terça-feira, março 18, 2014

Forçada


Mais uma semana se passou, talvez duas – parecia bobagem contar o tempo por aqui, onde ele era tão irrelevante – e as coisas só ficaram mais estranhas para mim.
Eu trabalhava com os humanos todo dia, mas nem sempre com Jeb. Algumas vezes Ian estava comigo, às vezes Doc, e em alguns dias só Jamie. Eu trabalhava nos campos, fazia pão, e esfregava balcões. Eu carregava água, fazia sopa de cebola,lavava roupas no final da piscina negra, e queimava minhas mãos fazendo aquele sabonete ácido. Todos faziam a sua parte, e como eu não tinha o direito de estar aqui, eu tentava trabalhar duas vezes mais que os outros. Eu nunca ganharia direito a um lugar aqui, mas tentava fazer da minha presença um peso menor.
Eu descobri mais sobre os humanos a minha volta, ouvindo-os. Eu aprendi seus nomes, pelo menos. A mulher de pele cor de caramelo era a Lily, e ela era da Filadélfia. Ela tinha um senso de humor seco e se dava bem com todo mundo, pois nunca se irritava. O jovem com cabelos negros enrolados, Wes, a olhava muito, mas ela parecia não perceber isso. Ele só tinha dezenove, e tinha vindo de Eureka, Montana. A mãe de olhos sonolentos era Lucina, e as duas crianças dela eram Isaiah e Liberdade – Liberdade havia nascido aqui nas cavernas, pelas mãos de Doc. Eu não via muito esses três, tinha a impressão de que a mãe deles os mantinham o mais longe possível de mim. O homem careca das bochechas vermelhas era o marido de Trudy, Geoffrey. Eles estavam sempre com outro homem mais velho, Heath, que era amigo de Geoffrey desde a infância; os três fugiram da invasão juntos. O homem pálido de cabelos brancos era Walter. Ele estava doente, mas Doc não sabia o que havia errado com ele – não tinha como descobrir, não sem exames e um laboratório, e mesmo que Doc conseguisse diagnosticar o problema, ele não possuía remédios para tratá-lo. Conforme os sintomas avançavam, Doc começou a achar que era alguma forma de câncer. Isso me afligiu – ver alguém morrendo de algo tão facilmente curável. Walter se cansava facilmente, mas estava sempre alegre. A mulher loira – os olhos constantemente sombrios – que havia levado água para os outros lá no campo, no primeiro dia, era a Heidi. Travis, John, Stanley, Reid, Carol, Violetta, Ruth Ann... Eu sabia todos os nomes pelo menos. Eram 35 humanos na colônia, com seis deles na incursão, incluindo Jared. Vinte e nove humanos estavam nas cavernas agora, e um alienígena indesejável para a maioria.
Eu também aprendi mais sobre meus vizinhos.
Ian e Kyle dividiam a caverna em meu corredor que tinha as duas portas de verdade. Ian tinha ido dormir com Wes em outro corredor, em protesto a minha presença lá, mas voltou após duas noites. As outras cavernas próximas também estavam vazias. Jeb me disse que os seus ocupantes tinham medo de mim, o que me fez rir.
Vinte e nove cascavéis com medo de um rato?
Agora Paige tinha voltado, na entrada ao lado, na caverna que ela dividia com seu parceiro, Andy, de quem ela lamentava a ausência. Lily e Heidi estavam na primeira caverna, a dos lençóis floridos; Heath na segunda, a do papelão; e Trudy e Geoffrey estavam na terceira, a da colcha listrada.
Reid e Violetta estavam em uma caverna abaixo da minha, sua privacidade protegida por um tapete estilo oriental. A quarta caverna nesse corredor pertencia a Doc e Sharon, e a quinta à Maggie, mas nenhum desses três havia retornado.
Doc e Sharon eram companheiros, e Maggie, em seus raros momentos de humor, brincava com Sharon dizendo que precisara o fim da humanidade para Sharon arrumar o homem perfeito: toda mãe queria um médico para sua filha.
Sharon não era a garota que eu tinha visto nas memórias de Melanie. Teriam sido os anos morando sozinha com a severa Maggie que a haviam transformado nessa versão um pouco mais colorida de sua mãe? Apesar de seu relacionamento com Doc ser mais novo nesse mundo do que eu, ela não apresentava nenhum dos efeitos suavizadores de um novo amor.
Eu sabia da duração de seu relacionamento por Jamie – Sharon e Maggie raramente esqueciam quando eu estava em um aposento qualquer com elas, e suas conversas eram sempre cuidadosas. Elas ainda eram a mais forte oposição a mim, as únicas que eu ainda podia sentir uma tremenda hostilidade ao me evitar.
