terça-feira, março 18, 2014
Mudada
A campainha tocou, anunciando mais um visitante na loja de conveniência. Entrei cheia de culpa e afundei minha cabeça atrás de uma prateleira de mercadorias que nós estávamos examinando.
Pare de agir como uma criminosa, aconselhou Melanie.
Não estou agindo, repliquei sucintamente.
As palmas das minhas mãos estavam frias sob uma leve camada de suor, embora o lugar estivesse um tanto quente. As janelas largas deixaram o calor abundante do sol entrar, fazendo com que o ar-condicionado barulhento se sobrecarregasse para dar conta.
Qual deles?, perguntei com urgência.
O maior, ela me disse.
Eu agarrei o pacote maior dos dois disponíveis, uma sacola de lona que parecia capaz de carregar mais do que eu poderia aguentar. Então andei até o canto, onde garrafas de água estavam expostas.
Nós podemos levar três garrafões de quatro litros, ela decidiu. Isso nós dá três dias para encontrá-los.
Eu respirei fundo, tentando dizer a mim mesma que não iria adiante com aquilo. Eu estava simplesmente tentando pegar mais coordenadas dela, e só. Quando eu tivesse toda a história, eu poderia encontrar alguém – um Buscador diferente, talvez, um menos repulsivo da que fora atribuída a mim – e passar as informações adiante. Eu apenas estava sendo eficiente, eu prometi a mim mesma.
Minha fraca tentativa de mentir para mim mesma foi tão patética que Melanie não prestou nenhuma atenção, nem se preocupou. Deve ser... tarde demais para mim, como a Buscadora havia alertado. Talvez eu devesse ter tomado o avião.
Tarde demais? Quem me dera! Melanie rosnou. Eu não posso obrigar você a fazer nada que não queira. Não posso nem mesmo levantar a minha mão! O pensamento dela era um lamento de frustração.
Olhei para a minha mão, apoiada na cintura ao invés de apanhando o galão de água como ela queria fazer urgentemente. Eu pude sentir sua impaciência, seu desejo quase desesperado de estar em movimento de novo. Em fuga outra vez, como se a minha existência não fosse mais do que uma curta interrupção, uma temporada perdida que agora ela deixava para trás.
Ela bufou de raiva mentalmente, e então ela estava de volta ao trabalho.
Vamos lá!, ela me incitou. Vamos embora de uma vez! Logo vai escurecer.
Com um suspiro, peguei a maior garrafa de água da prateleira pelo lacre. Ela quase caiu no chão antes de eu segurá-la contra a beirada da prateleira mais baixa. Meus braços pareciam quase ter saltado das articulações.
— Você está brincando comigo! — eu exclamei em voz alta.
Cale essa boca!
— Desculpe? — perguntou um homem pequeno e encurvado, outro cliente no final do corredor.
— Uh... nada — resmunguei, sem encontrar o seu olhar. — Isto é mais pesado do que eu esperava.
— Quer uma ajuda? — ele ofereceu.
— Não, não — respondi apressadamente. — Vou pegar a menor.
Ele voltou para a sessão de batatas fritas.
Não, você não irá, Melanie assegurou-me. Já carreguei coisas mais pesadas do que isso. Você nos deixou completamente molengas, Peregrina, acrescentou ela, irritada.
Desculpe, respondi distraída, confusa pelo fato de ela ter usado meu nome pela primeira vez.
Use as pernas para ajudar.
Lutei com o galão de água, imaginando o quão longe seria possível carregar aquilo. Consegui chegar à frente da loja, pelo menos. Com grande alívio eu coloquei o peso sobre o balcão. Coloquei a sacola em cima da embalagem de água e então adicionei uma caixa de barras de cereais, uma porção de rosquinhas e um saco de fritas da prateleira mais próxima.
Água é mais importante no deserto do que comida, e nós não podemos carregar mais que isso...
Estou com fome, eu interrompi. E isso aqui é leve.
As costas são suas, suponho, ela disse de má vontade. E então ordenou: Pegue um mapa.
Eu peguei o que ela queria, um mapa topográfico da região, e coloquei com o resto no balcão. Não mais que um acessório na charada dela.
O caixa, um homem de cabelos brancos e com um sorriso pronto, escaneou os códigos de barra.
— Fazendo uma caminhada? — ele perguntou agradavelmente.
— A montanha é muito bonita.
— A trilha começa logo ali... — ele disse, gesticulando.
— Eu encontrarei — eu prometi rapidamente, puxando a carga pesada, mal equilibrada sobre o balcão.
— Melhor partir antes do anoitecer, querida. Você não quer ficar perdida.
— Eu irei.
Melanie estava pensando acidamente sobre o bondoso senhor.
Ele estava sendo agradável. Ele está sinceramente preocupado com meu bem-estar, eu a relembrei.
Você são todos assustadores, disse ela acidamente. Ninguém nunca lhe disse para não falar com estranhos?
Senti uma pontada de culpa ao responder. Não há estranhos entre os da minha espécie.
Não consigo me habituar a não pagar pelas coisas, ela disse, mudando o assunto. Para que escanear, então?
Inventário, é claro. Ele não precisa saber de tudo o que pegamos para poder encomendar mais? Alem disso, para que dinheiro quando todo mundo é perfeitamente honesto? Eu pausei, sentindo culpa outra vez – e tão fortemente que era dor de verdade. Todos exceto eu, é claro.
Espantada, Melanie recuou para longe de meus sentimentos, preocupada pela profundidade deles, receosa que eu pudesse mudar de ideia. Em vez disso, ela se focalizou em seu desejo violento de estar longe daqui, de mover-se rumo ao seu objetivo. A ansiedade dela vazou para mim, e eu andei mais rápido.
Levei o pacote até o carro e o coloquei no chão ao lado da porta do passageiro.
— Permita-me ajudá-la com isso.
Dei um salto e vi o outro homem da loja, com uma sacola plástica nas mãos ao meu lado.
— Ah... obrigada — consegui dizer finalmente, a pulsação batendo rápido em meus ouvidos
Nós esperamos. Melanie estava tensa como se estivesse preparada para correr, enquanto ele colocava nossas aquisições dentro do carro.
Não há nada a temer. Ele só está sendo gentil, também.
Ela continuou a vigiá-lo desconfiada.
— Obrigada — eu disse novamente quando ele fechou a porta.
— O prazer foi meu.
Ele andou para o seu veículo sem olhar de relance para nós. Eu escalei até o meu assento e agarrei o saco de batata frita.
Olhe o mapa, ela disse. Espere até ele estar fora de vista.
Ninguém está nos observando, eu prometi a ela. Mas, com um suspiro, eu abri o mapa e comi com uma mão. Era provavelmente uma boa ideia ter alguma noção de para onde estávamos indo.
Para onde estamos indo? Perguntei. Nós encontramos o ponto de partida, e agora?
Olhe ao redor, ela comandou. Se nós não o virmos daqui, tentaremos o lado sul do pico.
Olhar o quê?
Ela colocou a imagem memorizada diante de mim: uma linha desigual em zigue-zague, quatro zigue-zagues fechados íngremes, o quinto ponto estranhamente brusco, como se estivesse quebrado. Agora eu vi como devia, uma cadeia denteada de picos montanhosos, o quinto parecendo quebrado...
Examinei o horizonte, de leste para oeste de frente para o norte. Era tão fácil que parecia ser falso, como se eu só tivesse composto a imagem depois de ter visto a silhueta da montanha que criou a linha do horizonte ao norte.
É isso, Melanie quase cantou de entusiasmo. Vamos lá! Ela me queria fora do carro, a pé, andando.
Eu balancei a cabeça, inclinando-me sobre o mapa outra vez. A cadeia montanhosa estava tão longe que não dava para supor qual era a distância que nos separava. De jeito nenhum eu ia sair andando daquele estacionamento no vazio do deserto se eu tivesse outra opção.
Vamos ser racionais, eu sugeri, traçando o meu dedo ao longo de uma linha tênue no mapa, uma estrada sem nome que se conectava com a autoestrada algumas poucos quilômetros a Leste e então continuava na direção geral da cadeia.
Certo, ela concordou satisfeita. Quanto mais rápido melhor.
Foi fácil encontrarmos a estrada sem asfalto. Era apenas uma cicatriz pálida de sujeira através dos arbustos esparsos e mal tinha largura o suficiente para um veículo. Eu tive a sensação de que a estrada estaria coberta de mato se fosse numa região diferente – um lugar com vegetação mais vital, ao contrário das plantas do deserto que necessitam de décadas para se recuperar de tal agressão. Uma corrente oxidada esticada cruzava a entrada, parafusada em um poste de madeira em uma extremidade, enlaçada frouxa em torno de outro. Eu andei rápido, soltei a corrente e amontei-a na base do primeiro poste, depois corri de volta para o meu carro ligado, torcendo que ninguém passasse e para oferecer ajuda. A estrada permaneceu sem movimento enquanto eu entrava com o carro na estrada de terra e corria de volta para recolocar a corrente.
Nós duas relaxamos quando o asfalto desapareceu atrás de nós. Eu estava contente porque não havia aparentemente ninguém para quem eu tivesse de mentir, fosse com palavras ou pelo silêncio. Sozinha, eu não me senti traidora.
Melanie estava perfeitamente em casa aqui no meio do nada. Ela sabia os nomes de todas as plantas espinhentas ao nosso redor. Ela sussurrava seus nomes para si mesma, cumprimentando-as como velhas amigas.
Creosoto, ocotillo, cholla, nopal, prosópis...
Longe da autoestrada, das armadilhas da civilização, o deserto ganhar nova vida para Melanie. Embora ela apreciasse a velocidade e os solavancos do carro – nosso veículo não era alto o bastante para aquela viagem em estrada de terra, conforme me lembravam os impactos a cada buraco – ela estava ansiosa para estar sobre seus próprios pés, andar a passos largos na segurança o deserto escaldante.
Nós provavelmente teríamos que andar – e num futuro próximo demais para o meu gosto – mas quando essa hora chegasse, duvido que isso a satisfizesse. Eu podia sentir o desejo genuíno abaixo da superfície. Liberdade. Mover seu corpo no ritmo familiar da sua longa passada, somente com sua vontade como guia. Por um momento, me permiti ver a prisão que a vida era sem um corpo. Ser levado dentro de um deles, mas incapaz de influenciar a forma à sua volta. Estar preso. Não ter escolhas.
Estremeci e foquei na estrada tosca novamente, tentando afastar a mistura de piedade e horror. Nenhum outro hospedeiro tinha me feito sentir tal culpa por eu ser o que era. Naturalmente, nenhum dos outros ficou para queixar-se sobre a situação.
O sol estava próximo dos cumes das montanhas quando nós tivemos nossa primeira divergência. As sombras longas criaram estranhos padrões através da estrada, tornando-se duro evitar as rochas e as crateras.
Lá está!, Melanie gritou de satisfação quando nós vimos uma formação mais distante ao leste: uma onda suave, interrompida por um pico repentino que apontava um dedo longo e delgado contra o céu.
Ela queria virar e entrar imediatamente no mato, independente das consequências disso para o carro.
Talvez nós devêssemos fazer o caminho todo até o primeiro marco. Apontei. A pequena estrada de terra continuava a serpear mais ou menos no sentido certo, e eu estava apavorada para deixá-la. De que outra maneira eu encontraria o meu caminho para a civilização? Eu não ia mais voltar?
Imaginei a Buscadora bem naquele momento, quando o sol tocava a Oeste a linha escura em zigue-zague do horizonte. O que ela pensaria quando eu não chegasse em Tucson? Um espasmo de divertimento me fez gargalhar alto. Melanie pareceu apreciar igualmente a imagem da Buscadora furiosamente irritada. Quanto tempo ela levaria para voltar para San Diego e verificar se tudo não tinha sido uma estratégia para me livrar dela? E depois, que rumo tomaria quando verificasse que eu não estava lá? Quando eu não estivesse em lugar nenhum?
Eu só não conseguia imaginar muito claramente onde eu estaria nesse momento.
Olhe, um leito seco. É espaçoso o bastante para o carro; vamos segui-lo, insistiu Melanie.
Eu não estou certa de que devemos tomar esse caminho.
Estará escuro em breve e nós teremos que parar. Você está perdendo tempo! Ela gritava silenciosamente em sua frustração.
Ou economizando tempo, se eu estiver certa. Além disso, é o meu tempo, não é?
Ela não respondeu em palavras. Pareceu se esticar dentro de minha mente, tentando alcançar o leito conveniente.
Sou eu quem está fazendo isso, então vou fazê-lo do meu jeito.
Melanie espumou sem palavras em resposta.
Por que você não me mostra o resto das linhas?, sugeri. Poderíamos perceber se há algo visível antes de anoitecer.
Não, respondeu ela rispidamente. Essa parte eu vou fazer do meu jeito.
Você está sendo infantil.
Novamente ela se recusou a responder. Continuei seguindo em direção aos quatro picos afiados, e ela ficou de mau humor.
Quando o sol desapareceu atrás das montanhas, a noite banhou a paisagem abruptamente, em um minuto o deserto estava alaranjado da cor do sol poente, e então estava negro. Diminuí a velocidade, minha mão apalpando o painel à procura do botão que ligava os faróis.
Você enlouqueceu? Melanie perguntou, com raiva. Você faz ideia do quanto os faróis são visíveis aqui? Com certeza alguém irá nos ver.
Então o que a gente faz agora?
Reza para os assentos reclinarem.
Deixei o motor em ponto morto enquanto pensava em outras opções além de dormir no carro, cercada pelo vazio negro da noite no deserto. Melanie esperou pacientemente, sabendo que eu não encontraria nenhuma.
Isto é loucura, você sabe. Eu disse a ela, estacionando o carro e tirando as chaves da ignição. Tudo, a coisa toda. Não pode haver ninguém por aqui. Não vamos achar nada e iremos nos perder tentando, irremediavelmente. Tive um senso abstrato do perigo físico que havia no que estávamos planejando – sair por aí no calor, sem plano alternativo, sem volta. Eu sabia que Melanie compreendia os perigos muito mais claramente, mas ela mantinha as particularidades para si.
Ela não respondeu às minhas censuras. Nenhum desses problemas pareceu incomodá-la. Pude ver que ela preferia vagar sozinha no deserto pelo resto de sua vida do que voltar a vida que eu tinha antes. Mesmo sem a ameaça da Buscadora, isto era preferível a ela.
Reclinei o assento até onde a trava permitia. Não era o suficiente para ser confortável. Eu duvidei que pudesse dormir, mas havia tantas coisas que eu não me permitia pensar que minha mente estava vazia e desinteressante. Melanie estava silenciosa, também.
Fechei os meus olhos, descobrindo a pouca diferença entre minhas pálpebras e a noite sem lua, e fui levada pela inconsciência com uma facilidade inesperada.
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