terça-feira, março 18, 2014

Confessada


A sombra era enorme e disforme. Se debruçou sobre mim chegando perto do meu rosto. Eu tencionava gritar, mas o som ficou preso em minha garganta, e tudo o que saiu foi um guincho se fôlego.
— Shhh, sou só eu — Jamie sussurrou.
Algo grande e redondo rolou de seus ombros e caiu suavemente no chão. Depois disso, eu pude ver sua verdadeira sombra, ágil contra a luz do luar.
Eu respirava fundo, com minha mão segurando a garganta.
— Desculpe. — Ele sussurrou, sentando na ponta do colchão. — Eu acho que isso foi bem idiota, eu estava tentando não acordar o Doc; nem ao menos pensei em quanto eu te assustaria. Você está bem? — Ele segurou de leve o meu tornozelo, que era a parte de mim mais próxima a ele.
— Claro. — Eu soltei, ainda sem ar.
— Desculpe. — Ele murmurou novamente.
— O que você está fazendo aqui Jamie? Você não devia estar dormindo?
— É por isso que eu estou aqui. Tio Jeb estava roncando de um jeito que você não acreditaria. Eu não aguentava mais.
Sua resposta não fez sentido para mim.
— Você não dorme normalmente com Jeb?
Jamie bocejou e se abaixou para desamarrar o colchonete que ele havia jogado no chão.
— Não, eu durmo normalmente com Jared. Ele não ronca. Mas você sabe disso.
Eu sabia.
— Por que você não dorme no quarto de Jared então? Você está com medo de dormir sozinho? — Eu não o culparia por isso. Eu parecia estar sempre aterrorizada por aqui.
— Com medo. — Ele zombou ofendido. — Não. Esse aqui é o quarto de Jared. E meu.
— O quê? — eu arfei. — Jeb me colocou no quarto de Jared?
Eu não conseguia acreditar. Jared me mataria. Não, primeiro ele mataria Jeb e depois me mataria.
— O quarto é meu também. E eu disse a Jeb que você podia dormir aqui.
— Jared vai ficar furioso — sussurrei.
— Eu posso fazer o que quiser com o meu quarto — Jamie respondeu rebelde, mas então mordeu o lábio. — Nós não vamos contar. Ele não precisa saber.
Eu acenei.
— Boa ideia.
— Você não se importa se eu dormir aqui, importa? O tio Jeb está fazendo um barulhão.
— Não, eu não me importo. Mas Jamie, eu não acho que você devia.
Ele franziu a testa, tentando ser forte em vez de magoado.
— Por que não?
— Porque não é seguro. Às vezes pessoas vêm me procurar à noite.
Seus olhos se arregalaram.
— Vem?
— Jared sempre estava armado e eles iam embora.
— Quem?
— Eu não sei – às vezes Kyle. Mas outros certamente ainda estão por aqui.
Ele acenou.
— Mais uma razão para eu ficar aqui. Doc pode precisar de ajuda.
— Jamie...
— Eu não sou criança Peg. Eu posso tomar conta de mim mesmo.
Obviamente discutir só o faria mais teimoso.
— Pelo menos fique com a cama — eu disse, me rendendo. — Eu dormirei no chão. O quarto é seu.
— Isso é errado, você é a hóspede.
Eu bufei baixo.
— Há. Não, a cama é sua.
— De jeito nenhum. — Ele deitou no colchonete, cruzando os braços firmemente no peito.
Mais uma vez, eu vi que discutir era a técnica errada com Jamie. Bem, isso eu podia corrigir facilmente quando ele estivesse dormindo. Jamie dormia tão profundamente que era quase como se estivesse em coma. Melanie o carregava para qualquer lugar quando ele estava apagado.
— Você pode usar o meu travesseiro. — Ele me disse, apontando para o que estava perto de onde ele estava deitado. — Você não precisa ficar toda encolhida aí embaixo.
Dei um suspiro, mas engatinhei para o alto da cama.
