terça-feira, março 18, 2014
Enterrado
Jared se moveu para frente, se afastando de mim. Com um som alto de batida, acertou o punho no rosto de Kyle.
Os olhos de Kyle rolaram na órbita e sua boca caiu aberta.
O quarto ficou muito quieto por alguns segundos.
— Hmm — Doc disse em uma voz macia — clinicamente falando, eu não estou certo de que esse seja o melhor tratamento para a condição dele.
— Mas eu me sinto melhor — Jared respondeu, seco.
Doc sorriu muito levemente.
— Bem, talvez mais alguns minutos de inconsciência não o matem.
Doc começou a olhar as pupilas de Kyle novamente, medir seu pulso...
— O que aconteceu? — Wes perguntou parado ao lado da minha cabeceira.
— Kyle tentou matar a coisa — Jared respondeu antes que eu pudesse dizer algo. — Estamos realmente surpresos com isso?
— Não tentou não — murmurei.
Wes olhou para Jared.
— Altruísmo parece vir mais naturalmente para ela do que mentiras — Jared comentou.
— Você está tentando ser irritante? — perguntei. Minha paciência não estava acabando, ela tinha ido completamente. Fazia quanto tempo que eu não dormia? A única coisa que doía mais que a minha perna era minha cabeça. Cada respiração fazia meu flanco doer. Eu percebi, com uma certa surpresa, que eu estava realmente de mau humor. — Porque se está, então alegre-se, você conseguiu.
Jared e Wes me olharam com olhos chocados. Eu tinha certeza que se eu pudesse ver os outros, suas expressões seriam as mesmas. Talvez não a de Jeb, ele era mestre em poker face.
— Eu sou uma mulher — reclamei. — Essa história de me chamar de "coisa" está me dando nos nervos!
Jared piscou com surpresa. Então seu rosto se recompôs traços duros.
— Por causa do corpo que você usa.
Wes me encarava.
— Por minha causa — sibilei.
— Por definição de quem?
— Que tal pela de vocês? Na minha espécie, sou eu quem gera filhos. Isso não é feminino o bastante para você?
Ele ficou sem palavras, e eu me senti quase presunçosa.
E devia mesmo, Melanie aprovou. Ele está errado, e está sendo muito arrogante quanto a isso.
Obrigada.
Nós, mulheres, temos que nos unir.
— Essa é uma história que você nunca nos contou — Wes murmurou, enquanto Jared lutava para encontrar algo para rebater. — Como isso funciona?
O tom oliváceo do rosto de Wes ficou ainda mais escuro quando ele percebeu o que havia perguntado.
— Quer dizer, você não precisa dizer, se eu estiver sendo rude.
Eu ri. Meu humor estava mudando loucamente, fora de controle. Boba de tanto apanhar, foi o que Melanie tinha dito.
— Não, você não está perguntando nada... impróprio. Nós não temos um esquema tão complicado... tão elaborado quanto a espécie de vocês. — Eu ri novamente, e então senti o rosto esquentar. Eu lembrava muito bem o quão elaborado podia ser.
Tire essa libertinagem da cabeça.
A mente é sua, lembrei-lhe.
— Então...? — Wes perguntou.
Eu suspirei.
— Há poucos de nós que são... mães. Não mães. É assim que eles nos chamam, mas trata-se apenas de um potencial de ser uma... — Eu estava sóbria novamente, pensando nisso. Não havia mães, nenhuma sobrevivente, somente a memória delas.
— Você tem esse potencial? — Jared perguntou rígido.
Eu sabia que os outros estavam ouvindo. Até mesmo Doc parou no meio do movimento de colocar o ouvido no peito de Kyle.
Eu não respondi a pergunta dele.
— Nós somos... um pouco como suas abelhas ou formigas. Muitos, muitos assexuados e uma rainha...
— Rainha? — Wes repetiu, me olhando com uma expressão estranha.
— Não assim. Mas só há uma Mãe a cada cinco, dez mil da minha espécie. Às vezes menos. Não tem um padrão exato.
— Quantos zangões? — Wes perguntou.
— Ah, não... não há zangões. Não, eu disse que é mais simples que isso.
