terça-feira, março 18, 2014
Frustradas
— É impossível! Você entendeu errado! Confundiu a ordem! Não pode ser!
Eu encarava a distância, enjoada por uma descrença que estava se transformando em horror.
Ontem de manhã eu comi o último Twinkie ressequido de café da manhã. À tarde, havia encontrado o pico duplo e virei a leste novamente. Melanie me deu a última formação que deveria encontrar. O fato de ser a última me deixou quase histérica de tanta felicidade. Noite passada eu bebi o último gole de água.
Esta manhã era uma memória nebulosa de sol quente e esperança desesperada. O tempo estava acabando, e eu vasculhava o horizonte à procura do último marco com uma crescente sensação de pânico. Eu não conseguia ver nada que se parecesse com a linha comprida e plana de um planalto escarpado flanqueado por dois picos pontiagudos de cada lado, como sentinelas. Algo assim ocuparia espaço, e as montanhas a leste e a norte eram grossas e com cumes afiados. Eu não conseguia ver a rocha plana entre nenhuma delas.
No meio da manhã – o sol ainda estava a leste, bem nos meus olhos – parei para descansar. Eu estava me sentindo tão fraca que me assustei. Cada músculo do meu corpo doía, mas não era só da caminhada. Eu podia sentir a dor da exaustão e também a dor por dormir no chão, e essas dores eram diferentes da nova dor. Meu corpo estava secando, e essa dor era a dos meus músculos protestando contra essa tortura. Eu sabia que não conseguiria continuar por muito mais tempo.
Eu virei as costas para o leste para tirar o sol do meu rosto um pouco.
Foi aí que eu vi. A linha longa e plana da rocha, com as inconfundíveis sentinelas ao lado. Ali estava, tão longe que mais parecia uma miragem, flutuando sobre o deserto como uma nuvem escura. Cada passo que eu havia dado havia sido na direção errada. O último marco estava mais longe a oeste do que o que tínhamos percorrido em toda a nossa jornada.
— Impossível — eu sussurrei de novo.
Melanie estava paralisada em minha cabeça, sem pensar, em choque, tentando desesperadamente rejeitar essa nova descoberta. Eu esperei por ela, meus olhos traçando as formas familiares, até que o peso da aceitação dela e do sofrimento me jogaram de joelhos. O seu suspiro de derrota ecoou em meu pensamento e acrescentou mais uma camada de dor. Minha respiração ficou irregular – um choro sem som e sem lágrimas. O sol queimava minhas costas, seu calor penetrando na escuridão do meu cabelo.
Minha sombra era um pequeno circulo abaixo de mim quando eu consegui me controlar. Dolorida, eu me levantei. Pequenas pedrinhas afiadas estavam grudadas na minha perna. Eu nem me incomodei em as remover. Eu encarei a rocha flutuante me zombando a oeste por um longo tempo.
E finalmente, sem ter muita certeza do por que o fiz, comecei a caminhar para frente. A única coisa que eu sabia era: era eu quem me movia, ninguém mais. Melanie estava muito pequena em meu cérebro – uma pequena cápsula de dor embolada em trono de si mesma. Não houve ajuda dela.
Meus passos eram um lento crunch, crinch no solo seco.
— Ele era só um velho lunático no final das contas — eu murmurei para mim mesma.
Um tremor estranho agitou meu peito, e uma tosse áspera rompeu garganta acima. A torrente de tosses empedradas seguiu matraqueando, mas só quando senti meus olhos formigarem por lágrimas que não podiam vir, percebi que eu estava rindo.
— Nunca houve... nada... jamais... aqui! — arquejei entre os espasmos de histeria. Eu tropeçava para frente como se estivesse bêbada, meus passos incertos deixando uma trilha torta atrás de mim.
Não. Melanie se livrou de seu sofrimento para defender a fé à qual ainda se agarrava. Eu entendi mal ou algo assim. A culpa é minha.
Eu ria dela agora. O som era levado pelo vento.
Espere, espere, ela pensava, tentando afastar minha atenção da ironia da história toda. Você acha que... quer dizer, você acha que é possível eles terem passado por isso?
Sua onda me medo me pegou no meio de uma gargalhada, e eu engasguei com ar quente, meu peito palpitando devido o meu ataque de histeria mórbida. Quando consegui respirar novamente, qualquer traço do humor negro havia
desaparecido. Instintivamente, meus olhos varreram o deserto, procurando por alguma evidência de que eu não era a primeira a jogar minha vida fora daquele jeito. A planície era impossivelmente vasta, mas eu não conseguia evitar de procurar por... vestígios.
Não, claro que não. Melanie já se animava. Jared é esperto demais. Ele nunca viria despreparado como nós. Ele jamais colocaria Jamie em perigo.
Tenho certeza de que você está certa, disse-lhe, querendo acreditar nisso tanto quanto ela. Tenho certeza de que ninguém em todo o universo seria tão estúpido. Além disso, ele provavelmente nunca veio procurar. Ele provavelmente nem pensou nisso. Bem que eu gostaria que você não tivesse pensado também.
Meus pés continuavam a se mexer. Eu mal estava consciente dessa ação. Significava tão pouco ante a enorme distância a frente. E mesmo se fôssemos magicamente transportadas para a base da rocha, e daí? Eu tinha certeza absoluta que não havia nada lá. Ninguém nos esperava na rocha para nos salvar.
— Nós vamos morrer — eu disse. Surpreendentemente não havia medo em minha voz. Sim. Ela estava calma também. Isso, a morte, era mais fácil de aceitar do que o fato de nossos esforços terem sido guiados pela insanidade.
— Isso não te incomoda?
Ela pensou por um momento antes de responder.
Pelo menos eu morri tentando. Eu venci. Eu nunca os entreguei. Eu nunca os machuquei. Eu fiz o melhor que eu pude pra encontrá-los, eu tentei manter minha promessa... eu morro por eles.
Eu contei dezenove passos antes que eu conseguisse responder. Dezenove rangidos morosos e fúteis na areia.
— E por que eu estou morrendo? — perguntei-me, a sensação de aperto voltando aos meus canais lacrimais ressecados. — Acho que porque eu perdi, não é mesmo? É por isso?
Eu contei trinta e quatro rangidos até que ela tivesse a resposta para minha pergunta.
Não, pensou ela lentamente. Não é o que eu sinto. Eu acho... bem, acho que talvez... você esteja morrendo por ser humana. Havia quase um sorriso em seus pensamentos quando ela percebeu o duplo sentido de sua frase. Depois de todos aqueles planetas e todos os hospedeiros que deixou para trás, você finalmente encontrou o lugar e o corpo pelas quais você morreria. Acho que você encontrou seu lar, Peregrina.
Dez rangidos.
Eu já não tinha energia o suficiente para abrir meus lábios. Que pena que eu não consegui ficar aqui um pouco mais, então.
Eu não estava certa da resposta. Talvez ela só estivesse tentando me fazer sentir melhor. Uma compensação por tê-la trazido para morrer aqui. Ela tinha vencido, nunca desaparecera.
Meus passos começaram a hesitar. Meus músculos gritavam por misericórdia como se eu tivesse algum meio de aliviá-los. Eu acho que teria parado ali mesmo, mas Melanie como sempre, era mais forte do que eu.
Eu podia senti-la agora, não só em meus pensamentos, mas também em meus membros. Meu passo se alongou, ficou mais reto e firme. Por pura força de vontade ela levava minha carcaça meio morta rumo ao objetivo impossível.
Havia uma alegria inesperada pela luta sem propósito. Assim como eu podia senti-la, ela podia sentir o meu corpo. Nosso corpo agora, minha fraqueza lhe cedera o controle. Ela exultava a liberdade de mover nossos braços e pernas adiante, não importava quanto o movimento fosse inútil. Era uma glória simplesmente porque ela podia novamente. Mesmo a dor da nossa morte se ofuscou em comparação.
O que você acha que tem lá? Ela perguntou enquanto marchávamos para o fim.O que você vai ver, depois que morrermos?
Nada. A palavra era vazia, dura e certa. Há uma razão para chamarmos de morte final.
As almas não acreditam em vida após a morte?
Nós temos tantas vidas. Qualquer coisa a mais seria esperar... muito. Nós morremos uma pequena morte toda vez que deixamos um hospedeiro. E vivemos novamente em outro. Quando eu morrer aqui, será o fim.
Houve uma longa pausa enquanto nossos pés se moviam mais e mais lentamente.
E quanto a você?, perguntei finalmente. Você ainda acredita em algo mais, mesmo depois de tudo isso? Meus pensamentos revolviam as memórias dela do fim do mundo humano.
É como se houvesse algumas coisas que não podem morrer.
Em nossas mentes, seus rostos estavam mais próximos e claros. O amor que sentíamos por Jared e Jamie parecia mesmo muito permanente. Naquele momento eu me perguntei se a morte poderia acabar com algo tão afiado e vital. Talvez esse amor continuasse a viver com ela, em algum lugar encantado com portões perolados. Não comigo.
Seria um alívio ver-me livre disso? Eu não tinha certeza. Eu sentia que era parte de quem eu era agora.
Nós só duraríamos umas poucas horas. Nem mesmo a tremenda força mental de Melanie podia pedir mais do que isso de nosso corpo que falhava. Nós mal conseguíamos ver. Não parecíamos conseguir pegar oxigênio no ar seco e expeli-lo novamente. A dor fazia gemidos ásperos irromperem de nossos lábios.
Você nunca esteve tão mal, provoquei-lhe debilmente enquanto cambaleávamos rumo aos galhos secos de uma árvore poucos centímetros mais alta que o mato baixo. Queríamos chegar até as suas tênues riscas de sombra antes de cairmos.
Não, ela concordou, nunca tão mal.
Atingimos nossa meta. A árvore morta jogou sobre nós sua tênue teia de sombras, e nossas pernas cederam abaixo de nós. Nos arrastamos para frente, sem querer o sol no nosso rosto novamente, nunca mais. Nossa cabeça virou de lado sem o nosso comando, buscando ar. Olhamos a terra a centímetros de nosso nariz e ouvimos nossa respiração arquejar.
Após um tempo, não sabemos se longo ou curto fechamos nossos olhos. Nossas pálpebras estavam vermelhas e brilhantes por dentro. Não conseguíamos sentir a fraca teia de sombra, talvez ela houvesse se movido para longe de nós.
Quanto tempo mais? Eu perguntei.
Eu não sei, nunca morri antes.
Uma hora? Mais?
Sua suposição é tão boa quanto a minha.
Onde estão os coiotes quando você realmente precisa de um?
Talvez tenhamos sorte... escape desse animais com garras afiadas, sei lá... O pensamento dela calou-se pouco a pouco, de modo incoerente.
Essa foi a nossa última conversa. Era muito difícil se concentrar o suficiente para formar palavras. Havia mais dor do que pensamos que haveria. Todos os músculos do nosso corpo se rebelaram, lutando com cãibras e espasmos contra a morte.
Nós não lutamos. Deixamos a mente vagar e esperamos, nossa memória indo e vindo sem nenhuma lógica. Enquanto ainda estávamos lúcidas, sussurramos uma canção de ninar em nossa mente. Era a que usávamos para confortar Jamie quando o chão era muito duro, ou o ar muito frio ou o medo muito grande para dormir. Nós sentimos a cabeça dele apoiado em nossos ombros e as suas costas em nosso braço. E então pareceu que era nossa cabeça aninhada em um ombro maior, e uma nova canção de ninar nos confortava.
Nossas pálpebras se tornaram escuras, não da morte, mas por que a noite havia caído e isso nos deixou triste. Sem o calor do dia nós provavelmente morreríamos mais lentamente.
Ficou escuro e silencioso por um longo tempo. Então houve um barulho.
Ele mal nos despertou. Nós não tínhamos certeza que não o tínhamos imaginado. Talvez fosse um coiote afinal de contas. Nós queríamos isso? Não sabíamos mais. Nós perdemos a linha de pensamento e esquecemos do som.
Algo nos sacudiu, puxou nossos braços dormentes, arrastou-nos segurando-os. Não podíamos formar as palavras para desejar que agora fosse mais rápido, mas era a nossa esperança. Esperamos pelo corte dos dentes. Ao invés disso, fomos viradas e sentimos nosso rosto virar para o céu.
Algo pingou em nosso rosto – molhado, fresco e impossível. Pingou em nossos olhos, lavando a areia deles. Nossos olhos de entreabriram, piscando contra as gotas.
Não nos importávamos com a areia em nossos olhos. Nosso queixo se arqueou, buscando desesperadamente, a boca se abrindo e fechando com fraqueza cega, pateticamente como um pássaro recém nascido.
Nós pensamos ter ouvido um suspiro.
Algo pressionou nossos lábios rachados, e a água fluiu em nossos lábios. Nós a sorvemos e nos engasgamos com ela. A água desapareceu enquanto sufocávamos, e nossas débeis mãos buscaram apanhá-la. Uma batida espalmada e pesada estimulou nossas costas até podermos respirar outra vez. Nossas mãos continuaram a agarrar o ar, procurando água.
Nós definitivamente ouvimos um suspiro dessa vez.
Algo apertou nossos lábios rachados, e a água fluiu outra vez. Bebemos avidamente, com cuidado para não engasgar outra vez. Não que nos impostássemos de engasgar, mas não queríamos que afastassem a água de nós.
Nós bebemos até nossa barriga inchar e doer. A água acabou e gememos em protesto. Outra borda foi pressionada em nossos lábios, e nós bebemos freneticamente até estar vazia também.
Nosso estômago explodiria se déssemos mais um gole, mas nós piscávamos e tentávamos nos concentrar, para ver se achávamos mais. Estava muito escuro, não víamos uma única estrela. E então piscamos novamente e percebemos que a escuridão estava muito próxima para ser o céu.
Uma figura pairava acima de nós, mais negra que a noite.
Houve um ruído de tecido roçando e de areia sendo pisada. A figura se inclinou para o outro lado, e nós ouvimos uma rasgadura lancinante – o barulho de um zíper, ensurdecedor na quietude absoluta da noite.
Como uma lâmina, a luz feriu nossos olhos. Nós gememos em dor e nossas mãos se ergueram para proteger nossos olhos. Mesmo através das pálpebras a luz ainda estava muito clara. A luz desapareceu, e nos sentimos o sopro do suspiro seguinte alcançar o nosso rosto.
Abrimos os olhos cuidadosamente, mais cegas que antes. Quem quer que estivesse diante de nós estava muito parado e não disse nada. Começamos a sentir a tensão no momento, mas ela parecia distante, fora de nós. Era difícil se importar com qualquer coisa que não a água em nossa barriga e onde podíamos encontrar mais. Nós tentamos nos concentrar, ver quem nos resgatara.
A primeira coisa que pudemos notar, após minutos piscando e apertando os olhos, foi a espessa brancura que escorria da face escura, um milhão de estilhaços pálidos na noite. Quando compreendemos que era uma barba – igual ao do Papai Noel, pensamos caoticamente – outras partes do rosto foram supridas por nossa memória. Tudo se encaixou: o nariz grande fendido na ponta, os malares amplos, as grossas sobrancelhas brancas, os olhos plantados bem fundo na textura enrugada da pele. Embora só pudéssemos ver sugestões de cada uma dessas feições, sabíamos como a luz as exporiam.
— Tio Jeb — nós engasgamos em surpresa. — Você nos encontrou.
Tio Jeb acocorado perto de nós caiu para trás quando nos ouviu dizer seu nome.
— Nossa — ele disse, e sua voz rouca trouxe de volta milhares de recordações. — Essa agora, que situação!
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