terça-feira, março 18, 2014

Encarregados


A borda da saída de pedra estava gasta, mas arranhei a palma das mãos e as canelas ao passar por ela. Doeu, dura como eu estava, ficar ereta, e minha respiração falhou. Minha cabeça girou quando o sangue fluiu para baixo.
Só procurei uma coisa – onde estava Jared, para que eu pudesse me colocar entre ele e seus agressores.
Todos ficaram paralisados no lugar, me encarando. Jared estava de costas na parede, seus punhos fechados junto ao corpo. Na frente dele, Kyle estava dobrado sobre si mesmo, a mão no estômago. Ian e o outro estranho o flanqueavam alguns passos para trás, suas bocas abertas com o choque. Eu tirei vantagem da surpresa deles e em dois longos passos me postei entre Kyle e Jared.
Kyle reagiu primeiro. Eu estava a menos de meio metro dele, e seu instinto inicial foi de me afastar. Sua mão agarrou meu ombro e me empurrou para o chão. Antes que eu pudesse cair, algo agarrou meu pulso e me ergueu.
Assim que percebeu o que havia feito, Jared soltou meu pulso como se minha pele fosse de
ácido.
— Volte para dentro — ele rosnou para mim. Ele empurrou meu ombro também, mas não tão forte quanto o empurrão de Kyle. Fui aos tropeços meio metro para trás, de volta ao buraco na parede.
O buraco era um círculo negro no corredor estreito. Fora da pequena prisão a caverna maior parecia exatamente igual, só que mais longa e mais alta, um tubo ao invés de uma bolha. Uma lâmpada pequena no chão – alimentada por uma força que eu não podia imaginar – iluminava debilmente o corredor. A luz lançava estranhas sombras nos traços dos homens, as transformando em monstros assustadores.
Dei um passo na direção deles outra vez, dando as costas para Jared.
— É a mim que vocês querem — eu disse diretamente para Kyle, — deixem ele em paz.
Ninguém disse nada por um longo segundo.
— Canalha traiçoeira — Ian finalmente resmungou, os olhos arregalados com horror e repugnância.
— Eu disse para voltar para dentro — Jared sibilou atrás de mim.
Eu me virei parcialmente, não querendo perder Kyle de vista.
— Não é sua obrigação me defender às suas custas.
Jared fez uma careta, uma mão se erguendo novamente para me empurrar de volta para a
cela outra vez.
Eu desviei dele, o movimento me colocando perto dos que queriam me matar.
Ian agarrou meus braços e segurando-os nas minhas costas. Eu lutei instintivamente, mas ele era muito forte. Forçou demais minhas juntas para trás, e eu arquejei.
— Tire suas mãos de cima dela! — Jared gritou, atacando.
Kyle o segurou e o girou num golpe de luta romana, forçando o pescoço dele para frente. O outro homem agarrou um dos braços de Jared, que se debatiam violentamente.
— Não o machuquem! — griteii. Eu lutei contra as mãos que me aprisionavam.
O cotovelo livre de Jared bateu no estômago de Kyle, que esgasgou e afrouxou o aperto. Jared se girou para longe dele e então se projetou de volta, dando um soco no nariz de Kyle. Vermelho-escuro, o sangue espirrou na parede e na pequena lâmpada.
— Acabe com a coisa, Ian! — Kyle gritou. Ele abaixou a cabeça e correu em direção a Jared, jogando-o contra o outro homem.
— Não — Jared e eu gritamos ao mesmo tempo.
Ian largou meus braços e suas mãos foram para o meu pescoço, tirando todo o meu ar. Arranhei as mãos deles com minhas unhas curtas e inúteis. Ele me apertou mais forte, me erguendo do chão.
Doía – as mãos estrangulando, o pânico súbito de meus pulmões. Era agonizante. Eu me contorci, mais para me livrar da dor do que das mãos assassinas.
Clique, clique.
Eu só tinha ouvido esse som uma vez, mas o reconheci. E os outros também. Todos pararam, Ian com suas mãos fechadas em meu pescoço.
