terça-feira, março 18, 2014

Acatada


O conglomerado relaxou e um murmúrio mais entusiasmado correu pelo semicírculo.
Eu olhei para Jamie. Ele pressionou os lábios e deu de ombros.
— Jeb só está tentando fazer as coisas voltarem ao normal. Os últimos dias foram ruins. O enterro de Walter...
Eu estremeci.
Eu vi que Jeb estava sorrindo para Jared. Após um momento de resistência, Jared suspirou e revirou os olhos para o excêntrico velho. Ele se virou e rapidamente saiu da caverna.
— Jared arrumou uma bola nova? — alguém perguntou.
— Ótimo — Wes disse ao meu lado.
— Jogos — Trudy murmurou e sacudiu a cabeça.
— Se alivia a tensão... — Lily respondeu dando de ombros.
Suas vozes estavam baixas, perto de mim, mas eu também podia ouvir outras vozes, mais altas.
— Pega leve com a bola dessa vez — Aaron disse a Kyle. Ele estava em pé de frente para Kyle oferecendo a mão.
Kyle pegou a mão oferecida e lentamente se ergueu. Quando ele estava de pé sua cabeça quase batia as lanternas penduradas.
— A última bola era fraca — Kyle disse, sorrindo para o homem mais velho. — Tinha defeito estrutural.
— Eu nomeio Andy capitão — alguém gritou.
— Eu nomeio Lily — Wes gritou, se levantando e alongando.
— Andy e Lily.
— É, Andy e Lily.
— Eu quero Kyle — Andy disse rapidamente.
— Então eu fico com Ian — Lily afirmou.
— Jared.
— Brandt.
Jamie se levantou ficando na ponta dos pés, tentando parecer mais alto.
— Paige.
— Heidi.
— Aaron.
— Wes.
A seleção continuou. Jamie se iluminou quando Lily o escolheu antes de metade dos adultos serem escolhidos. Até Maggie e Jeb foram escolhidos para jogar. Os números estavam iguais até Lucina voltar com Jared, seus dois garotinhos pulando de excitação. Jared tinha uma brilhante bola de futebol novinha nas mãos; ele segurava alto, e Isaiah, a outra criança, pulava tentando pegar a bola da mão dele.
— Peg? — Lily convidou.
Eu sacudi a cabeça e apontei para minha perna.
— Ah é, desculpe.
Eu sou boa em futebol, Mel resmungou. Bem eu costumava a ser.
Eu mal posso andar, lembrei a ela.
— Eu acho que vou ficar fora dessa — Ian disse.
— Não — Wes reclamou. — Eles tem Kyle e Jared. Nós estaremos mortos sem você.
— Jogue — eu lhe disse. — Eu... eu vou anotar o placar.
Ele me olhou com os lábios pressionados.
— Eu realmente não estou no clima para jogar.
— Eles precisam de você.
Ele bufou.
— Vamos Ian — Jamie pediu.
— Eu quero assistir — eu disse. — Mas vai ser... entediante se um time tiver muita vantagem.
— Peg — Ian suspirou. — Você é realmente a pior mentirosa que eu já encontrei.
Mas ele levantou e começou a alongar com Wes.
Paige arrumou os marcadores do gol, quatro lanternas.
Eu tentei me levantar – eu estava bem no meio do campo. Ninguém me notou na luz fraca. Em toda a volta a atmosfera estava aquecida agora, carregada de expectativa. Jeb estava certo. Isso era algo que eles precisavam, por mais estranho que parecesse para mim.
Eu fui capaz de ficar de quatro, e então puxei a perna direita para frente, aí fiquei ajoelhada sobre a perna ruim. Doeu. Eu tentei me erguer na perna boa. A partir dali, perdi completamente o equilíbrio, devido ao peso inepto minha perna machucada.
Mãos fortes me pegaram antes que eu pudesse cair de cara. Eu olhei para cima, um pouco exasperada para agradecer Ian.
As palavras morreram na minha garganta quando eu vi que eram os braços de Jared que me mantinham firme.
— Você podia simplesmente ter pedido ajuda. — Ele disse despreocupado.
— Eu... — limpei a garganta. — Eu deveria. Eu não queria...
— Chamar atenção para si? — Ele disse as palavras como se fossem realmente curiosas.
Não havia acusação em sua voz. Ele me ajudou a chegar até a entrada da caverna.
Eu balancei a cabeça uma vez.
— Eu não queria... que ninguém fizesse nada que não quisesse simplesmente por cortesia. — Isso não explicava direito, mas ele pareceu entender.
— Eu não acho que Jamie ou Ian iriam se incomodar.
