terça-feira, março 18, 2014

Desejada


Havia um padrão nas vitórias. Se Jared e Kyle jogavam juntos, eles venciam. Se Jared jogava com Ian, então esse time ganhava. Parecia que Jared não podia ser derrotado, até que vi os irmãos jogarem juntos.
No começo, pareceu ser algo forçado, pelo menos para Ian, jogar com Kyle. Mas após alguns minutos correndo na escuridão, eles estavam em um padrão familiar – um padrão que existia muito antes de eu vir a esse planeta.
Kyle sabia o que Ian faria antes de Ian fazer, e vice-versa. Sem ter que falar, eles diziam tudo o que queriam. Mesmo quando Jared pegou os melhores jogadores – Brandt, Andy, Wes, Aaron, Lily e Maggie como goleira – Kyle e Ian venciam.
— Okay, Okay — Jeb disse, pegando a tentativa de gol de Aaron com uma mão e enfiando a bola embaixo do braço. — Eu acho que todos nós sabemos quem vai vencer. Agora, eu odeio ser um estraga prazeres, mas há trabalho a ser feito... e para ser honesto eu estou morto.
Houveram alguns protestos fracos e uns gemidos, porém mais risadas. Ninguém pareceu chateado de ver a brincadeira terminar. Pela forma como algumas pessoas se sentaram exatamente onde estavam e colocaram a cabeça nos joelhos para respirar, era óbvio que Jeb não era o único que estava cansado.
As pessoas começaram a sair em pares ou trios. Eu me arrastei para o lado para abrir espaço para eles passarem, provavelmente a caminho da cozinha. Já devia ter passado a hora do almoço, apesar de ser difícil dizer nessa sala escura. Através dos espaços entre as pessoas, eu observava Ian e Kyle.
Quando o jogo acabou, Kyle ergueu a mão para Ian bater, mas Ian passou direto sem se dar ao trabalho. Então Kyle pegou o irmão pelo ombro e o girou, Ian deu um safanão na mão de Kyle. Eu fiquei tensa, pois a princípio parecia que eles iam brigar. Kyle tentou dar um soco no estômago do irmão, que se esquivou com facilidade, mas percebi que Kyle não havia posto força no gesto. Kyle riu e usou seu alcance superior para esfregar o punho contra a cabeça de Ian. Ian empurrou a mão, mas sorriu também.
— Bom jogo, maninho — ouvi Kyle dizer. — Você ainda manda bem.
— Você é um idiota tão grande Kyle — Ian respondeu.
— Você tem o cérebro, eu, a aparência. Parece justo.
Kyle deu mais um soco sem força. Dessa vez Ian pegou o punho e torceu para trás, prendendo o irmão em uma chave de braço. Agora ele realmente estava sorrindo, e Kyle xingando e rindo ao mesmo tempo.
Para mim isso tudo parecia muito violento; meus olhos se estreitaram, apertados pela tensão de observar. Ao mesmo tempo, porém, a cena me trouxe uma memória de Melanie: três filhotinhos de cachorro rolando na grama, latindo e rosnando um para outro como se quisessem rasgar a garganta de seus irmãozinhos.
Sim, eles só estão brincando, Melanie confirmou. Os laços entre irmãos são profundos.
Como devem ser. É o que está certo. Se Kyle realmente não nos matar, isso vai ser muito bom.
Se, Melanie repetiu.
— Com fome?
Eu olhei para cima, e meu coração parou de bater por um momento doloroso. Parecia que Jared ainda acreditava.
Eu sacudi a cabeça. Isso me deu o momento que eu precisava para conseguir falar novamente.
— Eu não sei porque, já que não fiz nada além de ficar sentada aqui, mas eu estou cansada.
Ele me ofereceu a mão.
Controle-se, Melanie me avisou. Ele só está sendo educado.
E você acha que eu não sei disso?
Eu tentei impedir minha mão de tremer quando peguei a mão dele.
Ele me puxou cuidadosamente e me pôs de pé – bom, sobre um pé pelo menos. Eu me equilibrei na perna boa, não muito certa do que fazer. Ele estava confuso também. Ainda segurava minha mão, mas havia um bom espaço entre nós. Eu pensei no quão ridículo eu pareceria pulando pelas cavernas, e meu pescoço ficou quente. Meus dedos estavam firmes contra os dele, embora eu não os estivesse usando como apoio.
