terça-feira, março 18, 2014

Retornados


Sem jamais ter realmente concordado, eu me tornei a professora que Jeb queria.
Minhas “aulas” eram informais. Eu respondia perguntas toda noite após o jantar. Descobri que enquanto eu estivesse disposta a fazer isso, Ian, Doc e Jeb me deixariam em paz durante o dia para cumprir minhas tarefas. Nós sempre nos juntávamos na cozinha, eu gostava de ajudar a assar o pão enquanto falava. Isso me dava uma desculpa para pausar antes de responder uma pergunta difícil e algum lugar para olhar quando eu não queria encontrar o olhar de alguém. Na minha cabeça, isso se encaixava, minhas palavras as vezes eram perturbadoras, mas minhas ações eram sempre para o bem deles.
Eu não queria admitir que Jamie estava certo. Obviamente as pessoas não gostavam de mim, elas não podiam, eu não era uma delas. Jamie gostava de mim, mas isso era uma reação química estranha longe de ser racional. Jeb gostava de mim, mas ele era maluco. O resto deles não tinha essa desculpa.
Não, eles não gostavam de mim. Mas as coisas mudaram quando eu comecei a falar.
A primeira vez que eu percebi isso foi na manhã depois de eu ter respondido as perguntas de Doc no jantar. Eu estava na sala de banho escura, lavando roupas com Trudy, Lily e Jamie.
— Você poderia me passar o sabão por favor, Peg? — Trudy perguntou à minha esquerda.
Uma corrente elétrica correu pelo meu corpo ao ouvir o som do meu nome dito por uma voz feminina. Entorpecida, eu passei o sabão para ela e enfiei a mão na água para tirar o ardido da mão.
— Obrigada. — Ela disse.
— De nada — murmurei. Minha voz falou na última silaba.
Eu passei por Lily no corredor um dia depois indo encontrar Jamie antes do jantar.
— Peg. — Ela disse, cumprimentando-me com a cabeça.
— Lily — respondi, minha garganta seca.
Logo não eram só Doc e Ian fazendo perguntas à noite. Surpreendeu-me ver quem eram os mais eloquentes: o exausto Walter, o rosto de um preocupante tom de cinza, superinteressado pelos Morcegos do Mundo Cantor. Heath, normalmente quieto, que sempre deixava Trudy e Geoffrey falar por ele, era bem falante durante as noites. Ele ficou um pouco fascinado pelo Mundo do Fogo, e apesar de ser um dos meus menos favoritos, ele me enchia de perguntas até ouvir tudo o que eu podia dizer sobre eles.
Lily estava interessada no funcionamento mecânico das coisas – ela queria saber sobre as naves que nos levavam de planeta a planeta, os pilotos, os combustíveis. Foi para Lily que eu expliquei sobre os criotanques – algo que todos já tinham visto, mas poucos entendiam a finalidade. O tímido Wes, geralmente sentado perto de Lily, perguntava não sobre os outros planetas, mas sobre esse. Como funcionava? Sem dinheiro, sem recompensa pelo trabalho – como a sociedade das almas sobrevivia assim? Eu tentei explicar que não era tão diferente da vida nas cavernas. Não trabalhávamos todos sem dinheiro e compartilhávamos o produto do trabalho igualmente?
— Sim — ele me interrompeu, balançando a cabeça. — Mas é diferente aqui – Jeb tem uma arma para os preguiçosos.
Todo mundo olhou para Jeb, que pestanejou, e todos riram.
Jeb ficava de plantão. Ele não participava, só sentava pensativo no fundo da sala, ocasionalmente rindo.
Ele estava certo sobre o fator entretenimento – estranhamente, pois todos tínhamos pernas, a situação me lembrou das Algas Visionárias. Havia nomes específicos para cada Chamado lá, como Confortador, Curandeiro, ou Buscador. Eu era a Contadora de Histórias, então a transição para professora aqui na Terra não foi uma grande mudança, pelo menos em termos de Chamado. Era basicamente a mesma coisa na cozinha depois de escurecer, com o cheiro de fumaça e pão assando. Todo mundo estava preso aqui, tanto quanto uma planta.
Minhas histórias eram algo novo, algo para pensar além do normal – as repetitivas tarefas, os mesmos trinta e cinco rostos, as memórias e os rostos que traziam lembranças tristes, o mesmo medo e desespero que eram companheiros deles por muito tempo. E assim, a cozinha estava sempre cheia para as minhas aulas casuais. Somente Sharon e Maggie ficavam ausentes.
Foi mais ou menos na minha quarta semana como professora informal que a vida nas cavernas mudou de novo.
A cozinha estava lotada, como sempre. Jeb e Doc eram os únicos que faltavam, além das duas de sempre. Na bancada perto de mim havia uma bandeja metálica com massas de pão já enroladas, prontas para ir ao forno assim que a bandeja que já estava lá ficasse pronta. Trudy checava constantemente para garantir que nada queimasse.
Eu tentava, sempre que possível, fazer Jamie falar por mim quando ele conhecia bem a história. Eu gostava de ver o entusiasmo iluminar seu rosto, e o jeito como suas mãos desenhavam no ar. Essa noite, Heidi queria saber mais sobre os Golfinhos, então eu pedi a Jamie responder essa o melhor que ele pudesse.
Os humanos sempre falavam com tristeza quando perguntavam sobre uma nova aquisição. Eles viam os Golfinhos como espelhos de si mesmos em seu primeiro ano de ocupação. Os olhos escuros de Heidi, que não combinavam com os cabelos tão loiros que eram quase brancos, estavam cheios de simpatia quando ela perguntou sobre eles.
— Eles parecem mais com enormes vaga-lumes que com peixes, não é, Peg? — Jamie quase sempre pedia confirmação, mas nunca esperava resposta. — Eles são meio que de couro, mas com três, quatro ou cinco pares de asas, dependendo da idade deles, certo? Então eles meio que voam pela água... que é menos densa do que a água daqui, mais leve. Eles têm cinco, sete ou nove pernas, dependendo do gênero, certo, Peg? Eles tem três gêneros diferentes. Eles tem mão realmente longas com dedos elásticos e fortes que podem construir todo tipo de coisa. Eles fazem cidades embaixo da água com as plantas resistentes que crescem lá, parecido com árvores, mas não exatamente árvores. Eles não são tão evoluídos quanto nós, né, Peg? Eles nunca fizeram uma naves espaciais ou telefones para se comunicar. Humanos são bem mais avançados.
Trudy tirou a bandeja de pães assados e eu me inclinei para colocar a outra bandeja dentro do forno quente. Precisava de um bocado de equilíbrio para fazer isso direito.
Enquanto eu suava em na frente do forno, eu ouvi uma comoção do lado de fora da cozinha, ecoando pelo corredor de algum lugar das cavernas. Era difícil, com toda a acústica desse lugar, julgar distâncias.
— Hey! — Jamie gritou atrás de mim, e eu virei a tempo de ver a parte de trás da sua cabeça enquanto ele corria para fora. Eu me ergui e dei um passo em direção a ele instintivamente querendo segui-lo.
— Espere — Ian disse. — Ele vai voltar. Conte-nos mais sobre os Golfinhos.
Ian estava sentado na bancada ao lado do forno – um lugar quente que eu não teria escolhido – o que o deixava perto o bastante para me alcançar e tocar meu pulso. Eu tirei meu braço diante o contato inesperado, mas não me afastei.
— O que está acontecendo lá fora? — Eu perguntei. Eu podia ouvir um tipo de conversa excitada; achei ter ouvido a voz animada de Jamie no meio do vozerio.
Ian deu de ombros.
— Quem sabe?Talvez Jeb... — Ele deu de ombros novamente, como se não estivesse interessado o suficiente para se importar, mas havia uma tensão em seus olhos que eu não entendi.
Eu sabia que ia descobrir logo, então dei de ombros também, e comecei a explicar sobre o relacionamento familiar complexo dos Golfinhos enquanto ajudava Trudy a enfiar os pães em recipientes de plástico.
— Seis dos nove... avós, por assim dizer, ficam com as larvas durante os primeiros estágios do desenvolvimento, enquanto os três pais trabalham comseus seis avós na construção de uma nova ala na casa para os jovens habitarem quando ganharem mobilidade — eu estava explicando, meus olhos nos pães a minha frente ao invés de na plateia quando eu ouvi um som de sobressalto no fundo da sala. Eu continuei a frase seguinte enquanto procurava com os olhos para ver quem eu havia incomodado. — Os três avós restantes...
Ninguém estava aborrecido comigo. Todas as cabeças estavam voltadas na mesma direção em que eu estava olhando. Meus olhos foram para entrada escura. A primeira coisa que eu vi foi a figura esguia de Jamie, segurando o braço de alguém. Alguém tão sujo, dos pés a cabeça, que ele quase não era visível contra a parede escura. Alguém muito alto para ser Jeb, e, além disso, Jeb estava atrás de Jamie. Mesmo à distância, eu podia ver que os olhos de Jeb estavam apertados e seu nariz enrugado, como se ele estivesse ansioso – uma emoção rara em Jeb. Eu podia ver, também, que Jamie estava brilhando de alegria.
— Lá vamos nós — Ian murmurou ao meu lado, sua voz quase inaudível sobre o som das chamas.
O homem sujo que Jamie ainda segurava deu um passo a frente. Uma de suas mãos se ergueu lentamente como um reflexo involuntário e se fechou em punho.
Da figura suja veio a voz de Jared – sem qualquer inflexão, neutra.
— O que significa isso Jeb?
Minha garganta fechou. Eu tentei engolir e a encontrei bloqueada. Eu tentei respirar e não tive muito sucesso. Meu coração batia acelerado e fora de ritmo.
Jared!, a voz exultante de Melanie foi alta. Ela estava vívida e radiante.Jared voltou!
— Peg está nos ensinando tudo sobre o universo — Jamie explicou, sem perceber o tom furioso de Jared, ele estava muito excitado para prestar atenção.
— Peg? — Jared repetiu em uma voz baixa que era quase um rosnado.
Havia mais figuras sujas no corredor atrás dele. Eu só os notei quando eles repetiram o rosnado indignados.
Uma cabeça loira se ergueu na plateia paralisada. Paige se levantou.
— Andy! — ela gritou e tropeçou nas pessoas sentadas a sua volta. Um dos homens sujos foi para frente de Jared e a segurou quando ela quase caiu sobre Wes. — Oh, Andy! — ela chorou, o tom de sua voz me lembrando o de Melanie.
A reação de Paige mudou a atmosfera momentaneamente. A multidão silenciosa começou a murmurar, a maioria se erguendo. O som era de boas vindas agora, enquanto a maioria ia cumprimentar os viajantes que haviam retornado. Eu tentei ler as estranhas expressões em seus rostos enquanto eles forçavam sorrisos em seus lábios e espiavam furtivamente a mim. Eu percebi após uns longos segundos – o tempo parecia congelado a minha volta – que a expressão que me confundiu era culpa.
— Vai ficar tudo bem Peg — Ian murmurou quase num sopro.
Eu olhei para ele, procurando ver a mesma culpa em seu rosto. Não encontrei nada, só uma ameaça defensiva em seus olhos muito vívidos enquanto ele encarava os recém-chegados.
— Que diabos é isso, gente? — uma nova voz gritou.
Kyle – facilmente identificável pelo tamanho – estava abrindo caminho por Jared e indo em minha direção.
— Vocês estão deixando a coisa contar suas mentias? Ficaram todos loucos? Ou a coisa trouxe os Buscadores até aqui? São todos parasitas agora?
Muitas cabeças se abaixaram envergonhadas. Somente alguns mantiveram o queixo erguido, seus ombros firmes: Lily, Trudy, Heath, Wes... e até mesmo o frágil Walter.
— Pega leve, Kyle — Walter disse em sua fraca voz.
Kyle o ignorou. Ele andou com passos determinados em minha direção, seus olhos, do mesmo tom cobalto do irmão, brilhando de raiva. Eu não conseguia manter meus olhos nele – eles continuavam indo para a forma escura de Jared, tentando ler seu rosto camuflado.
