terça-feira, março 18, 2014

Visitada


O calor me atingiu primeiro – como uma parede de vapor, ar espesso e úmido passava sobre mim e orvalhava minha pele. Minha boca se abriu automaticamente quando tentei respirar o ar mais denso. O cheiro era mais forte que antes – o mesmo sabor metálico que ficava na garganta e que deixava gosto na água daqui.
O murmurinho indistinto de vozes baixas e sopranos parecia vir de todos os lados, ecoando nas paredes. Eu olhei ansiosa pelo redemoinho de umidade, tentando ver de onde as vozes vinham. Era iluminado aqui, o teto era brilhante como no grande salão, só que mais baixo. A luz dançava no vapor, criando uma cortina brilhante que quase me cegava. Meus olhos lutavam para se ajustar e eu apertei a mão de Jeb em pânico.
Fiquei surpresa porque o murmúrio não reagiu de nenhum modo à nossa entrada. Talvez eles também não pudessem nos ver.
— É meio apertado aqui — Jeb disse se justificando, empurrando o vapor em frente de seu rosto ao falar. Sua voz estava em um tom descontraído, mas foi alta o bastante para me assustar. Ele falou como se nós não estivéssemos acompanhados. E o murmúrio continuou, ignorando a voz dele. — Não que eu esteja reclamando — ele continuou. — Se este lugar não existisse, eu teria morrido várias vezes. Na primeira vez que eu fiquei preso nessa caverna, é claro, e agora, nós nunca poderíamos nos esconder aqui sem ele. Sem este lugar, todos estaríamos morto, certo?
Ele me cutucou com o cotovelo, num gesto de cumplicidade.
— Muito conveniente, a maneira como é arranjado. Eu não poderia ter planejado melhor se eu mesmo o tivesse esculpido.
Sua risada limpou uma parte do vapor e eu vi a sala pela primeira vez.
Dois rios corriam pelo espaço úmido de cúpula alta. Era esse o murmúrio que eu ouvia – a água correndo sobre as rochas vulcânicas. Jeb falava como se estivéssemos sozinhos porque nós estávamos.
Era na verdade somente um rio e um pequeno riacho. O riacho estava mais próximo, um fio raso prateado, correndo entre margens baixas de pedra pelas quais parecia ameaçar transbordar constantemente. Um sussurro feminino agudo ronronava de suas ondulações suaves.
O sussurro masculino vinha do rio, assim como os vapores que se erguiam de buracos no chão perto da parede mais distante. O rio era negro, submerso sob o piso da caverna, exposto por largas erosões ao longo da caverna. Os buracos tinham uma aparência escura e perigosa, o rio mal era visível e corria violentamente para um destino invisível e imaginável. A água parecia tremeluzir, tal era o calor e vapor produzido por ele. O som também era de água fervente.
Do teto pendiam várias estalactites compridas e estreitas, gotejando nas estalagmites abaixo de cada uma delas. Três tinham se encontrado, formando finas colunas negras entre os dois rios.
— Tem que se tomar cuidado aqui — disse Jeb. — A corrente é forte na nascente quente. Se você cair, já era. Aconteceu uma vez. — Ele abaixou a cabeça lentamente com a recordação, seu rosto sombrio.
O rio subterrâneo tornou-se horrível para mim. Eu imaginei sendo pega pelas águas escaldantes e estremeci.
Jeb pôs a mão levemente no meu ombro.
— Não se preocupe, apenas preste atenção onde pisa e você ficará bem. Olhe — ele disse, apontando para o final da caverna, onde o raso riacho corria para dentro de uma caverna escura — a primeira caverna lá trás é a sala de banhos. Nós cavamos o chão para fazer uma banheira agradável e funda. Há horários para os banhos, mas privacidade não é um problema ... lá é escuro como breu. O calor no local é parecido com o vapor daqui, mas a água não queima como a nascente quente. Há uma outra caverna depois dela, através de uma fissura. Aumentamos a entrada para ficar mais confortável, o lugar é o mais distante que podemos ir seguindo a corrente, depois a água vai para o subterrâneo. Então nós o usamos como a latrina. Conveniente e higiênica.
Sua voz tinha assumido um tom condescendente, como se ele sentisse que tinha crédito pela criação da natureza. Bem, ele tinha descoberto e melhorado o local – imagino que o orgulho fosse justificável.
— Não gostamos de gastar pilhas e baterias, e a maioria de nós já conhece o caminho de cor, mas como é a sua primeira vez aqui, você pode se guiar com isso.