Eles esperaram pela minha explicação. Eu engoli. Eu não devia ter trazido o assunto à tona. Eu não queria mais falar sobre isso. Era tão ruim assim Jared me chamar de “coisa”?
Eles ainda esperavam. Eu franzi a testa, mas então falei. Eu tinha começado aquilo.
— As Mães... se dividem. Cada... célula, acho que vocês chamariam assim, apesar da nossa estrutura não ser semelhante a de vocês, vira uma nova alma. Cada alma nova tem um pouco da memória da Mãe, um pedaço dela que permanece.
— Quantas células? — Doc perguntou curioso. — Quantos nascem?
Eu dei de ombros.
— Um milhão mais ou menos.
Os olhos que eu podia ver se arregalaram, parecendo um pouco mais selvagens. Eu tentei não me sentir magoada quando Wes deu passo se afastando de mim.
Doc assobiou. Ele era o único ainda interessado. Aaron e Andy tinham expressões desconfiadas e perturbadas. Eles nunca tinham me ouvido ensinar antes. Nunca me ouviram falar tanto.
— Quando acontece? Há algum catalisador? — Doc perguntou.
— É uma escolha. Uma escolha voluntária. É a única maneira de escolhermos deliberadamente morrer. Uma troca, por uma nova geração.
— Você poderia escolher agora, dividir todas as suas células, assim, sem mais nem menos?
— Não exatamente assim, mas sim.
— É complicado?
— A decisão é. O processo é... doloroso.
— Doloroso?
Por que ele estava tão surpreso? Não era assim para a espécie dele também?
Homens, Mel esnobou.
— Excruciante — eu disse a ele. — Todos nós lembramos como foi para nossas Mães.
Doc estava acariciando seu queixo, especulando.
— Eu me pergunto qual terá sido a trilha evolucionária... o que levaria a produzir uma sociedade com rainhas suicidas... — ele dizia, se perdendo em pensamentos.
— Altruísmo — Wes murmurou.
— Hmm... — Doc disse. — Sim, isso.
Eu fechei os olhos, desejando que minha boca tivesse ficado fechada. Eu estava tonta. Era cansaço ou o ferimento na cabeça?
— Oh — Doc murmurou. — Você dormiu ainda menos que eu, não foi, Peg? Nós devíamos deixar você dormir.
— Estou bem — murmurei, mas não abri os olhos.
— Isso é ótimo! — alguém disse. — Nós temos a porcaria de uma rainha mãe alienígena vivendo conosco. Ela poderia se explodir em um milhão de novos companheirinhos a qualquer momento.
— Shhh.
— Eles não machucariam vocês. — Eu disse a quem quer que fosse, sem abrir os olhos. — Sem corpos hospedeiros, eles morreriam rapidamente. — Eu estremeci pensando na dor inimaginável. Um milhão de minúsculas, inofensivas almas, bebês prateados minúsculos, morrendo...
Ninguém me respondeu, mas eu podia sentir o alívio deles no ar.
Eu estava tão cansada. Eu não me importava que Kyle estivesse a meio metro de distância de mim. Eu não me importava que dois dos homens no quarto ficariam do lado de Kyle se ele acordasse. Eu não me importava com nada além de dormir.
Claro, foi aí que Walter acordou.
— Uhhh. — Ele gemeu. — Gladdie?
Também com um gemido, eu me virei na direção a ele. A dor na minha perna me fez estremecer, mas eu não conseguia mover meu tronco. Eu o alcancei e encontrei sua mão.
— Aqui — sussurrei.
— Ahh — Walter murmurou em alivio.
Doc chamou atenção dos homens que começaram a protestar.
— Peg abriu mão de dormir e de paz para ajudar Walter com a dor. As mãos dela estão machucadas de segurar as dele. O que vocês fizeram por ele?
Walter gemeu novamente. O som começou baixo e gutural mas rapidamente se tornou uma lamúria aguda.
Doc estremeceu.
— Aaron, Andy, Wes... vocês poderiam, ah, chamar Sharon para mim, por favor?
— Todos nós?
— Caiam fora! — Jeb traduziu.
A única resposta foi o barulho de pés quando eles partiram.
