terça-feira, março 18, 2014
Tolerada
Era verdade que eu não estava cheirando bem.
Eu perdera a conta de quantos dias eu estava ali – fazia mais de uma semana agora? Mais de duas? – e em todos eles eu estava suando dentro dessas roupas que eu havia usado no deserto. Tanto sal havia secado nessa camiseta de algodão que ela estava meio dura. Ela costumava a ser amarela clara, agora estava numa cor escura, roxa como as rochas aqui, e cheia de manchas. Meu cabelo curto estava duro e embaraçado, eu podia senti-lo em todas as direções, com um nó no topo como um ninho. Eu não tinha visto meu rosto recentemente, mas imaginava que tinha dois tons de púrpura: o da terra da caverna e o dos machucados se curando.
Então pode entender a consideração de Jeb – sim, eu precisava de um banho. E uma troca de roupa também, para fazer o banho valer a pena. Jeb me ofereceu algumas roupas de Jamie para usar enquanto minhas roupas secavam, mas eu não queria estragar as poucas roupas de Jamie as esticando. Felizmente ele não tentou me oferecer nada de Jared. Eu acabei com uma velha, mas limpa blusa de flanela de Jeb que tinha as mangas cortadas, e uma calça de moletom esburacada que ninguém queria mais.
As peças foram dobradas e colocadas sobre o meu braço – bem como uma coisa áspera que cheirava esquisito e que Jeb afirmava ser sabonete caseiro de cacto – enquanto eu me encaminhava com Jeb para a sala com os dois rios.
Novamente, nós não estávamos sozinhos, e novamente eu fiquei desapontada por isso. Três homens e uma mulher – a das tranças – estavam enchendo baldes com água do rio menor. Um som alto de água sendo espalhada e de risadas vinha da sala de banhos.
— Nós esperaremos a nossa vez — Jeb me disse.
Ele se encostou à parede. Eu fiquei rígida do lado dele, desconfortavelmente consciente dos pares de olhos em mim, mesmo eu mantendo os meus próprios olhos no fluxo de água escura que corria pelo chão poroso.
Após uma curta espera, três mulheres saíram da sala de banho, seus cabelos molhados pingando nas costas dela – a atlética com pele cor de caramelo, uma jovem loira que eu não lembrava de ter visto antes, e a prima de Melanie, Sharon. Suas risadas pararam abruptamente assim que elas nos viram.
— Tarde, moças — Jeb disse, tocando sua testa, como se tivesse um chapéu.
— Jeb — a mulher cor de caramelo respondeu secamente.
Sharon e a outra garota nos ignoraram.
— Okay, Peg — Ele disse quando elas passaram. — É todo seu.
Lancei para ele um olhar sombrio, e caminhei cuidadosamente para a sala escura.
Eu tentei me lembrar como era o chão – eu tinha certeza que havia alguns centímetros até a beirada da água. Eu tirei meus sapatos primeiro, para sentir a água com os pés.
Estava muito escuro. Eu me lembrei da aparência negra da piscina – cheia de sugestões sobre o que poderia se esconder ali – e estremeci. Mas quanto mais eu esperasse mais tempo eu passaria aqui, então eu pus as roupas limpas perto dos meus sapatos, segurei o sabonete fedorento e fui arrastando os pés com cuidado até encontrar a beira da piscina.
A água estava fresca comparada com o ar abafado da outra caverna. Eu me senti bem. Isso não me impediu de continuar apavorada, mas mesmo assim pude apreciar a sensação. Fazia muito tempo desde que qualquer coisa parecessefresco para mim. Ainda vestida em minhas roupas sujas, entrei na água até ela estar na altura da cintura. Eu podia sentir a corrente do riacho nos tornozelos. Fiquei feliz de a água ser corrente – teria sido péssimo sujá-la, imunda como estava.
Eu mergulhei mais até estar imersa até os ombros. Eu esfreguei o sabonete pelas roupas, pensando ser o jeito mais fácil de deixá-las limpas. Onde o sabão tocava minha pele, ardia levemente.