Jeb puxou uma lanterna do bolso e ergueu para mim. A visão dela me lembrou do deserto, de quando ele me encontrou e a usou para checar meus olhos. Eu não sabia porque a lembrança me entristeceu.
— Não perca a cabeça achando que o rio possa levá-la para fora daqui ou algo assim. Depois que submerge, ele não volta à superfície. — Avisou-me ele.
Como ele parecia estar esperando algum gesto de concordância ao seu aviso, eu balancei a cabeça uma vez. Peguei a lanterna das mãos dele lentamente, tentando não fazer movimentos bruscos e o deixar nervoso.
Ele sorriu em encorajamento.
Eu segui as instruções rapidamente – o som da água corrente não estava aliviando o meu desconforto. Era estranho estar longe das vistas dele. E se alguém tivesse se escondido nessas cavernas, adivinhando que eu teria que vir aqui eventualmente? Jeb ouviria o som da briga por cima da cacofonia produzida pelos rios?
Eu iluminei todos os cantos da sala de banho, mas não achei nada que justificasse meus medos. A banheira de Jeb era mais como uma pequena piscina e era negra como nanquim. Sob a superfície, uma pessoa ficaria totalmente invisível pelo tempo que conseguisse segurar o fôlego... Corri para a fissura nos fundos da câmara para fugir de minha imaginação. Estar longe de Jeb estava me deixando completamente tomada pelo terror – eu não conseguia respirar normalmente, mal podia ouvir por cima do som da minha pulsação acelerada nos meus ouvidos.
Eu estava mais correndo que andando quando voltei para o cômodo com os dois rios. Encontrar Jeb lá, ainda parado na mesma posição, ainda sozinho, foi como um bálsamo para os meus nervos em frangalhos. Minha respiração e meus batimentos cardíacos diminuíram. Por que este humano maluco era capaz de me confortar tanto eu não sabia. Vai ver era como Melanie tinha dito, tempos desesperados.
— Bem impressionante, hein? — Jeb perguntou, um sorriso orgulhoso em seu rosto.
Eu concordei com a cabeça, e lhe devolvi a lanterna.
— Essas cavernas são uma grande benção — disse enquanto andávamos de volta para a passagem escura. — Nós não seríamos capazes de sobreviver num grupo grande assim sem elas. Magnolia e Sharon estavam se dando surpreendentemente bem em Chicago, mas esconder-se em dois era realmente forçar a sorte. É muito bom ter uma comunidade novamente. Me faz sentir mais humano.
Ele pegou meu cotovelo novamente enquanto subíamos a tosca escada.
— Desculpe-me pela, hmmm, acomodação em que nós te colocamos. Foi o lugar mais seguro que eu consegui pensar. Estou surpreso de aqueles rapazes te encontrarem tão rápido. — Jeb suspirou. — Bem, Kyle é bem... motivado. Mas imagino que no final tudo vá das certo. É melhor se acostumar com as coisas. Talvez nós possamos encontrar um lugar mais adequado para você. Eu vou pensar nisso. Enquanto eu estiver com você, pelo menos, não é necessário ficar enfiada naquele buraco apertado. Você pode sentar no corredor comigo se preferir. Mas com Jared... — a voz dele minguou.
Ouvi o tom de desculpas com surpresa, era muito mais bondade do que eu esperava, mais compaixão pelo inimigo que eu achei que essa espécie era capaz de demonstrar. Afaguei levemente as mãos em meus ombros, tentando exprimir que eu estava compreendendo e que não causaria problemas. Eu sabia que Jared preferia me manter longe do seu campo de visão.
Jeb não teve problemas em entender minha comunicação silenciosa.
— Boa garota. — Ele disse. — Nós vamos dar um jeito nisso tudo. Doc pode se concentrar em cuidar dos humanos. Eu acho que você é mais interessante viva.
Nossos corpos estavam próximos o suficiente para ele me sentir tremer.
— Não se preocupe. Doc não vai incomodá-la.
Eu não conseguia parar de tremer. Jeb só podia me dar esperanças agora. Não havia garantias de que Jared não fosse decidir que meu segredo era mais importantes que proteger o corpo de Melanie. Eu sabia que esse destino me faria desejar que Ian tivesse tido sucesso na outra noite. Eu engoli, sentindo a contusão que parecia cobrir o meu pescoço até o interior da garganta.
Você nunca sabe quanto tempo vai ter, dissera Melanie tantos dias atrás, quando meu mundo ainda estava sob controle. Suas palavras ecoaram em minha mente quando entramos no grande salão, a praça principal da comunidade humana de Jeb.
Estava lotada, como no primeiro dia. Todos estavam ali para nos encarar; os olhos brilhavam com raiva e traição quando olhavam para Jeb e com um brilho assassino quando olhavam para mim. Olhei para baixo, para as pedras sob meus pés. Pelo canto dos meus olhos, pude ver que Jeb empunhou a arma novamente.
Era apenas uma questão de tempo, pensei. Eu podia sentir isso na atmosfera de ódio e medo. Jeb não poderia me proteger por muito tempo.
Foi um alívio chegar ao corredor que levava ao labirinto sinuoso e à minha caverna. Lá eu podia ter esperanças ficar sozinha.
Atrás de mim, uma sibilação furiosa, como um ninho de cobras atiçadas, ecoou pela caverna. O som me fez desejar que Jeb me guiasse o mais rápido possível pelo labirinto. Jeb reprimiu uma risada. Quanto mais eu ficava perto dele, mais ele parecia estranho. Seu senso de humor me confundia tanto quanto suas motivações.
— Às vezes fica tedioso aqui, sabia? — murmurou ele para mim... ou para si mesmo. Com Jeb, era difícil dizer. — Quando eles superarem a ameaça, talvez percebam que apreciam a agitação que estou promovendo.
Nosso caminho no escuro começou a dar voltas. Nada era familiar, talvez ele tenha tomado outra rota para eu continuar perdida. Parecia estar levando mais tempo que antes, mas finalmente eu pude ver a tênue luz azul da lâmpada brilhando no chão depois da próxima curva.
Eu cruzei os braços, perguntando-me se Jared estaria ali novamente. Se estivesse, eu sabia que ele estaria com raiva. Eu tinha certeza que ele não aprovaria o fato de Jeb ter me levado para um passeio, por mais necessário que houvesse sido.
Tão logo nós fizemos a curva eu vi que havia uma figura apoiada contra a parede ao lado da lâmpada, lançando uma longa sombra sobre nós, mas obviamente não era Jared. Minha mão automaticamente agarrou o braço de Jeb, um espasmo instintivo o de medo.
E então eu realmente olhei para a figura que nos esperava. Era menor que eu – foi assim que eu soube que não era Jared – e mais magra. Pequena, mas também alta e forte. Mesmo à baça luz azul, pude ver que sua pele ganhara um tom castanho-escuro de tão queimada de sol e que seus sedosos cabelos pretos lhe caíam agora além do queixo.
Meus joelhos falharam.
Minhas mãos, agarradas em pânico ao braço de Jeb, agora buscavam apoio.
— Pelo amor de Deus! — Jeb exclamou, obviamente irritado. — Ninguém aqui é capaz de manter um segredo por mais de vinte e quatro horas? Diabos! Bando de fofoqueiros... — Ele
continuou aos resmungos.
Eu nem tentei entender o que Jeb estava dizendo; estava concentrada na mais violenta batalha da minha vida – de todas as vidas que vivi.
Eu podia sentir Melanie em cada célula do meu corpo. Minhas terminações nervosas formigavam em reconhecimento a sua presença familiar. Meus músculos se contraíram antecipando sua instrução. Meus lábios tremiam, tentando se abrir. Eu me inclinei em sua direção, meu corpo fazendo o que meus braços não fariam.
Melanie havia aprendido muitas coisas nas vezes que eu cedi ou perdi o comando, e eu realmente tive que lutar contra ela – tão intensamente que suor começou a brotar em minha testa. Mas eu não estava morrendo no deserto agora, tampouco estava fraca e entorpecida ou fora apanhada desprevenida pela interrupção de alguém que eu considerava perdida. Eu sabia que esse momento chegaria. Meu corpo era resistente, curava-se rapidamente – eu estava forte outra vez. O vigor de meu corpo deu vigor a meu controle, a minha determinação.
Eu a afastei de meus membros, a afastei de todos os locais em que ela havia se agarrado, e a enfiei no fundo de minha mente, acorrentando-a lá.
A rendição dela foi súbita e total. Aaah, ela suspirou, e foi quase um gemino de dor.
Eu me senti estranhamente culpada por ter vencido. Eu já sabia que ela era mais que uma hospedeira resistente que não ia embora. Nós nos tornamos companheiras, até confidentes durante as últimas semanas – desde que a Buscadora nos unira contra um inimigo comum. No deserto, com o facão de Kyle sobre minha cabeça, eu ficara feliz porque – se precisava morrer – não seria eu a matar Melanie. Já então, ela era mais que um corpo para mim. Mas agora ela parecia algo além disso. Eu lamentava tê-la feito sofrer.
Era necessário, porém, e ela não parecia entender isso. Qualquer palavra errada que disséssemos, qualquer ação mal planejada significaria execução sumária. As reações dela eram muito selvagens, muito emocionais. Ela nos meteria em problemas.
Você precisa confiar em mim agora, disse-lhe. Só estou tentando nos manter vivas. Sei que não quer acreditar que os humanos não nos machucariam...
Mas é o Jamie, ela sussurrou. Ela ansiava pelo garoto com tamanha intensidade que meus joelhos fraquejaram novamente.
Tentei olhá-lo parcialmente – esse garoto de expressão taciturna apoiado contra a parede do túnel com os braços cruzados firmes em seu peito. Eu tentei vê-lo como um estranho e planejar minha resposta, ou a falta de resposta, dependendo. Eu tentei, mas falhei. Era Jamie, tão lindo, e meus braços – não os meus, os de Melanie – ansiavam por abraçá-lo. Lágrimas cobriram meus olhos e correram pelo meu rosto. Eu só esperava que elas fossem invisíveis na luz fraca.
— Jeb — Jamie disse, uma saudação rouca. Seus olhos passaram rapidamente por mim e se afastaram.
Sua voz estava tão grave! Como ele podia estar tão mais velho? Eu percebi, com culpa, que havia perdido seu aniversário de catorze anos. Melanie tinha me mostrado o dia, e eu vi que era no dia em que ela sonhou com ele. Ela lutara tanto para mantê-lo longe de sua mente, longe de mim durante essa data, que ele aparecera em sonho. E eu enviara um e-mail para a Buscadora.
Eu estremeci, sem acreditar que tinha sido tão insensível.
— O que você está fazendo aqui, garoto? — Jeb exigiu.
— Por que você não me contou? — retrucou Jamie.
Jeb permaneceu em silêncio.
— Isso foi ideia de Jared? — Jamie pressionou.
Jeb suspirou.
— Okay, então você sabe. Que bem isso lhe faz hein? Nós só queríamos...
— Me proteger? — ele interrompeu, aborrecido.
Quando ele ficara tão amargo? Era minha culpa? Claro que era.
Melanie começou a chorar em minha cabeça. Estava me distraindo, era perturbador – a voz de Jamie e Jeb estavam mais distantes.
— Tá legal, Jamie. Você não precisa ser protegido. O que você quer?
Essa aceitação rápida pareceu surpreender Jamie. Seus olhos passaram de mim para Jeb com incerteza.
— Eu... quero falar com ela... com a coisa — ele finalmente disse. A incerteza deixava sua voz mais alta.
— Ela não fala muito — Jeb disse. — Mas fique a vontade para tentar.
Jeb removeu meus dedos de seu braço com dificuldade. Quando se libertou, encostou-se à parede mais próxima e sentou, buscando uma posição confortável. A arma permaneceu equilibrada em seu colo. A cabeça de Jeb finalmente encostou na parede e seus olhos se fecharam. Em segundos, parecia estar dormindo.
Eu fiquei onde estava, tentando manter meus olhos longe do rosto de Jamie e fracassando.
Jamie se surpreendeu outra vez com a rápida aceitação de Jeb. Ele observou o homem recostar-se no chão com olhos arregalados, o que o fez parecer mais jovem. Após alguns momentos de imobilidade de Jeb, Jamie olhou para mim, seus olhos se estreitando.
O jeito que ele me encarava – com raiva, lutando para ser corajoso e maduro, mas também demonstrando medo e dor tão claramente – fez Melanie soluçar ainda mais alto e meus joelhos tremerem. Ao invés de arriscar ter mais um colapso, eu me movi lentamente para a parede do túnel do lado oposto de Jeb e escorreguei para o chão. Abracei meus joelhos, tentando ficar o menor possível.
Jamie me observava com o olhar cauteloso e deu quatro lentos passos em minha direção até parar bem acima de mim. Seu olhar correu para Jeb, que não havia se movido ou aberto os olhos, e então Jamie se ajoelhou ao meu lado. Seu rosto ficou subitamente intenso, e fez com que ele parecesse mais adulto do que qualquer outra expressão até agora. Meu coração palpitou pelo homem triste no rosto do garotinho.
— Você não é a Melanie — ele disse em voz baixa.
Era mais difícil não falar com ele, porque eu quem queria falar. Em vez disso eu só balancei a cabeça em concordância.
— Está no corpo dela, então?
Outra pausa, e concordei com um gesto.
— O que aconteceu com o seu....com o rosto dela?
Encolhi os ombros. Eu não fazia ideia de como o meu rosto estava, mas podia imaginar.
— Quem lhe fez isso? — ele pressionou. Com um dedo hesitante, ele quase tocou a lateral do meu pescoço. Eu fiquei imóvel, não sentindo nenhuma vontade de me afastar daquela mão.
— Tia Maggie, Jared e Ian — Jeb listou em uma voz tediosa. Nós dois pulamos ao ouvi-lo. Jeb não tinha se movido e seus olhos ainda estavam fechados. Ele parecia tão relaxado como se tivesse respondido a pergunta de Jamie dormindo.
Jamie esperou por um momento, e então voltou sua atenção para mim com aquela expressão intensa.
— Você não é Melanie, mas você conhece todas as memórias e tudo mais dela, não é?
Eu concordei com a cabeça novamente.
— Você sabe quem eu sou?
Eu tentei engolir as palavras, mas elas escaparam pelos meus lábios.
— Você é Jamie. — Não pude evitar o tom carinhoso que ao pronunciar o nome.
Ele piscou, surpreso por eu ter quebrado o silêncio. Mas então assentiu.
— Certo — ele sussurrou.
Nós dois olhamos para Jeb, que continuava quieto, e voltamos a olhar um para o outro.
— Então você lembra o que aconteceu com ela?
Eu estremeci e então assenti com a cabeça.
— Eu quero saber — sussurrou.
Eu fiz um gesto de não com a cabeça.
— Eu quero saber — Jamie repetiu. Seus lábios tremeram. — Eu não sou criança. Diga-me.
— Não é… agradável. — Eu falei baixinho, incapaz de me conter. Era muito difícil negar o que esse garoto queria.
Suas sobrancelhas negras se juntaram e se levantaram no meio sobre seus grandes olhos.
— Por favor — ele sussurrou.
Eu olhei para Jeb. Parecia que ele estava espiando por entre os cílios, mas eu não tinha certeza.
Minha voz era um suspiro suave.
— Alguém a viu entrar em um local proibido. Eles sabiam que havia alguma coisa errada. Chamaram os Buscadores.
Ele se encolheu ao título.
— Os Buscadores tentaram fazer ela se render. Ela fugiu. Quando eles a encurralaram, ela pulou em um poço aberto de elevador.
Eu estremeci diante da memória dolorosa, e o rosto de Jamie ficou branco sob o bronzeado.
— Ela não morreu?
— Não, nós temos Curandeiros muito competentes. Eles a curaram rapidamente. Então me colocaram dentro dela. Eles esperavam que eu pudesse ser capaz de lhes dizer como ela tinha sobrevivido por tanto tempo. — Eu não tinha a intenção de falar tanto, minha boca cerrou-se. Jamie pareceu não notar meu deslize, mas os olhos de Jeb se abriram e se fixaram em meu rosto. Nenhuma outra parte dele se mexeu,e Jamie não viu a mudança.
— Por que vocês não a deixaram morrer? — ele perguntou.
Ele teve que engolir em seco; havia uma ameaça de soluço em sua voz. Foi ainda mais doloroso de ouvir, porque não era o som que uma criança faria, assustada com o desconhecido. Mas a agonia completamente consciente de um adulto. Foi tão difícil não por as minhas mãos sobre suas bochechas. Eu queria abraçá-lo e implorar para que ele não ficasse triste. Apertei minhas mãos em punho e tentei me concentrar nas suas perguntas. Os olhos de Jeb passaram pelas minhas mãos firmemente fechadas e voltaram para meu rosto.
— Eu não participei dessa decisão — murmurei. — Eu ainda estava em um tanque de hibernação no espaço profundo quando tudo isso aconteceu.
Jamie piscou outra vez de surpresa. Minha resposta não era o que ele esperava, e eu o vi lutando contra uma nova emoção. Eu olhei para Jeb, seus olhos brilhando de curiosidade. A mesma curiosidade, embora mais discreta, se impôs a Jamie.
— De onde você estava vindo? — ele perguntou.
Apesar de tudo, sorri de seu interesse relutante.