O amor de Melanie corria por mim como um lago que explodia com correntezas, me distraindo até mesmo do bárbaro irado que estava chegando perto rapidamente. Ian entrou na minha frente, tampando minha visão. Eu estiquei o pescoço para conseguir ver Jared.
— As coisas mudaram enquanto você estava fora, irmão.
Kyle parou de súbito, seu rosto cheio de descrença.
— Os Buscadores vieram Ian? É isso?
— Ela não é um perigo para nós.
Kyle apertava os dentes, e pelo canto dos olhos eu o vi pegar algo nos bolsos. Isso capturou minha atenção. Eu me encolhi esperando uma arma. As palavras saíram atropeladas em um sussurro engasgado.
— Não fique no caminho dele Ian.
Ian não respondeu meu apelo. Eu fiquei surpresa pela ansiedade que isso me causava, o quanto eu não queria que ele se machucasse. Não era o profundo instinto de proteção que eu sentia por Jamie ou mesmo por Jared. Eu só sabia que Ian não devia se machucar tentando me proteger.
A mão de Kyle voltou a se erguer, e uma luz brilhou. Ele apontou-a para o rosto de Ian, a manteve lá por um segundo.
Ian nem se moveu.
— O que aconteceu então? — Kyle exigiu, colocando a lanterna de volta do bolso. — Você não é um parasita. Como é que essa coisa te influenciou?
— Acalme-se e nós te diremos.
— Não.
A contradição não veio de Kyle, mas de trás dele. Eu observei Jared caminhar lentamente em nossa direção, passando pelos espectadores silenciosos. Ao chegar perto, Jamie ainda agarrado em seu braço, com uma expressão transtornada, eu pude ler a expressão de Jared bem sob a camada de sujeira. Mesmo Melanie, toda delirante de alegria com seu retorno seguro, não pôde deixar de compreender a expressão de desprezo ali.
Jeb desperdiçara seus esforços nas pessoas erradas. Não importava que Trudy e Lily falassem comigo, que Ian se colocasse entre mim e seu irmão, que Sharon e Maggie não me agredissem. O único que devia ser convencido, havia, afinal, se decidido.
— Eu não acho que ninguém precise se acalmar — Jared disse entre os dentes. — Jeb — ele continuou, sem olhar para ver se o velho o havia seguido — me dê a arma.
O silêncio que se seguiu a suas palavras foi tão tenso, que eu pude sentir a pressão em meus ouvidos. No momento que eu pude ver seu rosto eu sabia que havia acabado. Eu sabia o que tinha que fazer agora, e Melanie estava de acordo. Tão calmamente quanto podia, eu dei um passo para o lado e para trás, para que eu pudesse ficar longe de Ian. Então fechei os olhos.
— Acontece que eu não a tenho comigo — Jeb disse.
Eu espiei para ver Jared se virando para confirmar a afirmação de Jeb.
A respiração de Jared saía alta e raivosa.
— Excelente! — ele murmurou. Ele deu mais um passo em minha direção. — Assim vai ser mais lento. Seria mais piedoso se você encontrasse essa arma rápido.
— Por favor, Jared, vamos conversar — Ian disse, pisando firme no chão já sabendo a resposta.
— Eu acho que já teve muito conversa — Jared rosnou — Jeb deixou isso comigo e eu tomei minha decisão.
Jeb limpou a garganta alto, Jared se virou de lado para olhar para ele novamente.
— O quê? — ele exigiu. — Você estabeleceu a regra, Jeb.
— É, bem, isso é verdade.
Jared se virou para mim novamente.
— Ian saia da frente.
— Ora, ora, espere aí um momento — Jeb continuou. — Se você se lembra, a regra era que a decisão caberia a quem o corpo dissesse respeito.
Uma veia na testa de Jared pulsava visivelmente.
— E?
— Parece-me que há mais alguém aqui com uma reivindicação tão forte como a sua. Talvez
ainda maior.
Jared olhava para frente, processando isso. Após um longo momento, a compreensão ergueu suas sobrancelhas. Ele olhou para o garoto ainda pendurado em seu braço.
Toda a alegria havia escorrido do rosto de Jamie, deixando em seu lugar choque e o horror.
— Você não pode Jared — ele engasgou. — Você não o faria. A Peregrina é boa. Ela é minha amiga. E Mel! E quanto a Mel? Você não pode matar ela. Por favor! Você tem que... — ele parou, sua expressão agoniada.
Eu fechei os olhos novamente tentando bloquear a imagem do sofrimento dele da minha mente. Era quase impossível não ir até ele. Eu segurei meus músculos, prometendo a mim mesma que não ajudaria se eu me movesse agora.
— Então — Jeb disse em um tom casual, casual demais para a situação — você pode ver que Jamie não está de acordo. Ele tem tanto direito quanto você.
Não houve resposta por tanto tempo que eu tive que abrir meus olhos novamente. Jared olhava no rosto angustiado e amedrontado de Jamie.
— Como você deixou isso acontecer Jeb? — ele sussurrou.
— Há sim necessidade de nós conversarmos — Jeb disse. — Por que você não toma um banho primeiro? Talvez você se sinta mais bem disposto após um banho.
Jared olhava intensamente o homem mais velho, seus olhos tomados pela dor do choque e da traição. Eu só possuía comparações humanas para tal expressão. César e Brutus. Jesus e Judas.
A tensão insuportável durou por mais um longo minuto, e então Jared sacudiu o braço, fazendo Jamie o largar.
— Kyle — Jared gritou, se virando e saindo do aposento.
Kyle deu um olhar cortante ao irmão e seguiu Jared.
Os outros membros sujos da expedição foram atrás deles em silêncio, Paige encolhida em segurança nos braços de Andy. Os outros humanos, os que haviam se envergonhado de ter me aceitado, saíram atrás deles. Somente Jamie, Jeb, e Ian ao meu lado, Trudy, Geoffrey, Heath, Lily, Wes e Walter ficaram. Ninguém falou até o eco dos passos sumir completamente.
— Ufa! — Ian suspirou. — Essa foi por pouco. Pensou rápido, hein Jeb?
— Inspiração do desespero. Mas nós não saímos do atoleiro ainda — Jeb respondeu.
— E eu não sei disso? Você não deixou a arma em nenhum lugar óbvio, né?
— Não. Imaginei que algo assim estava para acontecer.
— Já é alguma coisa, pelo menos.
Jamie estava tremendo, sozinho no espaço deixado pelos que saíram. Cercada pelos que eu contava entre meus amigos, eu me senti capaz de andar até ele. Ele lançou seus braços em minha cintura, e eu acariciei suas costas com minhas mãos trêmulas.
— Tá tudo bem. — Eu menti em um sussurro. — Está tudo vem. — Eu sabia que nem um idiota acreditaria nisso, e Jamie não era idiota.
— Ele não vai te machucar — Jamie disse, lutando contra as lágrimas que eu podia ver em seus olhos. — Eu não vou deixar.
— Shhh — eu murmurei.
Eu estava em choque – eu podia sentir meu rosto congelado em uma expressão de horror. Jared estava certo – como Jeb pôde deixar isso acontecer? Se eles tivessem me matado naquele primeiro dia, antes de Jamie me ver... Ou na primeira semana enquanto Jared me manteve isolada de todos, antes de Jamie e eu nos tornarmos amigos... Ou se eu tivesse ficado calada sobre Melanie... Era muito tarde para isso. Meus braços se apertaram em volta da criança.
Melanie estava tão horrorizada quanto eu. Minha pobre criança.
Eu disse que era uma má idéia contar tudo a ele. Eu a lembrei.
O que isso vai significar para ele, quando morrermos?
Vai ser terrível. Ele vai ficar traumatizado, assustado e devastado...
Melanie me interrompeu. Chega. Eu sei, eu sei. Mas o que nós podemos fazer?
Não morrer, suponho.
Melanie e eu pensamos nas chances que tínhamos de sobreviver e ficamos desesperadas.
Ian deu uma batidinha nas costas de Jamie – eu pude sentir o movimento reverberar pelos nossos corpos.
— Não fique angustiado, garoto — ele disse. — Você não está sozinho nisso.
