terça-feira, março 18, 2014

Rodeada


Jamie começou a se erguer.
— Calma aí garoto. Como está se sentindo? — Ian se moveu para pressionar os ombros de Jamie contra o colchão.
— Eu me sinto... muito bem. Por que todo mundo está aqui? Eu não lembro...
— Você esteve doente. Fica quieto para podermos te curar.
— Posso beber um pouco de água?
— Claro garoto. Aqui.
Doc estava encarando Jamie com descrença.
Eu mal conseguia falar, minha garganta apertada de alegria.
— É o Corta Dor — sussurrei. — A sensação é maravilhosa.
— Por que Jared está dando uma chave de braço em Sharon? — Jamie sussurrou para Ian.
— Ela está de mau humor — Ian murmurou de volta.
— Fique bem quieto Jamie — Doc avisou. — Nós vamos... limpar seu ferimento, Ok?
— Okay — Jamie concordou em uma voz pequena. Ele havia notado o bisturi na mão de Doc. Ele o olhou com suspeita.
— Diga-me se estiver sentindo alguma coisa — Doc disse.
— Se doer —acrescentei.
Com habilidade, Doc passou o bisturi suavemente pela pele lesada num movimento rápido.
Ambos olhamos para Jamie.Eles estava encarando o teto escuro.
— Isso é estranho — Jamie disse. — Mas não dói.
Doc acenou para si mesmo e baixou o bisturi novamente, fazendo um corte profundo. Sangue vermelho e pus amarelo escuro escorreram pelo corte.
Assim que as mãos de Doc se afastaram, eu estava aplicando o spray Limpar por toda a área do sangrento X. Assim que atingiu a secreção, o amarelo doentio pareceu borbulhar silenciosamente, diminuir. Quase como uma lesma atingida com sal. Fundindo. Doc respirava rápido perto de mim.
— Olha isso, gente.
Eu passei o spray duas vezes para garantir. O vermelho da pele já havia sumido. Só o vermelho normal do sangue que fluía permanecia.
— Okay. Curar — murmurei. Eu encontrei o cilindro certo e passei o conteúdo na pele. O líquido claro pingou, cobrindo a carne viva e brilhante. O sangramento parava imediatamente onde as gotas caíam. Eu derramei metade do conteúdo, com certeza mais do que era necessário, no ferimento.
— Certo, una as bordas do ferimento para mim, Doc.
Doc estava sem fala nesse ponto, apesar de sua boca estar aberta. Ele fez o que pedi, usando as duas mãos.
Jamie riu.
— Isso faz cócegas.
Os olhos de Doc se esbugalharam.
Eu espalhei Fechar sobre a superfície, vendo com profunda satisfação as pontas se unirem e ficarem rosadas.
— Posso ver? — Jamie perguntou.
— Deixa ele levantar Ian. Quase já acabamos.
Jamie se ergueu nos cotovelos, seus olhos brilhantes e curiosos. Seu cabelo sujo e suado grudado na cabeça não combinava com o brilho saudável da sua pele.
— Veja, eu coloco isso — eu disse, passando o pó brilhante pelo corte — e a cicatriz fica bem leve, assim. — Eu mostrei a ele a minha cicatriz no braço.
Jamie riu.
— Mas cicatrizes não impressionam as garotas? Onde você arrumou essas coisas, Peg? É tipo mágica.
— Jared me levou em uma incursão.
— Sério? Isso é o máximo!
Doc tocou o resíduo do pó brilhante na minha mão e levou o dedo ao nariz.
— Você devia tê-la visto — Jared disse. — Ela foi incrível.
Eu me surpreendi ao ouvir a voz dele tão perto atrás de mim. Eu olhei procurando Sharon automaticamente, e só consegui pegar um reflexo vermelho deixando o quarto. Maggie bem ao lado dela.
Que triste. Assustador. Ter tanto ódio que não consegue nem se alegrar com a cura de uma criança... Como alguém chega a esse ponto?
— Ela entrou direto em um hospital, direto para a alienígena lá e pediu para eles tratarem os ferimentos dela, toda corajosa. Então quando eles não estavam olhando, ela os roubou bem embaixo do nariz deles! — Jared fazia a história parecer mais excitante. Jamie estava adorando, seu sorriso enorme. — Saiu de lá com remédio suficiente para durar um bom tempo. Ela até acenou para o inseto atrás do balcão enquanto estávamos indo embora!
Jared riu.
Eu não poderia fazer isso por eles, Melanie disse, subitamente deprimida. Você é
mais valiosa para eles do que eu seria.
Shh, Eu disse. Essa não é hora de tristeza ou ciúme. Só alegria. Eu não estaria aqui para ajudar se não fosse você. Você o salvou também.
Jamie me olhava com olhos arregalados.
— Não foi assim tão excitante — eu lhe disse. Ele pegou minha mão apertando-a, meu coração se inchou de gratidão e amor. — Foi muito fácil. Eu sou um inseto também, afinal de contas.
— Eu não quis dizer... — Jared começou a se desculpar.
Eu acenei afastando o seu protesto. Sorrindo.
— Como você explicou o machucado no seu rosto? — Doc perguntou. — Eles não perguntaram por que você não...
— Eu tive que fazer ferimentos recentes, é claro. Tive o cuidado de não deixar nada suspeito. Eu disse que caí com uma faca na mão. — Eu cutuquei Jamie com o cotovelo. — Podia acontecer com qualquer um.
Eu realmente estava voando alto agora. Tudo parecia brilhar por dentro – os tecidos, os rostos, as paredes. A multidão a minha volta e fora do quarto começou a murmurar perguntas, mas esse som era só um assobio no meu ouvido – como o som que fica ecoando após um sino ser tocado. Um tremor no ar. Nada parecia real além do circulo das pessoas que eu amava. Jamie, Jared, Ian e Jeb. Até Doc pertencia a esse momento perfeito.
— Ferimentos recentes? — Ian perguntou.
Eu o encarei surpresa pela raiva em sua voz.
— Foi necessário. Eu tinha que esconder minha cicatriz. E aprender como curar Jamie.
Jared pegou o meu pulso esquerdo e passou o dedo levemente pela linha rosa clara a alguns centímetros acima do pulso.
— Foi horrível. — Ele disse, todo o humor sumindo de sua voz. — Ela quase arrancou a mão. Pensei que ela nunca a usaria novamente.
Os olhos de Jamie se arregalaram.
— Você se cortou?
Eu apertei sua mão.
— Não fique ansioso... não foi tão grave assim. Eu sabia que seria curada em seguida.
— Vocês deviam tê-la visto — Jared repetiu baixo, ainda passando o dedo pelo meu braço.
Os dedos de Ian passaram pelo meu rosto acariciando a bochecha. Era gostoso, e eu inclinei o rosto em direção a mão dele, que ele deixou ali. Eu me perguntei se era o Corta Dor ou só a alegria de ter salvo Jamie que fazia tudo parecer mais brilhante e mais aconchegante.
— Nada de incursões para você — Ian murmurou.
— Claro que ela vai sair de novo — Jared disse, sua voz alta com surpresa. — Ian, ela foi absolutamente fenomenal. Você teria que ter visto para entender. Eu só estou começando a enxergar as possibilidades...
— Possibilidades? — A mão de Ian escorregou pelo meu pescoço até meu ombro. Ele me puxou para mais perto dele, me afastando de Jared. — E qual o custo para ela? Você deixou que ela quase arrancasse sua própriamão? — Seus dedos se flexionavam no meu braço a cada inflexão.
A raiva não combinava com o brilho.
— Não Ian, não foi bem assim — eu disse. — Foi minha ideia. Eu tinha que fazer.
— É claro que foi ideia sua — Ian grunhiu. — Você faria qualquer coisa... Você não tem limites quando se trata desses dois. Mas Jared não devia ter deixado você...
— Que outra forma havia Ian? — Jared discutiu. — Você tinha um plano melhor? Você acha que ela ficaria mais feliz sem se machucar, mas com Jamie morto?
Eu estremeci diante do pensamente horrível.
A voz de Ian estava menos hostil quando ele respondeu.
— Não. Mas eu não entendo como você ficou ali sentado vendo ela fazer isso consigo mesma — Ian sacudiu a cabeça com desgosto, e os ombros de Jared caíram em resposta. — Que tipo de homem...
— O tipo prático — Jeb interrompeu.
Todos nós olhamos para cima. Jeb estava acima de nós, uma grande caixa em seus braços.
— É por isso que Jared é o melhor para conseguir o que precisamos. Porque ele consegue fazer o que tem que ser feito. Ou assistir o que tem que ser feito. Mesmo quando assistir é mais difícil do que fazer. Agora, eu sei que está mais perto do café da manhã do que do jantar, mas eu imagino que alguns de vocês não comem há um bom tempo — Jeb continuou, mudando de assunto sem sutileza. — Com fome garoto?
— Uh... eu não tenho certeza — Jamie admitiu. — Eu me sinto vazio, mas não é uma sensação... ruim.
— É o Corta Dor — eu disse. — Você devia comer.
— E beber — Doc disse. — Você precisa de líquido.
Jeb deixou a caixa cair no colchão.
— Achei que ia ser bom termos uma celebração. Sirvam-se.
— Uau, hmm — Jamie disse pescando no conteúdo da caixa cheia de comida desidratada, do tipo que se usa ao acampar. — Espaguete, excelente.
— Eu quero galinha ao alho — Jeb disse. — Eu sinto um bocado de falta de alho – mas ninguém sente falta do meu hálito com certeza. — Ele riu.
Jeb estava preparado, com garrafas de água e fornos portáteis. As pessoas começaram a se juntar no espaço pequeno. Eu estava espremida entre Jared e Ian, e puxei Jamie para o meu colo.
Apesar de ser muito velho para isso, ele não protestou. Ele devia saber o quanto era importante para nós – Mel e eu – sentirmos ele vivo e saudável em nossos braços. O circulo brilhante aumentou, englobando todos no jantar atrasado, fazendo deles família também. Todos esperavam satisfeitos Jeb preparar as delícias inesperadas, e sem pressa. Medo foi substituído por alívio e boas notícias. Até Kyle, comprimido em um pequeno espaço do outro lado do irmão, era bem-vindo no círculo.
Melanie suspirou contente. Ela estava vivamente consciente do calor do garoto em meu colo e do toque do homem que ainda tinha as mãos no meu braço. Ela nem estava chateada pelo braço de Ian em meu ombro.
Você está sentindo o Corta Dor também, provoquei-lhe.
Eu não acho que isso seja o Corta Dor. Para nenhuma de nós duas.
Sim, eu sei. Isso é tudo o que eu nunca tive.
Isso é muito do que eu perdi.
O que era isso que fazia desse amor humano muito mais desejável para mim do que o amor dos de minha espécie? Seria por ser mais exclusivo e caprichoso? As almas ofereciam amor e aceitação para todos. Será que eu desejava algo mais desafiador? Esse amor era traiçoeiro; não tinha regras – podia ser dado de graça, como com Jamie, ou conquistado arduamente com o tempo, como com Ian, ou completamente arrasador e incontrolável, como com Jared.
Ou simplesmente este amor de algum modo era melhor? Será que porque os humanos podiam odiar com tanta fúria, o outro lado da moeda lhes permitia amar da mesma maneira intensa? Amar com mais coração, zelo e fogo?
Eu não sabia por que eu havia desejado isso tão desesperadamente. Tudo o quesabia era que agora que eu havia conquistado, valera a pena cada risco e agonia que custou. Era melhor do que eu imaginava.
Era tudo.
Quando toda a comida foi preparada e consumida, a hora avançada – ou melhor, cedo – nos alcançou. As pessoas se arrastaram para as seus quartos, suas camas. Conforme elas iam, o espaço foi liberando. Os que ficaram foram se acomodando onde tinha espaço.
Gradualmente nós fomos nos inclinando até estamos na horizontal. Minha cabeça fazia o estômago de Jared de travesseiro, sua mão eventualmente acariciava o meu cabelo. O rosto de Jamie estava no meu peito, seus braços em meu pescoço. Um dos meus braços em volta de seu ombro. A cabeça de Ian no meu estômago, e ele segurava minha mão em seu rosto. Eu podia sentir a longa perna de Doc esticada perto da minha, seu pé no meu quadril. Doc estava dormindo – eu podia ouvi-lo roncar. Eu podia muito bem estar tocando Kyle em algum lugar.