— Isso mesmo. — Ele aprovou. — Agora, você poderia me jogar o travesseiro do Jared?
Hesitei, prestes a pegar o travesseiro sob minha cabeça; ele pulou, se inclinou por cima de mim e agarrou o outro travesseiro. Eu bufei de novo.
Ficamos deitados por um tempo, ouvindo o baixo ressonar da respiração do doutor.
— Doc tem um ronco legal, né? — Jamie sussurrou.
— Não irá te manter acordado. — Eu concordei.
— Você está cansada?
— Sim.
— Ah.
Eu esperei ele dizer algo mais, mas ele ficou quieto.
— Você queria me perguntar alguma coisa? — perguntei.
Ele não respondeu imediatamente, mas eu podia senti-lo em conflito, então esperei.
— Se eu te perguntar uma coisa, você vai me dizer a verdade?
Foi a minha vez de hesitar.
— Eu não sei tudo — avisei.
— Isso você saberia. Quando estávamos caminhando – eu e Jeb... ele estava me dizendo umas coisas. Coisas que ele pensou mas que eu não sei se estão certas.
Melanie de repente estava muito presente, em minha cabeça.
O sussurro de Jamie era difícil de ouvir, mais baixo que minha respiração.
— Tio Jeb acha que Melanie ainda pode estar viva. Aí dentro com você, quero dizer.
Meu Jamie. Melanie suspirou.
Eu não disse nada para nenhum dos dois.
— Eu não sabia que isso podia acontecer. Isso acontece? — A voz dele interrompeu-se e eu pude ouvir que ele estava lutando contra as lágrimas. Ele não era um garoto de chorar, então sofri por ele profundamente duas vezes no mesmo dia. Uma dor afiada se espalhou pela região do meu peito. — Acontece Peg?
Diga-lhe. Por favor, diga-lhe que eu o amo.
— Por que você não quer me responder? — Jamie estava realmente chorando agora, mas tentando abafar o som.
Eu engatinhei para fora da cama, me apertando entre o duro espaço entre o colchão e o colchonete, e lancei meus braços por cima de seu peito trêmulo. Inclinei minha cabeça contra seu cabelo e senti suas lágrimas mornas em meu pescoço.
— A Melanie ainda está viva Peg? Por favor?
Ele provavelmente era um instrumento. O velho devia tê-lo mandado só para isso; Jeb era esperto o suficiente para ver como Jamie quebrava minhas defesas com facilidade. Era possível que Jeb estivesse buscando uma confirmação de sua teoria, e ele não se oporia a usar o menino para isso. O que Jeb faria quando ele estivesse certo dessa perigosa verdade? Como ele usaria essa informação? Eu não achava que ele me quisesse mal, mas eu podia confiar no meu próprio julgamento? Humanos eram criaturas ardilosas, traiçoeiras. Eu não podia antecipar suas motivações mais sombrias, quando essas coisas eram impensáveis para minha espécie.
O corpo de Jamie tremeu ao meu lado.
Ele está sofrendo, Melanie gritou. Ela lutava para ganhar controle, sem conseguir.
Eu não poderia culpar Melanie se o gesto se revelasse um grande erro, eu sabia de quem eram as palavras que falei.
— Ela prometeu que voltaria, não foi? — eu murmurei. — Acha que Melanie quebraria uma promessa feita a você?
Jamie me abraçou pela cintura e me apertou por um tempo. Após alguns minutos ele sussurrou:
— Te amo, Mel.
— Ela também te ama. Ela está feliz por você estar aqui e seguro.
Ele ficou quieto tempo o suficiente para as lágrimas em minha pele secarem.
— É assim com todos? — Jamie murmurou após um longo tempo, quando eu achei que ele já estivesse dormindo. — Todo mundo fica?
— Não — eu disse tristemente. — Não, Melanie é especial.
— Ela é corajosa e forte.
— Muito.
— Você acha que... — ele pausou para limpar o nariz. — Você acha que papai ainda está lá, também?