— Eles só estão chocados, só isso. — Eu reconheci a voz de Trudy atrás de mim. — Uma vez que tenhamos a chance de explicar, eles verão a razão.
— Ver a razão? O Kyle? — Alguém falou.
— Nós sabíamos que isso ia acontecer — Jeb murmurou. — A coisa vai assentar. Tempestades passam.
— É melhor você ir achar essa arma — Lily sugeriu calmamente. — Essa noite pode ser bem longa. Peg pode ficar comigo e com Heidi...
— Eu acho melhor a mantermos em algum outro lugar — Ian discordou. — Talvez nos túneis sul? Eu fico de olho nela. Jeb, me dá uma força?
— Eles não a procurariam comigo. — A oferta de Walter foi só um suspiro.
Wes falou por cima das palavras de Walter.
— Eu fico com você Ian. Há seis deles.
— Não. — Eu finalmente consegui dizer. — Não. Isso não está certo. Vocês não deviam lutar entre si. Vocês todos pertencem a aqui. Estão ligados uns aos outros. Nada de briga, e não por minha causa.
Eu afastei os braços de Jamie da minha cintura, segurando seus pulsos quando ele tentou me impedir.
— Eu só preciso de um minuto sozinha. — Eu disse a ele, ignorando todos os olhares em mim. — Eu preciso ficar sozinha. — Eu virei minha cabeça para encontrar Jeb. — E vocês devem ter a oportunidade de discutir isso sem a minha presença. Não é justo – discutir estratégias na frente do inimigo.
— Epa, não seja assim — Jeb disse.
— Deixe-me ter um tempo para pensar Jeb.
Eu me afastei de Jamie, soltando suas mãos. Eu senti uma mão em meu obro e me assustei, mas era só Ian.
— Não é uma boa ideia você ficar vagando por aí sozinha.
Eu me inclinei para ele e tentei abaixar minha voz para Jamie não ouvir.
— Por que prolongar o inevitável? Vai ser mais fácil ou mais difícil para ele?
Eu sabia a resposta para minha última pergunta. Desviei-me da de mão de Ian e corri em direção à saída.
— Peg! — Jamie chamou.
Alguém rapidamente o silenciou. Não havia passos atrás de mim. Eles devem ter visto a sabedoria em me deixar ir. O corredor estava escuro e deserto. Se eu tivesse sorte, passaria pela grande praça sem ser vista.
Em todo o meu tempo aqui, a única coisa que eu nunca descobri foi a saída. Eu tinha a impressão de ter percorrido cada túnel repetidas vezes e nunca tinha visto uma abertura sem explorá-la em busca de uma coisa ou outra. Pensei nisso então, enquanto passava pelos cantos mais sombrios da grande caverna. Onde a saída poderia estar? E então pensei: Se eu pudesse encontrá-la, eu seria capaz de partir?
Eu não conseguia pensar em nada pelo que valesse a pena partir – certamente não o deserto me esperando lá fora, mas tampouco a Buscadora, o Curandeiro, ou minha Confortadora. Minha vida de antes havia deixado uma impressão muito fraca em mim. Tudo que realmente importava para mim estava aqui. Jamie. E apesar de saber que ele iria me matar, Jared. Eu não conseguia me ver deixando eles para trás.
E Jeb. Ian. Eu tinha amigos aqui. Doc, Trudy, Lily, Wes, Walter, Heath.Humanos estranhos que podiam ver além do que eu era e ver algo que eles não precisavam matar. Podia ser só curiosidade, mas eles estavam dispostos a ficar ao meu lado contra o resto de sua família de sobreviventes. Eu balancei a cabeça pensando enquanto me localizava com as mãos nas rochas. Eu podia ouvir outros na caverna, do lado oposto de mim. Eu não pausei, eles não podiam me ver ali,e eu havia encontrado a rachadura que eu procurava.
Afinal de contas, só havia um lugar para eu ir agora. Mesmo que eu pudesse ter adivinhado onde ficava a saída, eu ainda iria pegar esse mesmo caminho. Eu entrei no corredor completamente escuro e ma apressei em meu caminho.

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