Eu tirei as roupas ensaboadas e as esfreguei por baixo d’água. Então as enxaguei repetidas vezes, até não haver possibilidades de suores ou lágrimas continuarem nelas, então as torci novamente e as estendi no chão próximo onde eu achava que meus sapatos estavam.
O sabão ardeu mais forte na pele nua, mas a ardência era suportável porque significava que eu podia ficar limpa outra vez. Quando terminei de me ensaboar, minha pele formigava, e meu couro cabeludo queimava. Os lugares onde haviam machucados estavam mais sensíveis que o resto do corpo – sinal de que ainda não haviam curado. Eu fiquei feliz de colocar o sabonete ácido no chão e mergulhar meu corpo várias vezes na água, como eu havia feito com as roupas.
Foi com uma sensação de alívio e pena que eu saí da piscina. A água era muito agradável, assim como a sensação de limpeza, mesmo ardendo um pouco na pele. Mas eu já estava farta da cegueira e das coisas que eu podia imaginar na escuridão. Fui apalpando em torno até achar as roupas secas, vesti-as rapidamente e enfiei os pés enrugados por causa da água nos sapatos. Carreguei as roupas úmidas com uma mão e o sabão com muito cuidado entre dois dedos da outra.
Jeb riu quando apareci, olhando para a forma com que eu segurava o sabão.
— Arde um pouquinho, né? Estamos tentando dar um jeito nisso. — Ele ergueu a mão, protegida pela barra da camisa e pegou o sabão.
Eu não respondi à pergunta dele, pois nós não estávamos sozinhos, havia uma fila esperando silenciosamente atrás dele – cinco pessoas, todas do campo de plantação onde tínhamos trabalhado.
Ian era o primeiro da fila.
— Sua aparência está muito melhor — ele me disse, mas eu não pude dizer pelo tom dele se ele estava surpreso ou irritado por isso. Ele ergueu um braço, estendendo um longo e pálido dedo em direção ao meu pescoço. Eu me encolhi e ele deixou a mão cair. — Desculpe por isso. — Ele murmurou.
O que ele queria dizer? Desculpava-se por me assustar agora ou por ter deixado uma marca em meu pescoço? Eu não pude imaginar que ele estivesse se desculpando por tentar me matar. Certamente ele ainda me queria morta. Mas eu não ia perguntar. Eu comecei a andar, e Jeb se movimentou atrás de mim.
— Então, hoje não foi tão ruim — Jeb disse enquanto andávamos pelo corredor escuro.
— É, não foi tão ruim. — Eu murmurei. Afinal de contas, ninguém havia tentado me matar, e isso era um ponto positivo.
— Amanhã será ainda melhor. — Ele prometeu — eu sempre gosto de plantar... ver o milagre das pequenas sementes que parecem mortas ter tanta vida dentro delas. Me faz sentir que mesmo um velho acabado pode ter algum potencial. Mesmo que seja só para ser fertilizante. — Jeb riu da própria piada.
Quando nós chegamos à caverna da grande horta, Jeb me pegou pelo cotovelo e me guiou para o leste ao invés de oeste.
— Nem tente me convencer que você não está com fome depois de toda essa cavação. — Ele disse. — Não é trabalho meu prover serviço de quarto. Você vai ter que comer onde todo mundo come.
Eu fiz uma carranca olhando para o chão, mas deixei ele me guiar para a cozinha.
Foi uma coisa boa que a comida fosse a mesma de sempre, pois se, milagrosamente, um filé filé-mignon, ou um saco de Cheetos tivessem se materializado, eu não teria sido capaz de sentir o gosto. Investi toda a minha concentração em me fazer engolir – eu odiava fazer o mínimo barulho no total silêncio que se seguiu à minha aparição. A cozinha não estava lotada, só dez pessoas nos balcões, comendo seus pães duros e tomando suas sopas aguadas. Mas eu matei toda a conversa outra vez. Eu me perguntava por quanto tempo as coisas ficariam assim.
A resposta era exatamente quatro dias.
Levou-me a mesma quantidade de dias para entender o que Jeb pretendia, a motivação por trás de sua mudança de gentil anfitrião em capataz mal-humorado.
