terça-feira, março 18, 2014

Julgado


Eu gemi. Minha cabeça girava, inteiramente desconexa. Meu estômago estava embrulhado.
— Finalmente. — Alguém murmurou com alívio. Ian. Claro. — Com fome?
Eu pensei nisso por um momento e então fiz um som de repulsa involuntário.
— Oh, esqueça então. Desculpa, de novo. Nós tivemos que fazer. As pessoas ficaram todas... paranoicas quando te levamos lá para fora.
— Está tudo bem.
— Quer um pouco de água?
— Não.
Eu abri meus olhos tentando focá-los na escuridão. Eu podia ver duas estrelas pelo buraco no teto.
Ainda era noite. Ou noite novamente. Vai saber.
— Onde estou? — perguntei.
As formas das rachaduras não eram familiares. Eu podia jurar que nunca havia encarado esse teto antes.
— Seu quarto — Ian disse.
Eu procurei por seu rosto na escuridão, mas só identifiquei uma forma escura que era a cabeça dele. Com os dedos eu examinei a superfície onde estava deitada. Era um colchão de verdade. Havia um travesseiro sob minha cabeça. Meus dedos ainda tateavam quando encontrei a mão dele, e ele segurou meus dedos antes que eu pudesse removê-los.
— De quem é esse quarto realmente?
— Seu.
— Ian...
— Costumava se nosso – meu e de Kyle. Kyle está no hospital até que as coisas fiquem decididas. Eu posso ficar com Wes.
— Eu não vou tomar o seu quarto. E o que você quer dizer com "até que as coisas fiquem decididas"?
— Eu te disse que haveria um tribunal.
— Quando?
— Por que você quer saber?
— Porque se você vai continuar com isso, eu tenho que estar lá. Para explicar.
— Para mentir.
— Quando? — eu perguntei novamente.
— Nas primeiras horas do dia. Eu não vou te levar.
— Então eu vou sozinha. Eu sei que sou capaz de andar... assim que minha cabeça parar de girar.
— Você iria mesmo, não é?
— Sim. Não é justo que vocês não me deixem falar.
Ian suspirou. Ele soltou minha mão e lentamente se ergueu. Eu pude ouvir suas juntas estalarem quando ele ficou de pé. Por quanto tempo ele ficou sentado no escuro esperando eu acordar?
— Eu voltarei logo. Você pode não estar com fome, mas eu estou faminto.
— Você teve uma longa noite.
— Tive.
— Se clarear, eu não vou ficar aqui esperando você.
Ele riu sem humor.
— Tenho certeza de que isso é verdade. Então eu voltarei antes disso, e vou te ajudar a chegar onde você estiver indo.
Ele empurrou uma das portas na entrada da caverna, deu a volta e a colocou de volta no lugar. Eu franzi o cenho. Aquilo certamente seria difícil de fazer com uma perna só. Torci para que Ian voltasse mesmo.
Enquanto eu esperava por ele, fiquei olhando as duas estrelas que eu podia ver e deixei minha cabeça parar de rodar. Eu realmente não gostava das drogas humanas. Ugh. Meu corpo doía, mas a cabeça latejando era pior.
O tempo passou lentamente, mas não dormi. Eu havia dormido a maior parte das últimas 24 horas. Eu provavelmente estava com fome também. Eu teria que esperar meu estômago se acalmar primeiro para ter certeza.
Ian voltou antes de clarear, exatamente como prometeu.
— Sentindo-se melhor? — ele perguntou enquanto se aproximava.
— Acho que sim. Eu não movi a cabeça ainda.
— Você acha que é você reagindo à morfina ou o corpo de Melanie?
— É a Mel. Ele reage mal a todo tipo de analgésico. Ela descobriu isso quando quebrou o pulso dez anos atrás.
Ele pensou nisso por um momento.
— É... estranho. Lidar com duas pessoas ao mesmo tempo.
— Estranho — concordei.
— Já está com fome?
Eu sorri.
— Achei ter sentido cheiro de pão. Sim, eu acho que meu estômago já passou do pior momento.
— Eu estava esperando que você dissesse isso.
Sua sombra se acomodou ao meu lado. Ele tateou procurando minha mão, então pôs a forma arredondada familiar nela.
— Me ajude a levantar — pedi.
Ele pôs os braços com cuidado em volta dos meus ombros e me dobrou meio de lado, minimizando a dor nas costelas. Eu podia sentir algo estranho ali, rígido e apertado.