Eu perguntei a Jamie como Sharon e Maggie haviam chegado aqui. Elas haviam encontrado Jeb sozinhas e chegado antes de Jamie e Jared? Ele pareceu entender a verdadeira pergunta: os esforços de Melanie para encontrá-las havia sido em vão?
Jamie me disse que não. Quando Jared o mostrou o bilhete de Melanie, explicando que ela tinha sido levada – levou um tempo até ele conseguir falar novamente depois de dizer essa última parte, e eu pude ver em seu rosto o quanto aquele momento havia sido duro para ele e Jared – eles mesmos decidiram procurar Sharon.
Maggie manteve Jared na ponta de uma espada antiga enquanto ele se explicava, havia sido por pouco. Não levou muito para Maggie e Jared decifrarem as linhas de Jeb. Os quatro chegaram às cavernas antes de eu mudar de Chicago para San Diego.
Quando Jamie e eu falávamos de Melanie, não era tão difícil como deveria ser. Ela sempre participava dessas conversas – diminuindo sua dor, me acalmando – apesar de ter pouco a dizer. Ela raramente falava agora, e quando ela o fazia, era uma conversa muda, às vezes eu não tinha certeza se era ela pensando ou eu. Mas ela se esforçava por Jamie. Quando eu a ouvia, era sempre com ele. Quando ela não falava, nós dois sentíamos a presença dela.
— Por que a Melanie está tão quieta agora? — Jamie me perguntou uma vez tarde da noite. Por um milagre ele não estava me enchendo de perguntas sobre Aranhas e Provadores de Fogo. Ambos estávamos cansados – havia sido um longo dia colhendo cenouras. Minha coluna estava cheia de pontos doloridos.
— É difícil para ela falar. Exige muito mais esforço do que de mim ou de você. Ela não tem nada que queira falar tanto assim.
— O que ela faz o tempo todo?
— Ela escuta, eu acho, não tenho certeza.
— Você pode ouvi-la agora?
— Não.
Eu bocejei, e ele ficou quieto. Eu achei que estivesse dormindo. E já estava indo nessa direção também.
— Você acha que ela irá embora? De verdade? — Jamie sussurrou. Sua voz falhou um
pouco.
Eu não era uma mentirosa, e eu não acho que pudesse mentir para ele mesmo que fosse. Eu tentei não pensar nas implicações dos meus sentimentos por ele. O que importava se o maior amor que eu já havia sentido em todas as minhas nove vidas, a primeira noção de família, de instinto maternal, foi por uma forma alienígena de vida? Eu afastei o pensamento.
— Eu não sei. — Eu disse a ele. E então, porque era verdade, eu acrescentei: — espero que não.
— Você gosta dela como gosta de mim? Você a odiava como ela odiava você?
— É diferente de como eu gosto de você. E eu nunca realmente a odiei, nem mesmo no início. Eu tinha muito medo dela, e estava com raiva porque, por causa dela, eu não podia ser como todo mundo. Mas eu sempre, sempre admirei a força dela, e Melanie é a pessoa mais forte que já conheci.
Jamie riu.
— Você tinha medo dela?
— Você não acha que sua irmã pode ser assustadora? Lembra daquela vez que você subiu muito alto no cânion e quando voltou para casa tarde ela “teve um ataque e deu uma tremenda bronca”, como Jared disse?
Ele sorriu à memória. Eu fiquei feliz de tê-lo distraído da sua pergunta dolorosa.
Eu estava firme no propósito de manter a paz com todos os meus novos companheiros de todas as formas que pudesse. Eu achava que estava disposta a fazer qualquer coisa, não importasse o quão cansativo ou fedorento fosse, mas eu estava errada.
— Então, eu estava pensando — Jeb me disse um dia, talvez umas duas semanas depois que todo mundo havia "se acalmado".
Eu estava começando a odiar essas palavras de Jeb.
— Você lembra daquilo que eu disse sobre talvez você ensinar aqui?
Eu nem precisei pensar.
— Não.
Minha recusa lançou uma estranha onda de culpa por mim. Eu nunca tinha recusado um Chamado antes. Eu me sentia meio que egoísta ao fazer isso. Obviamente não era a mesma coisa. As almas nunca teriam me pedido para fazer algo tão suicida.
Ele franziu a testa para mim, suas sobrancelhas juntas.
— Por que não?
— O que você acha que Sharon vai achar disso? — eu perguntei com a voz calma. Era apenas um exemplo, mas talvez o mais forte.
Ele concordou com a cabeça, ainda franzindo a testa, aceitando o meu argumento.