O dia seguinte ao preparo da terra eu passei semeando e irrigando o mesmo campo. Era um grupo diferente de pessoas do dia anterior, e eu imaginei que devia haver algum tipo de rodízio de tarefas.
Maggie estava no meu grupo, bem como a mulher de pele caramelada, mas eu não soube o seu nome. A maioria trabalhou em silêncio. O silencio não era natural – parecia um protesto contra a minha presença.
Ian trabalhou conosco quando obviamente não era o turno dele, e isso me incomodava.
Eu tive que comer na cozinha novamente. Jamie estava lá, e ele era exceção ao total silêncio. Eu sabia que ele era sensível o bastante para não ter notado o silêncio estranho, mas ele o ignorava deliberadamente, parecendo fingir que Jeb e eu éramos as únicas pessoas na sala. Ele falava sobre seu dia na aula de Sharon, alardeando um pouco sobre problemas que havia tido por falar fora de hora e queixando-se das tarefas que ela havia passado como punição. Jeb brigou com ele sem muito entusiasmo. Os dois faziam um excelente trabalho fingindo que tudo estava normal.
Eu não tinha habilidades de atuação. Quando Jamie me perguntou sobre o meu dia, o melhor que eu pude fazer foi encarar meu prato e murmurar respostas monossilábicas. Isso pareceu entristecê-lo, mas ele não me forçava muito.
À noite, foi outra história – ele não deixava eu parar de falar até que eu implorasse para dormir. Jamie reclamou seu quarto, tomando o lado de Jared na cama e insistindo para que eu dormisse no lado dele.
Era basicamente assim que Melanie se lembrava das coisas, e ela aprovou o arranjo. Jeb também.
— Me economiza o trabalho de ter que ficar achando alguém para ficar de guarda. Mantenha a arma perto e não vá esquecê-la aí. — Ele disse a Jamie.
Eu protestei novamente, mas tanto o garoto quanto o homem se recusaram a me ouvir. Então Jamie dormia com a arma do outro lado do corpo, e eu me horrorizava e tinha pesadelos por causa dela.
No terceiro dia de tarefas domésticas, eu trabalhei na cozinha. Jeb me ensinou como misturar a dura massa de pão, como dar forma e a deixá-la crescer e, mais tarde, como alimentar o fogo no fundo do grande forno de pedra quando estava escuro o suficiente para deixar a fumaça sair.
No meio da tarde, Jeb saiu.
— Eu vou buscar mais farinha — murmurou ele, brincando com a correia que prendia a arma em sua cintura.
As três mulheres silenciosas que misturavam a massa ao nosso lado não olharam para cima. Eu estava até os cotovelos na massa pegajosa, mas comecei a me limpar para poder segui-lo. Então ele girou e saiu antes que eu pudesse me liberar.
Eu fiquei congelada ali, sem respirar. Eu encarava as três mulheres – a jovem loira da sala de banhos, e das tranças mescladas e a mãe de pálpebras pesadas – esperando elas perceberem que podiam me matar agora. Sem Jeb, sem arma, minhas mãos presas na massa pegajosa – nada para impedi-las.
Mas elas continuaram batendo a massa e a moldando, parecendo não perceber a verdade evidente. Após um longo momento, eu voltei a trabalhar. Se eu ficasse muito parada elas poderiam notar algo errado. Jeb ficou longe uma eternidade. Talvez ele quisesse dizer que ele precisava fabricar mais farinha. Essa parecia a única explicação para sua ausência prolongada.
— Levou tempo, hein? — a mulher da trança disse quando ele voltou. E assim eu soube que não era só minha imaginação.
Jeb deixou cair um pesado saco no chão com um barulho seco.
— Tem muita farinha aqui. Tente carregar você, Trudy.
Trudy bufou.
— Imagino que tenha feito muitas pausas para descansar até chegar aqui.
Jeb sorriu para ela.
— Com certeza.
Meu coração, que estava batendo como as asas de um beija-flor, diminuiu o ritmo.
