terça-feira, março 18, 2014

Guardada


Quando recobrei a consciência, não havia nenhuma desorientação. Eu sabia exatamente onde estava, genericamente falando, e mantive meus olhos fechados e minha respiração regular. Tentei descobrir o máximo possível da minha situação sem revelar que já estava acordada.
Eu estava com fome. Meu estômago torcia, se revirava e fazia barulhos estranhos. Eu duvidei que esses barulhos fossem me entregar – tinha certeza de que ele tinha gorgolejado e protestado mesmo comigo dormindo.
Minha cabeça doía ao extremo. Era impossível dizer se doía devido a exaustão ou pelas pancadas que recebeu. Eu estava deitada sobre uma superfície dura. Áspera e... esburacada. Não era plana, mas curvada, como se eu estivesse deitada em uma tigela rasa. Não era confortável. Minhas costas e quadris doíam de ficar curvada naquela posição. Provavelmente foi a dor que me acordou; eu estava longe de me sentir descansada.
Estava escuro – eu podia dizer sem ter que abrir os olhos. Não completamente escuro, mas muito escuro. O ar estava ainda mais úmido do que antes – úmido e corrosivo, com um toque acre peculiar que parecia grudar no fundo da minha garganta. A temperatura era mais baixa do que no deserto, mas a umidade fazia quase tão desconfortável quanto. Eu estava suando novamente, a água que Jeb tinha me dado estava escapando pelos poros.
Eu podia ouvir minha respiração ecoar de alguns poucos centímetros de distância. Podia ser que eu estivesse perto de alguma parede, mas eu sentia que estava em um espaço muito pequeno. Ouvi com a maior atenção possível, e parecia que minha respiração ecoava do outro lado também.
Sabendo que eu provavelmente ainda estava em algum lugar do sistema de cavernas para onde Jeb me trouxera, eu tinha uma boa ideia do que eu veria quando abrisse os olhos. Eu tinha que estar em algum buraco pequeno daquela rocha de um escuro castanho-arroxeado e crivada de buracos, como um queijo suíço.
Tudo era silêncio, exceto pelos barulhos que o meu corpo fazia. Com medo deabrir os olhos, confiei em meus ouvidos e tentei me concentrar mais e mais no silêncio. Eu não consegui ouvir ninguém mais, e isso não fazia sentido. Eles não me deixariam sem um guarda, deixariam? Tio Jeb e sua espingarda onipresente, ou alguém menos simpático. Me deixar sozinha... isto não se encaixava na brutalidade deles, com seu medo e aversão natural pelo o que eu sou.
A não ser que...
Eu tentei engolir, mas o pavor fechou minha garganta. Eles não me deixariam sozinha a não ser que eu estivesse morta ou tivessem se certificado de que eu morreria. A não ser que houvesse lugares nessas cavernas de onde ninguém voltava.
As imagens que eu estava formando em minha mente mudavam tão rapidamente que me deixaram tonta. Eu me via no fundo de um fosso profundo ou emparedada em uma tumba apertada. Minha respiração acelerou, provando o ar e procurando estagnação, algum sinal de que meu oxigênio estava acabando. Os músculos em volta dos meus pulmões se expandiram, enchendo-se de ar para o grito que estava a caminho. Cerrei meus dentes para evitar que ele saísse.
Nítido e próximo, algo foi posto no chão ao lado da minha cabeça.
Dei um grito agudo, e o som foi assustador no pequeno espaço. Meus olhos se abriram. Saltei para longe do barulho sinistro, me apertando contra a parede de rocha encurvada. Minhas mãos se ergueram para proteger meu rosto enquanto minha cabeça dava dava uma dolorosa pancada no teto baixo.
Uma luz fraca iluminava a saída perfeitamente redonda da pequena bolha que era a caverna em que eu estava encolhida. O rosto de Jared estava meio iluminado enquanto ele se inclinou na abertura, um braço esticado em minha direção. Seus lábios estavam apertados de raiva. Uma veia em sua testa pulsava conforme ele observava minha reação de pânico.
Ele não se moveu; só me encarou furiosamente enquanto meu coração recomeçava a bater e minha respiração se acalmava. Eu o encarava também, lembrando o quão silencioso ele podia ser – como um fantasma quando queria. Não era de admirar que eu não o tivesse ouvido montando guarda do lado de fora da minha cela.
Mas eu tinha ouvido alguma coisa. Ao lembrar disso, Jared enfiou seu braço mais para o fundo, e o barulho se repetiu. Eu olhei para baixo. Aos meus pés havia uma chapa de plástico servindo como uma bandeja, e sobre ela...