Eu engoli, tentando deslocar o nó que se formou em minha garganta. Não funcionou.
— Não, Jamie. Eu não acredito. Não como Melanie ficou.
— Por quê?
— Por que ele trouxe os Buscadores até vocês. Bem, a alma dentro dele os trouxe. Seu pai nunca teria deixado isso acontecer se ele ainda estivesse lá. Sua irmã nunca me deixou ver onde a cabana era – ela nem ao menos me deixou saber que você existia por longo tempo. Ela não me trouxe aqui até ter certeza que eu não machucaria vocês.
Era muita informação. Só quando eu terminei de falar é que eu percebi que o doutor não estava mais roncando. Eu não podia ouvir o som da sua respiração. Idiota. Eu me xinguei internamente.
— Uau! — disse Jamie.
Eu sussurrei em seu ouvido, tão perto que não havia modo do médico ouvir.
— Sim, ela é muito forte.
Jamie se concentrou para me ouvir, parecendo confuso, mas então olhou para a entrada da caverna. Ele deve ter percebido o mesmo que eu, pois virou o rosto para o meu ouvido e cochichou também, mais baixo do que antes.
— Por que você faria isso? Não nos machucar? Não é isso que vocês querem?
— Não, eu não quero machucar você.
— Por quê?
— Sua irmã e eu passamos muito tempo juntas. Ela compartilhou coisas comigo. E eu meio que... comecei... comecei a... amar você também.
— E Jared também?
Eu cerrei os dentes por um segundo, desgostosa dele ter feito a conexão tão rapidamente.
— É claro que eu não quero que ninguém machuque ele também.
— Ele te odeia — Jamie disse, claramente lamentando o fato.
— É, todo mundo odeia. — Eu suspirei. — Não posso culpá-los.
— Jeb não odeia. Eu não odeio.
— Você pode vir a odiar depois que pensar um pouco mais.
— Mas você nem estava aqui quando eles assumiram o controle. Você não escolheu minha mãe ou meu pai ou a Melanie. Você estava no espaço, certo?
— Sim, mas eu sou o que sou Jamie. Eu faço o que almas fazem. Eu tive muitos hospedeiros antes de Melanie e nada me impediu de tomar vidas, de novo e de novo. É como eu vivo.
— A Melanie te odeia?
Eu pensei por um minuto.
— Não tanto quanto no início.
Não. Eu não te odeio coisíssima nenhuma. Não mais.
— Ela diz que não me odeia mais — murmurei baixinho.
— Como... como ela está?
— Ela está feliz por estar aqui. Está feliz de ver você. Ela nem ao menos se importa com o fato de que eles vão nos matar.
Jamie se enrijeceu sob meus braços.
— Eles não podem. Não se Mel ainda está viva!
Você o assustou, Melanie reclamou. Você não precisava dizer isso.
Não vai ser mais fácil para ele se ele estiver despreparado.
— Eles não irão acreditar nisso, Jamie. Eles pensarão que eu estou mentindo para te enganar. Se você contar-lhes isso, eles só vão ter mais vontade de me matar. Só os Buscadores mentem.
A palavra o fez estremecer.
— Mas você não está mentindo. Eu sei disso — ele disse após um momento.
Encolhi os ombros.
— Eu não deixarei que eles matem Melanie.
Sua voz, apesar de baixa como uma respiração, estava intensa de determinação. Eu estava paralisada ao pensamento dele ainda mais envolvido nessa situação comigo. Eu pensei nos bárbaros que viviam conosco. A idade dele o protegeria quando ele tentasse me proteger? Eu duvidei. Meus pensamentos estavam alvoroçados tentando encontrar um jeito de fazê-lo mudar de ideia sem desencadear sua teimosia.
Jamie falou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele estava subitamente calmo, como se a resposta estivesse bem ali na frente dele.
— Jared vai pensar em alguma coisa. Ele sempre pensa.
— Jared também não vai acreditar em você. Ele vai ser o mais zangado de todos.