No dia seguinte estávamos limpando os espelhos na câmara onde ficava o campo de milho. Jeb me disse que aquilo era algo que eles tinham que fazer constantemente, já que a umidade e a poeira faziam com que a luz ficasse difusa demais para alimentar as plantas. Foi Ian, trabalhando conosco mais uma vez, quem escalou a instável escada de madeira enquanto eu e Jeb mantínhamos a base da escada firme. Era uma tarefa difícil, dado o peso de Ian e o precário equilíbrio da escada feita em casa. No final do dia, meus braços estavam doloridos e ligeiramente trêmulos. Eu nem ao menos notei, até que havíamos terminado e íamos para a cozinha, que a correia onde Jeb mantinha a arma estava vazia.
Eu engasguei alto, meus joelhos travando como de um potro assustado. Meu corpo cambaleou e parou.
— O que foi, Peg? — Jeb perguntou muito inocentemente.
Eu teria respondido se Ian não estivesse ao lado dele, observando meu estranho comportamento com fascinação em seus vívidos olhos azuis.
Só dei um olhar de descrença e censura para Je e então continuei a andar lentamente ao lado dele, balançando a cabeça. Jeb riu maliciosamente.
— O que foi isso? — Ian murmurou para Jeb, como se eu fosse surda.
— Vai saber — Jeb disse; ele mentiu como só um humano podia mentir, suavemente e com tranqüilidade.
Ele era um bom mentiroso, e eu comecei a imaginar se deixar a arma para trás hoje , me deixar sozinha ontem e todo esse esforço para me impor a companhia de humanos não era a suas maneira de me matar sem ter que fazer o serviço ele mesmo. A amizade estava só na minha cabeça? Mais uma mentira?
Esse era o meu quarto dia comendo na cozinha.
Jeb, Ian e eu caminhamos pelo cômodo longo e quente – uma multidão de humanos conversando baixo sobre os eventos do dia – e nada aconteceu.
Nada aconteceu.
Não houve silêncio abrupto. Ninguém parou para nos encarar. Ninguém pareceu sequer nos notar.
Jeb me levou até um canto vazio e então foi buscar pão para três. Ian se acomodou perto de mim, casualmente virando para a garota do seu outro lado. Era a jovem loira – ele a chamou de Paige.
— Como vão as coisas? Se aguentando bem sem Andy? — Ele perguntou a ela.
— Eu estaria bem se não estivesse tão preocupada. — Ela disse, mordendo o lábio.
— Ele estará de volta logo — Ian a assegurou. — Jared sempre traz todo mundo de volta. Ele tem um talento. Nós não tivemos nenhum acidente, nenhum problema desde que ele apareceu. Andy vai ficar bem.
Meu interesse se acendeu quando ele mencionou Jared – e Melanie, que andava meio sonolenta esses dias, acordou – mas Ian não disse mais nada. Ele só a confortou com um afago nos ombros e virou para pegar sua comida com Jeb.
Jeb sentou-se ao meu lado e observou a sala ao redor com um profundo senso de satisfação, claro em sua expressão. Eu olhei para a sala também, tentando ver o que ele via. As coisas deviam ser assim antes de eu aparecer. Hoje, no entanto, eu não parecia não incomodá-los. Eles deviam estar fartos de me deixar interromper suas vidas.
— As coisas estão se acalmando — Ian comentou com Jeb.
— Sabia que iriam. Nós somos razoáveis aqui.
Eu franzi a testa.
— É verdade, por enquanto — Ian disse, rindo. — Meu irmão não está por perto.
— Exatamente — Jeb concordou.
Era interessante para mim que Ian contasse a si próprio entre os razoáveis. Será que ele havia notado que Jeb estava desarmado? Eu estava queimando de curiosidade, mas eu não ia arriscar falar nada, para o caso de ele não ter reparado.
A refeição continuou como havia começado. Aparentemente, minha novidade parecia ter acabado.
Quando a refeição acabou, Jeb disse que eu merecia um descanso. Ele me acompanhou até a porta, sendo cavalheiro novamente.
— Boa tarde, Peg. — Ele disse, tocando no chapéu imaginário.
Eu respirei fundo, tomando coragem.
— Jeb, espere.
— Sim?
— Jeb... — hesitei, tentando achar um jeito educado de falar. — Eu... bem, talvez seja idiotice minha, mas eu meio que pensei que fôssemos amigos.
