terça-feira, março 18, 2014
Desidratada
— Okay! Você tem razão, você tem razão! — Eu disse em voz alta. Não havia ninguém ao nosso redor para ouvir.
Melanie não estava dizendo “Eu te disse”. Não em tantas palavras. Mas eu podia ouvir as suas acusações em seu silêncio.
Eu continuava contrária a sair do carro, embora ele fosse inútil pra mim agora. Quando a gasolina acabou, deixei-o seguir adiante com o impulso restante até ele cair em uma vala rasa – uma grande poça formada pela última chuva. Eu estava olhando fixamente a vasta planície desocupada pelo para-brisa e senti meu estômago se revirar de pânico.
Temos que andar, Peregrina. Só vai ficar mais quente.
Se eu não tivesse desperdiçado mais de um quarto do tanque de gasolina insistindo em chegar bem à base do segundo marco – só para descobrir que o terceiro marco não era mais visível e ter que voltar tudo de novo – teríamos ido muito mais adiante nesse leito seco, bem mais perto do nosso próximo objetivo. Graças a mim, nós teríamos que viajar a pé agora.
Coloquei a água na bolsa, uma garrafa por vez, meus movimentos desnecessariamente deliberados, adicionei as barras de granola restantes bem lentamente. O tempo todo Melanie desejava ansiosamente que eu me apressasse. Sua impaciência tornava difícil pensar, concentrar em qualquer coisa. Como no que iria acontecer conosco.
Vamos embora, vamos embora, vamos embora, ela entoou até que eu sair dura e desajeitada do carro. Minhas costas doeram enquanto eu me endireitava. Estavam doendo por eu ter dormido tão retorcida ontem, e não por causa do peso dos pacotes, eles não estavam tão pesados quando eu usei meus ombros para levantar.
Agora cubra o carro, ela instruiu, mostrando-me imagens de como partir os galhos espinhosos de creosoto e palos verdes que estavam por perto e cobrir o capô prateado do carro.
— Por quê?
O tom dela deixou implícito que eu era completamente estúpida por não compreender. Para que ninguém nos encontre.
Mas e se eu quiser ser encontrada? E se não houver nada aqui além de calor e sujeira? Nós não temos como voltar para casa!
Casa? ela questionou, jogando imagens tristes para mim: o apartamento vazio em San Diego, a expressão tediosa da Buscadora, o ponto que marcava Tucson no mapa... um rápido e mais feliz flash do cânion vermelho que escorregou acidentalmente. Onde seria?
Eu dei as costas ao carro, ignorando o conselho dela. Eu já tinha ido longe demais. Não ia abrir mão de toda esperança de voltar. Talvez alguém achasse o carro e então me encontrasse. Eu poderia fácil e honestamente explicar o que eu estava fazendo aqui para qualquer um que me resgatasse: eu estava perdida. Tinha perdido o caminho... perdido o controle... perdido a cabeça.
Eu segui o leito seco no início, deixando meu corpo entrar em seu ritmo natural de passadas longas. Não era a maneira como eu caminhava nos passeios e na universidade – não era o meu jeito de andar. Mas era apropriado ao terreno irregular aqui e fazia eu progredir suavemente, numa velocidade que me surpreendeu até eu me habituar a ela.
— E se eu não tivesse tomado esse caminho? — Perguntei e mim mesma enquanto avançava na imensidão do deserto. — E se o Curandeiro Fords ainda estivesse em Chicago? E se meu trajeto não nos tivesse trazido para tão perto deles?
Foi essa urgência, essa atração – o pensamento de que Jared e Jamie poderiam estar bem aqui, em algum lugar deste lugar vazio – que tornou impossível resistir a esse plano sem sentido.
Não tenho certeza, admitiu Melanie. Imagino que eu ainda tentaria, mas estava com medo enquanto as outras almas estavam por perto. Ainda estou. Confiar em você poderia matá-los.
Nós encolhemos juntas ao pensamento.
Mas estando aqui, tão próximo... eu tinha que tentar. Por favor – e de repente ela estava me fazendo um apelo, implorando, nenhum traço de ressentimento em seus pensamentos – por favor não use isso para machucá-los. Por favor.
— Eu não quero machucá-los... não sei se posso fazê-lo. Eu preferiria...
O quê? Morrer? A entregar alguns humanos extraviados para os Buscadores?
De novo nós nos encolhemos ao pensamento, mas minha reação à ideia a confortou. E me amedrontou mais do que a acalmou.
Quando o leito seco começou a desviar demais rumo ao norte, Melanie sugeriu que nós esquecêssemos o caminho plano de freixos e pegássemos uma linha direto para o terceiro marco, a projeção de rocha que parecia apontar, como um dedo, para o céu sem nuvens.
Eu não gostei de ter deixado aquele caminho, exatamente como eu tinha resistido em deixar o carro. Eu poderia seguir este leito seco de volta à estrada, e da estrada de volta à rodovia. Eram quilômetros e mais quilômetros, e eu levaria dias para atravessar, mas uma vez que saísse deste caminho eu estava oficialmente à deriva.
Tenha fé, Peregrina. Vamos encontrar o tio Jeb, ou ele nos encontrará.
Se ele ainda estiver vivo, eu adicionei, suspirando enquanto me afastava de meu simples caminho para o mato do deserto, que era idêntico em todas as direções. Fé não é um conceito familiar para mim. Eu não sei se acredito nisso.
Confiança, então?
Em quem? Você? Eu gargalhei. O ar quente secou minha garganta quando inalei.
Pense só, ela disse, mudando o assunto, talvez nós os vejamos esta noite.
O desejo nos pertencia a ambas, a imagem dos rostos deles, um homem, uma criança, veio de ambas as memórias. Quando eu andei rápido, eu não estava certa de que estava completamente no comando de meus movimentos.
Ficou de fato mais quente – e depois mais e mais quente. Suor lambuzou meu cabelo e o meu couro cabeludo, e fez a minha camiseta amarelo-clara grudar desagradavelmente onde quer que encostasse. À tarde, lufadas abrasadoras de vento começaram a preocupar, soprando areia em meu rosto. O ar seco sugava todo o suor, crestava meu cabelo e soprava minha camisa de meu corpo. Com o sal seco, os movimentos tinham uma rigidez de papelão. Continuei andando.
Eu bebi água mais frequentemente do que Melanie queria. Ela odiava cada golinho que eu dava, ameaçando-me de que no dia seguinte eu ia querer muito mais. Mas eu já tinha lhe cedido tanto hoje que não estava com humor para escutá-la. Assim, eu bebia quando estava com sede, que era quase o tempo todo.
Minhas pernas levaram-me em frente sem nenhum pensamento da minha parte. O ritmo dos ruídos de meus passos era a musica de fundo, baixa e tediosa.
Não havia nada para ver, cada arbusto retorcido e quebradiço parecia igual ao próximo. A homogeneidade vazia me embalou em uma espécie de torpor – a única coisa de que tinha realmente consciência era da forma da silhueta da montanha contra o céu pálido, descorado. Eu media o contorno delas a cada poucos passos, até conhecê-las tão bem que poderia desenhá-las de olhos vendados.
A vista parecia congelada neste lugar. Eu virava constantemente a cabeça, procurando o quarto marco – um grande pico em forma de abóboda com um pedaço faltando, uma ausência curva escavada na lateral, que Melanie só havia me mostrado esta manhã – como se a perspectiva pudesse ter mudado desde o meu último passo. Eu esperava que aquela fosse a última indicação, pois teríamos sorte de ter chegado tão longe. Mas eu tive a sensação que Melanie estava escondendo mais de mim, e o fim de nossa jornada estava distante.
Mordiquei minhas barras de cereal a tarde toda, sem perceber antes que fosse tarde demais que acabara com a última
Quando o sol se pôs, a noite caiu com a mesma velocidade que o tinha feito na véspera. Melanie estava preparada, já procurando um lugar para parar.
Aqui, disse-me ela. É melhor ficar o mais longe possível do cholla. Você se mexe demais enquanto dorme.
Olhei para o cacto penuginoso à luz evanescente, tão denso de espinhos cor de osso que parecia pelagem, e tremi. Você quer que eu durma no chão? Aqui?
Está vendo alguma alternativa? Ela sentiu meu pânico, e seu tom se suavizou como se estivesse com pena. Veja bem... é melhor que o carro. Pelo menos é plano. Está quente demais para que alguma criatura se sinta atraída pelo calor de seu corpo e...
— Criatura? — disse em voz alta. — Criatura?
Vislumbres breves, muito desagradáveis, de insetos de aparência letal e serpentes enroladas passaram na memória dela.
Não se preocupe. Ela tentou me acalmar, pois eu me arqueava na ponta doa pés, longe de tudo que pudesse se esconder na areia, meus olhos vasculhando a escuridão atrás de uma escapatória. Nada vai te perturbar a menos que você o perturbe primeiro. Além do mais, você é maior do que qualquer coisa aqui. Outro flash de memória, desta vez um cão de tamanho médio, um coiote, passou rapidamente em nossas memórias.
— Perfeito — resmunguei enquanto me agachava, apesar de ainda estar com medo do chão negro abaixo de mim. — Morta por cães selvagens. Quem diria que eu fosse acabar tão... trivialmente. Que anticlímax. A besta de garras afiadas do Planeta das Brumas, tudo bem. Pelo menos haveria alguma dignidade em ser morta por ela.
O tom da resposta de Melanie me fez imaginá-la rolando os olhos. Pare de agir como um bebê. Nada irá comer você. Agora, deite-se e descanse um pouco. Amanhã será mais difícil do que hoje.
— Obrigada pelas boas noticias — eu resmunguei. Ela estava se transformando em uma tirana. Isso me fez pensar na máxima humana "Você dá a mão, e logo querem o braço". Mas eu estava mais exausta do que pensei, e enquanto eu me ajeitava contrariada no chão, descobri ser impossível deitar na terra áspera e deixar de dormir.
Pareceu que apenas alguns minutos haviam se passado quando a manhã rompeu, cegando-me com seu brilho e já quente o bastante para me fazer suar. Eu estava coberta por uma crosta de sujeira e pedras quando acordei; meu braço direito estava sem sensibilidade já que eu havia dormido em cima dele. Sacudi o formigamento e estendi a mão para pegar água.
Melanie não aprovou, mas eu a ignorei. Procurei a garrafa vazia até a metade que eu havia bebido por último, revolvendo as cheias e as vazias até que comecei a perceber um padrão.
Alarmada, eu comecei a contar. Contei novamente. Havia duas vezes mais garrafas vazias do que cheias. Eu já havia usado mais da metade do meu suprimento de água.
Eu disse que você estava bebendo demais.
Eu não respondi, mas deixei a bolsa de lado sem beber. Minha boca estava péssima – seca, areenta e com gosto bile. Eu tentei ignorar – tentei parar de passar a lixa que era a minha língua sobre meus dentes também areentos – e comecei a andar.
Meu estômago ficou mais difícil de ignorar do que a minha boca conforme o sol subia mais e mais alto. Ele girava e se contorcia a intervalos regulares, antecipando refeições que não chegavam. Pela tarde, a fome havia passado de desconfortável para dolorosa.
Isso não é nada, lembrou Melanie perversamente. Nós já passamos muito mais fome.
Você passou. Eu respondi. Eu não estava a fim de ser plateia das memórias do sofrimento dela agora.
Eu já estava me desesperando quando boas notícias vieram. Quando eu girei minha cabeça pelo horizonte de forma rotineira, uma forma bulbosa da abóbora surgiu em minha frente do meio de uma linha norte de pequenos picos. A parte que faltava era somente um recorte fraco deste ponto de vista.
Está bastante perto, Melanie decidiu, tão excitada quanto eu por fazer algum progresso. Eu girei para o norte ansiosamente, meus passos se alongaram.Preste atenção na próxima.
Ela lembrou outra formação para mim, e eu comecei imediatamente a esticar o pescoço e virar a cabeça, embora eu soubesse que era inútil procurar tão cedo.
Essa próxima formação estaria a leste. Norte, depois leste e então norte outra vez. Aquele era o padrão.
A emoção de encontrar outro ponto me manteve em movimento apesar do cansaço de minhas pernas. Melanie me incitou, entoando incentivos quando eu diminuía o ritmo, pensando em Jared e Jamie quando eu ficava apática. Meu progresso era constante, e eu esperava até que Melanie aprovasse cada gole de água, mesmo que o interior da minha garganta desse a impressão de estar formando bolhas.
Eu tinha de admitir que estava orgulhosa de ser tão forte. Quando a estrada de terra surgiu, foi como uma recompensa. Acelerei rumo ao norte, a direção para onde já estava indo, mas Melanie estava nervosa.
Não estou gostando, ela insistiu.
A estrada era apenas uma linha pálida através dos arbustos, definida somente por sua textura mais lisa e a falta de vegetação. Marcas antigas de pneu faziam uma dupla depressão, centrada na única pista.
Quando ela virar para o lado errado, a gente sai da estrada. Eu já estava andando no meio das marcas. É mais fácil do que ziguezaguear através do creosoto e prestar atenção em chollas.
Ela não respondeu, mas seu desconforto me fez sentir um pouco paranoica. Eu mantive minha busca pela próxima formação – um M perfeito, dois cumes de vulcões emparelhados – mas eu também observei o deserto ao meu redor mais cuidadosamente do que antes.
Como eu estava prestando mais atenção, notei uma mancha cinza ao longe muito antes de poder entender o que era. Perguntei-me se meus olhos não estariam me pregando uma peça e pisquei para tirar a poeira que os anuviava. A cor pareceu errada para uma rocha, e o formato muito sólido para uma árvore. Eu olhei de soslaio para o brilho, fazendo suposições.
Então eu pisquei outra vez, e a mancha ganhou de repente um formato estruturado, mais perto do que eu tinha pensado. Era algum tipo de casa ou construção, pequena e descorada pelo tempo num tom baço de cinza.
A onda de pânico de Melanie me fez saltar da estreita faixa para a dúbia proteção do mato ralo.
Relaxe, eu disse a ela. Estou certa de que está abandonada.
Como você sabe? Ela estava resistindo tão vigorosamente que precisei me concentrar em meus pés antes que eu pudesse movê-los para frente.
Quem poderia sobreviver aqui? Nós, almas, vivemos para a sociedade. Ouvi a ponta de amargura em minha explicação e soube que era por causa de onde eu estava agora – física e metaforicamente no meio do nada. Por que eu não pertencia mais à sociedade das almas? Por que ma sentia como se... como se eu não quisesse pertencer? Algum dia eu realmente fizera parte da sociedade que deveria ser minha ou essa era a razão por trás da minha longa linha de vidas em transição? Eu sempre havia sido uma aberração ou isso era algo que Melanie fez comigo? Este planeta me mudou ou revelou o que eu realmente era?
Melanie não teve paciência para a minha crise pessoal – ela me queria o mais longe possível daquela construção. Os pensamentos dela puxaram e se enroscaram com meus, tirando-me da minha introspecção.
Acalme-se, ordenei, tentando concentrar em meus pensamentos, separá-los dos dela. Se há qualquer coisa que realmente viva aqui, seria humano. Pode confiar em mim quanto a isto, não existem coisas como eremitas entre as almas. Talvez o seu tio Jeb...
Ela rejeitou esse pensamento asperamente. Ninguém poderia sobreviver em um lugar aberto como este. Sua espécie procurou residências exaustivamente. Quem quer que tenha vivido aqui fugiu ou transformou-se em um de vocês. Tio Jeb teria um esconderijo melhor.
E se quem viveu aqui tornou-se um dos nossos, assegurei a ela, então partiu e deixou este lugar. Somente um humano poderia viver deste jeito... fui baixando a voz até calar, subitamente com medo, também.
O que foi? Ela reagiu intensamente ao meu susto, nos congelando no lugar. Ela escaneou meu pensamentos, procurando por algo que pudesse ter me perturbado.
Mas eu não tinha visto nada de novo. Melanie, e se houver humanos por aí – não tio Jeb, Jared e Jamie? E se outros nos encontrarem?
Ela absorveu a ideia lentamente, pensando. Você tem razão. Eles iriam nos matar imediatamente. É claro.
Eu tentei engolir, para lavar o gosto de terror da minha boca seca.
Não haveria mais ninguém. Como poderia haver? Ela raciocinou. Sua ocupou tudo. Somente alguém preparado para se esconder teria uma chance. Então vamos checar – você está certa que não há nenhum de vocês, eu estou certa que não há nenhum de nós. Talvez nós possamos encontrar algo de útil, algo que possamos usar como arma...
Eu estremeci ao pensamento dela de facas afiadas e ferramentas longas de metal que poderiam ser transformadas em porretes.
Nada de armas.
Ugh.Como foi que criaturas tão frouxas nos venceram?