— Peg — Doc falou baixo, perto de meu ouvido. — Ele está com dor. Eu não posso deixar isso continuar.
Eu tentei manter a respiração controlada.
— É melhor assim, sem ele me reconhecer. É melhor se ele pensar que é Gladdie quem está aqui.
Eu abri os olhos. Jeb estava ao lado de Walter cujo rosto parecia que estava dormindo.
— Adeus Walt — Jeb disse. — Te encontro do outro lado.
Ele se afastou.
— Você é um bom homem. Fará falta — Jared murmurou.
Doc estava mexendo no pacote com a morfina.
— Gladdie? — Walter soluçou. — Dói.
— Shh. Não vai doer mais. Doc vai fazer parar.
— Gladdie?
— Sim?
— Eu te amo Gladdie. Eu te amei por toda minha vida.
— Eu sei Walter. Eu... eu amo você também. Você sabe como eu te amo.
Walter suspirou.
Eu fechei meus olhos quando Doc se inclinou sobre Walter com a seringa.
— Durma bem, meu amigo — Doc murmurou.
Os dedos de Walter relaxaram, soltando a minha mão. Eu continuei segurando-os; agora era eu quem segurava.
Os minutos passaram, e tudo estava quieto exceto por minha respiração, que estava aos arrancos, entrecortada, quase virando soluços...
Alguém deu tapas em meu ombro.
— Ele se foi Peg — Doc disse, sua voz rouca. — Ele está livre da dor.
Ele puxou minha mão e me virou com cuidado, me tirando da posição estranha para uma que era menos agonizante. Mas somente um pouco menos. Agora que eu sabia que Walter não se perturbaria, os soluços vieram à tona. Apertei meu flanco, onde doía mais.
— Oh, vá em frente. Você não vai ficar feliz de outro modo — Jared murmurou em um tom conformado. Eu tentei abrir meus olhos, mas eu não consegui.
Algo picou o meu braço. Eu não me lembrava de ter machucado o braço. E ainda mais em um lugar tão estranho, na parte interna do cotovelo.
Morfina, Melanie explicou.
Nós já estávamos começando a perder a consciência. Eu tentei me alarmar, mas não pude. Eu já estava muito grogue.
Ninguém disse adeus, pensei tolamente. Eu não esperaria isso de Jared... mas Jeb... Doc... Ian não estava aqui.
Ninguém está morrendo, ela me prometeu. Só estamos dormindo, dessa vez...
Quando acordei, o teto sobre mim estava difuso, iluminado por estrelas. Era noite. Havia tantas estrelas. Eu me perguntava onde eu estava. Não havia nenhuma obstrução, nenhum pedaço de rocha. Somente estrelas e estrelas e mais estrelas...
Vento batia em meu rosto. Cheirava a poeira e... algo que eu não conseguia identificar. Uma ausência... O cheiro de mofo não estava no ar. Nada sulfúrico, e estava tão seco.
— Peg? — alguém murmurou, tocando minha bochecha boa.
Meus olhos encontraram o rosto de Ian, muito branco sobre a luz das estrelas, inclinado sobre mim. Sua mão sobre a minha pele era mais fria do que a brisa, mas o ar era tão seco que era incômodo. Onde eu estava?
— Peg? Você está acordada? Eles não vão esperar mais.
Eu falei baixo por que ele falava baixo.
— O quê?
— Eles já começaram. Eu sabia que você gostaria de estar aqui.
— Ela está voltando? — a voz de Jeb perguntou.
— O que está começando? — eu perguntei.
— O funeral de Walter.
Eu tentei sentar, mas meu corpo estava todo mole. As mãos de Ian se moveram para minha testa, me mantendo abaixada.
Eu girei a cabeça sob sua mão, tentando ver...
Eu estava do lado de fora.
À minha esquerda uma pilha de pedregulhos formavam uma montanha em miniatura. À minha direita, o deserto se estendia, desaparecendo na escuridão. Eu olhei em direção ao meus pés e pude ver os humanos, desconfortáveis a céu aberto. Eu sabia bem como eles se sentiam. Expostos.
Eu tentei me levantar novamente. Eu queria chegar mais perto, ver. A mão de Ian me impediu.
— Calminha — ele disse. — Não tente levantar.
— Ajuda — eu pedi.
— Peg?
Eu ouvi a voz de Jamie, e então o vi, seu cabelo balançando enquanto ele corria para onde eu estava deitada. Meus dedos correram a beirada do colchonete embaixo de mim. Como eu vim parar aqui? Dormindo sob as estrelas?
— Eles não esperaram — Jamie disse a Ian. — Vai acabar logo.
— Me ajude a levantar — eu disse.
Jamie ergueu as mãos, mas Ian balançou a cabeça.
— Eu a pego.
Ian passou os braços por baixo de mim, cuidadosamente, evitando os locais mais machucados. Ele em ergueu do chão, minha cabeça girando. Eu gemi.
— O que Doc me deu?
— Ele te deu um pouco da morfina que sobrou para que ele pudesse te examinar sem te machucar. De qualquer forma, você precisava dormir.
Eu franzi a testa, desaprovando.
— E se alguém precisar do remédio mais que eu?
— Shhh — ele disse, e eu podia ouvir uma voz baixa distante. Eu virei a cabeça.
Eu podia ver o grupo de humanos novamente. Eles estavam na boca de uma abertura baixa e escura em baixo da pilha de pedregulhos que pareciam instáveis. Eles estavam em fila, de frente para a gruta.
Eu reconheci a voz de Trudy.
— Walter sempre via o lado bom das coisas. Ele podia ver o lado brilhante de um buraco escuro. Eu sentirei falta disso.
Eu vi uma figura dar um passo para frente, vi a trança cinza e negra conforme ela se movia, e vi Trudy jogar um punhado de algo na escuridão. Areia escorria pelos seus dedos, caindo no chão com um barulho fraco.
Ela voltou a ficar ao lado do marido. Geoffrey deu um passo a frente.
— Ele encontrará sua Gladdie agora. Está mais feliz onde está — Geoffrey jogou sua porção de terra.
Ian me carregou para o lado direito da fila de pessoas, perto o suficiente para eu ver dentro da gruta. Havia um espaço de formato oblíquo mais escuro no chão a nossa frente, e em sua volta toda a população humana se alinhava.
Todos estavam lá – todos!
Kyle deu um passo à frente.
Eu tremi e Ian me apertou gentilmente.
Kyle não olhou em nossa direção. Eu vi seu rosto de perfil; seu olho direito estava fechado de tão inchado.
— Walter morreu humano — Kyle disse. — Nenhum de nós poderia pedir mais do que isso.
Ele jogou um punhado de terra na forma escura no chão.
Kyle se reuniu ao grupo.
Jared estava ao lado dele. Ele deu uns passos a frente e parou na beira da cova de Walter.
— Walter era bom dos pés à cabeça. Ninguém se igualava a ele. — Ele jogou sua terra.
Jamie foi para frente, e Jared deu um tapinha em seu ombro quando eles se cruzaram.
— Walter era corajoso — Jamie disse. — Ele não tinha medo de morrer, ele não tinha medo de viver, e... não tinha medo de acreditar. Ele tomava suas próprias decisões e tomava decisões certas — Jamie jogou a terra. Ele se virou e se voltou para a fila, seus olhos em mim o tempo todo.
— Sua vez. — Ele murmurou quando estava ao meu lado.
Andy já estava se movendo para frente, uma pá em sua mão.
— Espere — Jamie disse em voz baixa, mas que ecoou no silêncio. — Peg e Ian não disseram nada.
Houve um murmúrio de insatisfação à minha volta. Meu cérebro parecia que estava pulando dentro da minha cabeça.
— Vamos ter respeito — Jeb disse, mais alto que Jamie. Parecia alto demais para mim.
Meu primeiro instinto foi dizer a Andy para continuar e fazer Ian me carregar para longe. Esse era um luto humano, não meu.
Mas eu lamentava. E eu tinha sim algo a dizer.
— Ian, me ajude a pegar um pouco de terra.
Ian se agachou para eu pegar um punhado de terra. Ele descansou meu peso no joelho para poder pegar um punhado ele mesmo. Então se ergueu e me carregou para a beira da cova.
Eu não conseguia ver dentro do buraco. Estava escuro ali embaixo das rochas e a cova parecia ser muito profunda.
Ian começou a falar entes de mim.
— Walter tinha o melhor e o mais iluminado que um humano podia ter — ele disse e jogou sua terra no buraco. Pareceu que demorou muito tempo até a terra acertar o fundo.
Ian olhou para mim.
Estava absolutamente silencioso na noite estrelada. Até o vento estava calmo. Eu falei baixinho, mas sabia que minha voz chegava a todos.
— Não havia ódio em seu coração — murmurei. — A sua existência prova que estávamos errados. Não tínhamos o direito de tomar seu mundo de você, Walter. Eu espero que seus contos de fadas sejam verdadeiros. Eu espero que você encontre a sua Gladdie.
Eu deixei que a terra escorresse pelos meus dedos e esperei até ouvi-la cair sobre o corpo de Walter, obscurecido no túmulo profundo e escuro.
Andy começou a trabalhar assim que Ian deu o primeiro passo para trás, cobrindo o buraco com a terra pálida de uma pilha a uma curta distância do buraco. O som da terra caindo co buraco me fez estremecer.
Aaron passou por nós com outra pá. Ian se virou lentamente e me carregou para longe para abrir espaço para eles. O som alto e pesado da terra caindo ecoava atrás de nós. Vozes baixas começaram a murmurar. Eu ouvi passos conforme as pessoas se moviam e falavam sobre o funeral.
Eu realmente olhei para Ian pela primeira vez quando voltávamos para o colchonete escuro que estava estendido no chão – fora de lugar , não pertencendo à paisagem. O rosto de Ian estava sujo de poeira branca, sua expressão incomodada. Eu já havia visto ele assim. Eu não conseguia me lembrar onde e quando, e então ele me deitou no colchonete e eu me distraí. O que eu faria aqui? Dormir? Doc estava bem atrás de nós. Ele e Ian se ajoelharam na terra ao meu lado.
— Como você está se sentindo? — Doc perguntou, já tocando minhas costelas.
Eu queria sentar, mas Ian pressionou meu ombro para baixo quando tentei.
— Eu estou bem, talvez pudesse andar...
— Sem necessidade de forçar. Vamos dar a essa perna alguns dias, ok? — Doc puxou minha pálpebra esquerda para cima e iluminou com uma lanterna. Meu olho esquerdo viu o reflexo brilhante no seu rosto.
Ele estremeceu e se afastou abruptamente. A mão de Ian no meu ombro não recuou nem um pouco, isso me surpreendeu.
— Hmmm. Isso não ajuda muito um diagnóstico, ajuda? Como está sua cabeça? — Doc perguntou.
— Um pouco tonta. Mas eu acho que é da droga que você me deu, não do ferimento. Eu não gosto delas, acho que prefiro a dor.
Doc pareceu fazer uma careta, e Ian também.
— O que? — perguntei.
— Eu vou ter que te drogar de novo Peg, Desculpa.
— Mas... por quê? Eu não estou assim tão machucada. Eu não quero...
— Nós temos que te levar de volta para dentro — Ian disse me interrompendo, sua voz baixa como se ele não quisesse que os outros ouvissem. Eu podia ouvir as vozes atrás de nós, ecoando nas rochas. — Nós prometemos... que você não estaria consciente.
— Tape meus olhos novamente.
Doc puxou a pequena seringa do bolso. Já quase no fim, somente um quarto do conteúdo ainda sobrava. Eu me afastei dela, em direção a Ian. Sua mão em meu ombro me segurou.
— Você conhece as cavernas bem demais — Doc murmurou. — Eles não querem te dar a chance de descobrir...
— Mas para onde eu iria? — murmurei, minha voz exasperada. — Se eu soubesse o caminho? Por que eu iria embora agora?
— Se aplaca as preocupações deles... — Ian disse.
Doc pegou meu pulso, e eu não o impedi. Eu olhei para o outro lado, longe da agulha, para Ian.
Seus olhos eram como a meia noite na escuridão. Eles se apertaram ao ver o sentimento de traição nos meus.
— Desculpe — ele murmurou.
Foi a última coisa que ouvi.
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