Eu observei seu rosto atentamente procurando algo que indicasse que ele estava prestes a mentir, mas o que eu sabia sobre mentiras?
— Claro que somos Peg.
— Então por que você está tentando me matar?
Suas sobrancelhas se uniram com surpresa.
— Querida, por que você pensaria isso?
Eu listei meu indícios.
— Você não trouxe a arma hoje. Ontem me deixou sozinha.
Jeb sorriu.
— Eu achava que você odiava a arma.
Eu esperei a resposta.
— Peg, se eu quisesse você morta, você não teria durado o primeiro dia.
— Eu sei — murmurei, começando a me sentir envergonhada sem saber o porquê. — Por isso que isso tudo é tão confuso.
Jeb riu alegremente.
— Não, eu não quero você morta! Essa é a questão, garota. Eu fiz com que eles se habituassem a vê-la por aí, fazendo-os aceitar a situação sem que percebessem. É como cozinhar um sapo.
Minha testa franziu ao ouvir a excêntrica comparação.
Jeb explicou.
— Se você joga um sapo em uma panela de água fervendo ele pula fora imediatamente. Mas se você colocar o sapo em água fria e aquecê-la lentamente, o sapo não percebe o que está acontecendo até ser tarde demais. Sapo cozido. É só uma questão de fazer as coisas pouco a pouco, devagar.
Eu pensei nisso por alguns segundos – pensando em como os humanos haviam me ignorado no almoço hoje. Jeb os acostumou a mim. O entendimento me deixou estranhamente esperançosa. Esperança era uma coisa tola em minha situação, mas eu senti mesmo assim, colorindo minha percepção ainda mais.
— Jeb?
— Sim?
— Eu sou o sapo ou a água?
Ele riu.
— Eu vou deixar esse enigma para você decifrar. Autoavaliação faz bem para a alma. — Ele riu alto dessa vez, e se virou para partir. — O trocadilho não foi intencional.
— Espere – posso perguntar mais uma?
— Claro. Eu diria que é a sua vez, depois de tudo o que lhe perguntei.
— Por que você é meu amigo, Jeb?
Ele pressionou os lábios por um segundo, considerando sua resposta.
— Sabe, eu sou um homem curioso — ele começou, e eu acenei. — Bem, eu observei vocês, almas, por um longo tempo, mas nunca tive a chance de falar com uma. Eu tinha tantas perguntas gritando cada vez mais alto. Além do que, eu sempre achei que se uma pessoa quiser, ela pode se dar bem com praticamente todo mundo. Eu gosto de testar minhas teorias. E vê, aqui está você, umas das garotas mais legais que já conheci. É realmente muito interessante ter uma alma como amiga, e me faz sentir superespecial que eu tenha conseguido isso.
Ele piscou para mim, fez uma reverencia e se foi.
Só porque agora eu entendi o plano de Jeb, isso não fez as coisas mais fáceis quando ele o incrementou.
Jeb nunca mais levou a arma com ele. Eu não sabia onde ela estava, mas eu me senti agradecida por Jamie não dormir mais com ela, pelo menos. Eu ficava meio nervosa em ter Jamie comigo desprotegido, mas eu decidi que ele estava em menor perigo sem a arma. Ninguém sentiria a necessidade de machucar ele se ele não fosse uma ameaça. Além disso, ninguém veio me procurar novamente.
Jeb começou a me enviar em pequenas tarefas. Ir à cozinha pegar mais um pão, ele ainda estava com fome. Ir buscar um balde de água, aquele canto do campo ainda estava seco. Buscar Jamie na aula, Jeb precisava falar com ele. Os brotos de espinafres já estão bons? Vá verificar. Eu ainda lembrava do caminho para as cavernas no sul? Jeb tinha uma mensagem para Doc.