Jeb estava esparramado na cama. Ele arrotou e Kyle riu.
— A noite foi melhor do que eu esperava. Eu gosto quando o pessimismo não dá em nada. — Jeb disse. — Obrigada Peg.
— Mmm — suspirei, meio dormindo.
— Da próxima vez que ela for numa incursão... — Kyle disse de algum lugar do outro lado de Jared. Um enorme bocejo interrompeu a frase. — Da próxima vez que ela for numa incursão, eu vou junto.
— Ela não vai de novo — Ian respondeu, seu corpo ficando tenso. Eu acariciei o rosto dele, tentando acalmá-lo.
— Claro que não — murmurei para ele. — Eu não tenho que ir a lugar nenhum a não ser que seja necessário. Eu não ligo de ficar aqui.
— Eu não estou falando em te manter prisioneira, Peg — Ian explicou irritado. — Você pode ir aonde quiser se depender de mim. Fazer cooper na estrada se quiser. Mas não incursões. Eu estou falando de te manter salva.
— Nós precisamos dela — Jared disse, sua voz mais dura do que eu queria ouvir.
— Passamos bem por dificuldades sem ela antes.
— Bem? Jamie teria morrido sem ela. Ela pode conseguir coisas que ninguém mais conseguiria.
— Ela é uma pessoa Jared, não uma ferramenta.
— Eu sei disso. Eu não disse que...
— A decisão é da Peg, não acham? — Jeb interrompeu a discussão assim como eu já estava prestes a fazer. Minha mão segurava Ian deitado agora, e eu podia sentir o corpo de Jared se movendo sob minha cabeça se preparando para levantar. As palavras de Jeb os mantiveram no lugar.
— Você não pode deixar a decisão com ela, Jeb — Ian protestou.
— Por que não? Ela tem mente própria. É o seu trabalho tomar decisões por ela?
— Eu vou te dizer por que não — Ian resmungou. — Peg?
— Sim, Ian?
— Você quer sair em uma incursão?
— Se eu puder ajudar, é claro que devo ir.
— Não foi isso que eu perguntei.
Eu fiquei quieta por um momento tentando lembrar a pergunta para ver onde eu errei.
— Vê Jeb? Ela nunca leva em conta suas próprias vontades – sua própria felicidade, nem mesmo a sua própria saúde. Ela faria qualquer coisa que pedíssemos, mesmo se a matar. Não é justo pedir coisas a ela da forma que pediríamos uns aos outros. Nós paramos para pensar em nós mesmos. Ela não.
Eu fiquei quieta. Ninguém respondeu Ian. O silêncio continuou até eu me sentir compelida a falar por mim mesma.
— Isso não é verdade — eu disse. — Eu penso em mim mesma o tempo todo. E eu... Eu quero ajudar. Isso não conta? Eu fiquei tão feliz em ajudar Jamie essa noite. Eu não posso achar felicidade do jeito que eu quiser?
Ian suspirou.
— Viu o que eu quis dizer?
— Bem, eu não posso dizer a ela que não pode ir se ela quiser — Jeb disse. — Ela não é mais uma prisioneira.
— Mas não precisamos pedir.
Jared ficou quieto durante toda a conversa. Jamie estava quieto também, mas eu tinha quase certeza que ele estava dormindo. Eu sabia que Jared não estava. Ele traçava desenhos aleatórios na lateral do meu rosto. Desenhos brilhantes e ardentes.
— Você não precisa pedir. — Eu disse. — Eu me voluntario. Não foi muito... assustador. Não mesmo. As outras almas são muito gentis. Eu não tenho medo delas. Foi quase fácil demais.
— Fácil? Cortar seu...
Eu interrompi Ian rápido.
— Isso foi uma emergência. Eu não vou ter que fazer isso novamente — pausei por um segundo. — Certo? — conferi.
Ian gemeu.
— Se ela for, eu vou também. — Ele disse. — Alguém tem que protegê-la de si mesma.
— E eu estarei lá para proteger o resto de nós dela — Kyle disse com um riso. Então ele gemeu e disse. — Ai.
Eu estava cansada demais para erguer a cabeça e ver quem havia acertado Kyle dessa vez.
— E eu estarei lá para trazer vocês de volta vivos — Jared murmurou.

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