— De longe. Outro planeta.
— Qual era... — ele começou a perguntar, mas foi interrompido por outra pergunta.
— Que diabos é isso? — Jared gritou para nós, imobilizado de fúria no ato de fazer a curva no túnel. — Que droga Jeb! Nós concordamos em não...
Jamie se ergueu rapidamente .
— Jeb não me trouxe aqui. Mas você deveria ter trazido.
Jeb suspirou e se levantou lentamente . Ao fazer isso, a arma rolou de seu colo para o chão. Parou só a alguns centímetros de mim. Eu me afastei, constrangida.
Jared teve uma reação diferente. Ele lançou-se em minha direção, percorrendo todo o caminho do túnel em passos rápidos. Eu me apertei contra a parede e cobri meu rosto com os braços. Espiando por entre os cotovelos eu o vi pegar a arma do chão.
— Você está tentando nos matar? — ele quase gritou para Jeb, empurrando a arma no peito do velho.
— Acalme-se Jared — Jeb disse em uma voz cansada. Ele pegou a arma com uma mão. — Ela não tocaria nessa coisa mesmo que eu a deixasse sozinha aqui com ela a noite inteira. Você não consegue ver isso? — Ele sacudiu o punho da arma na minha direção, e eu me encolhi mais ainda. — Ela não é nenhuma Buscadora, essa aí.
— Cala a boca Jeb, só cale a boca.
— Deixe ele em paz — Jamie gritou. — Ele não fez nada errado.
— E você! — Jared gritou de volta, virando-se para a figura magra e enfurecida. — Você saia já daqui, ou Deus me segure!
Jamie fechou os punhos e não se moveu.
Os punhos de Jared também se levantaram.
Eu fiquei presa no lugar, em choque. Como eles podiam gritar assim um com o outro? Eles eram uma família, o laço entre eles era mais forte do que qualquer laço de sangue. Jared não bateria em Jamie – ele não podia! Eu queria fazer alguma coisa, mas eu não sabia o que fazer. Qualquer coisa que chamasse a atenção deles para mim os deixaria ainda mais irritados.
Pela primeira vez, Melanie estava mais calma do que eu. Ele não machucaria Jamie, ela pensou, confiante. É impossível.
Eu olhei para eles, se encarando como inimigos e entrei em pânico.
Nós nunca devíamos ter vindo para cá. Veja como nós os deixamos infelizes.
— Você não devia ter tentado esconder isso de mim — Jamie disse entre dentes. — E você não devia ter machucado ela. — Uma de suas mãos apontou para o meu rosto.
Jared cuspiu no chão.
— Isso aí não é a Melanie. Ela nunca voltará Jamie.
— É o rosto dela — insistiu Jamie. — E o pescoço dela. Aqueles machucados ali não te incomodam?
Jared deixou as mãos caírem. Ele fechou os olhos e respirou fundo.
— Ou você sai agora Jamie, e me dá um pouco de espaço, ou eu vou fazer você ir. Eu não estou blefando. Não consigo lidar com mais nada agora, ok? Estou no meu limite. Então será que podemos ter essa conversa mais tarde? — Ele abriu os olhos novamente, estavam cheios de dor.
Jamie olhou para ele e a raiva se esvaiu lentamente de seu rosto.
— Desculpe — ele murmurou após um momento. — Eu irei... mas não estou prometendo não voltar.
— Não posso pensar sobre isso agora. Vá. Por favor.
Jamie encolheu os ombros. Lançou mais um olhar para mim e então saiu, sua longa passada rápida me fazendo ansiar pelo tempo que eu perdera.
Jared olhou para Jeb.
— Você também — ele disse em uma voz firme.
Jeb revirou os olhos.
— Para ser honesto, eu não acho que você teve descanso o suficiente. Eu vou ficar de olho...
— Vai.
Jeb franziu a testa, pensando.
— Ok. Já vou. — Ele começou a descer pelo corredor.
— Jeb? — Jared o chamou.
— Sim?
— Se eu pedisse para você atirar nela agora mesmo, você o faria?
Jeb continuou andando lentamente, sem olhar para nós, mas suas palavras foram claras.
— Eu seria obrigado. Eu sigo minhas próprias regras. Então, não peça a não ser que seja o que realmente quer.
Ele desapareceu na curva escura.
Jared o observou desaparecer. Antes que ele pudesse se virar para mim, mergulhei em meu
refúgio e me encolhi no cantinho ao fundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário