terça-feira, março 18, 2014

Aproveitada


— Isso está fácil demais. Já não é mais divertido — Kyle reclamou.
— Você quis vir — Ian o lembrou.
Ele e Ian estavam na traseira fechada sem janelas da van, vendo os produtos não perecíveis e produtos de higiene pessoal que eu havia acabado de pegar na loja. Estávamos no meio do dia, e o sol brilhava em Wichita. Não era tão quente quanto no deserto do Arizona, mas era mais úmido. O ar zumbia de insetos minúsculos.
Jared dirigia pela autoestrada saindo da cidade, mantendo-se cuidadosamente abaixo do limite de velocidade. Isso ainda o irritava.
— Já cansada de fazer compras, Peg? — Ian me perguntou.
— Não, eu não me incomodo.
— Você sempre diz isso. Há alguma coisa que te incomoda?
— Me incomoda... ficar longe de Jamie. E estar aqui fora... um pouco. Durante o dia, especialmente. É o oposto da claustrofobia. É tudo tão aberto. Isso te incomoda também?
— Às vezes. Nós não saímos muito durante o dia.
— Pelo menos ela estica as pernas — Kyle resmungou. — Eu não sei por que você a quer ouvir reclamar.
— Porque é incomum. E é uma bela mudança de ouvir você reclamar.
Eu parei de prestar atenção neles. Quando Ian e Kyle começavam, eles continuavam por um bom tempo. Eu consultei o mapa.
— Oklahoma é a próxima parada? — perguntei a Jared.
— E algumas pequenas cidades no caminho, se você estiver com pique. — Ele respondeu, olhos na estrada.
— Estou.
Jared raramente perdia o foco quando estava em uma incursão. Ele não relaxava como Ian e Kyle faziam toda vez que eu completava outra missão com sucesso. Me fez sorrir usar essa palavra – missão. Soava tão formidável. Na verdade era só uma ida à loja. Exatamente como eu havia feito uma centena de vezes antes em São Diego.
Como Kyle havia dito, era muito fácil para provocar alguma diversão. Eu empurrava o carrinho para cima e para baixo, pelos corredores. Sorria para as almas que sorriam para mim. E enchia o carrinho com coisas que fossem duráveis. E, às vezes, pegava coisas que não durariam, para os homens escondidos na traseira da van. Sanduíches feitos na hora – coisas assim para nós comermos. E talvez um ou dois mimos. Ian tinha preferência por sorvete de menta com gotas de chocolate. Kyle gostava de bombons de caramelo. Jared comia qualquer coisa que lhe oferecessem; parecia que havia desistido de suas coisas favoritas muitos anos atrás, abraçando um estilo de vida onde tudo era bem vindo, e mesmo necessidades tinham que ser cuidadosamente avaliadas antes de serem satisfeitas.
Outra razão pela qual ele era bom nessa vida – ele via as prioridades acima do desejo pessoal. Ocasionalmente, em cidades menores, as pessoas me notavam, falavam comigo. Eu tinha minhas falas tão bem decoradas que poderia provavelmente enganar um humano.
— Olá. Nova na cidade?
— Sim. Recém chegada.
— O que te tráz a Byers?
Eu sempre tomava o cuidado de conferir o nome da cidade antes de sair da van para não ser pega de surpresa.
— Meu companheiro viaja muito. Ele é fotógrafo.
— Que maravilha! Um artista! Bem, certamente há muitas paisagens bonitas por aqui.
Originalmente eu fora a artista. Mas eu descobri que jogar a informação de que eu já tinha um companheiro economizava tempo quando eu falava com homens.
— Muito obrigada pela ajuda.
— O prazer foi meu. Volte logo.
Depois disso, só falei com um farmacêutico em Salt Lake. Eu sabia o que queria.
Um sorriso encabulado.
— Não tenho certeza se estou conseguindo uma boa nutrição. Não consigo evitar de comer porcarias. Esse corpo adora doces.
— Você precisa ser cuidadosa Mil Pétalas. Eu sei que é fácil ceder aos impulsos, mas tente pensar no que você está comendo. Enquanto isso, tome alguns suplementos.
Saúde. Um nome tão óbvio na garrafa, que me senti idiota por perguntar.
— Você prefere com sabor de morango ou de chocolate?
— Será que eu poderia experimentar os dois?
E a amável alma chamada Terrestre me deu duas grandes garrafas.
Não muito desafiador. A única sensação de perigo que eu sentia vinha da pequena pílula de cianureto que eu sempre mantinha em um bolso fácil de alcançar. Só por precaução.
— Você deveria pegar roupas novas na próxima cidade — Jared disse.