— Mesmo se ele não acreditar, ele vai proteger Melanie. Só por precaução.
— Veremos — murmurei. Eu acharia as palavras perfeitas depois – a argumentação que não soaria como uma argumentação.
Jamie ficou quieto, pensando. Eventualmente sua respiração ficou mais lenta e sua boca se abriu. Eu esperei até ter certeza de que ele estava profundamente adormecido, então engatinhei por cima dele com muito cuidado e o movi para a cama. Ele estava mais pesado do que antes, mas eu consegui. Ele não acordou.
Eu coloquei o travesseiro de Jared de volta no lugar e então me estiquei no colchonete.
Bem, eu pensei, acabei de me lançar para os leões. Mais uma vez. Mas eu estava muito cansada para me importar com o que isso significaria amanhã. Em segundos eu estava inconsciente.
Quando acordei, as rachaduras no teto estavam iluminadas com a luz do sol, e alguém estava assobiando. O assobio parou.
— Finalmente — Jeb murmurou quando meus olhos abriram.
Eu deitei de lado para poder olhar para ele, quando me movi a mão de Jamie escorregou do meu braço. Em algum momento da noite ele deve ter me procurado – bem, não eu, a irmã dele.
Jeb estava encostado à moldura natural de pedra, seus braços cruzados contra o peito.
— Bom dia — ele disse. — Dormiu bem?
Eu me espreguicei, decidi que estava bem descansada e então concordei com a cabeça.
— Hey, não me dê tratamento de silêncio de novo! — Ele reclamou, carrancudo.
— Desculpe. — Eu disse. — Eu dormi bem, obrigada.
Jamie se moveu ao som da minha voz.
— Peg? — ele perguntou.
Eu fiquei ridiculamente emocionada por ter sido o meu apelido bobo que ele disse ainda meio dormindo.
— Sim?
Jamie piscou e afastou os cabelos dos olhos.
— Ah, oi tio Jeb.
— Meu quarto não é bom o bastante para você, garoto?
— Você ronca muito alto — Jamie disse e então bocejou.
— Eu não te ensinei nada? — perguntou Jeb. — Desde quando você deixa uma hóspede e uma dama dormir no chão?
Jamie se sentou rapidamente, olhando ao redor, desorientado. Ele franziu o cenho.
— Não brigue com ele — eu disse a Jeb. — Ele insistiu em ficar no colchonete, eu o mudei de lugar quando ele dormiu.
Jamie bufou.
— Mel sempre fazia isso também.
Arregalei os olhos levemente para ele, tentando passar um aviso de precaução.
Jeb deu um risinho. Eu olhei para ele, e ele estava com a mesma expressão de gato quando ataca que estivera na noite anterior. A expressão "quebra-cabeça resolvido". Ele andou até a cama e chutou a extremidade do colchão.
— Você já perdeu a aula da manhã. A Sharon com certeza vai ficar irritada com isso, então mexa-se.
— Sharon está sempre irritada — Jamie reclamou, mas se levantou rapidamente.
— Vá logo, menino.
Jamie olhou para mim novamente, então se virou e desapareceu pelo corredor.
— Agora — Jeb disse assim que ficamos sozinhos. — Eu acho que essa baboseira de babá já durou por tempo suficiente. Eu sou um homem ocupado. Todo mundo é ocupado por aqui – muito ocupado para ficar brincando de guarda. Então hoje você vai ter que vir comigo enquanto eu cumpro minhas tarefas.
Eu senti minha boca abrir de surpresa. Ele me encarou, sem sorrir.
— Não fique tão assustada. — Ele rosnou. — Você ficará bem. — Ele acariciou a arma. — Minha casa não é lugar para bebês.
Eu não podia discutir contra isso. Eu respirei fundo três vezes, tentando acalmar os nervos. O sangue pulsava tão forte que a voz dele parecia baixa em comparação.
— Vamos Peg, estamos perdendo tempo.