— Obrigada — eu disse, meio sem fôlego. Minha cabeça rodou. Toquei minhas costelas com a mão livre. Havia algo ali em volta do meu corpo, por baixo da camisa. — As minhas costelas estão mesmo quebradas?
— Doc não tem certeza. Ele está fazendo o que pode.
— Ele tenta muito.
— É verdade.
— Eu me sinto mal... de não ter gostado dele antes — admiti.
Ian riu.
— Claro que não gostava. É incrível que você consiga gostar de qualquer um de nós.
— Você está invertendo as coisas — murmurei, e mordi o pão. Eu mastiguei mecanicamente, e então engoli, esperando para ver como o meu estômago reagia.
— Não muito apetitoso, eu sei — Ian disse.
Eu dei de ombros.
— Só testando – vendo se a náusea realmente passou.
— Que tal algo mais atraente...?
Eu olhei para ele curiosa, mas não conseguia ver o seu rosto. Eu ouvi um som de plástico e o de algo rasgando, e então senti o cheiro... e entendi.
— Cheetos! — gritei. — Sério? Para mim?
Algo tocou os meus lábios, e eu mordi a delícia que ele ofereceu.
— Eu tenho sonhado com isso — suspirei enquanto mastigava.
Isso fez ele rir. Ele pôs o saco nas minhas mãos.
Eu acabei com o conteúdo do saco rapidamente, e então terminei meu pão, melhorado devido ao sabor de queijo ainda na boca. Ele me ofereceu uma garrafa de água antes que eu pudesse pedir.
— Obrigada. Sabe, por mais que os Cheetos. Por tudo.
— Não foi nada. Mesmo, Peg.
Eu encarei seus olhos azuis, tentando decifrar tudo o que ele dizia com essa frase – parecia haver mais que só cortesia em sua voz. E então percebi que eu podia ver a cor dos olhos de Ian. Estava amanhecendo.
— Você tem certeza que quer fazer isso? — Ian perguntou, suas mãos já meio estendidas como se para me pegar.
Eu acenei.
— Você não precisa me carregar, minha perna está melhor.
— Veremos.
Ele me ajudou a levantar, deixando um braço na minha cintura e colocando o meu braço no pescoço dele.
— Cuidado. E então?
Eu dei um passo a frente com ele. Doeu, mas consegui.
— Ok. Vamos.
Eu acho que Ian gosta demais de você.
Demais?, eu me surpreendi ao ouvir Melanie tão claramente. Ultimamente ela só falava assim quando Jared estava por perto.
Eu estou aqui também. Ele ao menos se importa com isso?
Claro que sim. Ele acredita em nós mais que qualquer um, além de Jamie e Jeb.
Não foi isso que eu quis dizer.
O que você quis dizer?
Mas ela se foi.
Levou muito tempo. Fiquei surpresa com o quanto tivemos que andar. Eu achei que estávamos indo para a caverna maior ou a cozinha – os lugares normais para reuniões. Mas nós cruzamos o campo oriental e continuamos seguindo até finalmente alcançarmos a caverna grande e escura que Jeb havia chamado de sala de jogos. Eu não tinha estado ali desde a minha primeira turnê. O cheiro forte sulfuroso nos recebeu.
Diferentemente da maioria das cavernas aqui, a sala de jogos era muito mais larga do que alta. Eu podia ver isso agora porque a luz difusa azul estava pendurada no teto e não no chão. O teto não ficava muito acima da minha cabeça, era a altura de um teto normal de uma casa. Mas eu não conseguia ver as paredes, elas estavam muito distantes das luzes. Eu não podia ver a fonte fedorenta, mas podia ouvir o som da água ao longe.
Kyle estava sentado no ponto mais iluminado. Seus longos braços abraçando as pernas. Seu rosto era uma máscara rígida. Ele não olhou para cima quando Ian me ajudou a entrar mancando.
De cada um dos lados dele estavam Jared e Doc, de pé, ambos com os braços para baixo, soltos ao lado do corpo. Como se eles fossem... guardas.
Jeb estava ao lado de Jared, a arma sobre o ombro. Ele parecia relaxado, mas eu sabia o quão rapidamente isso podia mudar. Jamie segurava sua mão livre... não, Jeb segurava o pulso de Jamie, e Jamie não parecia feliz com isso. Quando ele me viu entrando, no entanto, ele sorriu e acenou. Ele respirou fundo e olhou para Jeb. Jeb soltou o pulso de Jamie.
