terça-feira, março 18, 2014
Descoberta
Eu dirigi rapidamente pelo entroncamento I-10 enquanto o sol se punha atrás de mim. Eu não vi muito mais que as linhas brancas e amarelas do pavimento, e a grande placa verde ocasional me enviando mais para o leste. Eu estava com pressa agora.
Eu não estava certa do por que eu estava com pressa. Para estar livre disso, suponho. Do pesar, da tristeza, do sofrimento de amores perdidos e impossíveis. Isso significaria dizer sair deste corpo? Não conseguia pensar em outra resposta. Eu ainda faria as minhas perguntas ao Curandeiro, mas senti como se a decisão já estivesse tomada. Saltadora. Molenga. Eu testei as palavras em minha mente, tentando me acostumar com elas.
Se eu pudesse achar um jeito, eu manteria Melanie fora das mãos da Buscadora. Seria muito difícil. Não, seria impossível.
Eu tentaria.
Eu lhe prometi isto, mas ela não estava escutando. Ela ainda estava sonhando. Desista, pensei, agora é tarde demais para desistir de ajudar.
Tentei evitar o cânion vermelho da mente de Melanie, mas eu estava lá. Por mais que eu tentasse me concentrar nos carros que zuniam ao meu lado, as naves que deslizavam rumo ao pouso, a poucas e belas nuvens acima da minha cabeça, eu não conseguia me desvencilhar completamente de seus sonhos. Memorizei o rosto de Jared em mais de mil ângulos diferentes. Assisti Jamie crescer rapidamente, como um varapau, sempre pele e ossos. Meus braços ansiavam abraçá-los – não, o sentimento era afiado como a dor, tinha corte de lâmina e era violenta. Intolerável. Eu precisava escapar.
Dirigi quase às cegas ao longo da autoestrada estreita de duas faixas. O deserto, se é que é possível, parecia mais monótono e morto que antes. Mais maçante, sem cor. Eu poderia chegar em Tucson antes do jantar. Jantar. Eu ainda não havia comido hoje, e meu estômago roncou quando percebi isso.
A Buscadora estaria esperando por mim. Meu estômago se contraiu, a fome momentaneamente substituída pela náusea. Automaticamente meu pé aliviou a pressão no acelerador.
Eu chequei o mapa no assento do passageiro. Em breve, eu alcançaria uma pequena parada em um lugar chamado Picacho Peak. Talvez eu parasse para comer algo lá. Adiaria ver a Buscadora por alguns preciosos momentos.
Embora fosse um nome desconhecido – Picacho Peak – houve uma estranha e sufocada reação de Melanie. Eu não pude entender. Ela tinha estado aqui antes? Eu procurei pela recordação, uma vista ou odor que correspondesse, mas não encontrei nada. Picacho Peak. Outra vez, houve uma pontada de interesse que Melanie reprimiu. O que essas palavras significavam pra ela? Ela se refugiou em suas memórias distantes, me evitando.
Isto me fez ficar curiosa. Eu dirigi um pouco mais rápido, imaginando se a visão do lugar provocaria algo.
Um pico de montanha solitário – não enorme para os padrões normais, mas elevado em relação aos morros baixos mais próximas de mim – estava começando a tomar a forma de horizonte. Tinha uma forma incomum, distinta. A atenção de Melanie crescia enquanto viajávamos, mas ela fingia indiferença quanto a isto.
Por que ela fingia não se importar quando obviamente ela se importava? A força dela me incomodou quando tentei descobrir. Eu não conseguia ver nada a não ser o velho paredão cego. Eu a senti mais densa do que o usual, embora eu tivesse pensado que quase havia desaparecido.
Eu tentei ignorá-la, não querendo pensar a respeito – pensar que ela estava ficando forte. Eu observei o pico preferivelmente, seguindo a sua forma de encontro ao céu pálido, quente. Havia algo familiar nele. Algo que certamente eu reconheci, mesmo sendo óbvio que nenhuma de nós estivera aqui antes.
Quase como se estivesse tentando me confundir, Melanie mergulhou em uma memória de Jared, me pegando de surpresa.
Eu estremeço em minha jaqueta, esticando meus olhos para ver o brilho baço do sol morrendo atrás das árvores grossas e eriçadas. Digo a mim mesma que não está tão frio quanto penso. Meu corpo apenas não está habituado a isso.
As mãos que estão de repente em meus ombros não me surpreendem, embora eu tenha medo desse lugar desconhecido e não tenha escutado a sua aproximação silenciosa. O peso delas é muito familiar.
“É tão fácil se aproximar às escondidas de você.”
Mesmo agora, há um sorriso em sua voz.
“Eu vi que estava vindo antes de você dar o primeiro passo,” eu digo sem me virar. “Tenho olhos na nuca.”
Dedos cálidos acariciaram meu rosto das têmporas até o queixo, puxando fogo de minha pele.
“Você parece uma dríade escondida aqui nas árvores,” ele sussurra em minha orelha. “Uma delas. Tão bela que deve ser imaginária.”
“Devíamos plantar mais árvores em volta da cabana.”
Ele ri maliciosamente, e o som faz meus olhos se fecharem e meus lábios se abrirem num sorriso.
“Não é necessário,” diz ele. “Você sempre vai parecer assim.”
“Diz o último homem na Terra para a última mulher na Terra, na véspera de sua separação.”
Meu sorriso murcha enquanto falo. Os sorrisos não podem durar hoje.
Ele suspira. Seu hálito em minha face é frio comparado ao ar abrasador do deserto.
“Jamie pode se ofender com esta insinuação.”
“Jamie ainda é um garoto. Por favor, por favor mantenha-o salvo.”
“Eu faço um acordo com você.” Jared propõe. “Você cuida da sua segurança, e eu farei o meu melhor. Caso contrário, nada feito.”
Apenas uma brincadeira, mas não consigo levar numa boa. Uma vez separados, não há garantias.
“Não importa o que aconteça”, insisto.
“Nada vai acontecer. Não se preocupe.” As palavras são quase sem sentindo. Um desperdício de esforço. Mas vale a pena ouvir a voz dele, não importa a mensagem.
“Certo.”
Ele me vira para encará-lo, e repouso a cabeça em seu peito. Não sei com o que comparar o aroma dele. É próprio, tão único quanto o cheiro de junípero na chuva do deserto.
“Você e eu não vamos nos perder um do outro”, promete ele. “Sempre vou encontrar você novamente.” Sendo Jared, ele não pode ser completamente sério por mais de uma ou duas batidas de seu coração. “Não importa onde você se esconda. Eu sou incomparável no esconde-esconde.”
“Você conta até dez para mim?”
“Sem espiar.”
“Está combinado, então”, murmuro, tentando esconder o fato de que minha garganta está travada pelas lágrimas.
“Não tenha medo. Você ficará bem. Você é forte, é rápida, e é esperta.”
Ele está tentando se convencer, também.
Por que o estou deixando? É tão improvável que Sharon ainda seja humana.
Mas quando vi o rosto dela no noticiário, eu tive tanta certeza.
Era apenas uma incursão normal, uma em milhares. Como sempre quando nos sentíamos suficientemente isolados, suficientemente seguros, a TV ficava ligada enquanto esvaziávamos a despensa e a geladeira. Só para ver a previsão do tempo, não havia muito interesse nas mortas e tediosas matérias está-tudo-certo que passavam por notícia entre os parasitas. Foram os cabelos que chamaram a minha atenção – o brilho intenso, um ruivo quase vermelho-claro que eu só tinha visto numa pessoa.
Eu ainda posso ver a expressão no rosto dela ao olhar para a câmera com o canto dos olhos. A expressão dizia: Estou tentando parecer invisível; não me veja. Ela não andava devagar o bastante, esforçando-se demais para manter um ritmo casual. Tentando desesperadamente se misturar.
Nenhum usurpador de corpos sentiria essa necessidade.
O que Sharon fazia andando ainda humana em uma cidade tão grande como Chicago? Haverá outros? Na verdade, tentar encontrá-la não parece sequer uma escolha. Se há uma chance de haver mais humanos lá fora, temos de localizá-los.
E tenho de ir sozinha. Sharon irá fugir de qualquer um, exceto de mim – bem, ela irá fugir de mim, também, mas talvez pare tempo suficiente para que eu possa explicar. Estou certa de que sei onde fica o esconderijo dela.
“E você?”, pergunto numa voz densa. Não tenho certeza se posso suportar fisicamente essa despedida espectral. “Você vai ficar a salvo?”
“Nem o céu nem o inferno podem me separar de você, Melanie.”
Sem me dar chance de respirar ou de limpar as lágrimas frescas, ela joga outra memória sobre mim.
Jamie se enrola em meus braços – já não se encaixa mais como antes. Ele teve que se dobrar sobre si, os membros compridos e magros espetados em ângulos agudos. Seus braços estão começando a ficar firmes e resistentes, mas nesse momento ele é uma criança, tremendo, quase escondida. Jared está colocando as coisas no carro. Jamie não mostraria seu medo se Jared estivesse aqui. Jamie quer ser corajoso, ser como Jared.
“Estou com medo”, murmura ele.
Eu beijo seus cabelos escuros como a noite. Mesmo aqui, entre as árvores resinosas e penetrantes, eles têm cheiro de terra e de chão. Parece que ele é parte de mim, que nos separar vai rasgar a pele onde estamos ligados.
“Você ficará bem com Jared.” Eu tinha que soar corajosa, estivesse me sentindo dessa forma ou não.
“Eu sei. Estou com medo por você. Estou com medo de que não volte. Como papai.”
Eu vacilo. Quando papai não voltou – embora seu corpo tenha eventualmente voltado, tentando trazer os Buscadores até nós – foi o maior terror, o maior medo e a maior dor que senti. E se eu fizer o mesmo com Jamie?
“Eu vou voltar. Sempre volto.”
“Estou com medo”, ele disse novamente.
Eu tenho que ser forte.
“Prometo que tudo vai dar certo. Vou voltar. Eu prometo. Você sabe que eu não quebraria uma promessa, Jamie. Não uma promessa a você.”
O tremor dele diminui. Ele acredita em mim. Ele confia em mim.
E mais:
Posso ouvi-los no andar abaixo. Eles irão me encontrar em minutos, ou segundos. Rabisco as palavras em um pedaço sujo de jornal. São quase ilegíveis, mas se ele as encontrar, irá entender.
Não rápida o bastante. Te amo. Amo Jamie. Não vá para casa.
Não só parti o coração deles, como também roubei seu refúgio. Imagino nossa pequena casa no cânion abandonada, como agora tem de ser para sempre. Ou, se não abandonada, um túmulo. Eu vejo meu corpo levando os Buscadores até lá. Meu próprio rosto sorrindo ao apanhá-los lá...
— Chega — digo em voz alta, me esquivando da chicotada de dor. — Chega! Você já deixou claro! Eu não posso viver sem eles agora. Está satisfeita? Porque isso não me deixa muitas escolhas, deixa? Só uma: me livrar de você. Você quer a Buscadora dentro de você? Ugh! — Rechacei o pensamento como se fosse eu a pessoa que a abrigaria.
Há mais uma escolha, pensou Melanie suavemente.
— Verdade? — eu disse, com intenso sarcasmo. — Mostre-me.
Olhe e veja.
Eu ainda estava olhando fixamente para o pico montanhoso. Dominava a paisagem, uma rocha subitamente projetada, cercada por terra plana coberta de vegetação rasteira. O interesse de Melanie atraiu meus olhos para o contorno, investigando o cume incomum de dois dentes.
Uma curva lenta, difícil, depois uma virada fechada para o norte, outra curva fechada voltando na direção oposta, guinando de novo para o norte a uma distância maior, e então um declive abrupto para o sul, o qual se nivelava de novo numa curva aberta.
Não norte e sul, como sempre havia visto as linhas nos fragmentos da memória dela, era para cima e para baixo.
O perfil de um pico montanhoso.
As linhas que levavam a Jared e Jamie. Esta era a primeira linha, o ponto de partida.
Eu podia encontrá-los.
Nós podíamos encontrá-los, ela me corrigiu. Você não conhece todas as indicações. É como a cabana, eu nunca lhe entreguei tudo.
— Eu não compreendo. Para onde isso leva? Como uma montanha pode nos guiar? — Meu coração bate mais forte quando penso: Jared estava perto. Jamie, dentro de meu alcance.
Ela me mostrou a resposta.
“São apenas linhas. E o tio Jeb é só um velho lunático. Um excêntrico como o resto da família do meu pai.” Tento arrancar o livro das mãos de Jared, mas ele mal parece notar o meu esforço.
“Excêntrico como a mãe de Sharon?” contesta ele, ainda estudando as marcas escuras a lápis que desfiguram a contracapa do velho álbum de fotografias. É a única coisa que eu não perdi em todas essas fugas. Mesmo o grafite maluco que o tio Jeb deixou em sua última visita, tem um valor sentimental agora.
“É isso aí.” Se Sharon ainda estiver viva, é porque a mãe dela, a doida da tia Maggie, podia dar uma surra no louco tio Jeb no concurso de Mais Louco dos Loucos Irmãos Stryder. Meu pai havia sido somente ligeiramente tocado pela loucura Stryder – ele não tinha um bunker secreto no quintal ou qualquer coisa assim. O resto deles, a irmã e os irmãos, tia Maggie, tio Jeb e tio Guy, estavam entre os mais devotados teóricos da conspiração. Tio Guy havia morrido antes dos outros desaparecem durante a invasão, em um acidente de carro tão comum que mesmo Maggie e Jeb tiveram de se esforçar para conseguir tecer alguma intriga em torno do desastre.
Meu pai sempre referiu a eles carinhosamente como Os Loucos. “Acho que é hora de visitarmos Os Loucos,” papai anunciava, e então a mamãe suspirava profundamente – razão pela qual tais anúncios aconteciam tão raramente.
Em uma das raras visitas a Chicago, Sharon me levou às escondidas ao refúgio de sua mãe. Nós fomos surpreendidas – a mulher tinha armadilhas em todo lugar. Sharon foi severamente repreendida e, embora eu jurasse segredo, algo me dizia que ela iria construir outro esconderijo.
Mas eu me lembro onde era o primeiro. Eu imaginei Sharon lá agora, vivendo como Anne Frank no meio de uma cidade inimiga. Nós temos que encontrá-la e trazê-la para casa.
Jared interrompe meu devaneio.
“Os excêntricos são exatamente o tipo de gente que terá sobrevivido. Pessoas que viram o Big Brother quando ele ainda não estava presente. Pessoas que suspeitaram do resto da humanidade antes do resto da humanidade se tornar um perigo. Pessoas com esconderijos prontos.” Jared dá um sorriso largo, ainda estudando as linhas. E então sua voz é mais intensa. “Pessoas como o meu pai. Se ele e meus irmãos tivessem se escondido em vez de lutar... Bem, eles ainda estariam aqui.”
Meu tom é mais suave, escutando a dor dele.
“Okay, eu concordo com a sua teoria. Mas estas linhas não significam nada.”
“Me conte de novo o que ele disse quando desenhou isto.”
Eu suspirei.
“Eles estavam discutindo – tio Jeb e meu pai. Tio Jeb estava tentando convencer meu pai de que alguma coisa estava errada, dizendo para ele não confiar em ninguém. Papai gargalhou. Jeb agarrou o álbum de fotos no fim da mesa e começou... quase a talhar as linhas na contracapa com um lápis. Meu pai ficou louco, disse que minha mãe ficaria irritada. Jeb disse: ‘A mãe de Linda convidou vocês todos para uma visita, certo? Coisa estranha, assim do nada, não acha? Ficou um pouco desconcertada quando só a Linda apareceu? Vou lhe dizer a verdade, Trev, não acho que Linda vai se interessar tanto pelas coisas quando voltar. Oh, ela pode fingir, mas vai dar para perceber a diferença.’ Não fez sentido na ocasião, mas o que ele disse realmente perturbou meu pai. Ele expulsou meu tio Jeb de casa. Jeb não saiu no início. Ficou dizendo que era melhor a gente não esperar até que ser tarde demais. Ele agarrou meus ombros e me puxou para perto dele. “Não deixe eles pegarem você, querida’, ele sussurrou. ‘Siga as linhas. Comece no ponto de partida e siga as linhas. Tio Jeb vai guardar um lugar seguro pra você.’ Foi então que papai o empurrou porta a fora.”
Jared concorda distraído, ainda estudando.
“O começo... o começo... Isso deve significar algo.”
“Será? São apenas rabiscos, Jared. Isso não se parece com um mapa... não tem nenhuma conexão.”
“Mas há alguma coisa nessa primeira. Algo familiar. Eu posso jurar que já a vi em algum lugar.”
Suspiro.
“Talvez ele tenha dito para a tia Maggie. Talvez ela tenha indicações melhores.”
“Pode ser”, diz ele. E continua a olhar fixamente para os rabiscos de tio Jeb.
Ela me faz voltar no tempo, para uma memória muito, muito antiga – uma lembrança que lhe escapara por um longo tempo. Eu estava surpresa ao perceber que ela só pusera essas recordações juntas, a velha e a nova, recentemente. Depois que eu estava aqui. Por isso as linhas tinham passado pelo cuidadoso controle dela, apesar do fato de serem um de seus mais preciosos segredos – por causa da urgência de sua descoberta.
Nessa memória vaga, Melanie estava sentada no colo do pai com o mesmo álbum – não estragado como agora – aberto nas mãos. Suas mãos eram minúsculas, os dedos, curtos. Foi muito estranho recordar ser criança nesse corpo.
Eles estavam na primeira página.
“Lembra onde é isto aqui?” Pergunta papai, apontando para a velha fotografia cinza no alto da página. O papel parecia mais fino do que os das outras fotos, como se desgastado – mais e mais fino – desde que algum tataravô a tirou.
“É de onde nós, os Stryders viemos”, eu respondo, repetindo o que me ensinaram.
“Certo. É o velho rancho Stryder. Você esteve lá uma vez, mas aposto que não se lembra. Acho que tinha um ano e meio de idade.” Papai gargalhou. “Foi terra dos Stryder desde o comecinho...”
E então a lembrança da própria foto. A fotografia que ela havia olhado mais de mil vezes sem jamais ter visto. Ela era em preto e branco, desbotada para o cinza. Uma pequena casa rústica de madeira, do outro lado de um campo no deserto; no primeiro plano, uma cerca de madeira; algumas silhuetas de cavalos entre a cerca e a casa. E então, atrás de tudo, o perfil abrupto, familiar...
Havia palavras, um legenda, rabiscada a lápis na margem superior branca:
Fazenda Stryder, 1904, à sombra matinal de...
— Picacho Peak — eu disse baixinho.
Ele terá percebido, também, mesmo que nunca tenham encontrado Sharon. Eu sei que Jared há de ter juntado as peças. Ele é mais esperto do que eu e tem a foto, provavelmente viu a resposta antes de mim. Ele poderia estar tão perto...
O pensamento dela estava tão cheio de ansiosidade e excitação que a parede branca em minha cabeça deslizou por inteiro.
Eu vi a jornada inteira agora, vi sua longa e cuidadosa viagem com Jared e Jamie pela região, sempre à noite, imperceptíveis no discreto carro roubado deles. Levou semanas. Eu vi onde ela os deixou em uma reserva arborizada fora da cidade, tão diferente do deserto vazio ao qual eles estavam habituados. A floresta fria aonde Jared e Jamie iriam se esconder e esperar tinha produzido de alguma forma uma impressão de segurança – pois os ramos das árvores eram grossos e formavam uma cobertura, ao contrário da folhagem delgada do deserto, que escondia pouco – todavia também mais perigosa em seus cheiros e sons desconhecidos.
Depois a separação, uma lembrança tão dolorosa que nós a saltamos, vacilantes. Em seguida veio o prédio abandonado onde ela tinha se escondido, observando a casa do outro lado da rua, atrás de uma oportunidade. Lá, escondida entre as paredes ou num porão secreto, ela esperava encontrar Sharon.
Eu não devia ter deixado você ver isso, Melanie pensou. O desalento de sua voz silenciosa traiu seu cansaço. O assalto das recordações, a persuasão e a coerção, tinham-na cansado. Você vai contar a eles onde encontrá-la. Você vai matá-la, também.
— Sim — pensei em voz alta. — Tenho de cumprir o meu dever.
Por quê?, murmurou ela, quase adormecida. Que felicidade isso vai lhe dar?
Eu não queria discutir com ela, então não disse nada.
A montanha pareceu maior a nossa frente. Em alguns instantes, nós estaríamos abaixo dela. Pude ver uma pequena parada com uma loja de conveniência e um restaurante fast-food que ficava ao lado de um espaço plano de concreto – um local para trailers. Havia somente alguns agora, o calor do verão chegava tornando as coisas desconfortáveis.
O que fazer agora? Eu me perguntei. Paro para um almoço tardio ou um jantar adiantado? Encho o meu tanque de gasolina e sigo para Tucson, a fim de revelar minhas novas descobertas a Buscadora?
O pensamento foi tão repulsivo que minha mandíbula travou contra o espasmo súbito de meu estômago vazio. Eu pisei no freio por reflexo, cantando pneu até parar no meio da pista. Eu estava com sorte, não havia nenhum carro para bater na traseira. Não havia tampouco nenhum motorista para parar e oferecer sua ajuda e preocupação. Neste momento, a estrada estava vazia. O sol batia no pavimento, fazendo-o tremeluzir e desaparecer em alguns lugares.
Eu não deveria ter experimentado como uma traição a ideia de continuar em meu rumo certo a apropriado. Minha primeira língua, a língua da verdadeira linguagem da alma que só era falada em nosso planeta de origem, não tinha nenhuma palavra para traição ou traidor. Ou mesmo para lealdade, pois sem a existência de um oposto, o conceito não tinha significado.
No entanto eu senti uma profunda culpa a respeito da Buscadora. Seria errado dizer-lhe o que eu sabia. Errado, como? Eu me opus ao meu próprio pensamento malévolo. Se eu parasse aqui e escutasse as sugestões sedutoras da minha hospedeira, eu seria verdadeiramente uma traidora. Isso era impossível. Eu era uma alma.
No entanto eu sabia o que queria, mais forte e intensamente do que qualquer coisa que eu quis em todas as oito vidas que vivi. A imagem do rosto de Jared dançava atrás de minhas pálpebras quando eu pisquei por causa do sol – não as memórias de Melanie desta vez, mas a minha memória das dela. Ela não me impôs nada agora. Eu mal sentia a presença dela em minha mente enquanto ela esperava – e eu a imaginei segurando a respiração, como se isso fosse possível – eu tomar a minha decisão.
Eu não podia me separar do que este corpo queria. Esta era eu, mais do que eu jamais pretendera ser. Eu quis ou ela quis? Essa distinção era importante agora?
Em meu espelho retrovisor, o brilho do sol refletido num carro distante pegou meu olho.
Movi meu pé para o acelerador, partindo lentamente na direção da lojinha à sombra do pico. Na verdade, havia somente uma coisa a fazer.
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