— É por um bem maior — ele murmurou.
Eu zombei.
— Um bem maior? Isso seria me matar?
— Peg, que falta de visão — ele disse, discutindo como se meu argumento tivesse sido uma séria tentativa de persuasão. — O que nós temos aqui é uma chance rara de aprender. Seria desperdício deixá-la passar.
— Eu realmente não acho que alguém queria aprender comigo. Eu não me importo em falar com Jamie ou com você...
— Não importa o que eles querem — Jeb insistiu. — É o melhor para eles. Como chocolate contra brócolis. Eles devem aprender mais sobre o universo – sem falar dos novos ocupantes de nosso planeta.
— Como isso os ajudaria Jeb? Você acha que eu sei de algo que possa destruir as almas? Reverter a maré? Jeb, está tudo acabado.
— Não está enquanto nós ainda estivermos aqui — Jeb me disse, sorrindo, para que eu soubesse que ele estava brincando comigo. — Eu não espero que você vire uma traidora e nos dê alguma superarma. Eu só acho que nós devíamos saber mais sobre o universo em que vivemos.
Eu estremeci à palavra traidora.
— Eu não poderia lhe dar uma arma mesmo se eu quisesse Jeb. Nós não temos uma grande fraqueza, um calcanhar de Aquiles. Nenhum arqui-inimigo no espaço para vocês pedirem auxílio, nenhum vírus que nos apagaria da face da Terra e mantivesse vocês vivos, Desculpe.
— Não se incomode então. — Ele deu um soco de leve em meu braço, brincando. — Você pode se surpreender sabe? Eu te disse que fica entediante por aqui. As pessoas podem querer ouvir suas histórias mais do que você pensa.
Eu sabia que Jeb não ia deixar isso de lado. Jeb era capaz de aceitar uma derrota? Eu duvidava.
Nas horas das refeições eu normalmente sentava com Jeb e Jamie, se ele não estivesse na escola ou ocupado em algum outro lugar. Ian sentava-se sempre por perto, embora nunca não realmente conosco. Eu ainda não conseguia aceitar completamente a ideia de seu papel autoproclamado de meu guarda-costas. Parecia bom demais para ser verdade, e baseado na filosofia humana, claramente falso.
Alguns dias depois de eu recusar o pedido de Jeb para que eu ensinasse aos humanos “pelo próprio bem deles”, Doc veio sentar conosco durante o jantar.
Sharon permaneceu onde estava, no canto mais distante de mim. Ela estava sozinha hoje, sem a companhia da mãe. Não se virou para observar Doc andando em minha direção. Seus cabelos brilhantes estavam presos em um coque apertado, então eu podia ver seu pescoço rígido e ombros arqueados, tensos e infelizes. Isso me fez querer ir embora imediatamente, antes que Doc dissesse o que ele tencionasse dizer para mim.
Mas Jamie estava comigo e segurou a minha mão quando viu o familiar pânico em meus olhos. Ele estava desenvolvendo a habilidade de pressentir quando eu começava a me assustar. Eu suspirei e fiquei onde estava. Ser escrava das vontades desse menino devia me incomodar ainda mais.
— Como vão as coisas? — Doc perguntou com a voz casual, deslizando ao meu lado na bancada.
Ian, alguns centímetros longe de nós, se virou, de modo que pareceu que ele era parte do grupo.
Eu dei de ombros.
— Fizemos sopa hoje — Jamie anunciou. — Meus olhos ainda estão ardendo.
Doc ergueu um par de mãos muito vermelhas.
— Sabão.
Jamie sorriu.
— Você ganhou.
Doc fez uma reverência zombeteira e então virou para mim.
— Peg, eu tenho uma pergunta para você... — Ele deixou as palavras se dissiparem.
Eu ergui as sobrancelhas.
— Bem, eu estava pensando... De todos os planetas que você está familiarizada, quais espécies são fisicamente mais parecidas com os humanos?
Eu pisquei.
— Por quê?
— Só uma boa e velha curiosidade biológica. Eu andei pensando em seus Curandeiros... Onde eles conseguiram o conhecimento para curar, e não para tratar os sintomas como você disse? — Doc estava falando mais alto do que o necessário, sua voz macia indo mais longe que o usual. Várias pessoas olharam para cima – Trudy, Lily, Walter...
Eu cruzei os braços bem apertados em volta de mim, tentando ocupar menos espaço.
— São duas perguntas diferentes. — Eu murmurei.
Doc sorriu e gesticulou com uma mão para que eu continuasse.
Jamie apertou minha mão.
Eu suspirei.
— Os Ursos no planeta das Brumas, provavelmente.