— Kyle, Ian, Brandt, afastem-se! — Jeb ordenou.
Ninguém se moveu – somente as minhas mãos, ainda unhando e meus pés, se debatendo no ar.
Jared subitamente se livrou dos braços imobilizados de Kyle e correu para mim. Eu vi seu punho voando na direção do meu rosto e fechei os olhos.
Um som alto soou a centímetros de minha cabeça. Ian gritou de dor e eu caí no chão. Eu me larguei ali mesmo aos pés dele, desesperada por ar. Jared se afastou após um olhar zangado em minha direção e foi ficar ao lado de Jeb.
— Vocês são hóspedes aqui garotos, e não se esqueçam disso — Jeb grunhiu. — Eu disse para não sair procurando pela garota. Ela é minha hóspede também, por ora, e eu não ceito que nenhum de meus hóspedes mate outro.
— Jeb — Ian reclamou acima de mim, sua voz abafada pela mão que cobria sua boca. — Jeb. Isso é loucura.
— Qual é o seu plano? — Kyle perguntou. Seu rosto estava todo respingado de sangue, uma visão macabra e violenta. Mas não havia evidência de dor em sua voz, só raiva controlada. — Nós temos o direito de saber. Nós temos que decidir se esse lugar ainda é seguro ou se é hora de ir. Então... por quanto tempo você vai manter a coisa como bicho de estimação? O que você vai fazer com ela quando parar de brincar de Deus? Todos nós merecemos as respostas para essas perguntas.
As palavras incomuns de Kyle ecoaram por trás da pulsação na minha cabeça. Manter-me como um bichinho de estimação? Jeb me chamou de hóspede... Outra palavra para prisioneira? Seria possível que existissem dois humanos que não me quisessem morta? Se fosse verdade, tratava-se de um pequeno um milagre.
— Não tenho suas respostas, Kyle — Jeb disse. — Não cabe a mim responder.
Eu duvidava que qualquer outra resposta de Jeb os teria deixado mais confusos. Todos os quatro homens, Kyle, Ian, o que eu não conhecia e até Jared o encaravam em choque. Eu ainda estava no chão ofegante aos pés de Ian, desejando poder voltar para o buraco sem ser notada.
— Não depende de você? — Kyle finalmente ecoou, ainda surpreso. — De quem então? Se você está pensando em colocar isso em votação, já foi feito. Ian, Brandt e eu somos os encarregados, viemos por o resultado em ação.
Jeb sacudiu sua cabeça – um movimento leve que não tirou seus olhos nem por um instante dos homens a frente dele.
— Não está aberto a votação. Essa ainda é a minha casa.
— Quem então? — Kyle gritou.
O olhar de Jeb recaiu sobre Jared.
— A decisão é de Jared.
Todos, inclusive eu, encararam Jared.
Ele olhou embasbacado para Jeb, tão surpreso quanto os demais, e cerrou os dentes com um som audível. Ele lançou um olhar de puro ódio na minha direção.
— Jared? — Kyle perguntou, encarando Jeb novamente. — Isso não faz sentido! — Ele estava descontrolado agora, quase cuspindo de raiva. — Ele é o mais parcial de todos! Por quê? Como ele pode ser racional sobre isso?
— Jeb, eu não... — Jared murmurou.
— Ela é sua responsabilidade, Jared — Jeb disse em um tom de voz firme. — Eu vou te ajudar, claro, se houver mais problemas como esse, e a manter os olhos nela e tudo mais. Mas para tomar decisões a responsabilidade é sua. — Ele ergueu uma mão para silenciar o protesto de Kyle. — Veja dessa forma Kyle. Se nós tivéssemos encontrado a sua Jodi em uma incursão e a trouxéssemos, você gostaria que eu, Doc ou qualquer outro decidisse o que fazer com ela?
— Jodi está morta. — Kyle sibilou, o sangue escorrendo da sua boca. Ele me olhou quase com a mesma expressão que Jared havia usado.
— Bem, se o corpo dela entrasse aqui, iria depender de você. Você gostaria que fosse de outra forma?
— A maioria...
— Minha casa, minhas regras — interrompeu Jeb asperamente. — Chega de discussão sobre isso. Chega de votações. Chega de tentativas de execução. Vocês três espalhem a notícia; é assim que vai ser daqui em diante. Regra nova.
— Mais uma? — Ian murmurou baixinho.
Jeb o ignorou.
— Se, por mais improvável que possa ser, algo assim acontecer novamente, aquele ou aquela a quem o corpo disser respeito, seja quem for, tem o poder da decisão. — Jeb apontou o cano da arma na direção de Kyle, então apontou para o corredor atrás dele. — Saia daqui. Eu não quero ver vocês perto daqui novamente. E contem a todo mundo que esse corredor está interditado, ninguém tem nenhuma razão para ficar aqui exceto Jared, e se eu pegar alguém andando às escondidas aqui, faço as perguntas depois. Entenderam? Vão. Agora. — Ele apontou a arma para Kyle novamente.
Eu fiquei surpresa quando vi os três assassinos irem imediatamente para o corredor, sem nem ao menos parar para dar uma careta de despedida a mim ou a Jeb.
Eu realmente queria acreditar que a arma nas mãos de Jeb não passava de um blefe.
Desde a primeira vez que eu o vi, Jeb não demonstrara nada mais que bondade. Ele nunca me tocara com violência; nem mesmo me olhara com hostilidade. E agora parecia que ele era a única das duas pessoas que não tinha intenções violentas contra mim. Jared podia ter lutado para me manter viva, mas era óbvio que ele sofria um conflito intenso por causa dessa decisão. Eu tinha a impressão que ele podia mudar de ideia a qualquer momento. Pela sua expressão, era claro que ele queria acabar com tudo isso – especialmente agora que Jeb colocara a decisão sob seus ombros. Enquanto eu fazia essas análises, Jared me encarava com raiva e aversão caladas em todas as linhas de sua expressão.
No entanto, por mais que eu quisesse acreditar que Jeb estava blefando enquanto eu observava os três homens desaparecerem na escuridão afastando-se de mim, ficou óbvio que era completamente impossível que ele estivesse. Sob a fachada que ele apresentava, Jeb devia ser tão mortal e cruel quanto o restante deles. Se ele não tivesse usado aquela arma no passado – usado para matar, não para ameaçar – ninguém o teria obedecido daquele modo.
Tempos de desesperados, Melanie murmurou. Nós não podemos nos dar ao luxo de sermos gentis no mundo que vocês criaram. Nós somos fugitivos, uma espécie em perigo de extinção. Cada escolha é uma escolha de vida ou morte.
Shhhh, eu não tenho tempo para debate. Preciso me concentrar.
Jared estava diante de Jeb agora, uma das mãos estendida diante de si, a palma para cima, os dedos sem firmeza. Agora que os outros tinham partido, seus corpos cederam numa compostura mais descontraída. Jeb estava até sorrindo por baixo de sua espessa barba, como se tivesse gostado do conflito. Estranhos humanos.
— Por favor, não coloque esse peso nas minhas costas, Jeb. — Jared disse. — Kyle está certo sobre uma coisa – eu não posso tomar uma decisão racional.
— Ninguém disse que você tem que decidir nesse instante. Ela não vai a lugar nenhum. — Jeb olhou para mim, ainda sorrindo. O olho que estava mais perto de mim – o que Jared
não podia ver – fechou rapidamente e abriu de novo. Uma piscada. — Não depois do trabalhão que teve para chegar aqui. Você tem muito tempo para pensar sobre o assunto.
— Não há nada para pensar. Melanie está morta. Mas eu não posso... não consigo... Jeb é só... — Jared não conseguiu terminar a frase.
Diga a ela ele!
Eu não estou pronta para morrer nesse exato momento.
— Não pense sobre o assunto então — Jeb disse a ele. — Talvez você pense em algo depois. Dê tempo ao tempo.
— O que vamos fazer com ela? Nós não podemos ficar vigiando vinte e quatro horas por dia.
Jeb balançou a cabeça.
— É exatamente o que teremos que fazer por um tempo. As coisas vão se acalmar. Nem mesmo Kyle consegue manter uma ira assassina por mais que umas poucas semanas.
— Umas poucas semanas? Nós não podemos nos dar o luxo de manter guarda aqui por umas poucas semanas. Nós temos outras coisas...
— Eu sei, eu sei — Jeb suspirou. — Eu vou dar um jeito.
— E isso é só metade do problema. — Jared olhou para mim novamente, a veia em sua testa pulsou. Onde vamos mantê-la? Não é como se nós tivéssemos uma cela aqui.
Jeb sorriu para mim.
— Você não vai criar nenhum problema para nós, vai?
Eu o encarei sem dizer nada.
— Jeb — Jared murmurou, desconcertado.
— Oh, não se preocupe com ela. Em primeiro lugar, nós a vigiaremos. Em segundo, ela nunca
será capaz de achar o caminho para fora daqui – ela vagaria perdida até esbarrar em alguém. O que nos leva à numero três: Ela não é estúpida. — Ele ergueu um grossa sobrancelha para mim. — Você não vai sair procurando por Kyle e o restante deles, vai? Eu não acho que eles gostem muito de você.
Eu só o encarei, cautelosa com seu tom descontraído de bate-papo.
— Eu gostaria que você não falasse com ela assim — Jared resmungou.
— Fui criado em uma época mais educada, garoto. Eu não posso evitar. — Jeb pôs uma mão no ombro de Jared, dando-lhe tapinhas leves. — Olhe, você teve uma noite cheia. Deixe eu assumir a vigia daqui. Durma um pouco.
Jared pareceu a ponto de protestar, mas então olhou para mim novamente e sua expressão endureceu.
— Como quiser, Jeb. E... eu não... eu não vou aceitar ser responsável por esta coisa. Mate-a se achar que é o melhor.
Recuei, sobressaltada.
Jared olhou zangado diante da minha reação, então se virou abruptamente e foi pelo mesmo caminho que os outros tinham ido. Jeb ficou olhando ele se afastar. Enquanto ele estava distraído, engatinhei de volta ao meu buraco.
Eu ouvi Jeb se acomodar lentamente no chão ao lado da abertura. Ele suspirou e se espreguiçou, estalando algumas juntas. Após alguns minutos começou a assobiar baixinho. Era uma melodia alegre.
Eu me encolhi e dobrei meus joelhos, pressionando minhas costas contra o fundo da pequena cela. Um tremor começou na base das minhas costas, subindo e descendo na minha coluna. Minhas mãos tremeram, e meus dentes bateram devagar, apesar do calor encharcado.
— Deite-se e durma um pouco também — Jeb disse, eu não sabia se para mim ou para si mesmo. — Amanhã será um dia difícil.
Os tremores passaram após algum tempo – meia hora talvez. Quando eles se foram, eu me sentia exausta. Decidi seguir o conselho de Jeb. Embora o chão estivesse ainda mais desconfortável que antes, em segundos eu estava inconsciente.

O cheiro de comida me acordou. Dessa vez eu estava grogue e desorientada quando abri os olhos. Um pânico instintivo fez com que minhas mãos tremessem antes de eu estar completamente consciente.
A mesma bandeja estava no chão ao meu lado, o conteúdo idêntico. Eu podia ver e ouvir Jeb. Ele estava sentado na frente da caverna, de perfil, olhando para frente, para o longo corredor e assobiando suavemente.
Guiada pela forte sede, eu me sentei e agarrei a garrafa aberta de água.
— Bom dia — Jeb me cumprimentou com um movimento de cabeça.
Fiquei paralisada, minha mão na garrafa, até ele virar a cabeça para frente e voltar a assobiar.
Só então, não tão desesperadamente sedenta quanto antes, é que eu notei o estranho gosto da água. Era parecido com o sabor acre do ar, mas ligeiramente mais forte. O sabor forte permaneceu na minha boca.
Eu comi rapidamente, dessa vez deixando a sopa por último. Meu estômago reagiu melhor hoje, aceitando a comida com mais benevolência, ele quase não fez barulho.
Meu corpo tinha outras necessidades, porém, agora que as mais urgentes haviam sido saciadas. Eu olhei ao redor da minha escura e apertada cela. Não havia muitas opções visíveis. Mas eu não conseguia conter o meu medo e fazer o pedido, mesmo para o bizarramente amigável Jeb.
Eu fiquei me balançando para frente e para trás, debatendo em silêncio. Meus quadris doíam por ficarem curvados no formato da caverna.
— Hmmm — Jeb disse.
Ele estava olhando para mim novamente, seu rosto com uma cor ainda mais profunda sob o cabelo branco.
— Você está enfiada aí dentro faz horas... não estaria precisando... sair?
Eu concordei com um movimento de cabeça.
— É, uma caminhada seria boa. — Sua voz estava animada. — Bom, é melhor eu te avisar, nós teremos que passar por... uma espécie de praça principal, por assim dizer. Não se preocupe, eu acho que todo mundo deve ter entendido a mensagem a essa altura. — Inconscientemente, ele acariciou o cano da sua arma.
Eu tentei engolir. Minha bexiga estava tão cheia que chegava a doer, impossível de ignorar. Mas passear bem no meio da multidão de assassinos raivosos? Ele não podia simplesmente me trazer um balde?
Ele mediu o pânico em meus olhos – viu a forma com que eu automaticamente me retraí ao fundo da caverna – e seus lábios se contraíram em especulação. Então ele se virou e começou a caminhar para o corredor.
— Siga-me — ele disse, sem olhar para ver se eu estava obedecendo.
Eu tive uma visão bem vívida de Kyle me encontrando aqui sozinha – e estava atrás de Jeb antes que um segundo se passasse, saltando desajeitada pela abertura e mancando com minhas pernas adormecidas, andando rápido para alcançar Jeb. Eu me sentia tanto péssima quanto ótima de estar me erguendo novamente – a dor era aguda, mas o alívio era ainda maior.
Eu estava bem atrás dele quando chegamos ao final do corredor; a escuridão cobria a saída oval. Eu hesitei, olhando a pequena lâmpada que ele deixara no chão. Era a única luz na caverna escura. Será que era para eu levar?
Ele me ouviu parar e se virou para espiar por cima do ombro. Eu apontei em direção à luz, e olhei de volta para ele.
— Deixe aí. Conheço o caminho. — E estendeu a mão para mim.
Eu olhei para a mão por um momento e então, sentindo a urgência na minha bexiga, coloquei minha mão lentamente na palma dele, mal a tocando – do jeito que eu tocaria numa cobra se por ventura eu tivesse que fazê-lo.
Jeb me guiou através da escuridão com passos rápidos e seguros. O longo túnel seguia em uma série de curvas confusas em direções opostas. Ao contornarmos mais uma curva fechada em formato de V, eu soube que estava perdida. Eu tinha certeza que era isso era proposital, bem como soube a razão pela qual Jeb não me deixou trazer a lâmpada. Ele não queria que eu soubesse me orientar nesse labirinto.
Eu estava curiosa sobre como esse lugar foi formado, como Jeb o encontrara e os outros tinham chegado aqui. Mas eu me forcei a ficar de boca fechada, parecia que essa era minha melhor opção agora. O que eu estava esperando, eu não sabia. Alguns dias a mais de vida? Só uma cessação da dor? Havia alguma coisa a mais para mim? Tudo o que eu sabia é que não estava pronta para morrer, como eu tinha dito a Melanie antes; meu instinto de sobrevivência era tão desenvolvido quanto o dos humanos.
Nós fizemos outra curva, e a primeira luz nos atingiu. À frente, uma fenda estreita brilhava com a luz vinda de uma outra sala. Ela não era artificial como a pequena lâmpada na minha caverna. Era branca demais, pura demais.
Não dava para passar lado a lado pela fenda, então Jeb foi primeiro, puxando-me logo atrás. Uma vez atravessada – e capaz de ver novamente – tirei minha mão da mão da dele. Ele não reagiu, apenas colocou a mão livre de volta na arma.
Nós estávamos em um túnel curto, e uma luz mais brilhante irradiava através de um rústico vão arqueado, como um vão de porta. As paredes eram da mesma rocha púrpura esburacada.
Então pude ouvir vozes. Estavam baixas, menos urgentes que da última vez que eu ouvi o burburinho de uma multidão humana. Ninguém estava nos esperando hoje. Eu só podia imaginar qual seria a resposta à minha aparição com Jeb. Minhas palmas estavam frias e úmidas; minha respiração saía aos solavancos. Eu me aproximei o máximo que pude de Jeb sem tocá-lo de fato.
— Relaxe. — Ele murmurou, sem se virar. — Eles estão têm mais medo de você do que você deles.
Eu duvidava disso. Mesmo se houvesse algum meio de que isso fosse verdade, o medo rapidamente se transformava em ódio e violência no coração humano.
— Eu não deixarei ninguém te machucar. — Jeb murmurou quando alcançamos o arco. — De qualquer modo, é melhor eles irem se acostumando.
Eu queria perguntar o que ele quis dizer com isso, mas ele entrou no cômodo seguinte. Eu o segui devagar, meio passo atrás, me escondendo atrás de seu corpo o quanto possível. A única coisa pior do que entrar nesse cômodo era a ideia de ficar para trás de Jeb e ficar sozinha aqui.
Um silêncio súbito se seguiu a nossa entrada.
Nós estávamos na gigantesca e clara caverna de novo, a mesma que eles tinham me levado primeiro. Há quanto tempo tinha sido? Eu não fazia ideia. O teto ainda estava claro demais para eu poder ver o que o iluminava. Eu não havia notado antes, mas as paredes não eram inteiriças – dúzias de aberturas irregulares davam para túneis adjuntos. Algumas das aberturas eram enormes, outras não eram grandes o bastante para um homem entrar abaixado; algumas eram naturais, outras, se não foram feitas totalmente por mãos humanas, foram pelo menos aumentadas.
Várias pessoas nos observavam por essas fendas, paralisadas no ato de ir e vir. Mais pessoas estavam na área aberta, seus corpos surpreendidos nos mais variados movimentos que a nossa entrada interrompera. Uma mulher estava se curvando para amarrar os sapatos. Os braços imóveis de um homem que ficaram no ar, erguidos para ilustrar algum argumento que ele apresentava aos companheiros. Outro homem hesitava, capturado em desequilíbrio numa súbita parada. Como lutava para não cair, seu pé bateu forte no chão; o barulho foi o único som no vasto espaço. Ecoou pela câmara.
Era fundamentalmente errado da minha parte se sentir aliviada pela presença da medonha arma nas mãos de Jeb... mas eu me senti. Eu sabia que sem ela nós provavelmente teríamos sido atacados. Esses humanos não deixariam de machucar Jeb se fosse para me pegar. Não obstante, nós poderíamos ser atacados mesmo com a arma. Jeb só poderia atirar em um de cada vez.
A imagem na minha mente se tornou tão pavorosa que eu não pude suportar. Tentei me focar no que acontecia ao meu redor, o que já era ruim o suficiente.
Jeb parou por um momento, a arma segura na altura de sua cintura, apontando para frente. Ele examinou toda a câmara, parecendo fixar o olhar em cada pessoa presente. Havia menos de vinte pessoas ali, não demorou muito. Quando ficou satisfeito com a sua inspeção, ele foi em direção à parede esquerda da caverna. Com o sangue pulsando forte nas minhas têmporas, eu o segui como se fosse sua sombra.
Ele não andou diretamente através da caverna, se manteve perto da curva da parede. Eu me perguntei sobre o motivo desse caminho até que percebi uma grande área de solo mais escuro que ocupava o centro do piso – um espaço muito grande. Ninguém estava sobre esse quadrado, eu nem conseguia imaginar a razão da anomalia.
Houve pequenos movimentos enquanto circulávamos o cômodo silencioso. A mulher inclinada se ergueu, virando-se para nos ver passar. O homem que gesticulava cruzou os braços. Todos os olhos se estreitaram, e todas as expressões se fecharam com raiva. No entanto, ninguém se moveu em nossa direção, e ninguém falou. O que quer que Kyle e os outros tivessem dito sobre o confronto com Jeb, pareceu ter tido o efeito que Jeb esperava.
Enquanto passávamos eu notei Sharon e Maggie nos olhando da grande abertura. Suas expressões estavam vazias, os olhos, frios. Elas não olhavam para mim, só para Jeb. Ele as ignorou.
Parecia que anos tinham se passado quando finalmente alcançamos o lado oposto da caverna. Jeb se dirigiu para uma saída de tamanho médio, negra em comparação com a luminosidade do espaço de onde saímos. Os olhos às minhas costas fizeram meu couro cabeludo formigar, mas não ousei olhar para trás. Os humanos ainda estavam em silêncio, contudo eu temia que eles ainda pudessem nos seguir. Foi um alívio entrar na escuridão da nova passagem. A mão de Jeb tocou meu cotovelo para me guiar, e eu não me afastei. O murmúrio de vozes não recomeçou atrás de nós.
— Isso foi melhor do que eu esperava. — Jeb murmurou enquanto me guiava pela caverna. Suas palavras me surpreenderam, e eu fiquei feliz de não saber o que ele imaginava que podia ter acontecido.
O chão se inclinou para baixo sob meus pés. Adiante, uma luz tímida me guardava da total cegueira.
— Aposto que você nunca viu um lugar como este aqui. — A voz de Jeb estava mais alta agora, de volta ao tom de conversa casual de antes. — É realmente impressionante, não é?
Ele pausou brevemente, para o caso de eu responder, e então continuou.
— Encontrei isso aqui nos anos 1970. Bem, o lugar me encontrou. Eu caí pelo teto de uma grande câmara... provavelmente devia ter morrido pela queda, mas para minha sorte, eu sou muito resistente. Demorou até encontrar a saída. Eu estava com fome o suficiente para comer pedra quando consegui. Eu era o único no rancho nessa época, então não havia ninguém para mostrar, eu explorei cada canto e fissura, e vi as possibilidades. Eu decidi que era uma boa carta para manter na manga, só por precaução. É assim que nós, os Stryders, somos – gostamos de estar preparados.
Nós passamos pela tímida luz – vinha de um buraco do tamanho de um punho no teto, fazendo um pequeno círculo de claridade no chão. Quando ficou para trás, eu pude ver outro ponto de iluminação à frente.
— Você provavelmente deve estar curiosa sobre como tudo isso veio para aqui. — Outra pausa, mais curta que a anterior. — Eu sei que eu fiquei. Eu fiz uma pequena pesquisa. São tubos de lava – dá para acreditar? Costumava a ser um vulcão. Não está exatamente extinto, como você logo verá. Todas essas cavernas e buracos são bolhas de ar que ficaram presas na lava resfriada. Trabalhei um bocado nelas nas últimas décadas. Algumas coisas foram fáceis, como juntar os tubos para fazer corredores. Outras partes exigiram mais da minha imaginação. Você viu o teto do cômodo maior? Aquilo levou anos para ficar do jeito certo.
Eu queria perguntar como, mas eu não consegui falar. O silêncio era mais seguro.
O terreno começou a descer em um ângulo mais acentuado. Ele transformou-se em degraus, mas que pareciam ser bastante seguros. Jeb me guiava por eles com segurança. Conforme descíamos mais e mais para baixo, o calor e a umidade aumentavam.
Eu enrijeci ao ouvir o murmurinho de vozes outra vez, agora vindo da frente. Jeb afagou minha mão gentilmente.
— Você irá gostar dessa parte... é sempre a preferida de todos. — Prometeu ele.
Um amplo arco aberto emitia uma luz trêmula. Era da mesma cor que a do cômodo maior, pura e branca, mas brilhava em um ritmo dançante estranho. Como todas as outras coisas que eu não entendia nessas cavernas, aquilo me assustou.
— Aqui estamos. — Jeb disse entusiasmado, me empurrando pelo arco. — O que você acha?

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