Discrição e número maior. Qualquer um de vocês, mesmo seus jovens, é cem vezes mais perigoso que nós. Mas vocês são como um cupim em um formigueiro. Há milhões de nós, todos trabalhando juntos em perfeita harmonia rumo ao nosso objetivo.
Novamente, enquanto eu descrevia a unidade, eu sentia a sensação inescapável de pânico e desorientação. Quem era eu?
Mantivemo-nos no creosoto enquanto nos aproximávamos da pequena estrutura. Olhei para a casa, apenas uma barraca pequena ao lado da estrada, sem sugestão de toda ou qualquer finalidade. A razão para sua posição aqui era um mistério – este lugar não tinha nada a oferecer além de vazio e calor.
Não havia nenhum sinal de habitação recente. A moldura da porta estava destruída, sem porta, somente alguns cacos de vidro se agarravam às molduras das janelas vazias. A poeira tinha se juntado na soleira da porta e transbordado para dentro. As paredes cinzentas e desgastadas pareciam se inclinar na direção do vento, como se aqui ele sempre soprasse na mesma direção.
Eu consegui conter a minha ansiedade e andei hesitantemente para o umbral vazio da porta; nós devemos estar tão sozinhas aqui como estivemos o dia inteiro hoje e ontem.
A sombra que a entrada proporcionava me atraiu para frente, superando meus medos com seu apelo. Eu ainda escutava atenta, mas meus pés seguiam adiante, com passos rápidos e seguros. Disparei através da entrada, movendo-me rapidamente para um lado para ter a parede atrás das minhas costas. Foi um gesto instintivo, produto das aventuras de Melanie em busca de comida. Eu permaneci congelada lá, debilitada por minha cegueira, esperando meus olhos se ajustarem.
A pequena barraca estava vazia, como nós esperávamos que estivesse. Dentro não havia mais sinais de ocupação do que fora. Uma mesa quebrada inclinava-se para baixo com suas duas pernas boas no meio do cômodo, com uma cadeira de metal ao seu lado. Pedaços de concreto apareciam pelos grandes buracos no tapete gasto, encardido. Uma pequena cozinha se alinhava à parede com uma pia enferrujada, uma fileira de armários – alguns sem portas – e um pequeno refrigerador na altura da cintura que estava aberto, revelando seu interior preto mofado. O sofá estava de encontro a uma parede distante, todas as almofadas retiradas. Ainda emoldurada acima do sofá, haviz uma ilustração de cachorros jogando pôquer.
Acolhedor, Melanie pensou, aliviada o bastante para ser sarcástica. Tem mais decoração que o seu apartamento.
Eu já estava me movendo para a pia.
Vá sonhando. Melanie adicionou utilmente.
Naturalmente seria desperdício ter água encanada neste lugar isolado; as almas controlavam detalhes como este melhor do que esqueceriam tamanha anormalidade. Ainda assim, eu tinha de girar as torneiras antigas. Uma quebrou em minha mão, completamente enferrujada.
Eu me virei para os armários próximos, ajoelhando no sórdido tapete para examinar o interior com cuidado. Eu me inclinei para trás e abri a porta, receosa por poder estar perturbando um animal venenoso do deserto em sua toca.
O primeiro estava vazio, sem fundo, de modo que eu pude ver as tábuas da parede externa. O seguinte não tinha porta, mas havia uma pilha de jornais antigos lá dentro, cobertos por poeira. Eu retirei um, curiosa, agitando a sujeira para o chão ainda mais empoeirado, e li a data.
É do tempo dos humanos, observei. Não era necessário a data para me dizer isto.
“Homem mata filha de três anos no fogo” gritava a manchete para mim, acompanhada por uma fotografia de uma angelical criança de cabelos loiros. Esta não era a primeira página. O horror detalhado aqui não era tão medonho para ter prioridade em sua cobertura. Abaixo estava o rosto de um homem procurado pelo assassinato de sua mulher e de seus dois filhos, dois anos antes da data de impressão, a história era sobre a possibilidade de ele ter sido visto no México. Duas pessoas mortas e três feridas em um acidente de carro. Uma investigação de fraude e assassinato sobre o suposto suicídio de um eminente banqueiro local. Uma confissão anulada libertando um molestador de crianças assumido. Animais de estimação encontrados mortos numa lata de lixo.
Eu me encolhi, empurrando o jornal para longe, e voltei para o armário escuro.
Eram exceções, não a regra, pensou Melanie calmamente, tentando impedir o horror recente da minha reação se infiltrasse em suas memórias daqueles anos, recolorindo-as.
Está vendo por que achamos que poderíamos ser capazes de fazer melhor? Como foi possível termos suposto que talvez vocês não merecessem todas as coisas excelentes desse mundo?
Sua resposta foi ácida. Se queriam purificar o planeta, vocês poderiam tê-lo explodido.
Apesar do que seus escritores de ficção cientifica imaginam, nós simplesmente não temos tecnologia.
Ela não achou a minha piada engraçada.
Além disso, adicionei,isso seria um grande desperdício. É um planeta encantador. Exceto esse deserto indescritível, é claro.
Foi assim que percebi que vocês estavam aqui, sabia? disse ela, pensando nas manchetes repugnantes outra vez. Quando o jornal das oito tornou-se nada mais que histórias inspiradoras de interesse humano, quando pedófilos e drogados começaram a fazer fila nos hospitais para se entregarem, quando tudo se transformou na Mayberry do programa do Andy Griffth, foi aí que eu saquei a mão de vocês.
— Que alteração horrível! — eu disse secamente, indo para o armário seguinte.
Puxei a porta que estava dura de abrir e encontrei a cornucópia.
— Biscoitos! — Gritei, agarrando a caixa desbotada e amassada de Saltines. Havia outra caixa atrás dela, que parecia ter sido pisoteada. — Twinkies! — exaltei.
Olhe!, Melanie incitou, apontando o dedo mentalmente para três frascos empoeirados de alvejante no fundo do armário.
O que você quer descolorir?, eu perguntei, já rasgando a caixa de biscoitos.Para jogar nos olhos de alguém? Ou quebrar a cabeça com a garrafa?
Para o meu prazer, os biscoitos, embora reduzidos a migalhas, ainda estavam dentro do plástico. Eu o rasguei e comecei a jogar as migalhas em minha boca, engolindo-as parcialmente mastigadas. Não havia como colocá-las no estômago rápido o bastante.
Abra uma garrafa e cheire, ela instruiu, ignorando o meu comentário. Era que meu pai estocava água na garagem. Os resíduos de água sanitária mantém a água por mais tempo.
Num minuto.
Acabei com um saco de migalhas e comecei outro. Estavam muito velhos, mas comparado ao gosto da minha boca, eram ambrosia. Quando eu terminei o terceiro, percebi que o sal dos biscoitos estavam queimando as rachaduras em meus lábios e nos cantos da boca.
Eu levantei uma das garrafas de alvejante, esperando que Melanie estivesse certa. Meus braços estavam fracos tremeram, incapaz de levantá-la. Aquilo nos preocupou a ambas. Até onde nossa condição já havia se deteriorado? Até onde nós seriamos capaz de ir?
A tampa da garrafa estava muito apertada, eu me perguntei se não tinha fundido no lugar. Finalmente eu fui capaz de abri-la com meus dentes. Eu inalei na abertura cuidadosamente, sem desejar especialmente desmaiar por causa de possíveis emanações de alvejante. O odor químico era muito leve. Eu inalei profundamente. Era água, definitivamente. Água parada, passada, mas água do mesmo jeito. Eu tomei um pequeno gole. Não era a corrente fresca da montanha, mas molhava. Eu comecei a beber avidamente.
Calma aí, Melanie advertiu, e eu tive que concordar. Nós tivemos sorte de encontrar este esconderijo de mantimentos, mas não havia sentido em desperdiçar. Além disso, eu queria algo mais sólido agora que a queimadura de sal tinha se aliviado. Eu virei para a caixa de Twinkies e lambi três dos bolinhos amassados que estavam lá.
O último armário estava vazio.
Assim que as pontadas de fome aliviaram um pouco, a impaciência de Melanie começou a vazar para meus pensamentos. Sem sentir nenhuma resistência agora, eu rapidamente coloquei meus espólios na bolsa, lançando as garrafas vazias na pia para abrir espaço. As garrafas de alvejante eram pesadas, mas seu peso era reconfortante. Significava que eu não me deitaria no chão deserto para dormir com sede e com fome esta noite. Com a energia do açúcar começando a zumbir em minhas veias, eu voltei para a tarde brilhante.
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