jamie hesitou, olhando para mim com uma expressão preocupada.
— Doc é legal. — Ele contou-me em um sussurro.
— Vamos criança, já é tarde.
Jamie se apressou atrás de Jeb.
Eu observei o médico depois que eles haviam ido, esperando por alguma mudança. A expressão relaxada de Doc não mudou, e ele não tocou na arma. Ele esticou seu comprido esqueleto no colchão, seus tornozelos e pés sobrando além da borda. Deitado ele parecia muito menor, ele era realmente magro.
— Boa noite. — Ele murmurou.
Claro que eu não respondi. Eu o observei sobre o fraco luar, contando o tempo de sua respiração, comparando com o ritmo do som da pulsação forte em meus ouvidos. Sua respiração foi ficando mais lenta e mais profunda, e então ele começou a roncar baixinho.
Podia ter sido atuação, mas mesmo se fosse, não havia muito que eu pudesse fazer. Silenciosamente eu fui para o fundo do quarto, até eu sentir a ponta do colchão nas minhas costas. Eu prometi que não tocaria em nada daquele lugar, mas não faria mal nenhum se eu dormisse na pontinha da cama... O chão era áspero e muito duro.
O som do ronco baixo do médico era confortador, mesmo se produzido para me acalmar, pelo menos eu sabia exatamente onde ele estava na escuridão.
Viver ou morrer, eu decidi que dava no mesmo se eu fosse dormir. Eu estava morta de cansaço, como Melanie diria. Eu deixei meus olhos se fecharem. O colchão era mais macio do que qualquer coisa que eu tinha tocado desde que vim para cá. Eu relaxei, afundando...
Houve um som baixo de passos – dentro do quarto comigo. Meus olhos se abriram, e eu pude ver um vulto entre mim e o o teto iluminado pela lua. Lá fora, os roncos do médico continuaram ininterruptos.
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