terça-feira, março 18, 2014

Amada


— Você tem medo de voar? — A voz Buscadora estava cheia de descrença, beirando a gozação. — Você já viajou pelo espaço profundo oito vezes e está com medo de pegar um voo para Tucson, no Arizona?
— Em primeiro lugar, não estou com medo. Segundo, quando eu viajei através do espaço eu não tinha exatamente consciência de onde estava e muito menos estar em uma câmara de hibernação. E terceiro, esta hospedeira fica enjoada em aviões.
A Buscadora revirou os olhos contrariada.
— Então tome remédios! O que você teria feito se o Curandeiro Fords não tivesse sido transferido para Saint Mary? Você dirigiria até Chicago?
— Não. Mas como a opção de dirigir agora é razoável, eu prefiro. Será muito bom ver um pouco mais deste mundo. O deserto pode ser impressionante...
— O deserto é uma chateação.
— ... e eu não estou com tanta pressa. Eu tenho muitas coisas para pensar, e eu irei apreciar ficar algum tempo sozinha. — Olhei intencionalmente para ela enfatizando a última palavra.
— De qualquer forma, não compreendo o porquê dessa visita ao Curandeiro. Há muitos Curandeiros competentes aqui.
— Eu me sinto mais confortável com o Curandeiro Fords. Ele tem experiência com isto, e eu sinceramente não acho que tenho todas as informações que preciso — eu lhe dei outro olhar sugestivo.
— Não perca tempo, você precisa se apressar, Peregrina. Eu reconheço os sinais.
— Perdoe-me se eu não considero a sua informação imparcial. Eu sei o suficiente sobre o comportamento humano para reconhecer os sinais de manipulação.
Ela olhou furiosamente para mim.
Eu estava arrumando as poucas coisas que eu planejava levar comigo no carro alugado. Havia roupas suficientes para usar durante uma semana sem precisar lavar e artigos básicos de higiene.Embora eu não estivesse levando muita coisa, estava deixando menos ainda para trás. Eu tinha acumulado pouquíssimos pertences pessoais. Depois de todos esses meses em meu pequeno apartamento, as paredes continuavam lisas, as prateleiras vazias. Talvez eu nunca tivesse pensado em me estabelecer por aqui.
A Buscadora estava plantada na calçada próxima do porta-malas aberto do carro, me assaltando com perguntas maliciosas sempre que eu ficava ao alcance de sua voz. Pelo menos eu estava segura na minha convicção de que ela era muito impaciente para me seguir na estrada. Ela poderia pegar um voo para Tucson, assim como tentava me convencer a fazê-lo. Isto era um imenso alivio. Eu a imaginei junto a mim toda vez que eu parasse para comer, andando do lado de fora do banheiro no posto de gasolina, suas inquisições incansáveis esperando por mim toda vez que meu veículo parasse. Eu estremeci com esse pensamento. Se um corpo novo significasse ficar livre da Buscadora... bem, eis uma forte motivação.
Eu tinha outra escolha também. Eu poderia abandonar este mundo de uma vez, como uma fracassada, e me mudar para o meu décimo planeta. Eu poderia trabalhar para esquecer por completo essa experiência. A Terra poderia ser apenas um pequeno ponto em meu impecável registro.
Mas para onde eu iria? Um planeta já experimentado? O Mundo Cantor era um dos meus favoritos, mas abrir mão da visão pela cegueira? O Planeta das Flores era adorável... contudo as forma de vida baseadas na clorofila tinham um espectro tão pequeno de amoções... Pareceria insuportavelmente lento depois do ritmo deste lugar humano.
Um novo planeta? Havia uma recente aquisição – aqui na Terra eles chamavam os novos hospedeiros de “Golfinhos” por falta de comparação melhor, embora eles se assemelhassem mais a libélulas do que a mamíferos marinhos.Uma espécie altamente desenvolvida, e certamente inconstante, mas depois de minha longa estadia com as Algas Visionárias, o pensamento de outro planeta aquático era repugnante para mim.
