terça-feira, março 18, 2014

Disputada


Foi demais para nós duas, vê-lo aqui, agora, depois de aceitar que nunca mais o veríamos, depois de acreditar que nós o havíamos perdido para sempre. Fiquei paralisada, incapaz de reagir. Eu queria olhar para tio Jeb e entender a sua resposta angustiante no deserto, mas eu não conseguia mover meus olhos. Eu olhava para o rosto de Jared sem entender.
Melanie reagiu diferentemente.
— Jared — ela gritou, através de minha garganta machucada, o som quase um grasnado.
Ela me arrastou para frente, assumindo o controle, como havia feito no deserto. Dessa vez porém, fora pela força.
Eu não a consegui pará-la rápido o bastante.
Ela se jogou para frente e ergueu os braços para tocá-lo. Eu gritei um aviso para ela em minha cabeça, mas ela não estava escutando. Ela mal percebia que eu estava lá.
Ninguém tentou impedi-la exceto eu. Ela estava a centímetros dele e ainda não via o que eu vi. Ela não viu como o seu rosto havia mudado nos longos meses de separação, como tinha endurecido, as linhas de expressão puxavam em direções diferentes agora. Ela não percebeu que o sorriso inconsciente dele não se encaixava mais nesse novo rosto. Somente uma vez ela havia visto o seu rosto tornar-se sombrio e perigoso, e aquela expressão não era nada comparada a que ele usava agora. Ela não via, ou talvez não ligasse.
O alcance dele era maior que o meu. Antes de Melanie conseguir tocá-lo, o braço dele se ergueu e as costas de sua mão bateram em nosso rosto. O golpe foi tão forte que meus pés se ergueram do chão antes que minha cabeça batesse com força no piso de pedra. Ouvi o baque surdo que meu corpo fez ao bater forte no chão, mas eu não senti nada. Meus olhos giraram na órbita e um som de sino ressoou em meus ouvidos. Lutei contra a tontura que ameaçava me deixar inconsciente.
Idiota, idiota, protestei. Eu disse para você não fazer isso!
Jared está aqui, Jared está vivo, Jared está aqui. Ela agia de forma incoerente, repetindo as palavras como se fossem a letra de uma música.
Eu tentei focalizar os olhos, mas o teto estranho era ofuscante. Virei a cabeça para me desviar da luz e engoli um soluço quando o movimento enviou pontadas de dor pela lateral do meu rosto.
Eu mal conseguia lidar com a dor desse golpe espontâneo, que esperança eu tinha que suportar uma tortura intensa e calculada?
Houve um som de pés se movendo, meus olhos instintivamente procuraram pela ameaça, e vi tio Jeb parado sobre mim. Ele tinha uma das mãos meio estendida para mim, mas hesitava, olhando para o outro lado. Ergui minha cabeça um centímetro, sufocando outro gemido, para ver o que ele estava vendo.
Jared andava em nossa direção, sua expressão era a mesma dos bárbaros do deserto – mas ele era bonito em vez de assustador em sua fúria. Meu coração falhou e bateu irregularmente, e eu quis rir de mim mesma. Importava que fosse belo, que eu o amasse, se ele iria me matar?
Fitei sua expressão assassina e tentei manter a esperança de que a ira triunfaria sobre a crueldade, mas o verdadeiro desejo de morrer havia me deixado.
Jeb e Jared se encararam por um longo momento. O maxilar de Jared estava duramente pressionado, a face de Jeb estava calma. A confrontação silenciosa acabou quando Jared finalmente deu um suspiro de raiva contida e deu um passo para trás.
Jeb alcançou minha mão e colocou sua outra mão nas minhas costas para me ajudar a levantar. Minha cabeça girou e doeu; meu estômago se contorceu, e se ele não estivesse vazio há dias, eu teria vomitado. Parecia que meus pés nem tocavam o chão. Meu passo falhou e eu me lancei para frente. Jeb me firmou e segurou firme em meus cotovelos para não me deixar cair.
Jared observava tudo rangendo os dentes. Como uma idiota, Melanie se esforçou novamente em direção a ele. Mas eu já havia superado o choque e era menos tola que ela. Ela não passaria por mim novamente. Eu a prendi por trás de todas as grades que consegui criar em minha mente.
Fique quieta. Você não consegue ver que ele me detesta? Qualquer coisa que você diga vai piorar as coisas. Nós já estamos mortas.
Mas Jared está vivo, Jared está aqui. Ela cantarolou.
A tranquilidade na caverna se desfez; sussurros vinham de todos os lados, ao mesmo tempo, como se eu tivesse perdido alguma deixa. Eu não conseguia entender nada dos murmúrios.
Meus olhos percorreram a multidão de humanos – todos eram adultos, nenhuma figura menor, mais jovem entre eles. Meu coração doeu com a ausência, e Melanie lutou para fazer a pergunta. Eu a silenciei com firmeza. Não havia nada para se ver aqui, somente ódio e rostos estranhos, ou a raiva e ódio no rosto de Jared.
Até que outro homem abriu caminho pela massa que murmurava. Ele era magro e alto, sua estrutura óssea mais óbvia sob a pele que a maioria. Seu cabelo era curto, de um castanho-claro ou um louro bem escuro. Não havia raiva em seu rosto, razão pela qual ele capturou meu olhar.
Os outros abriram caminho para aquele homem despretensioso como ele tivesse algum status entre eles. Só Jared não se afastou, ele se manteve onde estava e mantinha seus olhos em mim. O homem alto deu a volta em Jared sem se incomodar com o obstáculo em seu
caminho.
— Okay, okay. — Ele disse em uma voz estranhamente alegre enquanto circundava Jared e parou para me encarar. — Eu estou aqui. O que vocês têm aí?
Foi tia Maggie quem respondeu, aparecendo ao lado dele.
— Jeb encontrou a coisa no deserto. Costumava a ser nossa sobrinha Melanie. Ela parecia estar seguindo as direções que ele deu a ela. — E deu um olhar irritado para Jeb.
— Hum, hum — o homem alto e esquelético murmurou, seus olhos me avaliando curiosamente. Era estranho, ele parecia aprovar o que via. Eu não conseguia entender por quê.
Meu olhar se afastou dele para outra mulher – uma jovem que também estava ao seu lado, a mão apoiada em seu braço – meus olhos atraídos por seu cabelo flamejante.
Sharon!, Melanie gritou.
A prima de Melanie percebeu o reconhecimento em meus olhos e sua expressão fechou.
Eu empurrei Melanie para o fundo da minha mente. Shhhhh!
— Hum, hum — o sujeito alto disse novamente, concordando com a cabeça. Ele ergueu uma mão para tocar o meu rosto e pareceu surpreso quando eu me afastei, me encolhendo para perto de Jeb. — Está tudo bem — o homem alto disse, sorrindo em encorajamento. — Eu não vou te machucar.
Ele avançou em direção ao meu rosto novamente. Eu me encolhi ao lado de Jeb novamente, mas Jeb flexionou o braço e me cutucou para frente gentilmente. O homem alto tocou minha mandíbula abaixo da minha orelha, seus dedos mais gentis do que eu esperava, e virou o meu rosto de lado. Eu senti seus dedos traçando a linha na parte de trás de meu pescoço, e eu percebi que ele estava examinando a cicatriz da minha inserção.
Eu observei Jared com o canto dos olhos. O que esse homem estava fazendo claramente o perturbava, e eu achei que sabia porquê – ele devia odiar essa linha rosada na minha nuca.
Jared franziu a testa, mas eu me surpreendi ao ver que parte da raiva havia desaparecido de seu rosto. Suas sobrancelhas estavam unidas em uma expressão de confusão.
O homem alto deixou sua mãos caírem e se afastou de mim. Seus lábios estavam pressionados; seus olhos ardentes com algum desafio.
— Ela parece bem saudável, exceto por um pouco de exaustão, desidratação e subnutrição recentes. Acho que você colocou água o bastante dentro dela para que a desidratação não interfira. Está tudo certo, então. — Ele fez um movimento estranho, inconsciente com as mãos, como se as estivesse lavando. — Vamos começar.
Então suas palavras e o breve exame se encaixaram e eu entendi – esse homem de aparência gentil que havia acabado de prometer não me machucar era o doutor.
Tio Jeb deu um suspiro profundo e fechou os olhos.
O doutor esticou a mão, me convidando a pegá-la. Eu fechei minhas mãos atrás de minhas costas. Sua boca franziu, mas não em raiva. Ele estava considerando o que fazer.
— Kyle, Ian? — ele chamou, virando a cabeça para achar as pessoas que ele chamou. Meus joelhos falharam quando os dois irmãos grandalhões de cabelos negros se aproximaram. — Acho que precisarei de ajuda. Talvez se vocês carregarem — começou o doutor, que não parecia assim tão alto ao lado dos dois irmãos.
— Não.
Todos se viraram para ver quem havia dito isso. Eu não precisei olhar,reconhecia a voz. Olhei para ele mesmo assim.
As sobrancelhas de Jared estavam franzidas com força sobre seus olhos; a boca retorcida numa careta estranha. Tantas emoções passavam pelo seu rosto que era difícil acompanhar. Raiva, desconfiança, confusão, ódio, aversão, medo... dor.
O doutor piscou, seu rosto ficando sem expressão com a surpresa.
— Jared? Algum problema?
— Sim.
Todos esperaram. Ao meu lado, Jeb estava segurando os cantos dos lábios, como se estivesse contendo um sorriso. Se era esse o caso, o velhote tinha um senso de humor muito estranho.
— E qual é o problema? — o doutor perguntou.
Jared respondeu pelos dentes.
— Eu te direi o problema, Doc. Qual é a diferença entre deixá-la para você ou deixar Jeb colocar uma bala na cabeça dela?
Eu tremi. Jeb deu uns tapinhas de conforto em meu braço.
O doutor piscou.
— Bem — foi tudo o que ele disse.
Jared respondeu sua própria pergunta.
— A diferença é que se Jeb matar a coisa, pelo menos ela morre de maneira limpa.
— Jared — a voz do doutor era apaziguadora, a mesma que ele usou comigo. — Nós aprendemos tanto a cada oportunidade... Talvez seja dessa vez...
— Sei! — Jared ironizou. — Eu não vejo muito progresso, Doc.
Jared irá nos proteger, Melanie pensou fracamente.
Era difícil se concentrar para formar palavras. Nós não, só o seu corpo.
É bem próximo... A voz dela parecia vir de longe, de fora da minha cabeça dolorida.
Sharon deu um passo adiante, de modo a colocar-se meio na frente do doutor em uma posição estranhamente protetora.
— Não há sentido em perder essa oportunidade — ela disse segura. — Todos nós percebemos que seja difícil para você Jared, mas no final das contas essa decisão não é sua. Nós temos que considerar o que é melhor para a maioria.
Jared olhou ameaçadoramente para ela.
— Não. — A palavra foi um rosnado.
Pude perceber que ele não havia sussurrado a palavra, mas houve uma calma em meus ouvidos. Na verdade, tudo ficou calmo de repente. Os lábios de Sharon se moviam, apontando seu dedo com ódio para Jared, mas tudo o que eu ouvia era um baixo murmúrio. Nenhum deles deu um passo, mas eles pareciam estar se afastando de mim.
Eu vi os irmãos se aproximarem de Jared com expressões raivosas. Eu senti minhas mãos tentarem se erguer em protesto, mas elas apenas se contraíram. O rosto de Jared ficou vermelho enquanto seus lábios se separavam, os tendões em seu pescoço visíveis como se ele estivesse gritando, mas eu não ouvia nada. Jeb soltou meu braço e eu vi o cinza-escuro do cano do rifle sendo levantado atrás de mim. Eu me encolhi para longe da arma, apesar de não estar apontada para mim. Isso me fez perder o equilíbrio, e fiquei olhando a sala virar muito lentamente para o lado.
desequilibrei e eu vi o cômodo se mover lentamente para um lado.
— Jamie — eu suspirei, enquanto a luz girava, fugindo de meus olhos.
O rosto de Jared estava de repente muito perto, se inclinando sobre mim com uma expressão selvagem.
— Jamie? — sussurrei novamente, dessa vez uma pergunta. — Jamie?
A voz grossa de Jeb respondeu de algum lugar distante.
— O garoto está bem. Jared o trouxe para cá.
Eu olhei para o rosto atormentado de Jared, que rapidamente desaparecia na névoa sombria que cobria meus olhos.
— Obrigada — murmurei.
E então eu me perdi na escuridão.a

Nenhum comentário:

Postar um comentário