Eu me lancei sobre a garrafa de água aberta. Eu mal percebi a torção de nojo nos lábios de Jared quando eu coloquei a garrafa na boca. Sabia que iria me incomodar mais tarde, mas tudo o que me importava agora era a água. Eu imaginei se alguma vez mais em minha vida eu iria desvalorizar o líquido novamente. Como a minha vida não estava com jeito de que fosse se prolongar, a resposta foi que provavelmente não.
Jared desapareceu , recuando na entrada circular. Eu podia ver um pedaço da manga da sua camisa e nada mais. A tênue luz vinha de algum lugar ao lado dele. Era uma cor azulada artificial.
Eu já havia bebido metade da garrafa quando um cheiro novo me informou que a água não era o único presente. Eu olhei para a bandeja novamente.
Comida. Eles estavam me alimentando?
Foi do pão – um rolo escuro e de formato irregular – que senti primeiro o cheiro, mas também havia uma tigela com um líquido claro e cheiro de cebolas. Ao inclinar-me, vi pedaços mais escuros no fundo. Ao lado havia três tubos curtos e grossos. Eu imaginei que fossem legumes, mas eu não reconheci a variedade.
Demorou somente um segundo para eu fazer essas descobertas, mas mesmo nesse curto tempo, meu estômago quase saltou pela minha boca tentando alcançar a comida.
Ataquei o pão. Era muito denso cheio de sementes de cereais que grudavam nos dentes. A textura era estranha mas o sabor maravilhosamente bom. Eu não conseguia lembrar de ter provado nada tão gostoso na minha vida, nem mesmo os Twinkies amassados. Minha mandíbula trabalhava o mais rápido que podia, mas eu engolia a maior parte do pão parcialmente mastigada. Pude ouvir cada pedaço de pão bater no meu estômago com um som de gorgolejo. Comer não foi tão bom quanto eu imaginei que seria. Após tanto tempo vazio, meu estômago reagiu à comida com desconforto.
Eu o ignorei e passei ao líquido – era sopa. Essa desceu fácil. Além da cebola, o sabor era moderado. Os pedaços verdes na sopa eram suaves e esponjosos. Bebi direto da tigela e desejei que ela fosse mais funda. Eu a virei no ar para ver se não havia ficado nenhuma gota.
Os legumes brancos eram de textura crocantes e e gosto amadeirado. Algum tipo de raiz. Não eram tão substanciosos quanto a sopa nem tão gostoso quanto o pão, mas eu agradeci pelo seu volume. Eu não estava satisfeita – nem perto – e provavelmente teria começado a comer a bandeja se achasse que fosse capaz de mastigar o plástico.
Não me ocorreu que eles não deviam estar me alimentando até que eu tivesse terminado. A não ser que Jared tenha perdido o confronto com o médico. Mas se esse fosse o caso porque Jared estaria mantendo guarda?
Eu empurrei a bandeja quando eu a esvaziei. Eu fiquei pressionada contra a parede no fundo enquanto Jared a recolhia. Dessa vez ele não olhou para mim.
— Obrigada — murmurei quando ele desapareceu novamente. Ele não disse nada, não houve mudança em sua expressão. Nem mesmo a ponta da manga aparecia agora, mas eu tinha certeza de que ele estava lá.
Não posso acreditar que ele tenha me batido, cismou Melanie, seu pensamento mais incrédulo que ressentido. Ela ainda não havia superado a surpresa. Eu não fiquei surpresa nem na hora. É claro que ele tinha me batido.
Eu já me perguntava onde você andava, respondi. Não seria muito educado me meter nessa confusão e depois me abandonar.
Ela ignorou o meu tom de reprovação. Eu não imaginei que ele fosse capaz, independente da circunstância. Eu não acho que eu poderia ter batido nele.
Claro que poderia. Se ele aparecesse na sua frente com reflexo nos olhos, você teria feito o mesmo. Você é naturalmente violenta. Eu a lembrei das suas fantasias de estrangular a Buscadora. Aquilo parecia ter acontecido meses atrás, embora eu soubesse que haviam sido somente dias. Faria sentido se fosse há mais tempo. Deveria levar tempo para a gente se meter em uma situação tão desastrosa quanto a minha.
Melanie tentou considerar imparcialmente a questão. Eu acho que não. Não Jared... não Jamie, eu jamais bateria em Jamie mesmo se ele fosse... Ela não continuou, odiando o fim do pensamento.
Eu considerei isso e descobri ser verdade. Mesmo que a criança tivesse se tornado outra coisa, ou alguém diferente, nenhuma de nós duas jamais ergueria a mão para ele.
Isso é diferente. Você é como... uma mãe. E mães são irracionais por aqui. Há muitas emoções envolvidas.
Maternidade é sempre emocional – até mesmo para vocês, as almas.
Eu não respondi essa.
O que você acha que vai acontecer agora?
Você é a expert em humanos, lembrei-lhe. Não deve ser uma coisa boa o fato de eles estarem nos dando comida. Eu só consigo pensar em um motivo para eles me quererem mais forte.
Os poucos dados que eu recordava sobre as brutalidades humanas históricas se misturavam na minha mente com as do velho jornal que lemos noutro dia. Fogo – isso era ruim. Melanie havia queimado todas as impressões digitais de sua mão direita em um acidente bobo, pegando uma panela que ela não sabia que estava quente. Ela se lembrava de como a dor a havia abalado, tão inesperadamente aguda e intensa.
Porém, foi apenas um acidente. Tratado rapidamente com gelo, pomadas e remédio. Ninguém havia feito de propósito, prolongado o sofrimento por um longo tempo...
Eu nunca tinha vivido em um planeta onde tais atrocidades pudessem acontecer, mesmo antes da chegada das almas. Este era realmente o mais alto e o mais baixo dos mundos – as mais belas sensações, as mais requintadas emoções... os desejos mais malévolos, os atos mais sombrios. Talvez tivesse de ser assim. Talvez sem os pontos baixos, não houvesse como alcançar os altos. As almas seriam a exceção a essa regra? Será que os humanos poderiam ver a luz sem a escuridão desse mundo?
Eu... senti algo quando ele bateu em você, Melanie interrompeu. As palavras vieram lentamente, como se ela não quisesse pensar nelas.
Eu também senti alguma coisa também. Era impressionante como o sarcasmo era natural agora, depois de passar tanto tempo com Melanie. Ele tem a mão pesada, não é?
Não foi isso que eu quis dizer. É que... Ela hesitou por um longo momento, e então o resto das palavras vieram de uma só vez. Pensei que isso dissesse respeito só a mim... o modo como nos sentimos por ele. Pensei que eu... estivesse no controle disso.
Os pensamentos por trás das palavras eram mais claros do que as palavras.
Você achou que tinha sido capaz de me trazer até aqui por que você queria muito. Que você estava me controlando e não o contrário. Tentei não ficar aborrecida. Você achou que estava me manipulando.
É. O seu tom envergonhado não era por eu estar aborrecida, mas porque ela não gostava de estar errada. Mas...
Esperei.
Veio em jorros novamente. Você está apaixonada por ele também, separada de mim. É diferente da forma como eu me sinto. Outro amor. Eu não percebi isso até ele estar lá conosco, até você ver Jared pela primeira vez. Como isso aconteceu? Como uma lacraia de oito centímetros se apaixona por um ser humano?
Lacraia?
Desculpe-me. Imagino que você tem meio que... pernas.
Na verdade, não. São mais como antenas. E tenho bem mais que oito centímetros quando elas estão estendidas.
Que seja, a questão é: ele não é da sua espécie.
Meus corpo é humano, disse-lhe. Enquanto eu estiver ligada a ele, eu sou humana também. E o modo como você vê Jared em suas memórias... Bem, a culpa é toda sua.
Ela refletiu sobre isso por um momento, e não gostou muito.
Então se você tivesse ido a Tucson e arranjado um corpo novo, você não o amaria mais agora?
Eu espero realmente, realmente mesmo, que sim.
Nenhuma de nós ficamos satisfeitas com minha resposta. Eu apoiei a cabeça sobre o joelho. Melanie mudou de assunto.
Pelo menos Jamie está a salvo. Eu sabia que Jared poderia tomar conta dele. Tendo que deixá-lo, eu não podia ter confiado em melhores mãos... Tomara que eu possa vê-lo.
Eu não vou pedir isso! Eu estremeci ao pensar na resposta que estepedido receberia.
Ao mesmo tempo, eu ansiava ver o rosto do menino também. Queria ter certeza de que ele estava aqui, realmente seguro – que eles o estavam alimentando e cuidando dele do jeito que Melanie nunca mais poderia. Do modo como eu, mãe de ninguém, queria cuidar dele. Ele tinha alguém para cantar para ele à noite? Para contar histórias? Esse novo e irritado Jared pensaria nessas coisas? Ele teria alguém para se agarrar quando estivesse com medo?
Você acha que vão dizer a ele que eu estou aqui? Melanie perguntou.
Isso o ajudaria ou o magoaria? Eu perguntei de volta.
Seu pensamento foi um sussurro. Eu não sei... Eu gostaria de dizer a ele que eu mantive a minha promessa.
Você certamente manteve. Eu balancei a cabeça, pasma. Ninguém pode dizer que você não voltou, como sempre.
Obrigada por isso. Sua voz estava fraca. Eu não soube dizer se ela estavaagradecendo pelas minhas palavras ou pelo ato de eu tê-la trazido até aqui.
Subitamente, eu estava exausta – e pude sentir que ela também. Agora que meu estômago tinha se acalmado um pouco e parecia quase satisfeito, o resto das minhas dores não eram fortes o suficiente para me manter acordada. Eu hesitei antes de me mover, com medo de fazer qualquer barulho, mas meu corpo queria se endireitas e se esticar. Eu fiz isso o mais silenciosamente que pude, tentando encontrar uma parte na bolha grande o suficiente para mim. Finalmente, tive quase que enfiar os pés para fora da abertura. Não gostei de fazer isso, preocupada que Jared pudesse ouvir o movimento perto dele e achar que eu estava tentando escapar, mas ele não reagiu de forma alguma. Eu apoiei o lado bom do meu rosto sobre o braço, tentei ignorar como a curvatura do chão dava cãibra em minha espinha e fechei meus olhos.
Acho que dormi, mas se dormi, não foi profundamente. O ruído de passos ainda estava longe quando eu acordei, plenamente desperta.
Dessa vez eu abri os olhos de uma vez. Nada havia mudado – eu ainda podia ver a tênue luz azulada através do buraco redondo; eu continuava sem poder ver se Jared estava ou não lá fora. Alguém estava vindo para cá – foi fácil ouvir os passos se aproximando. Eu puxei meus pés da abertura, me movendo o mais silenciosamente que podia, e me encolhi contra a parede do fundo novamente. Eu adoraria poder me levantar, me faria sentir menos vulnerável, mais preparada para o que quer que estivesse vindo. O teto baixo da bolha mal me permitia ajoelhar.
Houve um lampejo de movimento fora da minha prisão. Eu vi parte do pé de Jared quando ele se levantou silenciosamente.
— Ah, aqui está você. — Um homem disse. As palavras soaram tão altas após o vazio silencioso que dei um pulo. Eu reconheci a voz. Era um dos irmãos que eu tinha visto no deserto – o que carregava o facão, Kyle.
Jared não falou.
— Nós não vamos permitir isso Jared. — Era uma voz diferente, mais razoável. Provavelmente o irmão mais novo, Ian. As vozes dos irmãos eram muito parecidas – ou seriam, se Kyle não estivesse sempre gritando, seu tom sempre carregado de raiva. — Todos nós perdemos alguém, droga! Nós perdemos todo mundo. Mas isso é ridículo.
— Se você não a entregar para Doc, então ela tem que morrer — Kyle acrescentou, sua voz um grunhido.
— Você não pode mantê-la prisioneira aqui — Ian continuou. — Eventualmente, ela irá escapar e todos nós estaremos expostos.
Jared não falou, mas deu um passo para o lado ficando diretamente na frente da abertura da minha cela.
Meu coração bateu forte e rápido quando entendi o que os irmãos estavam dizendo. Jared tinha vencido. Eu não seria torturada. Não seria morta – não imediatamente, pelo menos. Jared estava me mantendo prisioneira.
Prisioneira parecia uma bela palavra sob essas circunstâncias.
Eu disse a você que ele iria nos proteger.
— Não dificulte as coisas Jared — disse uma nova voz masculina que eu não reconheci. — Isso tem que ser feito.
Jared não disse nada.
— Nós não queremos machucar você Jared. Somos todos irmãos aqui. Mas nós o machucaremos se você nos obrigar. — Não havia blefe na voz de Kyle. — Saia daí.
Jared continuou imóvel.
Meu coração começou a bater mais rápido que antes, saltando contra minhas costelas com tanta força que o martelar perturbou o ritmo de meus pulmões, tornando difícil eu respirar. Melanie estava incapacitada pelo medo, incapaz de formar frases coerentes.
Eles vão machucá-lo. Esses humanos lunáticos vão atacar um dos seus.
— Jared... por favor — disse Ian.
Jared não respondeu.
Um passo pesado, uma investida e o ruído de algo pesado acertando uma coisa sólida. Um arfar, um murmúrio sufocado.
— Não! — eu gritei, e me lancei pelo buraco redondo.

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