Não, ainda havia tanta coisa neste planeta que eu ainda não tinha experimentado. Nenhum outro lugar no universo conhecido me chamava com tanta força quanto esse pequeno pátio gramado e sombreado nesta rua calma. Ou possuía o apelo do céu vazio do deserto, que eu tinha visto somente nas memórias de Melanie.
Melanie não compartilhou sua opinião sobre minhas opções. Ela estava muito quieta desde a minha decisão de encontrar Fords Águas Profundas, meu primeiro Curandeiro. Eu não tinha certeza do que este desinteresse significava. Estaria ela tentando parecer menos perigosa, ser menos um peso morto? Estaria ela se preparando para a invasão da Buscadora? Para a morte? Ou estava se preparando para lutar comigo? Tentar assumir o controle?
Qualquer que fosse seu plano, ela se mantinha distante. Era uma presença indistinta e atenta no fundo de minha mente.
Eu fiz minha última viagem para dentro de casa, procurando por algo esquecido. O apartamento estava vazio. Havia somente a mobília básica que tinha sido deixada pelo último inquilino. Os mesmos pratos ainda estavam nos armários, os travesseiros na cama, as lâmpadas na mesa. Se eu não voltasse, haveria pouca coisa para o inquilino seguinte jogar pra fora.
O telefone tocou quando eu já estava do lado de fora da porta, voltei para atender, mas era tarde demais. Eu já tinha ajustado o sistema de mensagem para responder ao primeiro toque. Eu já sabia o que a pessoa que ligou ouviria: minha vaga explicação de que eu estaria fora pelo restante do semestre, e que minhas aulas estariam canceladas até que se encontrasse um substituto. Nenhuma justificativa. Eu olhei para o relógio acima da televisão. Mal passava das oito horas da manhã. Eu estava certa que era Curt ao telefone, tendo acabado de receber o e-mail ligeiramente mais detalhado que mandei noite passada. Eu me senti culpada por não completar o meu compromisso com ele, era como se eu o estivesse abandonando. Talvez esta etapa, este abandono, fosse o prelúdio para a minha próxima decisão, minha maior vergonha. O pensamento era desconfortável. Deixou-me de má vontade para ouvir o que quer que a mensagem dissesse, embora eu não estivesse com a menor pressa de sair.
Eu olhei em volta do apartamento vazio mais uma vez. Não havia nenhum sentimento de deixar algo para trás, nenhum apego por aquelas peças. Eu tive um estranho pressentimento de que neste mundo – não apenas Melanie, mas toda a esfera deste planeta – não me queria, não importa o quanto euo quisesse. Eu apenas não conseguiria criar raízes. Sorri com ironia ao pensamento das raízes. Esse sentimento não passava de uma bobagem supersticiosa.
Eu nunca tivera um hospedeiro que fosse capaz de superstição. Era uma sensação interessante, como saber que você esta sendo observada sem ser capaz de encontrar o observador. Senti arrepios na nuca.
Finalmente fechei a porta atrás de mim, mas nem toquei nas antigas fechaduras. Ninguém perturbaria este lugar até que eu estivesse retornado ou ele ser repassado a outra pessoa.
Sem olhar para a Buscadora, entrei no carro. Eu não tinha muita prática em dirigir, tampouco Melanie, então fiquei um pouco nervosa. Mas eu tinha certeza de que logo me habituaria.
— Eu estarei esperando por você em Tucson — disse a Buscadora, se inclinando na janela aberta do passageiro quando eu liguei o motor.
— Não tenho duvidas — murmurei.
Achei os controles no painel na porta. Tentando esconder um sorriso, apertei o botão para levantar o vidro e a vi pular para trás.
— Talvez... — ela disse, aumentando sua voz, quase gritando para que eu pudesse a ouvir sobre o ruído do motor e através da janela fechada — talvez eu tente da sua maneira. Talvez eu a encontre na estrada.
Ela sorriu e encolheu seus ombros.
Ela só estava dizendo aquilo para me chatear. Tentei não deixar que ela visse que tinha conseguido. Foquei meus olhos na estrada adiante e me afastei com cuidado do meio-fio.