Sharon estava ao lado de Doc, com Tia Maggie do outro lado.
Ian me levou para a margem de escuridão que cercava o quadro. Nós não estávamos sozinhos lá. Eu podia ver a forma de vários outros, mas não o rosto deles.
Era estranho. Ao longo das cavernas Ian suportou a maior parte do meu peso com facilidade. Agora parecia que ele havia se cansado. Seu braço em volta da minha cintura estava frouxo. Eu cambaleei e saltitei da melhor forma possível para chegar até o lugar que ele queria. Ele me sentou no chão e então sentou ao meu lado.
— Ai — ouvi alguém murmurar.
Eu me virei e vi Trudy. Ela se arrastou para mais perto, Geoffrey e Heath a imitaram.
— Você parece péssima — ela me disse. — Está muito machucada?
Eu dei de ombros.
— Estou bem.
Comecei a me perguntar se Ian não tinha deixado eu me esforçar para andar para que eu pudesse mostrar meus ferimentos – me fazendo testemunhar contra Kyle sem palavras. Dei um olhar de censura à sua expressão inocente.
Wes e Lily chegaram e vieram se sentar com o meu pequeno grupo de aliados. Brandt entrou alguns segundos depois, e então Heidi, Andy e Paige. Aaron foi o último.
— Pronto, todo mundo está aqui — ele disse. — Lucina vai ficar com as crianças. Ela não as quer aqui – disse para continuar sem ela.
Aaron se sentou ao lado de Andy, e houve um pequeno momento de silêncio.
— Ok então — Jeb disse em uma voz alta que todos podiam ouvir. — É assim que vai funcionar: votação por maioria absoluta. Como sempre, se eu tiver algum problema com a decisão da maioria, tomarei minha própria decisão, porque essa...
— É a minha casa — várias vozes completaram em coro.
Alguém riu, mas parou rapidamente. Não havia graça. Um humano estava sendo julgado por tentar matar um alienígena. Esse devia ser um dia horrível para todos eles.
— Quem vai falar contra Kyle? — Jeb perguntou.
Ian começou a se levantar.
— Não! — eu murmurei, segurando ele pelo cotovelo.
Ele se livrou da minha mão e se levantou.
— A questão é bem simples — Ian disse. Eu queria pular e tapar a boca dele, mas eu não conseguiria me levantar sozinha. — Meu irmão foi avisado. Ele não tinha dúvidas sobre as regras de Jeb quanto a isso. Peg faz parte da comunidade – as mesmas regras e proteções se aplicam a ela. Jeb disse para Kyle com clareza que se ele não conseguisse viver com ela aqui, ele devia se mudar. Kyle decidiu ficar. Ele já sabia antes e está sabendo agora novamente qual a penalidade para assassinato nesse lugar.
— A coisa ainda está viva — Kyle grunhiu.
— Razão pela qual não estou pedindo sua morte — Ian respondeu. — Mas você não pode mais viver aqui. Não se é um assassino no coração.
Ian encarou seu irmão por um momento e então se sentou no chão ao meu lado.
— Mas ele pode ser apanhado e nós não saberíamos — Brandt protestou se levantando. — Ele os trará para cá e nós não teríamos nenhum aviso.
Houve um murmúrio por todo o cômodo.
Kyle encarou Brandt.
— Eles nunca me pegarão vivo.
— Então é uma sentença de morte de qualquer jeito — alguém murmurou ao mesmo tempo em que Andy disse:
— Você não pode garantir isso.
— Um de cada vez — Jeb disse.
— Eu já sobrevivi lá fora antes — Kyle disse irritado.
Outra voz veio da escuridão.
— É um risco — eu não conseguia identificar os donos das vozes – eles só falavam em murmúrios.
E outra voz.
— O que Kyle fez de errado? Nada!
Jeb deu um passo em direção à voz.
— Minhas regras!
— Ela não é uma de nós — alguém protestou.
Ian começou a se erguer novamente.
— Hey! — Jared explodiu. Sua voz tão alta que todos se assustaram. — Peg não está em julgamento aqui! Alguém tem uma reclamação concreta contra ela... contra a própria Peg? Então peça outro julgamento. Mas nós todos sabemos que ela não feriu ninguém aqui. Na verdade ela salvou a vida dele. — Ele enfiou o dedo na nuca de Kyle. Os ombros de Kyle se encolheram como se ele tivesse sido esfaqueado. — Segundos após ele ter tentado jogá-la no rio, ela arriscou a vida para impedir que ele tivesse a mesma morte dolorosa. Ela sabia que se o deixasse cair, ficaria segura aqui. Mas salvou ele do mesmo jeito. Algum de vocês faria o mesmo? Resgatar o inimigo? Ele tentou matar Peg, mas será que ela vai sequer falar contra ele?
