terça-feira, março 18, 2014

Sentenciada


— Eles estão aqui? — nós cuspimos as palavras; elas saíram de nós como água de
nossos pulmões: expelidas. Depois da água isso era tudo o que importava. — Eles conseguiram?
A expressão no rosto do Tio Jeb era impossível de ler na escuridão.
— Quem? — ele perguntou.
— Jamie! Jared! — Nosso sussurro ardeu como um grito. — Jared estava com o Jamie. Nosso irmão! Eles estão aqui? Eles vieram? Você os encontrou também?
Ele não hesitou.
— Não — sua resposta foi curta, não havia piedade nela, nenhum sentimento.
— Não — murmuramos. Nós não o estávamos repetindo, estávamos protestando por ele ter nos devolvido a vida. Para quê? Nós fechamos nossos olhos novamente e prestamos à dor em nosso corpo. Nós a deixamos sobrepujar a dor em nossa mente.
— Olhe — tio Jeb disse após um momento. — Eu, hã, tenho que resolver uma coisa. Descanse aqui um pouco, já volto.
Nós escutamos as palavras dele, mas não o significado. Nossos olhos continuaram fechados. As passadas dele se afastaram calmamente de nós. Não podíamos dizer em que direção ele partiu. Não nos importávamos.
Eles se foram. Não havia como os encontrar, nenhuma esperança. Jared e Jamie desapareceram, algo que sabiam fazer muito bem, e nós nunca os veríamos novamente.
A água e o ar fresco da noite nos deixaram mais lúcidas, algo que não queríamos. Estávamos tão cansadas, muito além do ponto da exaustão, em algum lugar mais profundo, mais doloroso. Claro, nós podíamos dormir. Tudo o que precisávamos fazer era não pensar. Nós podíamos fazer isso.
Fizemos.
Quando acordamos, ainda era noite, mas o amanhecer estava ameaçando na parte leste do horizonte – as montanhas estavam avermelhadas. Nossa boca tinha gosto de areia e a princípio tivemos certeza que havíamos sonhado com tio Jeb. É claro que foi um sonho.
Nossa mente estava mais clara esta manhã, e logo notamos uma forma estranha perto da
nossa bochecha – algo que não era um cacto ou uma pedra. Tocamos o objeto – era rígido e macio. Nós o cutucamos, e um delicioso som de água veio lá de dentro.
Tio Jeb era real e tinha nos deixado um cantil.
Nós nos sentamos cuidadosamente, surpresas quando não nos partimos em dois como um frágil pedaço de pau. Na verdade nós nos sentíamos melhor. A água deve ter tido tempo para fazer seu caminho através de uma parte de nosso corpo. A dor era suportável, e pela primeira
vez em muito tempo sentimos fome outra vez.
Nossos dedos estavam rígidos e desajeitados enquanto tentávamos abrir a tampa do cantil. Não estava completamente cheio, mas havia água o suficiente para encher nosso estômago – que deve ter encolhido. Bebemos tudo, estávamos até aqui de racionamento.
Largamos o cantil de metal na areia, produzindo um baque surdo no silêncio do deserto. Nós nos sentíamos completamente acordadas agora. Suspiramos, preferindo a inconsciência, e deixamos nossa cabeça cair em nossas mãos. E agora?
— Por que você deu água à coisa, Jeb? — reclamou uma voz irritada, bem atrás de nossas costas.
Nós viramos e nos apoiamos sobre os joelhos. O que vimos fez nosso coração acelerar e nossa consciência estilhaçar-se.
Havia oito humanos em um semicírculo em volta de onde eu estava ajoelhada, embaixo da árvore. Não havia dúvida que eram humanos, todos eles. Eu nunca tinha visto rostos contorcidos em tais expressões – não na minha espécie. Aqueles lábios torcidos de ódio, puxados para trás mostrando os dentes cerrados como animais selvagens. Aquelas sobrancelhas puxadas para baixo sobre olhos que queimavam de fúria.