Foi bastante fácil encontrar a autoestrada e depois seguir então as placas para fora de San Diego. Logo não havia placas a seguir, nenhum desvio errado a pegar. Em oito horas eu estaria em Tucson. Não era tempo longo o bastante.
Possivelmente eu poderia passar a noite em uma pequena cidade ao longo da estrada. Se eu pudesse ter certeza de que a Buscadora estaria à frente, esperando impacientemente, ao invés de seguindo atrás, uma parada seria um ótimo atraso.
Eu me encontro olhando a toda hora o espelho retrovisor, procurando por um sinal de perseguição. Estava dirigindo mais devagar que todos, sem vontade de chegar ao fim de minha jornada, e os outros carros me ultrapassavam sem parar. Não havia nenhum rosto que eu reconhecesse enquanto eles passavam, seguindo adiante. Eu não deveria ter deixado que a provocação da Buscadora me incomodasse, ela claramente não tinha temperamento para ir para qualquer lugar tão lentamente. Ainda assim, eu continuava a procurá-la.
Eu já estivera no oeste, perto do mar, no norte e no sul de alto a baixo da bela Califórnia, mas nunca tinha estado no leste a qualquer distância que fosse. A civilização ficou para trás rapidamente, e eu logo fui cercada pelas colinas e rochas monótonas que eram as precursoras da amplidão vazia do deserto.
Era muito relaxante estar longe da civilização, e isto me incomodava. Eu não deveria achar a solidão tão acolhedora. Almas eram sociáveis. Nós vivíamos, trabalhávamos e crescíamos juntas em harmonia. Nós éramos todas iguais: pacíficas, afáveis e honestas. Por que eu deveria me sentir melhor longe da minha espécie? Era Melanie quem estava fazendo eu me sentir desta forma?
Eu procurei por ela, mas a encontrei distante, sonhando no fundo de minha mente.
Era o melhor que tinha me sentido desde que ela começou a falar novamente.
Os quilômetros passavam rapidamente. As rochas escuras, ásperas e as planícies empoeiradas cobertas de uma uniformidade monótona. Eu percebi que estava dirigindo mais rápido do que eu gostaria. Não havia qualquer coisa para manter minha mente ocupada aqui, então eu achei difícil me demorar. Distraída, eu quis saber por que o deserto era muito mais colorido nas memórias de Melanie, tão mais atrativo. Eu deixei minha mente se tocar a dela, tentando ver o que havia de tão especial sobre aquele lugar ermo.
Mas ela não via a terra espalhada e morta à nossa volta. Ela estava sonhando com outro deserto, com cânions vermelhos, um lugar mágico. Ela não tentou me manter longe. De fato, ela pareceu estar quase inconsciente da minha presença. Eu me questionei de novo o que o seu distanciamento significava. Não percebi nenhum pensamento de ataque. Dava mais a impressão de uma preparação para o fim.
Ela estava vivendo em um lugar mais feliz em sua memória, como se estivesse dizendo adeus. Era um lugar que ela nunca me permitiu ver antes.
Havia uma cabine, uma engenhosa moradia dobrada em uma brecha na rocha vermelha, perigosamente próximo da linha inundada pelas enchentes súbitas. Um lugar improvável, longe de qualquer caminho ou trilha, construída em um lugar que parecia não fazer sentido algum. Um lugar acidentado, sem nenhuma das conveniências da tecnologia moderna. Ela se recordou de ter rido da pia que era preciso bombear para puxar a água do chão.

“É melhor que ter tubulação”, Jared disse, a ruga entre seus olhos se aprofundando enquanto suas sobrancelhas se juntavam.Ele parecia preocupado com a minha risada. Ele estava com medo de que eu não tenha gostado? “Não há nada que se possa ver; nenhuma evidência de que nós estamos aqui.”
“Eu amei,” digo rapidamente. “É como um filme antigo. É perfeito”.
O sorriso que de fato nunca deixa o rosto dele – ele sorri mesmo enquanto está dormindo – se abre.
“Eles não contam as piores partes nos filmes. Vamos lá. Eu irei te mostrar onde a está privada.”
Eu escuto o eco do riso de Jamie através do cânion enquanto ele corre para nós. Seus cabelos negros balançam com seu corpo. Ele pula o tempo todo agora, este magro garoto com a pele queimada de sol. Eu não tinha percebido quanto peso aqueles ombros estavam carregando. Com Jared, definitivamente ele estava alegre. A expressão de ansiedade dissipara-se, substituída por um sorriso largo. Éramos ambos mais resistentes do que eu havia pensado.
“Quem construiu este lugar?”
“Meu pai e meus irmãos mais velhos. Eu ajudei, ou melhor, atrapalhei um pouco. Meu pai gostava de se afastar de tudo. E não ligava muito para convenções. Ele nunca se preocupou em descobrir a quem pertencia a terra, nunca pediu permissão de uso ou qualquer outra dessas chatices.” Jared ri, jogando sua cabeça para trás. O sol dança nas pontas de seus cabelos. “Oficialmente, este lugar não existe. Conveniente, não?” Sem parecer pensar sobre isto, ele pega minha mão.
Minha pele arde quando encontra a dele. A sensação é melhor do que boa, mas desata uma dor estranha em meu peito.
Ele está sempre me tocando dessa forma, parecendo sempre precisar tranquilizar a si mesmo de que eu estou aqui. Será que compreende o que a simples pressão de sua palma na minha faz comigo? Seu pulso também acelera em suas veias? Ou ele está simplesmente feliz por não estar mais só?
Ele balança nossos braços enquanto andamos juntos sob um pequeno grupo de choupos-do-canadá, seu verde tão vívido contra o vermelho que burla meus olhos, confundindo meu foco. Ele está feliz aqui, mais feliz do que em qualquer outro lugar, e eu me sinto feliz também. Este sentimento ainda não é familiar.
Ele não me beijou desde aquela primeira noite, quando eu gritei ao achar a cicatriz no pescoço dele. Será que ele não vai me beijar de novo? Eu devo beijá-lo? E se ele não gostar?
Ele olha pra mim e sorri, as linhas ao redor de seus olhos desenhando pequenas teias. Eu me pergunto se ele é tão bonito como eu penso que é, ou se assim ele me parece pelo fato de ele ser a única pessoa que restou no mundo além de Jamie e eu.
Não, não acho que seja isso. Ele é realmente bonito.
“O que você esta pensando, Mel?” ele pergunta. “Você parece estar se concentrando em alguma coisa muito importante.” Ele ri.
Dou de ombros e sinto um frio na barriga.
“Aqui é lindo”.
Ele olha ao nosso redor.
“Sim. Mas não é sempre bonita a casa da gente?”
“Casa”. Repito a palavra baixinho. “Casa.”
“Sua casa também se você quiser.”
“Eu quero.” Parece que cada quilômetro que eu andei nos últimos três anos me conduziu a este lugar. Não quero ir embora jamais, mas sei que vou ter que fazê-lo. Comida não cresce em árvores. Não no deserto, pelo menos.
Ele aperta a minha mão, e meu coração soca as minhas costelas. É quase uma dor, este prazer.

Houve uma sensação perturbadora enquanto Melanie saltava adiante, seus pensamentos dançando pelo dia quente até horas depois de o sol ter caído por trás dos paredões vermelhos do cânion. Fui com ela, quase hipnotizada pela estrada infinita que se estendia à frente, os arbustos esqueléticos passando uniformemente em minha mente entorpecida.

Dou uma espiada no pequeno quartinho. O colchão de casal está apenas a poucos centímetros das paredes ásperas de pedra em ambos os lados.
Tenho uma sensação profunda a cheia de alegria ao ver Jamie adormecido em uma cama de verdade, sua cabeça sobre um travesseiro macio. Seus braços e pernas magricelos espalhados, deixando pouco lugar para mim. Ele é tão maior na realidade do que como eu o vejo em minha cabeça. Quase dez anos... logo não vai mais ser criança. Mas sempre vai ser uma criança pra mim.
A respiração de Jamie é regular, o que mostra que está dormindo profundamente. Não há medo em seu sonho, pelo menos neste momento.
Eu fecho a porta devagar e vou para o pequeno sofá onde Jared está esperando.
“Obrigada,” sussurro, embora saiba que gritar não acordaria Jamie agora. “Eu me sinto mal. Este sofá é muito pequeno pra você. Talvez você devesse ir dormir na cama com o Jamie.”
Jared ri maliciosamente.
“Mel, você é apenas alguns centímetros menor que eu. Durma confortavelmente, pelo menos uma vez. Da próxima vez que sair, roubo um saco de dormir ou algo parecido para mim.”
Não gosto disso, por inúmeras razões. Ele vai sair logo? Vai nos levar com ele quando for? Está vendo o empréstimo do quarto como uma coisa permanente?
Ele deixa cair seu braço ao redor de meus ombros e me aperta contra o seu corpo. Eu me ajeito rapidamente, embora o calor de tocá-lo faça meu coração doer de novo.
“Por que o olhar de reprovação?”, pergunta ele.
“Quando é que você... quando nós iremos sair novamente?”
Ele dá de ombros. “Nós conseguimos o suficiente para alguns meses. Posso dar umas saídas rápidas se você quiser ficar em um único lugar por enquanto. Tenho certeza de que está cansada de fugir.”
“Sim, estou”, eu concordei. Eu respirei profundamente para fingir coragem. “Mas se você for, eu vou.”
Ele me abraça apertado. “Vou admitir, é assim que eu prefiro. O pensamento de me separar de você...” ele ri baixinho. “Soaria loucura se eu dissesse que preferiria morrer? Muito melodramático?”
“Não, eu sei o que quer dizer.”
Ele deve se sentir da mesma forma que eu. Diria as mesmas coisas se pensasse em mim apenas como outro ser humano, e não como mulher?
Compreendo que esta é a primeira vez que ficamos realmente sozinhos desde o dia em que nos conhecemos – a primeira vez que há uma porta fechada entre um Jamie adormecido e nós dois. Tantas noites nós ficamos acordados, conversando aos sussurros, contando nossas histórias, as histórias felizes e as de horror, sempre com a cabeça de Jamie em meu colo. Ela fez a minha respiração acelerar, aquela simples porta fechada.
“Eu não acho que você precise encontrar um saco de dormir, ainda não.”
Eu sinto seus olhos em mim, questionando, mas eu não posso encontrá-los. Eu estou constrangida agora, tarde demais. As palavras já saíram.
“Nós permaneceremos aqui até a comida acabar, não se preocupe. Já dormi em coisas piores que este sofá.”
“Não é isso que eu quero dizer”, eu digo, ainda olhando para baixo.
“Você fica com a cama, Mel. Disso eu não abro mão.”
“Não é isso que eu quero dizer, tampouco.” A frase mal chega a ser um sussurro. “O sofá é mais que suficiente para Jamie. Vai demorar um tempo até ele ficar maior. Eu posso dividir a cama com... você.”
Houve uma pausa. Eu queria olhá-lo, ler a expressão de seu rosto, mas estou atormentada demais. E se ele não gostar? Como vou suportar? Ele vai pedir que eu vá embora?
Seus dedos quentes e calejados levantam meu queixo. Meu coração bate mais forte quando nossos olhos se encontram.
“Mel, eu...” seu rosto, pela primeira vez, não tinha um sorriso.
Eu tento afastar o olhar, mas ele segura meu queixo de modo que meu olhar não possa escapar do dele. Será que ele não sente o calor entre o seu corpo e o meu? Isso tudo sou eu? Como tudo isso pode ser eu? Parece que há um sol preso entre nós – espremido como uma flor entre as páginas de um livro grosso, queimando o papel. Será que ele sente algo diferente? Algo ruim?
Depois de um momento, sua cabeça se vira, ele está olhando para o outro lado agora, mas ainda mantendo seu aperto em meu queixo. Sua voz é calma.
“Você não me deve isso, Melanie. Você não me deve absolutamente nada.”
Sinto dificuldade de falar.
“Eu não estou dizendo... eu não quis dizer que eu me sinta obrigada. E... você também não deveria. Esqueça o que eu disse.”
“É pouco provável, Mel.”
Ele suspira, e eu quero desaparecer. Desistir – perder minha mente para os invasores, se for o que é preciso para apagar esse erro imenso. O futuro em troca de eliminar os últimos dois minutos. Qualquer coisa.
Jared respira fundo. Ele fita o chão, seus olhos e queixo cerrados.
“Mel, não tem que ser assim. Só porque estamos juntos, só porque nós somos o último homem e a última mulher sobre a Terra...” Ele se esforça para encontrar as palavras, algo que eu nunca o vi fazer antes. “Isso não significa que você tenha que fazer algo que você não queira. Eu não sou o tipo de homem que espera... Você não tem que...”
Ele parece tão aflito, ainda de cara feia olhando para o outro lado, que me vejo falando, embora eu saiba que é um erro antes que eu comece.
“Não foi isso o que eu quis dizer.” Eu murmuro. “Não é de precisa ser que eu estava falando, e não acho que você seja esse tipo de homem. Não. Claro que não. É só que...”
É só que eu o amo. Cerro meus dentes antes que eu me humilhe mais. Eu deveria cortar minha língua fora antes que ela arruinasse mais alguma coisa.
“Só que...?”, pergunta ele.
Tento balançar a cabeça, mas ele ainda está segurando meu queixo entre seus dedos.
“Mel?”
Dou um puxão para me soltar e balanço a cabeça furiosamente.
Ele se inclina, aproximando-se de mim, e de súbito seu rosto está diferente. Há um novo conflito que não reconheço na expressão dele, e mesmo sem entendê-lo completamente, ele apaga o sentimento de rejeição que está fazendo meus olhos arderem.
“Você vai falar comigo? Dizer o que está pensando? Por favor?” Ele murmura. Posso sentir sua respiração em minha face, e passam-se segundos antes que eu possa calcular o que seja.
Seus olhos me fazem esquecer que estou atormentada, que desejei não falar nunca mais.
“Se eu tivesse de escolher alguém, qualquer um, para ficar perdida em um planeta deserto, seria você,” sussurro. O sol entre nós ardeu mais quente. “Eu sempre quero estar com você. E não só para... e não só para conversar. Quando você me toca...” Ouso deixar meus dedos acariciarem a pele macia de seu braço, e sinto chamas fluírem das suas pontas agora. Os braços dele se apertam à minha volta.Será que ele sente o fogo? “Eu não quero que você pare.” Eu quero ser mais exata, mas eu não consigo encontrar as palavras. Tudo bem. Já fiz bobagem suficiente admitindo o que admiti. “Se você não se sente da mesma maneira, eu compreendo. Talvez não seja a mesma coisa pra você. Tá tudo bem.” Mentiras.
“Oh, Mel”, suspira ele em meu ouvido, puxando meu rosto até encontrar o dele.
Mais chamas em seus lábios, mais ardentes do que as outras, intensas. Eu não sei o que estou fazendo, mas ele não parece se importar. Suas mãos estão em meu cabelo, e meu coração está a ponto de entrar em combustão. Eu não posso respirar. Eu não quero respirar.
Mas seus lábios se movem para a minha orelha, e ele segura meu rosto quando eu tento beijá-lo novamente.
“Foi um milagre – mais que um milagre – quando eu encontrei você, Melanie. Agora, se fosse me dado a chance de escolher entre ter o mundo de volta e ter você, eu não seria mais capaz de desistir de você. Nem mesmo para salvar cinco bilhões de vidas.”
“Isso é errado.”
“Muito errado, mas muito verdadeiro.”
“Jared,” sussurro. Eu tento alcançar seus lábios novamente. Ele se afasta, olhando como se tivesse alguma coisa para dizer. O que mais pode ser?
“Mas...”
“Mas?” Como pode haver um mas? O que poderá vir depois de todo esse fogo, que comece por mas?
“Mas você tem 17 anos, Melanie. E eu tenho 36.”
“O que isso tem haver?"
Ele não respondeu. Suas mãos acariciaram meus braços lentamente, espalhando o fogo.
“Você só pode estar brincando comigo.” Eu me inclino para trás procurando o rosto dele. “Você está preocupado com as convenções quando nós já passamos do fim do mundo?”
Ele engole em seco falar.
“A maioria das convenções existem por alguma razão, Mel. Eu me sentiria uma pessoa má, como se eu estivesse tirando proveito. Você é muito nova.”
“Ninguém mais é jovem hoje em dia. Qualquer um que tenha sobrevivido até aqui é um velho.”
Há um sorriso no canto de sua boca.
“Talvez você esteja certa. Mas é algo que a gente não precisa apressar.”
“O que há para esperar?” eu exigi.
Ele hesitou por um longo momento, pensando.
“Bem, em primeiro lugar, há algumas... questões práticas a considerar.”
Eu me pergunto se ele não está apenas procurando uma distração, tentando uma escapatória. É essa a impressão que dá. Eu levanto uma sobrancelha. Não posso acreditar no rumo que essa conversa tomou. Se ele realmente me quer, não faz sentido.
“Veja,” ele explica, hesitante. Sob o intenso bronzeado de sua pele, ele parece corar. “Quando eu estava montando este lugar, eu não estava planejando ter... hóspedes. Quer dizer...” O resto sai de uma vez só. “Controle de natalidade era a última coisa em minha mente.”
Sinto minha testa franzir.
“Oh.”
O sorriso tinha ido de seu rosto, e por um segundo houve um flash de raiva que eu nunca tinha visto antes. Isso faz com que ele pareça perigoso de um jeito que eu nunca imaginei.
“Este não é o tipo de mundo ao qual eu gostaria de trazer uma criança.”
As palavras afundaram-se, e eu me encolho ao pensamento de um pequenino e inocente bebê abrindo os olhos para este lugar. É ruim o bastante observar os olhos de Jamie, saber o que esta vida vai lhe oferecer, mesmo na melhor das circunstâncias possíveis.
De repente, Jared é Jared outra vez. A pele em torno de seus olhos enruga.
“Além disso, nós teremos muito tempo para... pensar sobre isso.” Esquivando-se outra vez, suspeito. “Você percebe o pouco, o pouquíssimo tempo que nós ficamos juntos até aqui? Só se passaram quatro semanas desde que nós nos encontramos.”
Isso me espanta.
“Não pode ser.”
“Vinte e nove dias. Estou contando.”
Eu penso de novo. Não é possível que somente vinte e nove dias tenham se passado desde que Jared mudou nossas vidas. Parece que Jamie e eu estivemos com Jared pelo mesmo tempo que estivemos sozinhos. Dois ou três anos, talvez.
“Nós temos tempo”, Jared diz novamente.
Um pânico abrupto, como uma premonição, um sinal de advertência, impede que eu fale por um longo momento. Ele observa as mudanças súbitas em meu rosto com olhos preocupados.
“Isso você não sabe.” A desesperança, que se suavizara quando ele me encontrou, açoita como uma chibatada. “Você não pode saber quanto tempo nós teremos. Não sabe se deveríamos contar em meses, dias ou horas.”
Ele dá uma gargalhada, tocando seus lábios no lugar tenso onde minhas sobrancelhas querem se juntar.
“Não se preocupe, Mel. Os milagres não funcionam dessa maneira. Eu nunca irei perder você. Jamais vou deixar você ir embora, afastar-se de mim.”

Ela me trouxe de volta para o presente – para a fina faixa da autoestrada serpeando através do deserto do Arizona, assando sob o escaldante sol do meio dia – sem que eu tivesse escolhido voltar. Fitei o lugar vazio adiante e senti um vazio dentro de mim.
O pensamento dela lamentou debilmente em minha cabeça: Você nunca sabe quanto tempo vai ter.
As lágrimas que eu estava chorando pertenciam a nós duas.

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