Eu olhei por sobre o ombro. Na luz baixa, nenhum dos dois havia percebido que eu não estava mais lá. Eles estavam cabeceando a bola um para o outro, e rindo quando a bola acertou Wes bem na cara.
— Mas eles estão se divertindo. Eu não queria interromper isso.
Jared examinava meu rosto. Eu percebi que eu sorria com afeição.
— Você se importa um bocado com o garoto.
— Sim.
Ele assentiu.
— E o homem?
— Ian é... Ian acredita em mim. Ele cuida de mim. Ele pode ser muito gentil... para um humano. — Quase como uma alma, eu queria dizer. Mas isso não soaria como um elogio para esses ouvidos.
Jared suspirou.
— Para um humano. Uma distinção mais importante do que eu tinha percebido.
Ele me ajudou a me abaixar na entrada, ali havia uma elevação que era mais confortável que o chão plano.
— Obrigada — disse a ele. — Jeb fez a coisa certa, sabe.
— Eu não concordo com isso. — O tom de voz dele era mais macio do que as palavras.
— Obrigada também por... antes. Você não precisava ter me defendido.
— Cada palavra era verdade.
Eu olhei para o chão.
— É verdade que eu não faria nada para machucar ninguém aqui. Não de propósito. Eu lamento ter magoado você quando eu cheguei aqui e a Jamie também. Muito mesmo.
Ele sentou ao bem meu lado com uma expressão pensativa.
— Honestamente... — ele hesitou. — O garoto está melhor desde que você chegou. Eu meio que havia esquecido como era o som da risada dele.
Nós dois a escutávamos agora, ecoando sobre uma risada de algum adulto.
— Obrigada por me dizer isso, essa tem sido a minha... maior preocupação. Eu esperava que o dano não fosse permanente.
— Por quê?
Eu olhei para ele, confusa.
— Por que você o ama? — ele perguntou, sua voz curiosa, mas não intensa.
Eu mordi o lábio.
— Você pode me dizer. Eu... — ele não parecia encontrar as palavras. — Você pode me dizer. — Ele repetiu.
Eu olhava para meus pés enquanto respondia.
— Em parte porque Melanie ama. — Eu não espiei para ver se ele reagia ao nome. — Lembrar dele do jeito que ela lembra... é uma coisa poderosa, e então, quando o conheci pessoalmente... eu não posso não amá-lo. É parte de mim... a própria estrutura dessas células o ama. Eu não tinha percebido antes o quanto um hospedeiro me influenciava. Talvez seja só os corpos humanos, ou só a Melanie.
— Ela fala com você? — ele mantinha a voz calma, mas eu podia sentir a tensão ali.
— Sim.
— Com que frequência?
— Quando ela quer. Quando está interessada.
— E hoje?
— Não muito. Ela está... meio zangada comigo.
Ele deixou um sorriso surpreso escapar.
— Ela está zangada? Por quê?
— Por causa de... nada.
Ele ouviu a mentira e fez a conexão.
— Ah. Kyle. Ela queria que ele se ferrasse — ele riu novamente. — É a cara dela mesmo.
— Ela pode ser... violenta — concordei. Sorri para aliviar o insulto.
Não era insulto para ele.
— Mesmo? Como?
— Ela quer que eu reaja também. Mas... eu, eu não consigo. Eu não sou uma lutadora.
— Eu posso ver isso. — Ele tocou o meu rosto agredido com um dedo. — Desculpe.
— Não. Qualquer um faria o mesmo. Eu sei o que você deve ter sentido.
— Você não entenderia...
— Se eu fosse humana, sei que entenderia. Além disso, eu não estava pensando nisso... eu estava lembrando da Buscadora.
Ele se enrijeceu.
Eu sorri novamente, e ele relaxou um pouco.
— Mel realmente queria que eu atacasse ela. Ela realmente odeia aquela Buscadora. E eu não... não consigo culpá-la.
— Ela ainda está procurando por você. Parece que ela teve que devolver o helicóptero, pelo menos.
Eu fechei os olhos, fechei as mãos em punhos, e me concentrei em respirar por alguns segundos.
— Eu não costumava ter medo dela — sussurrei. — Não sei por que ela me assusta tanto. Onde ela está?
— Não se preocupe. Ela só estava indo e vindo pela estrada ontem. Ela não vai encontrar você.
Eu concordei com a cabeça, desejando muito acreditar.
— Você consegue... ouvir Mel agora? — ele murmurou.
Eu mantive os olhos fechados.
— Eu estou... ciente dela. Ela está escutando com atenção.
— O que ela está pensando? — Sua voz era só um sussurro.
Tá aí sua chance, eu disse. O que você quer dizer para ele?
Ela estava cuidadosa, pelo menos dessa vez. A aceitação a incomodava. Por quê? Por que ele acredita em você agora?
Eu abri meus olhos e o encontrei me olhando, segurando a respiração.
— Ela quer saber o que aconteceu para fazer você ficar... diferente agora. Por que você acredita em nós?
Ele pensou por um momento.
— Um... acúmulo de coisas. Você foi tão... gentil com Walter. Eu nunca vi alguém, exceto Doc, ter tanta compaixão. E você salvou a vida de Kyle, quando a maioria de nós o deixaria cair só para se proteger, sem ligar para o assassinato. E depois, você é uma péssima mentirosa. — Ele riu. — Fiquei tentando manter as coisas como evidências de um grande plano. Talvez eu acorde manhã e me sinta assim novamente.
Mel e eu estremecemos.
— Mas quando eles começaram a te atacar hoje... bem, perdi a cabeça. Eu podia ver neles tudo o que não devia estar em mim. Percebi que já acreditava e que só estava sendo obstinado. Cruel. Eu acho que acredito desde... bem, um pouquinho desde que você se colocou na frente do Kyle para me proteger. — Ele riu como se não achasse que Kyle fosse perigoso. — Mas eu sou melhor mentiroso do que você. Eu posso até mesmo mentir para mim mesmo.
— Ela espera que você não mude de ideia. Ela teme que você irá mudar.
Ele fechou os olhos.
— Mel.
Meu coração acelerou. Foi a alegria dela que fez isso, não a minha. Ele já devia saber o quanto eu o amava depois das perguntas sobre Jamie, ele com certeza percebeu.
— Diga a ela... que isso não acontecerá.
— Ela pode te ouvir.
— Quanto é... direta a conexão?
— Ela ouve o que ouço, vê o que vejo.
— Sente o que você sente?
— Sim.
O seu nariz se enrugou. Ele tocou o lado ruim do meu rosto novamente, de leve, uma carícia.
— Você não sabe o quanto eu lamento.
Minha pele estava mais quente onde ele havia tocado, era um calor bom, mas suas palavras queimavam mais do que as palavras. É claro que ele lamentava tê-la machucado. Claro. Isso não devia me incomodar.
— Vamos, Jared!
Nós olhamos para cima. Kyle estava chamando Jared. Ele parecia totalmente à vontade, como se a vida dele não tivesse sido julgada hoje. Talvez ele já soubesse que sairia ileso disso. Talvez ele fosse rápido em superar as coisas. Ele não parecia me notar ao lado de Jared.
Eu percebi, pela primeira vez, que outros haviam notado.
Jamie estava nos observando com um sorriso satisfeito. Isso provavelmente significava uma coisa boa para ele. Era?
O que você quer dizer?
O que ele vê quando nos olha? Sua família reunida outra vez?
E não é? De um certo modo?
Com uma adição indesejável.
Mas melhor do que era antes.
Eu acho que sim...
Eu sei... ela adimitiu. Estou feliz que Jared saiba que estou aqui... Mas eu ainda não gosto dele te tocando.
E eu gosto demais. Meu rosto ainda formigava onde ele havia tocado. Me desculpe.
Eu não culpo você. Ou, pelo menos, eu sei que não devia.
Obrigada.
Jamie não era o único olhando.
Jeb estava curioso, aquele meio sorriso aparecendo nos cantos de sua barba. Sharon e Maggie observavam com fogo nos olhos. As suas expressões eram tão parecidas que a pele mais jovem e os cabelos brilhantes não ajudavam a fazer Sharon parecer mais nova que a mãe.
Ian estava preocupado. Seus olhos estavam apertados ele estava a ponto de vir para me proteger. Para garantir que Jared não estava me incomodando, eu sorri para acalmá-lo. Ele não sorriu de volta, mas respirou fundo.
Eu não acho que é por isso que ele está preocupado, Mel disse.
— Você está ouvindo ela agora? — Jared estava em pé agora, mas ainda me observando.
Sua pergunta me distraiu antes que eu pudesse perguntar a ela o que ela queria dizer.
— Sim.
— O que ela está dizendo?
— Nós estávamos notando o que os outros pensam da sua mudança de... atitude. — Acenei em direção a tia e a prima de Melanie. Elas viraram a cara em sincronia.
— Loucura. — Ele presumiu.
— Ótimo então — Kyle disse, se virando em direção a bola que estava sob o ponto mais iluminado. — Nós vamos vencer sem você.
— Estou indo — Jared lançou mais um olhar para mim – para nós – e correu para jogar.
Eu não era muito boa com o placar. Estava muito escuro para ver a bola de onde eu estava. Muito escuro até para ver os jogadores direito quando eles não estavam diretamente embaixo da luz. Eu comecei a contar pelas reações de Jamie. Seus gritos de vitória quando o time dele marcava, e os gemidos quando o outro time marcava. Foram mais gemidos do que gritos.
Todos jogavam. Maggie era a goleira do time de Andy, e Jeb o goleiro do de Lily. Ambos eram muito bons. Eu podia ver suas silhuetas à luz das lanternas-balizas, movendo-se com leveza como se eles fossem décadas mais jovens. Jeb não tinha medo de se jogar no chão para impedir um gol, mas Maggie era mais eficiente sem recorrer a esses extremos. Ela era como um ímã para a bola. Toda vez que Ian ou Wes chutavam para o gol... tchum, a bola parava nas mãos dela.
Trudy e Paige desistiram após meia hora e passaram por mim no caminho para sair, conversando excitadas. Parecia impossível que tivéssemos começado o dia com um julgamento, mas eu estava aliviada pelas coisas terem mudado tão drasticamente.
As mulheres não demoraram a voltar. Elas voltaram com os braços cheios de caixas. Barras de cereais – do tipo recheado com frutas. O jogo pausou. Jeb apitou intervalo, e todo mundo correu para comer o café da manhã. As barras foram colocadas na linha de centro. Foi uma confusão.
— Aqui Peg — Jamie disse, se afastando do grupo. Ele tinha as mãos cheias de barras e garrafas de água nos braços.
— Obrigada. Se divertindo?
— Com certeza. Gostaria que você pudesse jogar.
— Na próxima — eu disse.
— Aqui — Ian disse, sua mão cheia de barras.
— Eu fui mais rápido — Jamie disse para ele.
— Oh — Jared disse, aparecendo do lado de Jamie. Ele também tinha várias barras na mão.
Ian e Jared trocaram um longo olhar.
— Cadê toda a comida? — Kyle quis saber. Ele estava parado olhando a caixa vazia, sua cabeça procurando pela sala, procurando o culpado.
— Pegue — Jared disse, jogando barras de cereais com força, como facas.
Kyle as pegou no ar com facilidade, então se aproximou para ver se Jared não estava escondendo mais.
— Aqui — Ian disse, entregando metade das dele para o irmão sem olhar para ele. — Agora vá.
Kyle o ignorou. Pela primeira vez hoje ele olhou para mim, olhando para baixo onde eu estava sentada.
Suas íris estavam negras com a luz atrás dele. Eu não conseguia ler a sua expressão. Eu me encolhi, e tentava respirar quando minhas costelas reclamaram do movimento. Jared e Ian se colocaram a minha frente, como uma cortina.
— Você o ouviu — Jared disse.
— Posso dizer uma coisa antes? — Kyle pediu. Ele olhava pelo espaço entre os dois. Eles não responderam.
— Eu não lamento — Kyle me disse. — Eu ainda acho que era a coisa certa a fazer.
Ian empurrou seu irmão. Kyle foi afastado um passo, mas deu um passo para frente de novo.
— Calma, eu ainda não acabei.
— Acabou sim — Jared disse. Jared disse. Suas mãos apertadas, a pele sobre as juntas embranquecidas.
Todos haviam notado agora. A sala estava quieta, toda a diversão do jogo esquecida.
— Não, não terminei — Kyle manteve suas mãos erguidas, um gesto de paz, e falou comigo de novo. — Eu não acho que estava errado, mas você salvou minha vida. Eu não sei por que, mas salvou. Então eu acho que, bem, uma vida por uma vida. Eu não vou matar você. Eu pagarei a dívida assim.
— Sua besta idiota — Ian disse.
— Quem tá a fim de uma lacraia, maninho? E você chama a mim de idiota?
Ian ergueu o pulso, se inclinando para frente.
— Eu vou lhe dizer por que — disse eu, minha voz mais alta do que eu queria. Mas teve o efeito que eu queria. Ian, Jared e Kyle se viraram para me olhar, a briga esquecida no momento.
Eu fiquei nervosa. Limpei a garganta.
— Eu não te deixei cair porque... porque eu não sou como você. Eu não estou dizendo que não sou... como os humanos. Porque há outros aqui que teriam feito o mesmo. Há pessoas boas e gentis aqui. Pessoas como seu irmão, Jeb e Doc... Estou dizendo que não sou particularmente como você.
Kyle me encarou por um momento e então riu.
— Ai — ele disse, ainda rindo. Ele se virou agora, tendo dado sua mensagem, e foi pegar água. — Uma vida por uma vida — gritou por cima dos ombros.
Eu não tinha certeza se acreditava nele. Não tinha mesmo. Humanos eram bons mentirosos.

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