Ele se virou e saiu do quarto batendo o pé.
Eu fiquei parada por um momento, e então fui atrás dele. Ele não estava blefando – já estava invisível após a primeira curva. Eu corri atrás dele, horrorizada à ideia de que eu pudesse encontrar outra pessoa nessa ala obviamente habitada. Eu o alcancei antes que ele chegasse ao grande entroncamento de túneis. Ele nem sequer olhou para mim quando eu diminuí o ritmo ao lado dele para acertar o passo.
— Está na hora de plantar o campo nordeste. Nós teremos que preparar o solo primeiro. Espero que não se incomode em sujar as mãos. Depois que terminarmos, vou providenciar para você se limpar. Você bem que precisa. — Ele cheirou alto, e então riu.
Eu senti minha nuca ficar quente, mas ignorei essa última parte.
— Eu não me importo de sujar as mãos — murmurei. Pelo eu lembrava que o campo nordeste ficava fora do caminho. Talvez pudéssemos trabalhar sozinhos.
Assim que chegamos à grande praça, começamos a passar por humanos. Todos encaravam, furiosos como sempre. Eu começava a reconhecer a maioria deles: a mulher de meia idade com a longa trança que eu havia visto na equipe de irrigação ontem. O homem baixo com a barriga redonda, cabelos cor de areia rareando e bochechas coradas que estava com ela. A mulher de aparecia atlética com pele cor de caramelo era a que estava amarrando o sapato aa primeira que eu saí durante o dia. Outra mulher de pele escura, com lábios grossos e olhos sonolentos que havia estado na cozinha, próximo as duas crianças de cabelos negros – seria ela a mãe deles?
Então passamos por Maggie; ela lançou um olhar de desgosto a Jeb e virou a cara para mim. Nós passamos por um homem pálido, com aparência doente e cabelos brancos que eu tinha certeza que nunca havia visto antes. Em seguida, encontramos com Ian.
— Oi, Jeb. — Ele disse bem humorado. — O que está planejando?
— Trabalhar na terra do campo leste — Jeb rosnou.
— Quer ajuda?
— É bom fazer-se útil — Jeb resmungou.
Ian encarou isso como uma concordância e começou a caminhar atrás de mim. Fiquei arrepiada de sentir os olhos dele em minhas costas.
Nós passamos por um jovem que não devia ser muitos anos mais velho que Jamie – seus
cabelos pretos se destacavam na pele olivácea.
— Oi Wes — Ian cumprimentou.
Wes nos observou em silêncio enquanto passávamos. Ian riu da expressão dele. Nós passamos por Doc.
— Oi Doc — Ian disse.
— Ian — Doc cumprimentou. Em suas mãos havia um grande pedaço de massa de pão. Sua camisa estava coberta com farinha áspera e escura. — Bom dia Jeb. Bom dia Peg.
— Bom dia — Jeb respondeu.
Eu acenei, desconfortável.
— Vejo vocês por aí — Doc disse, indo com sua massa.
— Peg, é? — Ian perguntou.
— Minha ideia — Jeb o disse. — Combina com ela, eu acho.
— Interessante — foi tudo o que Ian disse.
Nós finalmente chegamos ao campo oriental, onde minhas esperanças desmoronaram. Havia mais pessoas ali do que nos corredores – cinco mulheres e nove homens. Todos pararam o que estavam fazendo e fizeram cara feia, naturalmente.
— Não dê atenção a eles — Jeb murmurou para mim.
Jeb seguiu seu próprio conselho; ele foi até uma pilha bagunçada de ferramentas encostada na parede mais próxima, enfiou a arma na correia presa à sua cintura, pegou duas pás e uma picareta.
Eu me sentia exposta com ele tão longe. Ian estava um passo atrás de mim – eu podia ouvi-lo respirar. Os outros continuavam a me encarar, suas ferramentas ainda nas mãos. Eu não desconsiderei o fato de que as picaretas e enxadas que partiam a terra podiam facilmente partir um corpo. E me pareceu, pelos olhares, que eu não era a única com essa ideia.