— Com as bestas de garras afiadas? — Jamie murmurou.
Eu acenei.
— Como eles são semelhantes? — Doc perguntou.
Eu revirei os olhos, sentindo as instruções de Jeb por trás das palavras, mas continuei.
— Eles são mais próximos aos mamíferos de várias maneias. Pelos, sangue quente. O sangue deles não é exatamente como o de vocês, mas tem essencialmente a mesma função. Eles possuem emoções semelhantes, a mesma necessidade de interação social e de expressão criativa...
— Criativa? — Doc se inclinou fascinado – ou fingindo fascinação. — Como assim?
Eu olhei para Jamie.
— Você sabe. Por que não diz a Doc?
— Eu posso falar alguma coisa errada.
— Não fala não.
Ele olhou para Doc, que concordou com a cabeça.
— Tipo assim, eles tem aquelas mãos incríveis — Jamie ficou imediatamente entusiasmado. — Meio que com uma articulação dupla, elas viram para os dois lados. — Ele flexionou os seus próprios dedos, tentando virá-los para fora. — Um lado é macio, como minhas palmas, mas o outro lado é afiado como uma navalha. Eles cortam o gelo, esculpem o gelo. Eles fazem cidades que são constituídas inteiramente de castelos de cristal que nunca derretem. É lindo, né Peg? — Ele virou para mim buscando confirmação.
Eu acenei.
— Eles veem diferentes cores... o gelo é cheio de arco-íris. As cidades são um motivo de orgulho para eles. Estão sempre tentando deixá-las mais bonitas. Eu conheci um Urso que se chamava... bem... algo próximo de Tecelão de Brilhos, mas soava melhor na língua deles, por causa da maneira de como o gelo parecia saber o que ele queria e se moldava conforme ele sonhava. Eu o conheci uma vez e vi suas criações. É uma das minhas recordações mais belas.
— Eles sonham? — Ian perguntou baixo.
Eu sorri levemente.
— Não tão vividamente quanto os humanos.
— Como os seus Curandeiros conseguem o conhecimento sobre a fisiologia de uma nova espécie? Eles vieram para este planeta preparados. Eu vi quando começou – vi pacientes terminais saindo dos hospitais em perfeito estado... — Na testa estreita do médico um V se formou ao franzir a testa. Ele odiava os invasores, como todo mundo, mas diferentemente dos outros, ele também os invejava.
Eu não queria responder. Todo mundo estava escutando agora, e esse não era um conto de fadas sobre Ursos que esculpiam gelo. Essa era a história da derrota deles.
Doc esperou, ainda de cenho franzido.
— Eles... eles capturaram amostras — murmurei.
Ian sorriu ao entender.
— Abdução alienígena.
Eu o ignorei.
Doc pressionou os lábios.
— Faz sentido.
A sala silenciosa me lembrou da primeira vez que eu entrei aqui.
— Onde sua espécie começou? — Doc perguntou. — Você lembra? Quero dizer, como espécie, você sabe como ela evoluiu?
— A Origem — respondi, confirmando com a cabeça. — Ainda vivemos lá. Foi onde eu... nasci.
— Isso é meio que especial — Jamie acrescentou. — É raro encontrar alguém de Origem, certo? A maioria das almas tenta ficar por lá, certo Peg? — ele não esperava pelas minhas respostas. Eu estava começando a lamentar ter respondido suas perguntas de forma tão completa todas as noites. — Então, quando alguém parte de lá, isso faz a alma virar quase... uma celebridade, certo? Ou um membro da família real
Eu sentia minhas bochechas ficando quentes.
— É um lugar legal — Jamie continuou. — Cheio de nuvens, com um monte de camadas coloridas. É o único planeta onde as almas podem viver fora de um hospedeiro por muito tempo. Os hospedeiros na Origem são bem bonitos também, com asas, muitos tentáculos e grandes olhos prateados.
Doc estava inclinado para frente com seu rosto apoiado em suas mãos.
— Eles lembram quando a relação hospedeiro-parasita começou? Como a colonização começou?
Jamie olhou para mim, dando de ombros.
— Nós sempre fomos assim. — Eu respondi, ainda de má vontade. — Desde que somos inteligentes o suficiente para nos conhecer, pelo menos. Nós fomos descobertos por outra espécie... os Abutres, é assim que nós os chamamos por aqui, se bem que mais pela personalidade do que pela aparência. Eles não eram... bons. Então nós descobrimos que podíamos nos ligar a eles assim como fazíamos com os nossos hospedeiros originais. Uma vez que nós os controlamos, lançamos mão da tecnologia deles. Dominamos o planeta deles primeiro, e depois o planeta dos Dragões e o Mundo Verão... lugares adoráveis onde os Abutres também não haviam sido muito gentis. Nós iniciamos a colonização, nossos hospedes se reproduziam muito mais lentamente que nós, e o período de vida deles era curto. Começamos a explorar mais fundo no universo...
Eu me calei, consciente dos muitos olhos focados no meu rosto. Só Sharon continuava a olhar para o outro lado.
— Você fala quase como se estivesse lá — Ian observou. — Há quanto tempo isso aconteceu?
— Depois dos dinossauros viverem aqui, mas antes dos humanos. Eu não tenho certeza, mas eu lembro algumas coisas que a mãe da mãe da minha mãe se lembrava.
— Quantos anos você tem? — Ian perguntou, inclinando-se em minha direção, seus brilhantes olhos azuis penetrantes.
— Eu não sei em anos terrestres.
— Uma estimativa? — ele pressionou.
— Milhares de anos, talvez. — Eu dei de ombros. — Eu nem sei sequer quanto tempo estive em hibernação.
Ian se afastou surpreso.
— Uau, isso é ser velha — Jamie comentou.
— Mas no sentido muito real, eu sou mais nova do que você — eu murmurei para ele. — Nem um ano ainda, eu me sinto como uma criança o tempo todo.
Os lábios de Jamie se contraíram ligeiramente. Ele gostava da ideia de ser mais maduro que eu.
— Como é o processo de envelhecimento da sua espécie? — Doc perguntou. — O tempo de vida natural?
— Nós não temos — disse-lhe. — Desde que tenhamos um hospedeiro saudável, nós podemos viver para sempre.
Um murmúrio baixo passou pela caverna – raiva? Medo? Nojo? Eu não saberia dizer.
Percebi que minha resposta tinha sido imprudente; entendi o que essas palavras significariam para eles.
— Ótimo. — A palavra, baixa e furiosa veio da direção de Sharon, mas ela não havia se virado. Jamie apertou minha mão, vendo em meus olhos novamente o desejo de fugir. Dessa vez eu libertei minha mão.
— Eu não estou mais com fome — sussurrei, apesar de o pão ainda estar praticamente intocado na bancada ao meu lado. Eu desci e, encostada na parede, fugi.
Jamie seguiu logo atrás de mim. Ele me alcançou na grande praça da horta e me entregou o resto do pão.
— Foi muito interessante, sério — ele me disse. — Eu não acho que ninguém tenha ficado muito chateado.
— Jeb que pôs Doc nisso né?
— Você conta histórias bem. Assim que todo mundo descobrir isso, eles irão querer ouvir. Assim como eu e Jeb.
— E se eu não quiser contar a eles?
Jamie franziu a sobrancelha.
— Bem, então eu imagino que você não deva contar. Mas parece que você não liga de me contar histórias.
— É diferente. Você gosta de mim. — Eu podia ter dito, Você não quer me matar, mas as
implicações o teriam perturbado.
— Quando as pessoas te conhecerem elas gostarão de você. Ian e Doc gostam.
— Ian e Doc não gostam de mim, Jamie. Eles só estão morbidamente curiosos.
— Dá na mesma.
— Ugh — gemi.
Nós estávamos em nosso quarto agora. Eu afastei o biombo e me joguei no colchão. Jamie sentou ao meu lado e abraçou os joelhos.
— Não fique com raiva — Jamie pediu. — A intenção de Jeb é boa.
Eu grunhi.
— Não vai ser tão ruim.
— Doc vai fazer isso toda vez que eu for para a cozinha, não vai?
Jamie assentiu timidamente.
— Ou Ian. Ou Jeb.
— Ou você.
— Todos nós queremos saber.
Eu suspirei e virei de barriga para cima.
— Jeb sempre consegue fazer as coisas do jeito dele?
Jamie pensou por um instante.
— Basicamente, sim.
Eu mordi um grande pedaço de pão. Quando terminei de mastigar, eu disse:
— Acho que vou comer aqui de hoje em diante.
— Ian vai te perguntar amanhã quando você estiver no campo de espinafres. Jeb não mandou, ele quer perguntar.
— Que maravilha.
— Você é boa com sarcasmo. Eu achei que os parasitas... quero dizer as almas... não gostavam de humor negro. Só das coisas felizes.
— Aprendemos rápido aqui.
Jamie riu e pegou a minha mão.
— Você não odeia aqui odeia? Você não está se sentindo infeliz, está?
Seus grandes olhos cor de chocolate estavam perturbados.
Eu pressionei sua mão em meu rosto.
— Eu estou bem — disse, e naquele momento, era inteiramente verdade.

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