— De novo?
— Essas estão parecendo um pouco amassadas demais.
— Okay — concordei. Eu não gostava do excesso, mas a grande pilha de roupa usada não seria desperdiçada. Lily, Heidi e Paige eram mais ou menos do meu tamanho, e elas ficariam gratas por ter algo novo para usar. Os homens raramente se preocupavam com coisas como roupas quando estavam em incursões, cada aquisição era caso de vida ou morte – roupas não era prioridade. Nem os sabonetes e xampus que eu pegava em cada loja.
— Você provavelmente devia se lavar também — Jared disse com um suspiro. — Isso significa um hotel por esta noite.
Manter as aparências não era algo com que eles tinham que se preocupar antes. Claro, eu era a única que devia parecer parte da civilização olhada de perto. Os homens usavam jeans e camisetas escuras agora, coisas que não revelavam sujeira ou chamavam atenção quando alguém os via rapidamente.
Todos eles odiavam dormir em hotéis e pensões na estrada – sucumbir a inconsciência bem dentro da toca do inimigo. Isso os assustava mais do que qualquer outra coisa que fazíamos. Ian dizia que preferia encarar um Buscador armado. Kyle simplesmente se recusava. Ele dormia a maior parte do dia e ficava acordado à noite, na van.
Para mim era tão fácil quanto fazer compras. Eu pedia o quarto, conversava com o atendente, contava a história sobre meu parceiro fotógrafo e o amigo que viajava conosco (só para o caso de alguém vê-los entrando comigo no quarto). Eu usava nomes genéricos de planetas que não chamavam atenção.
Às vezes éramos Morcegos: Guardador da Palavra, Cantor da Canção do Ovo e Poleiro do Céu. Às vezes éramos Algas Visionárias: Olhos Entrelaçados, Cuidador da Superfície e Segundo Nascer do Sol. Eu mudava de nome toda vez, não que alguém fosse nos procurar. Mas Melanie se sentia mais segura assim. Toda essa história a fazia sentir como uma personagem de um filme de espionagem.
A parte difícil, a que me incomodava – não que eu fosse dizer isso na frente de Kyle que era rápido em duvidar das minhas intenções – era todo esse tomar de produtos sem dar nada em troca. Isso me fazia sentir egoísta e era errada.
Não é para você. É para outros, Mel me lembrava quando eu ficava cismada.
Continuo a sentir que é errado. Mesmo você sabe disso, não sabe?
Não penso sobre isso, era a solução dela.
Eu estava feliz de estarmos no caminho de volta para casa, depois da longa incursão. Amanhã nós visitaríamos nosso crescente estoque de provisões – um caminhão de mudança que nós mantivemos escondido a alguns dias de distância do nosso caminho – e descarregaríamos a van pela última vez. Só mais algumas cidades, mais alguns dias, cruzando Oklahoma, Novo México e, em seguida, direto pelo Arizona, sem paradas.
Estaríamos em casa. Finalmente.
Quando dormíamos em hotéis ao invés de dormir no furgão lotado, nós normalmente entrávamos depois do anoitecer e saíamos antes do amanhecer, para evitar que as almas dessem uma boa olhada em nós. Não que isso fosse realmente necessário.
Jared e Ian estavam começando a perceber isso. Essa noite, devido ao grande sucesso do dia – a van estava completamente cheia; Kyle teria pouco espaço – e devido ao fato de Ian achar que eu parecia cansada, nós paramos mais cedo. O sol ainda não havia sumido quando voltei para a van com a chave do quarto.
A pequena pensão não estava cheia. Nós estacionamos próximo ao quarto, Ian e Jared foram direto do carro para o quarto em no máximo seis passos, os olhos baixos. Nos pescoços haviam linhas rosadas. Jared carregava uma mala cheia pela metade.
Ninguém olhou para eles ou para mim.
Lá dentro, as cortinas escuras foram abaixadas, e os homens relaxaram um pouco. Ian se esparramou na cama que ele e Jared usariam, e ligou a TV. Jared colocou a mala na mesa e tirou dela o nosso jantar – pedaços gordurosos de galinha empanada que eu havia pedido na lanchonete da última loja – e distribuiu. Eu sentei na janela, vendo o sol se pôr no horizonte enquanto eu comia.
— Você tem que admitir, Peg, nós humanos, tínhamos melhor noção de entretenimento — Ian provocou.
Na tela, duas almas estavam dizendo suas falas perfeitamente, seus corpos com a postura perfeita. Não era difícil pegar o que acontecia na história porque não havia muita variedade nos scripts que as almas escreviam. Neste, duas almas estavam se reencontrando após uma longa separação. O homem esteve com as Algas Visionárias, o que os separou, mas ele escolheu ser humano por imaginar que sua parceira no Planeta das Brumas se sentiria atraída por essa espécie de sangue quente. E, por milagre, ele a encontra aqui.
Todos tinham finais felizes.
— Você tem que considerar a audiência.
— Verdade. Eu gostaria que eles passassem alguns programas humanos de novo. — Ele passava pelos canais e franzia a testa. — Costumava ter alguns no ar.
— Eles eram muito perturbadores. Tiveram que ser substituídos por programas que não fossem tão... violentos.
— A família Dó-Ré-Mi?
Eu ri. Tinha visto um episódio em São Diego, e Melanie lembrava da série da infância.
— Era complacente com violência. Eu lembro de um episódio em que um garoto dava um soco em um valentão da escola, e isso era mostrado como a coisa certa a fazer. Havia sangue.
Ian sacudiu a cabeça com descrença, mas voltou para o filme com o ex-Alga Visionária. Ele ria nas partes erradas, nas horas que deviam ser tocantes.
Eu fiquei olhando pela janela, vendo algo muito mais interessante que a história previsível na televisão.
Do outro lado da pensão havia um pequeno parque, ao lado dele uma escola e do outro um campo onde vacas pastavam. Havia algumas árvores, e uns brinquedos antigos. Claro que havia balanços, e esses eram os únicos brinquedos sendo usados.
Uma pequena família estava aproveitando o ar fresco da tarde. O pai já tinha um pouco de prata no cabelo, bem nas têmporas, a mãe parecia muitos anos mais nova. Seus cabelos castanhos-avermelhados estavam presos em um comprido rabo de cavalo que balançava com ela. Eles tinham um garotinho de não mais que um ano. O pai empurrava o garoto no balanço por trás. A mãe estava na frente, e beijava a testa do garoto toda vez que ele se aproximava, fazendo o garoto rir tanto que as bochechas dele estavam vermelhas e brilhantes. Isso a fazia rir também – eu podia ver o corpo dela tremendo das risadas, o cabelo dançando.
— O que você está olhando, Peg?
A pergunta de Jared não estava ansiosa, porque eu sorria levemente diante da cena surpreendente.
— Algo que eu nunca vi em todas as minhas vidas. Eu estou vendo... esperança.
Jared veio ficar do meu lado, espiando por sobre meu ombro.
— Como assim? — Seus olhos passaram pela estrada e pelos prédios, sem notar a família brincando.
Eu peguei seu queixo e apontei seu rosto naquela direção. Ele nem piscou quando eu o toquei, o que me deu uma sensação agradável no estômago.
— Olhe — eu disse.
— O que estou olhando?
— A única esperança que eu já vi para uma espécie hospedeira.
— Onde? — Ele perguntou sem entender.
Eu percebi Ian, agora perto de nós, olhando também.
— Veja — apontei para a mãe sorridente. — Olha como ela ama sua criança humana.
Naquele momento a mulher pegou o filho do balanço e o abraçou apertado, cobrindo seu rosto de beijos. Ele ria e se balançava – apenas um bebê. Não o adulto em miniatura que ele teria sido se hospedasse um dos meus dentro dele.
— Hã? — Jared arquejou. — O bebê é humano? Como? Por quê? Por quanto tempo?
Eu dei de ombros.
— Eu nunca vi isso antes – eu não sei. Ela não o entregou para ser hospedeiro. Ela não seria forçada, imagino. A maternidade é quase idolatrada entre os da minha espécie. Se ela não quiser... — Eu sacudi a cabeça. — Não tenho ideia de como eles procederiam. Isso não acontece em qualquer outro lugar. As emoções desses corpos são mais fortes que a lógica.
Eu olhei para Jared e Ian. Ambos encaravam a cena de boca aberta.
— Não — murmurei para mim mesma. — Ninguém forçaria os pais se eles quisessem a criança. E olhem para eles.
O pai tinha os braços em volta da mãe e da criança. Ele olhava para o filho biológico do seu corpo hospedeiro com olhos cheios de ternura.
— Além de nós mesmos, esse é o primeiro planeta que nós descobrimos que tem nascimentos vivos. O sistema de vocês não é exatamente prolífico. Eu me pergunto se essa é a diferença... ou se é a fragilidade dos nascidos, ou... — parei de falar, meus pensamentos cheios de especulação.
A mãe ergueu a cabeça para o parceiro, e ele a beijou na boca. A criança humana fazia barulhos, feliz.
— Hmm. Talvez, algum dia, alguns da nossa espécie e alguns dos seus viverão em paz. Isso não seria... estranho?
Nenhum dos homens conseguia afastar os olhos do milagre diante deles.
A família estava partindo. A mãe limpou areia do jeans enquanto o pai pegava a criança. Então, de mãos dadas, as almas foram em direção aos apartamentos com sua criança humana.
Ian engoliu audivelmente.
Nós não falamos pelo resto da noite, todos pensativos pelo o que vimos. Fomos dormir cedo, para podermos acordar cedo e voltar ao trabalho.
Eu dormia sozinha, na cama mais distante da porta. Isso me deixava desconfortável. Os dois homens grandes não cabiam direito na outra cama; Ian tendia a se espalhar pela cama quando estava profundamente adormecido, e Jared chegava perto de distribuir socos quando isso acontecia. Ambos ficariam mais confortáveis se eu compartilhasse minha cama com alguém. Eu andava dormindo encolhida agora; talvez os espaços muito abertos nos quais eu me movia o dia inteiro, me faziam ficar encolhida à noite, ou talvez eu estivesse tão acostumada a dormir no pequeno espaço atrás do banco passageiro do furgão que eu havia esquecido de como dormir esticada. Mas eu sabia por que ninguém me pediu para compartilhar.
Na primeira noite que eles perceberam – com muita infelicidade – que uma ducha de hotel seria necessário para mim, do banheiro eu ouvi Ian e Jared falando sobre mim.
— ... nada justo pedir para ela escolher — Ian estava dizendo. Ele mantinha a voz baixa, mas o exaustor do banheiro não era alto o bastante para abafar as vozes. O quarto do hotel era muito pequeno.
— Por que não? É mais justo dizer a ela onde dormir? Não acha que seria mais educado...
— Se fosse outra pessoa. Mas Peg vai ficar angustiada. Ela vai se esforçar tanto para agradar a nós dois, que vai ficar infeliz.
— Com ciúmes de novo?
— Não dessa vez. Apenas sei como ela pensa.
Houve um silêncio. Ian estava certo. Ele realmente sabia como eu pensava. Ele já havia previsto que, dada a menor indicação que Jared preferisse isso, eu compartilharia a cama com ele, e então ficaria a noite acordada preocupada se eu o estaria fazendo infeliz por estar ao lado dele e se eu havia magoado Ian na barganha.
— Beleza — Jared concordou. — Mas se você tentar me abraçar a noite... Deus te ajude O’Shea!
Ian riu.
— Não querendo soar muito arrogante, mas, para ser perfeitamente honesto, Jared, se eu tivesse essa inclinação, acho que poderia escolher melhor.
Apesar de me sentir culpada por desperdiçar espaço, eu provavelmente estava melhor dormindo sozinha.
Nós não precisamos usar mais hotéis. Os dias passavam mais rapidamente, como se até o segundos quisessem nos levar para casa. Eu podia sentir uma estranha força puxando meu corpo para o oeste. Todos nós estávamos ansiosos para voltar ao nosso refúgio escuro e apinhado.
Até Jared ficou descuidado.
Era tarde, nenhuma luz do sol restava atrás das montanhas a oeste. Atrás de nós, Ian e Kyle estavam alternando a direção do caminhão lotado com os produtos coletados, assim como eu e Jared alternávamos na direção da van.
Eles precisavam dirigir o pesado veículo com mais cuidado do que Jared precisava com a van. As luzes do farol do caminhão diminuíram lentamente até desaparecerem após uma curva aberta na estrada.
Nós estávamos quase lá. Tucson havia ficado para trás. Em algumas poucas horas eu veria Jamie. Nós descarregaríamos o caminhão com provisões cercados de rostos sorridentes. Uma verdadeira recepção de boas vindas.
A minha primeira, percebi.
Pela primeira vez, o retorno traria nada mais que alegria. Nós não levávamos nenhum hospedeiro condenado dessa vez. Eu não prestava atenção a nada além da antecipação. A estrada não parecia estar passando rápido demais, apenas não podia passar suficientemente rápido, no que me dizia respeito.
O farol do caminhão reapareceu atrás de nós.
— Kyle deve estar dirigindo — murmurei. — Eles estão nos alcançando.
E então de repente as luzes azuis e vermelhas começaram a girar na noite escura atrás de nós. Elas refletiram em todos os espelhos, pontos brilhantes por todo o lado, no teto, nos bancos, nos nossos rostos paralisados e no painel, onde o ponteiro do velocímetro mostrava que estávamos trinta e tantos quilômetros acima do limite de velocidade.
O som da sirene cortou a calma do deserto.

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