Toda vez que eu tinha que cumprir uma dessas simples tarefas, eu ficava suando de medo. Me concentrava em ficar invisível e caminhava o mais rapidamentepossível sem correr pelos cômodos e corredores. Eu tendia a andar bem perto das paredes e manter os olhos baixos. Ocasionalmente eu interrompia as conversas como sempre fazia, mas na maior parte das vezes eu era ignorada. A única vez em que me senti em perigo imediato de morte foi quando interrompi uma aula de Sharon para pegar Jamie. O olhar de Sharon para mim parecia o olhar que era seguido por atitudes hostis. Mas ela deixou Jamie ir após eu ter sussurrado o pedido, e, quando estávamos sozinhos, Jamie segurou minha mão e me disse que Sharon sempre fazia aquela cara quando alguém interrompia sua aula.
A pior de todas as ocasiões foi quando eu tive que encontrar Doc, porque Ian insistiu em me mostrar o caminho. Eu podia ter recusado, eu acho, mas Jeb parecia não ter problemas com o arranjo, e isso significava que Jeb confiava que Ian não ia me matar. Eu não estava muito confortável em testar essa teoria, mas parecia que o teste era inevitável. Se Jeb estivesse errado em confiar em Ian, então Ian ter sua oportunidade logo, logo.
Então eu fui com Ian pelo longo túnel sul como se estivesse em um julgamento por minha vida. Eu sobrevivi à primeira metade. Doc recebeu sua mensagem. Ele pareceu surpreso em me ver acompanhada por Ian. Talvez tenha sido minha imaginação, mas achei tê-los visto trocar um olhar significativo. Àquela altura, esperei que eles me jogassem em uma das macas de Doc. Aquelas câmaras ainda me faziam sentir nauseada.
Mas Doc somente me agradeceu e me dispensou como se estivesse ocupado. Eu não podia imaginar o que ele estava fazendo – ele tinha vários livros abertos e pilhas e mais pilhas de papéis contendo rascunhos.
No caminho de volta, a curiosidade superou o meu medo.
— Ian? — eu perguntei, tendo um pouco de dificuldade em dizer o nome pela primeira vez.
— Sim? — ele parecia surpreso por eu ter dirigido a palavra a ele.
— Por que você ainda não me matou?
Ele bufou.
— Essa foi direta.
— Você poderia, sabe? Jeb poderia ficar irritado, mas eu não acho que ele atiraria em você.
O que eu estava dizendo? Parecia que eu estava tentando convencê-lo. Mordi a língua.
— Eu sei. — Ele disse, seu tom de voz complacente. Ficou tudo quieto por um momento, somente os sons de nossos passos ecoando baixos e abafados nas paredes. — Não me parece justo — Ian finalmente disse. — Eu andei pensando muito nisso, e não vejo como matar você possa ajustar as coisas. Seria como executar um soldado pelos crimes de guerra de um general. Veja bem, eu não engulo todas as teorias loucas de Jeb – seria bom acreditar, é claro, mas só por que a gente quer que uma coisa seja verdade não quer dizer que seja. Esteja ele certo ou errado, você não parece querer nos fazer mal. Eu tenho que admitir que você realmente parece gostar do garoto. É muito estranho ver. Enfim, contanto que você não nos coloque em perigo, parece... crueldade matar você. O que significa ter mais um desajustado por aqui?
Eu pensei no significado de desajustado por um instante. Foi a melhor descrição de mim que eu já ouvi. Onde foi que um dia eu me ajustei? Que estranho que fosse Ian, dentre todos os humanos, que tivesse esse tipo de sensibilidade e gentileza interior. Eu não percebi que crueldade pareceria uma coisa negativa para ele.
Ele esperou em silêncio enquanto eu considerava tudo isso.
— Se você não quer me matar, então por que veio comigo hoje? — eu perguntei.
Ele pausou novamente antes de responder.
— Eu não tenho certeza se... — ele hesitou. — Jeb acha que as coisas se acalmaram, mas não estou completamente seguro disso. Ainda há algumas pessoas... enfim, Doc e eu tentamos ficar de olho em você sempre que podemos. Só por precaução. Enviar você pelo túnel sul me pareceu forçar a sorte um pouco demais. Mas é isso que Jeb faz, ele força a sorte o máximo possível.
— Você e Doc estão tentando me proteger?
— Que mundo estranho, né?
Demorou alguns segundos até eu conseguir responder.
— O mais estranho de todos — concordei finalmente.
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