Jeb voltou e me passou uma pá. Eu segurei o cabo liso e suave, sentindo o peso. Depois de ver a sede de sangue nos olhos dos humanos, era difícil não pensar na ferramenta como uma arma. Eu não gostava da ideia. Eu duvidava que pudesse brandir uma, nem mesmo para me defender de um golpe.
Jeb deu a picareta a Ian. A peça afiada de metal escurecido parecia mortal em suas mãos. Precisei de toda minha força de vontade para não sair correndo.
— Vamos ficar nos fundos.
Pelo menos Jeb me levou para o canto menos movimentado da longa e ensolarada caverna. Ele mandou Ian triturar a terra endurecida pelo calor adiante de nós, enquanto eu soltava e revirava os torrões e ele seguia atrás, esmagando-os com a extremidade da pá para transformá-los em solo utilizável.
Quando olhei o suor escorrer pela pele clara de Ian – ele havia tirado a camisa após alguns poucos segundos sob o calor seco da luz dos espelhos – e ouvi a respiração ofegante de Jeb atrás de mim, pude perceber que eu tinha ficado como trabalho mais fácil. Eu queria ter alguma coisa mais difícil para fazer, algo que me impedisse de ficar distraída com os movimentos dos outros humanos. Cada movimento deles me fazia encolher e hesitar, sobressaltada.
Eu não podia fazer o trabalho de Ian – eu não tinha os músculos fortes nos braços e nas costas necessários para quebrar o solo duro. Mas eu decidi fazer o que podia da tarefa de Jeb: quebrar os pedaços de terra antes de seguir adiante. Isso ajudou um pouco – mantinha meus olhos ocupados e me cansava tanto, que tinha de me concentrar em me obrigar a trabalhar.
Ian trazia água para nós vez ou outra. Havia uma mulher – baixa e branca, eu a havia visto na cozinha ontem – cuja tarefa parecia ser levar água para os outros, mas ela nos ignorava. Ian sempre trazia o suficiente para três. Eu achava sua drástica mudança de atitude em relação a mim desconfortável. Ele realmente não desejava mais a minha morte? Ou só estava procurando uma oportunidade? A água aqui sempre tinha um gosto estranho – sulfurosa e envelhecida – mas agora esse sabor parecia suspeito. Eu tentei ignorar a paranoia o máximo possível.
Eu estava trabalhando duro o bastante para manter os olhos ocupados e a mente vazia; não notei quando chegamos ao final da última fileira. Eu só parei quando Ian parou; ele se espreguiçou, erguendo a picareta acima da cabeça com as duas mãos e estalando suas juntas. Eu me esquivei da picareta, mas ele nem viu. Eu percebi que todos tinham parado também. Eu olhei para a terra recém-revolvida, nivelada em toda a extensão do chão, e compreendi que o campo estava pronto.
— Bom trabalho — Jeb anunciou em voz alta para o grupo. — Nós semearemos e irrigaremos amanhã.
A câmara se encheu de conversas e barulhos, conforme as ferramentas eram empilhadas contra a parede novamente. Algumas conversas eram casuais. Algumas ainda eram tensas por minha causa. Ian ergueu a mão para a minha enxada, e eu a entreguei a ele, sentindo meu humor cair ainda mais, eu não tinha dúvidas de que eu estava incluída no “nós” de Jeb. Amanhã seria tão difícil quanto hoje.
Eu olhei para Jeb pesarosamente, e ele estava sorrindo em minha direção. Havia uma satisfação em seu sorriso que me fez acreditar que ele sabia o que eu estava pensando – ele não só sabia do meu desconforto, mas se divertia com ele.
Ele piscou para mim, meu amigo maluco. Compreendi que aquilo era o melhor que se podia esperar de uma amizade humana.
— Te vejo amanhã, Peg — Ian gritou do outro lado do salão, e riu para si mesmo.
Todos olharam.

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