— Para onde?
— Ah... — pensei. — Eu não sei ao certo. Imagino que ainda tenha um colchonete na frente do bu... na área de depósito.
Ele franziu a testa, não gostando da idéia.
E então um braço forte estava por baixo dos meus braços, apoiando o meu peso.
— Eu a levo para onde ela precisa ir — Ian disse.
O rosto de Jared estava cuidadoso, era assim que ele ficava quando não queria que eu soubesse o que estava pensando, mas agora ele olhava para Ian.
— Nós estávamos discutindo exatamente isso. Ela está cansada, talvez o hospital...?
Eu sacudi a cabeça ao mesmo tempo que Ian. Após aqueles dias horríveis que eu passei lá, eu não achava que ia suportar aquele lugar. Especialmente a maca de Walter vazia..
— Eu tenho um lugar melhor para ela — Ian disse. — Aquelas macas não são muito mais confortáveis que rocha, e ela está com muitos pontos doloridos.
Jared ainda segurava minha mão. Será que ele percebia o quão forte estava apertando-a? A pressão estava começando a ficar desconfortável, mas ele parecia não perceber. E eu com certeza não ia reclamar.
— Por que você não vai almoçar? — Jared sugeriu a Ian. — Você parece com fome. Eu a levo para onde você havia planejado...?
Ian riu, um som baixo e gutural.
— Eu estou bem. E honestamente Jared, Peg precisa mais do que a ajuda de uma mão. Eu não sei se você está confortável o bastante com essa situação para isso. Veja...
Ian pausou para se abaixar um pouco e me pegar no colo. Eu gemi quando o movimento doeu nas costelas. Jared não soltou minha mão. Meus dedos estavam ficando vermelhos.
— ... ela já teve muito exercício por hoje. Você vá em frente e almoce.
Eles se encararam enquanto meus dedos ficavam roxos.
— Eu posso carregá-la — Jared disse baixo.
— Pode? — Ian desafiou. Ele me estendeu, afastando-me de seu corpo.
Jared me encarou por um longo momento. Então suspirou e soltou minha mão.
Ai, isso dói!, queixou-se Melanie. Ela estava se referindo a dor que passou pelo meu peito, não ao retorno de sangue aos meus dedos.
Sinto muito. O que você quer que eu faça?
Ele não é seu.
Eu sei disso.
Ui.
Desculpe.
— Acho que vou só acompanhar vocês — Jared disse a Ian, com um pequeno sorriso nos lábios. — Há algo que quero discutir com você.
— À vontade.
Jared não falou nada enquanto caminhávamos pelo túnel escuro. Ele estava quieto, eu não tinha mais certeza se ele ainda estava ali. Mas quando nós chegamos à luz do campo de milho, ele estava bem ao nosso lado.
Ele não falou até termos passado a grande praça – até que não houvesse mais ninguém perto além de nos três.
— O que você acha de Kyle? — ele perguntou a Ian.
Ian deu de ombros.
— Ele se orgulha por ser um homem de palavra, geralmente eu confiaria em uma promessa dele. Nessa situação... eu não vou deixá-la longe das minhas vistas.
— Bom.
— Vai dar tudo certo Ian — eu disse. — Eu não estou com medo.
— Você não precisa ficar. Eu prometo – ninguém vai fazer nada como isso com você novamente. Você vai ficar segura aqui.
Era difícil afastar o olhar dos olhos dele quando eles brilhavam assim. Difícil de duvidar de qualquer coisa que ele dissesse.
— Sim, você ficará segura — Jared concordou.
Ele estava andando logo atrás do ombro de Ian. Eu não conseguia ver sua expressão.
— Obrigada — murmurei.
Ninguém falou novamente até Ian pausar em frente das portas vermelha e cinza que cobriam a entrada da caverna dele.
— Você se importaria de abrir? — Ian disse para Jared apontando com a cabeça para as portas.
Jared não se moveu. Ian fez meia-volta e pudemos vê-lo outra vez. Sua expressão estava cautelosa de novo.
— Seu quarto? Esse é o seu melhor lugar? — a voz de Jared estava cheia de ceticismo.
— É o quarto dela agora.
Eu mordi meu lábio. Eu queria dizer a Ian que obviamente aquele não era meu quarto, mas não tive a chance antes de Jared começar a questioná-lo.
— Onde Kyle está dormindo?
— Com Wes, por enquanto.
E você?
— Não tenho muita certeza.
Eles se encaram se medindo.
— Ian, isso é... — comecei a dizer.
— Oh — ele interrompeu, como se só agora lembrasse de mim.... como se o meu peso fosse tão insignificante que ele havia esquecido que eu estava aqui. — Você está exausta, não está? Jared, você poderia abrir a porta, por favor?
Sem dizer nada, Jared abriu a porta com um pouco de força demais e empurrou-a por cima da cinza.
Eu agora pude realmente ver o quarto de Ian pela primeira vez, com o sol iluminando pelas rachaduras no teto. Não era tão iluminado quanto o quarto de Jamie e Jared, ou tão alto. Era menor, mais proporcional. Arredondado – mais ou menos como o meu buraco, mas dez vezes maior.
Havia dois colchões iguais no chão contra paredes opostas, fazendo um pequeno corredor entre eles. Contra a parede de fundo havia um móvel baixo e comprido de madeira, ao lado esquerdo havia uma pilha de roupas, dois livros e um baralho. O lado direito estava vazio, mas as marcas na poeira indicavam que esse estado de vazio era recente.
Ian me colocou com cuidado no colchão da direita, arrumando minha perna e ajeitando o travesseiro sob minha cabeça. Jared ficou na entrada, de frente para a passagem.
— Assim está bom? — Ian me perguntou.
— Está.
— Você parece cansada.
— Eu não devia estar – não fiz nada além de dormir ultimamente.
— Seu corpo precisa dormir para se recuperar.
Concordei com a cabeça. Eu não podia negar o fato de que era difícil manter as pálpebras abertas.
— Eu te trarei comida mais tarde – não se preocupe com nada.
— Obrigada. Ian?
— Oi.
— Esse quarto é seu. Você vai dormir aqui.
— Você não se importa?
— Por que me importaria?
— É provavelmente uma boa ideia – o melhor jeito de manter as vistas em você. Agora durma.
— Okay.
Meus olhos já estavam fechados. Ele deu um tapinha na minha mão e então eu o ouvi ficar de pé. Alguns segundo depois, a porta de madeira bateu de leve na rocha.
O que você acha que está fazendo?, Melanie perguntou.
O que? O que eu fiz agora?
Peg, você é... basicamente humana. Tem que ter noção do que esse convite pareceu a Ian.
Convite? Eu demorei, mas consegui ver o rumo da mente dela. Não é nada disso. Esse quarto é dele. Há duas camas. Não há espaço suficiente por aqui para eu ter o meu próprio quarto. É claro que nós devemos compartilhar, Ian sabe disso.
Sabe? Peg, abra os olhos. Ele está começando... Como eu explico isso para você entender? Ele está começando a sentir por você... o mesmo que você sente por Jared. Você não consegue ver isso?
Eu não consegui responder por duas batidas de coração.
Impossível, eu disse finalmente.
— Você acha que o que aconteceu essa manhã vai influenciar Aaron ou Brandt? — Ian perguntou do outro lado da porta.
— Kyle ter saído ileso?
— É. Eles não precisavam... fazer nada antes. Não quando parecia que Kyle faria por eles.
— Eu vejo o que você quer dizer. Falarei com eles.
— Você acha que será o suficiente? — Ian perguntou.
— Eles me devem, eu salvei a vida dos dois. Se eu pedir a eles, eles ficarão na deles.
— Você apostaria a vida dela nisso?
Houve uma pausa.
— Nós ficaremos de olho nela — Jared finalmente disse.
Outro longo silêncio.
— Você não vai comer? — Jared perguntou.
— Acho que vou ficar por aqui um pouco... e você?
Jared não respondeu.
— O que? — Ian perguntou. — Há algo que você queria me dizer, Jared?
— A garota ali dentro... — Jared disse devagar.
— Sim.
— Aquele corpo não pertence a ela.
— É o que você acha?
A voz de Jared estava dura quando ele respondeu.
— Mantenha suas mãos longe dele.
Uma risada baixa de Ian.
— Ciúme, Howe?
— Essa não é a questão.
— É mesmo? — Ian foi sarcástico agora.
— Peg parece estar cooperando com Melanie. Quase como se fossem amigas. Mas obviamente é Peg quem toma as decisões. E se fosse você? Como você se sentiria se você fosse a Melanie? Se você fosse invadido desse jeito? Se você estivesse preso e outra pessoa dissesse a seu corpo o que fazer? Se você não pudesse falar por si mesmo? Você não gostaria que suas vontades – as que fossem conhecidas – fossem respeitadas? Pelo menos pelos outros humanos?
— Okay, okay. Você tem razão. Eu vou manter isso em mente.
— Como assim manter isso em mente? — Jared exigiu.
— Eu vou pensar sobre isso.
— Não há nada o que pensar — Jared retrucou.
Eu sabia pelo modo de falar qual era a expressão dele: dentes cerrados, mandíbula pressionada.
— O corpo e a pessoa presa lá dentro pertencem a mim.
— Você tem certeza que Melanie ainda sente a...
— Melanie sempre será minha. E eu sempre serei dela.
Sempre.
Melanie e eu estávamos em situações opostas agora. Ela estava voando em deleite. Eu... não.
Nós esperamos ansiosas o longo silêncio passar.
— Mas, e se fosse você? — Ian perguntou em uma voz que era quase um sussurro. — E se
você tivesse sido enfiado no corpo de um humano e tivesse sido solto no meio desse planeta só para se encontrar perdido entre os seus? E se você fosse... uma pessoa tão boa, que tentasse salvar a vida que tomou, e quase morreu para tentar levá-la de volta para a família dela? E se então você se encontrasse cercado de alienígenas agressivos que te detestassem, machucassem e tentassem matá-lo, de novo e de novo? — Sua voz falhou por um momento. — E se você continuasse tentando fazer o possível para salvar e ajudar essas pessoas apesar de tudo? Você não mereceria uma vida também? Não teria conquistado esse direito?
Jared não respondeu. Eu senti os meus olhos úmidos. Ian realmente pensava tão bem de mim? Ele realmente achava que eu tinha conquistado o direito de viver aqui?
— Aceita o argumento? — Ian perguntou.
— Eu... eu vou ter que pensar sobre isso.
— Faça isso.
— Mas ainda assim...
Ian interrompeu com um suspiro.
— Não se preocupe demais. Peg não é exatamente uma humana apesar do corpo. Ela não parece responder ao... contato físico como um humano o faria.
Agora Jared riu.
— É essa sua teoria?
— Qual a graça?
— Ela é capaz sim de responder a contato físico — Jared o informou, seu tom normal. — Ela é humana o bastante para isso. Ou o corpo dela é, pelo menos.
Meu rosto esquentou.
Ian ficou em silêncio.
— Com ciúme O’Shea?
— Na verdade... Estou. Surpreendentemente. — A voz de Ian estava controlada. — Como você saberia disso?
Agora Jared hesitou.
— Foi... meio que um experimento.
— Um experimento?
— Não saiu do jeito que eu esperava. Mel me deu um soco. — Eu podia ouvir que ele sorria com a memória.
— Melanie... te... deu um soco?
— Com certeza não foi Peg. Você devia ter visto a cara dela... O quê? Hey Ian, se acalma cara!
— Você pensou por um momento o que isso deve ter significado para ela? — Ian sibilou.
— Para Mel?
— Não idiota, para Peg!
— Significado para Peg? — Jared perguntou, parecendo atordoado com a ideia.
— Ah! Saia daqui. Vá comer alguma coisa. Fique longe de mim por algumas horas.
Ian não deu a ele a chance de responder. Ele abriu a porta – com força, mas em silêncio – entrou e fechou a porta atrás dele.
Ele se virou e encontrou o meu olhar. Pela expressão dele, estava surpreso de me encontrar acordada. Surpreso e sem graça. O fogo nos olhos dele foi diminuindo e lentamente se apagou. Ele pressionou os lábios.
Ele inclinou a cabeça, prestando atenção. Eu ouvi também, mas a saída de Jared não fez nenhum ruído.
Ian esperou mais um momento, então suspirou e se sentou na beirada do colchão, ao lado oposto em que eu estava.
— Eu acho que não fomos tão silenciosos quanto pensei — ele disse.
— O som se propaga nessas cavernas — murmurei.
Ele concordou, acenando com a cabeça.
— Então... — disse finalmente. — O que você acha?

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