Eu senti todos os olhos em mim agora que Jared apontou para mim.
— Você falará contra ele, Peg?
Eu o encarei com os olhos arregalados, chocada por estar falando comigo, usando meu nome. Melanie estava em choque também, dividida. Ela estava feliz pela bondade no rosto dele ao nos olhar, pela suavidade que ela não via ali há muito tempo. Mas era o meu nome que ele dizia...
Demorou alguns segundos até eu conseguir falar.
— Isso tudo é um mal entendido — murmurei. — Nós caímos quando o chão cedeu. Nada mais aconteceu. — Eu esperava que por eu estar falando baixo, ninguém fosse ouvir a mentira, mas assim que eu terminei Ian riu. Eu cutuquei ele com o cotovelo, mas isso não o fez parar.
Jared de fato sorriu para mim.
— Viram? Ela até tenta mentir em defesa dele.
— Tentar é a palavra certa — Ian acrescentou.
— Quem disse que está mentindo? Quem pode provar isso? — Maggie perguntou duramente, dando um passo a frente. — Quem pode provar que não é a verdade que soa tão falsa nos lábios da coisa?
— Mag... — Jeb começou.
— Cala a boca Jebediah – Eu estou falando. Não há razão para estarmos aqui. Nenhum humano foi atacado. Isso é perda do nosso tempo.
— Apoiada — Sharon acrescentou em uma voz alta e clara.
Doc a olhou com mágoa.
Trudy se ergueu num salto.
— Nós não podemos acomodar um assassino e simplesmente esperar ele tenha sucesso.
— Assassino é um termo subjetivo — Maggie sibilou. — Eu só considero assassinato quando algum humano é morto.
Eu senti os braços de Ian em volta dos meus ombros. Eu não percebi que estava tremendo até sentir seu corpo firme contra o meu.
— Humano também é um termo subjetivo Magnolia — Jared disse, encarando-a com desgosto. — Eu pensava que o termo englobava alguma compaixão, um pouco de piedade.
— Vamos votar — Sharon disse antes que a mãe pudesse responder. — Levante a mão quem acha que Kyle deve ficar aqui sem punição por causa do... mal entendido. — Ela lançou um olhar azedo a Ian e não a mim quando usou o termo que eu havia usado.
Mãos começaram a se erguer. Eu observei o rosto de Jared ir se fixando em uma expressão de desgosto.
Eu lutei para erguer minha mão, mas Ian firmou os braços em minha volta e fez um som irritado. Eu mantive a palma erguida o mais alto que podia. Mas no final não foi necessário.
Jeb contava em voz alta.
— Dez... quinze... vinte... vinte e três. Okay, claramente a maioria.
Eu não olhei em volta para ver como cada um havia votado. Era o suficiente que no meu canto todos os braços estavam cruzados no peito, todos encarando Jeb com expectativa.
Jamie caminhou se afastando de Jeb e veio se enfiar entre mim e Trudy. Ele pôs seus braços em volta de mim, abaixo dos de Ian.
— Talvez vocês almas estejam certas sobre nós — ele disse, alto o suficiente para a maioria ouvir sua voz dura. — A maioria não é melhor que...
— Shhh — reprovei-o.
— Okay! — Jeb disse. Todos se calaram. Jeb olhou para Kyle, para mim e então para Jared.
— Okay, eu estou inclinado a ir com a maioria nisso.
— Jeb... — Jared e Ian disseram simultaneamente.
— Minha casa, minhas regras — Jeb os lembrou. — Nunca se esqueçam disso. Então me ouça Kyle. E é melhor ouvir também Magnolia. Qualquer um que tentar machucar Peg de novo não vai receber um julgamento, vai receber um funeral. — Ele deu um tapa na arma para enfatizar.
Eu estremeci.
Magnolia encarou o irmão com ódio.
Kyle acenou com a cabeça, como se estivesse aceitando os termos.
Jeb olhou em volta para a plateia, encarando cada um, exceto o pequeno grupo atrás de mim.
— O julgamento acabou — Jeb anunciou. — Quem tá afim de uma partida?

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