Seis homens e duas mulheres, alguns deles muito grandes, a maioria maiores do que eu. Eu senti o sangue abandonar meu rosto quando compreendi por que mantinham suas mãos estranhamente firmes diante de si, cada um brandindo um objeto. Eles empunhavam armas. Alguns tinham facas, algumas pequenas como as que eu mantinha na cozinha, algumas maiores e uma enorme e ameaçadora. Aquela faca não teria serventia na cozinha. Melanie deu o nome:machete.
Outros seguravam longas barras, umas de metal, outras de madeira. Porretes.
Eu reconheci tio Jeb entre eles. Seguro frouxo em suas mãos, havia um objeto que eu nunca tinha visto pessoalmente, apenas nas memórias de Melanie, como o machete. Era uma espingarda.
Eu via horror, mas Melanie via tudo aquilo maravilhada, sua mente hesitando diante do número de deles. Oito humanos sobreviventes. Ela havia pensado que Jeb estaria sozinho ou, na melhor das hipóteses, com dois outros. Ver tantos da sua espécie vivos a encheu de alegria.
Você é uma tola, eu lhe disse. Olhe para eles. Veja-os.
Eu a forcei a vê-los sob a minha perspectiva: a ver as formas ameaçadoras dentro de calças de brim sujas e camisetas encardidas de algodão. Eles podiam ter sido humanos – como ela concebia a palavra – outrora, mas naquele momento eram alguma outra coisa. Eram bárbaros, monstros. Eles estavam sobre nós, querendo sangue.
Havia uma sentença de morte em cada olhar.
Melanie viu isso tudo e, embora relutante, teve que admitir que eu estava certa. Naquele momento seus amados humanos mostravam seu pior aspecto – como as reportagens nos jornais q tínhamos visto na cabana abandonada. Nós estávamos olhando para assassinos.
Nós devíamos ter morrido ontem, seria mais esperto.
Por que tio Jeb nos manteria vivas para isso?
Um arrepio passou por mim ao pensar nisso. Eu busquei nas histórias que eu havia lido sobre as atrocidades humanas. Eu não tinha estômago para elas. Talvez devesse me concentrar melhor. Eu sabia que havia razões para os humanos deixarem suas vitimas vivas por um período mais longo. Coisas que eles queriam de suas mentes ou corpos...
É claro, a coisa aflorou em minha mente – o único segredo que eles poderiam querer de mim. O segredo que eu nunca, jamais poderia lhes contar. Não importava o que eles fizessem comigo. Eu teria de me matar primeiro.
Não deixei Melanie ver o segredo que eu protegia. Eu usei suas próprias defesas contra ela e ergui uma parede em minha mente para ficar escondida enquanto pensava, pela primeira vez desde a inserção, na informação. Não houvera motivos para pensar nisso antes.
Melanie não estava nem um pouco curiosa para saber o que havia do meu lado da parede; ela não fez o menor esforço para quebrar a defesa. Havia preocupações muito mais importantes agora.
Importava eu proteger meu o segredo dela? Eu não era tão forte como Melanie, não tenho duvidas de que ela seria capaz de aguentar a tortura. Quanta dor eu suportaria até entregar a eles qualquer coisa que quisessem?
Meu estômago se revirou. Suicídio era uma idéia repulsiva – pior porque seria assassinato também. Melanie faria parte tanto da tortura quanto da morte. Eu esperaria até não não ter absolutamente nenhuma alternativa.
Não, eles não podem. Tio Jeb jamais deixaria que eles me machucassem.
Tio Jeb não sabe que você está aqui, recordei-lhe.
Diga a ele!
Eu me concentrei no rosto do homem mais velho. A espessa barba branca me impedia
de ver o contorno de sua boca, mas seus olhos não queimavam como os dos outros. Pelo canto dos olhos eu pude ver alguns homens desviarem o olhar de mim para ele. Eles estavam esperando que ele respondesse a pergunta que me fez notar a presença deles. Tio Jeb olhava para mim, ignorando-os.
Não posso dizer a ele Melanie. Ele não irá acreditar. E se eles acharem que estou mentindo, pensarão que sou uma Buscadora. Eles devem ter experiência o suficiente para saber que só uma Buscadora viria aqui e contaria uma mentira, uma história com o intuito de se infiltrar.
Melanie imediatamente reconheceu a verdade em meus pensamentos. A simples palavra Buscador a fez recuar de ódio, e ela sabia que esses estranhos teriam a mesma reação.
De qualquer modo, pouco importa. Eu sou uma alma – é o suficiente para eles.
O que estava segurando o machete – o maior homem presente, de cabelos negros, pele pálida e intensos olhos azuis – fez um som de nojo e cuspiu no chão. Ele deu um passo a frente, erguendo lentamente a longa lâmina.
Antes rápido que lento. Melhor que fosse aquela mão brutal a nos matar ao invés da minha. Melhor que eu não morresse como uma criatura violenta, responsável não só pela minha morte, mas pela de Melanie também.
— Espere, Kyle — as palavras de Jeb saíram lentas, quase casuais, mas o grandalhão parou. Ele endureceu a expressão ainda mais e se virou para encarar o tio de Melanie.
— Por quê? Você disse que verificou. É um deles.
Eu reconheci a voz – era a mesma que perguntou a Jeb porque ele havia me dado água.
— Bem, é verdade, ela é mesmo. Mas a coisa é meia complicada.
— Como assim? — Outro homem diferente perguntou. Ele estava ao lado do grandão de cabelos escuros, Kyle, e eles se pareciam tanto que só podiam ser irmãos.
— Veja, essa aqui é minha sobrinha, também.
— Não é mais. — Kyle disse categórico. Ele cuspiu novamente e deu mais um passo deliberado em minha direção, a lâmina pronta. Deu para ver pela maneira como seus ombros se curvaram para a ação que palavras não iriam detê-lo novamente. Eu fechei os olhos.
Houve dois cliques metálicos e alguém arquejou. Meus olhos se abriram novamente.
— Eu disse para esperar, Kyle. — A voz de tio Jeb ainda soava relaxada, mas a espingarda estava firme em suas mãos e apontava para as costas de Kyle, que havia congelado a alguns passos de mim, o machete dele suspenso, imóvel no ar acima de seu ombro.
— Jeb — disse o irmão, horrorizado. — O que você está fazendo?
— Afaste-se da garota Kyle.
Kyle virou as costas para nós, andando furioso na direção de Jeb.
— Não é uma garota Jeb!
Jeb deu de ombros, a arma firme em suas mãos, apontada para Kyle.
— Há coisas a serem discutidas.
— O doutor pode aprender algo com a coisa. — Uma grossa voz feminina sugeriu.
Eu me encolhi ao ouvir as palavras, ouvindo nelas o meu maior medo. Quando Jeb me chamara de sobrinha ainda agorinha eu estupidamente deixei que uma chama de esperança aflorasse – talvez houvesse piedade. Eu fora tola de tê-lo pensado. A morte era a única piedade que eu poderia esperar dessas criaturas.
Olhei para a mulher que havia falado, surpresa ao ver que ela era tão velha quanto Jeb, talvez mais. Seus cabelos eram mais para grisalho-escuros que para brancos, razão pela qual eu não notei sua idade antes. Seu rosto era uma massa de rugas que formavam uma expressão de raiva. Mas havia algo familiar nos traços dela.
Melanie fez a conexão em sua mente entre aquele rosto ancião e um outro mais suave em suas memórias.
— Tia Maggie? Você está aqui? A Sharon está... — As palavras eram todas da Melanie, mas elas saíram pela minha boca e eu fui incapaz de impedi-las. Compartilhar o corpo por tanto tempo no deserto a fez mais forte, ou me fez mais fraca. Ou talvez fosse só porque eu estava concentrada na direção que viria o golpe mortal. Eu estava me preparando para o nosso assassinato, e ela estava tendo uma reunião de família.
Melanie só chegou até a metade de sua exclamação de surpresa. A velha mulher chamada Maggie se lançou para frente com uma velocidade que desmentia sua fragilidade exterior. Ela não erguera a mão que segurava o pé de cabra. Era aquela a mão que eu estava observando, de modo que eu não vi sua mão livre se erguer e bater com força em meu rosto.
Minha cabeça tombou para trás e voltou. Ela deu outro tapa.
— Você não nos engana, sua parasita. Sabemos como vocês trabalham. Nós sabemos o quão bem vocês podem nos imitar.
Eu senti o gosto de sangue em minha boca.
Não faça isso de novo!, repreendi Melanie. Eu lhe disse o que eles iriam pensar.
Melanie estava muito chocada para responder.
— Ô Maggie — Jeb começou em um tom apaziguador.
— Não comece Jeb, seu velho idiota! Ela provavelmente trouxe uma legião deles direto para nós. — Ela recuou, se afastando de mim, seus olhos medindo minha imobilidade como se eu fosse uma serpente pronta para dar o bote. Ela parou ao lado do irmão.
— Eu não vejo ninguém — Jeb respondeu. — Ei! — gritou ele, e eu recuei, surpresa. E não fui a única. Jeb sacudiu a mão esquerda por cima da cabeça, a arma ainda firma da direita. — AQUI!
— Cala a boca! — Maggie grunhiu, empurrando o peito dele. Embora eu tivesse boas razões para saber que ela era forte, Jeb não balançou.
— Ela está sozinha, Mag. Estava praticamente morta quando a encontrei... ela não está em tão boa forma agora. As centopeias não sacrificam os seus desse jeito. Eles teriam vindo buscá-la muito antes de eu tê-lo feito. O que quer que ela seja, ela está sozinha.
Eu vi a imagem do inseto comprido de muitas pernas na minha cabeça, mas não fiz a ligação.
Ele está falando de você, Melanie explicou. Ela pôs a imagem do feio inseto ao
lado da minha memória de uma brilhante alma prateada. Não vi semelhança.
Eu me pergunto como é que ele sabe a aparência de vocês, Melanie pensou distraída. Minha memória da verdadeira aparência de uma alma fora nova para ela no começo.
Eu não tinha tempo de ficar refletindo como ela. Jeb estava andando na minha direção, e os outros atrás dele, bem próximos. Kyle colocou a mão no ombro de Jeb, pronto para segurá-lo ou tirá-lo do caminho, eu não saberia dizer.
Jeb passou a arma para a mão esquerda e estendeu a direita para mim. Eu o olhei assustada, esperando pela pancada.
— Venha — ele chamou gentilmente. — Se eu pudesse carregá-la até tão longe, teria levado você para casa ontem à noite. Você vai ter que andar mais um pouco.
— Não! — Kyle rosnou.
— Estou recebendo a moça — disse Jeb, e pela primeira vez havia rispidez em sua voz. Sob a barba, seu queixo se contraiu numa linha resoluta.
— Jeb! — Maggie protestou.
— A casa é minha, Mag. Eu farei o que bem entender.
— Velho tolo — ralhou ela de novo.
Jeb se agachou e pegou minha mão onde ela repousava fechada – apoiada na minha coxa. Ele me deu um puxão para eu me levantar. Não com violência, mas como se ele estivesse com pressa. No entanto, isso não era ainda mais cruel? Prolongar a minha vida pelos motivos que ele tinha?
Balancei sem firmeza. Eu não conseguia sentir minhas pernas muito bem. Só picadas de pontas de agulha quando o sangue fluiu pernas abaixo.
Houve um murmúrio de reprovação atrás dele. Veio de mais de uma boca.
— Certo, quem quer que você seja — ele disse para mim, sua voz ainda gentil. — Vamos sair daqui antes que fique mais quente.
O que parecia ser o irmão de Kyle pôs uma mão sobre o braço de Jeb.
— Você não pode simplesmente mostrar para a coisa onde nós moramos, Jeb.
— Eu imagino que não fará diferença. — Maggie disse asperamente. — Ela não terá a chance de contar a ninguém.
Jeb suspirou e tirou a bandana, que estava quase totalmente escondida por sua barba.
— Isso é bobagem — resmungou, mas enrolou o tecido sujo, duro e seco de suor em volta de meus olhos.
Fiquei completamente imóvel enquanto ele colocava a venda em meus olhos, lutando contra o pânico que aumentou quando não consegui mais ver meus inimigos.
Eu não podia ver, mas sabia ter sido Jeb quem pusera uma das mãos em minhas costas e me guiara adiante, nenhum dos outros teria sido tão gentil.
Nós partimos rumo ao norte, pensei. A princípio ninguém falou – só havia o som da areia sendo pisada. O solo era regular, mas eu tropeçava sem parar nas minhas pernas dormentes. Jeb foi paciente, sua mão que me guiando quase cavalheirescamente.
Eu senti o sol nascer enquanto andávamos. Alguns passos eram mais rápidos do que outros. Alguns passaram por nós até que eu não fui capaz de ouvi-los mais. Parecia que a minoria havia ficado para trás. Não devia parecer que eu precisava de muitos guardas – eu estava a ponto de desmaiar de fome, e hesitava a cada passo; minha cabeça girava e parecia vazia.
— Você não planeja contar a ele, planeja? — Era a voz de Maggie, alguns passos atrás de mim, e tinha o tom de uma acusação.
— Ele tem o direito de saber. — Jeb respondeu. A teimosia era clara em sua voz.
— O que você está fazendo é uma coisa cruel, Jebediah.
— A vida é cruel, Magnolia.
Era difícil decidir qual dos dois era mais assustador. Jeb, que parecia querer me manter viva? Ou Maggie, que foi quem sugeriu o doutor – título que me encheu de um pavor instintivo e nauseante – mas que parecia mais preocupada com crueldade do que seu irmão?
Andamos em silêncio por algumas horas. Quando minhas pernas falharam e eu caí, Jeb se abaixou com o cantil e me deu água, como ele fez na noite passada.
— Avise-me quando você estiver pronta. — Ele me disse. Sua voz soava gentil, mas eu sabia que essa era uma interpretação errada.
Alguém suspirou impacientemente.
— Por que você está fazendo isso Jeb? — Um homem perguntou. Eu tinha ouvido aquela voz antes; era um dos irmãos. — Para o Doc? Você poderia ter dito isso a Kyle. Você não precisava ter apontado a arma para ele.
— Kyle precisa ter uma arma apontada para ele com mais frequencia — Jeb murmurou.
— Por favor, não me diga que foi por solidariedade — continuou o homem — depois de tudo o que você viu...
— Depois de tudo o que eu vi, se eu não tivesse aprendido a compaixão, eu não valeria muito. Mas não, não foi por solidariedade. Se eu tivesse tido compaixão por essa criatura eu a teria deixado morrer.
Senti um calafrio no ar quente.
— O que foi, então? — Perguntou o irmão de Kyle.
Houve um longo silêncio, e então a mão de Jeb tocou a minha. Eu a agarrei, precisando de ajuda para me levantar. Sua outra mão voltou às minhas costas e continuamos a andar.
— Curiosidade — Jeb disse em uma voz baixa.
Ninguém respondeu.
Enquanto andávamos, refleti sobre alguns fatos inquestionáveis. Um, eu não era a primeira alma que eles haviam capturado, havia uma rotina aqui. Esse tal de “Doc” já havia tentado tirar algumas respostas de outras antes de mim.
Dois, ele não obteve sucesso. Se qualquer alma tivesse renunciado ao suicídio e cedido sob tortura dos humanos, eles não precisariam de mim. Minha morte teria sido rápida e misericordiosa.
Estranhamente, eu não conseguia me convencer a esperar por uma morte rápida, ou tentar
produzir esse final. Seria fácil de fazer, mesmo sem executá-la eu mesma. Eu só teria que mentir, dizer que eu era uma Buscadora, dizer que meus colegas estavam procurando por eles, vociferar, ameaçar. Ou dizer a verdade, que Melanie vivia dentro de mim, e que ela me trouxe até aqui.
Eles veriam outra mentira, e uma tão irresistível – a ideia que um humano pudesse sobreviver a implantação – tão irresistível que eles achariam que eu era uma Buscadora ainda com mais certeza do que se eu simplesmente o afirmasse. Eles imaginariam uma armadilha, se livrariam de mim rapidamente e procurariam outro lugar para viver, bem longe daqui.
Você provavelmente está certa, Melanie concordou. É o que eu faria.
Mas eu ainda não estava sofrendo, de modo que as duas formas de suicídio eram difíceis de abraçar, meu instinto de sobrevivência manteria minha boca fechada. A memória do meu último encontro com a Confortadora – um tempo tão civilizado que parecia pertencer a outro planeta – passou como um raio em minha cabeça. Melanie me desafiando a descartá-la, aparentemente um impulso suicida, mas somente um blefe. Eu lembro de ter pensado o quão difícil era contemplar a morte sentada em uma poltrona confortável.
Na noite passada Melanie e eu desejamos a morte, mas a morte havia estado à centímetros
de nós na ocasião. Agora era diferente. Agora eu estava de pé novamente.
Eu também não quero morrer, sussurrou Melanie. Mas talvez você esteja errada. Talvez não seja por isso que eles estejam nos mantendo vivas. Eu não entendo por que eles iriam... Ela não queria ver as coisas que eles poderiam fazer conosco – eu tinha certeza que ela poderia imaginar coisas muito piores do que eu. Que resposta eles quereriam de você tanto assim?
Eu nunca vou dizer. Nem a você nem a nenhum humano.
Uma declaração corajosa. Mas eu ainda não estava sofrendo...
Mais uma hora passou – o sol estava diretamente sobre nossas cabeças. O calor dele como uma coroa de fogo em meus cabelos – quando o barulho mudou. Os sons de passos que eu mal ouvia, viraram ecos em minha frente. Os pés de Jeb ainda trituravam a areia como os meus, mas alguém a nossa frente já havia chegado num terreno diferente.
— Cuidado agora. — Jeb me avisou. — Cuidado com a cabeça.
Eu hesitei, não sabendo pelo que esperar. Sua mão deixou minhas costas e pressionou minha cabeça para baixo, me dizendo para me abaixar. Eu me inclinei para frente. Meu pescoço estava duro.
Ele me guiou para frente novamente, e eu ouvi nossos passos fazerem o mesmo eco. O chão não cedia como areia nem dava a sensação de estar solto como pedras. Era plano e sólido.
O sol havia ido embora – eu não o sentia queimando minha pele ou chamuscando meus cabelos.
Eu dei mais um passo, e um ar diferente tocou a minha face. Não era uma brisa. Era parado – eu me deslocava nele. O vento seco do deserto fora embora. O ar estava parado e frio. Havia um levíssimo sinal de umidade, um bolor que eu tanto podia cheirar quanto sentir o gosto.
Havia tantas perguntas na minha cabeça e na de Melanie. Ela queria perguntar as dela, mas eu me mantive em silêncio. Não havia nada que nós pudéssemos dizer que nos ajudaria.
— Okay, você pode se endireitar agora. — Jeb me disse.
Eu levantei a cabeça lentamente. Mesmo com a venda nos olhos eu podia dizer que não havia luz. Estava completamente escuro em volta das beiradas do lenço. Eu podia ouvir os outros atrás de mim, batendo o pé impacientemente, esperando que nós andássemos.
— Por aqui — Jeb disse, e ele estava me guiando novamente.
Nossos passos ecoavam de volta rapidamente – o lugar onde estávamos devia ser bem pequeno. Eu encolhi minha cabeça instintivamente.
Nós demos mais alguns passos para frente e então fizemos uma curva fechada que parecia nos levar de volta por onde viemos. O chão começou a fazer um declive. O ângulo foi ficando maior a cada passo, e Jeb me deu sua mão grossa para que eu não caísse. Eu não sei por quanto tempo tropecei e escorreguei pela escuridão. A caminhada provavelmente pareceu maior do que era devido ao meu terror.
Fizemos uma curva, e então o chão se inclinou para cima, minhas pernas estavam tão dormentes e duras que Jeb teve praticamente que me rebocar declive acima. O ar ficou mais úmido conforme andávamos, mas a escuridão não mudou. Os únicos sons eram dos passos próximos.
O caminho tornou-se e começou a girar e torcer como uma serpente.
Finalmente, finalmente, houve uma luminosidade por cima e por baixo da venda. Eu queria que ela escorregasse, estava com muito medo para removê-la eu mesma. Parecia-me que não sentiria tanto pavor se eu pudesse pelo menos veronde estava e quem estava comigo.
Com a luz veio barulho. Um barulho estranho, um murmúrio baixo. Parecia mais com uma cachoeira.
O murmúrio aumentava conforme avançávamos. E quanto mais perto chegávamos menos se parecia com água. Era muito variado, tons baixos e altos, se misturando e ecoando. Se não fosse tão dissonante, poderia soar como a música que contávamos no Mundo Cantor. A escuridão da venda se encaixava nessa memória, a memória da cegueira.
Melanie entendeu a cacofonia antes de mim, eu nunca havia ouvido esse som antes porque eu nunca tinha estado com humanos antes.
É uma discussão, compreendeu ela. Parece com muitas pessoas discutindo.
Ela se sentiu atraída pelo barulho. Havia mais gente aqui então? O fato de haver oito já havia nos surpreendido? Que lugar era esse?
Mãos tocaram a minha nuca, e eu me encolhi tentando me afastar delas.
— Calma. — Jeb disse. Ele removeu a venda dos meus olhos.
Eu pisquei lentamente, e as sombras ao meu redor tornaram-se formas que eu pudia compreender: paredes ásperas irregulares, teto cheio de vesículas, o chão empoeirado e gasto. Estávamos debaixo da terra, em algum lugar dentro de uma caverna natural. Não devíamos estar muito fundo. Pareceu que havíamos andado mais para cima do que para baixo.
As paredes e teto de rocha eram de um marrom arroxeado escuro, e estavam cheio de buracos largos e desiguais, como queijo suíço. A beirada dos buracos mais baixos estavam gastos, mas sobre minha cabeça os círculos eram mais definidos, e suas bordas mais afiadas.
A luz vinha de um buraco redondo à nossa frente, cujo formato não era diferente das cavidades que salpicavam a caverna. Era uma entrada, uma passagem para algum lugar mais claro. Melanie estava ansiosa, maravilhada pela ideia de mais humanos. Eu me contive, subitamente preocupada que a cegueira pudesse ser melhor que a visão.
Jeb suspirou.
— Desculpe — ele murmurou tão baixo que somente eu devia ter ouvido.
Tentei engolir em seco e não consegui. Minha cabeça voltou a girar, mas isso poderia ser por causa da fome. Minhas mãos estavam tremendo quando Jeb me puxou com ele através do buraco grande. O túnel se abriu em uma câmera tão grande que a princípio eu não conseguia aceitar o que meus olhos me diziam. O teto era alto e claro, como um céu artificial. Eu tentei ver o que o iluminava, mas a luz era tão forte que machucava meus olhos.
Eu esperava que a discussão ficasse mais alta, mas abruptamente ela parou. O piso era escuro. Eu levei um minuto para entender as sombras a minha frente.
Uma multidão. Não havia outra palavra para isso – havia uma multidão de humanos perfeitamente imóveis e silenciosos, todos me encarando com as mesmas expressões cheias de ódio.
Melanie estava muito chocada para fazer qualquer outra coisa além de contar. Dez, quinze, vinte... vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete...
Eu não me importei com quantos eram. Eu tentei dizer a ela que não importava, não precisaria de vinte deles para me matar. Para nos matar. Eu tentei fazer ela ver a delicadeza de nossa situação, mas naquele momento ela estava além de minhas advertências, perdida neste mundo humano que ela nunca sonhou existir.
Um homem deu um passo para frente, e meus olhos foram direto para suas as mãos tentando ver a arma que elas talvez pudessem carregar. Suas mãos estavam fechadas em punhos,
mas vazias. Meus olhos, se ajustando a luz, perceberam o tom bronzeado de sua pele, quem então reconheci.
Sufocando na onda de esperança que me aturdiu, eu ergui os olhos para rosto do homem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário