terça-feira, março 18, 2014
Parados
As luzes giravam no rimo da sirene.
Antes das almas virem a esse lugar, essas luzes e sons só tinham um significado. A lei, os guardiões da paz, os que puniam transgressores e criminosos.
Agora, novamente, as cores e som raivoso tinham só um significado. Um muito semelhante. Ainda os mantedores da paz. Ainda os que puniam.
Buscadores.
Essa não era uma visão ou som comum como era antes. A força policial só era necessária em casos de acidentes ou outras emergências, não para manter a lei. A maioria deles não possuía veículos com sirenes, exceto ambulâncias ou caminhões de bombeiros.
Esse carro baixo e esguio atrás de nós não estava ali por causa de algum acidente. Esse era um veículo feito para perseguições. Eu nunca vira nada como ele antes, mas sabia o que significava.
Jared estava congelado, seu pé ainda no acelerador. Eu podia ver que ele tentava achar uma solução, um jeito de despistá-los ou fugir, nos esconder no deserto – sem levá-los aos outros.
Sem entregar ninguém. Nós estávamos tão perto dos outros agora. Quando ele desistiu depois de alguns segundos de pensamento frenético, ele suspirou.
— Desculpe Peg. — Ele murmurou. — Estreguei tudo.
— Jared?
Ele pegou minha mão e aliviou a pressão no acelerador. O carro começou a diminuir a velocidade.
— Tá com a pílula?
— Estou — sussurrei.
— A Melanie está me ouvindo?
Estou, o pensamento era quase um lamento.
— Está — a minha voz era um lamento também.
— Eu te amo Mel. Eu lamento muito.
— Ela também te ama. Mais do que tudo.
Um silêncio curto e doloroso.
— Peg, eu... você é uma boa pessoa, eu me importo com você. Você merece mais do que eu lhe dei. Mais do que isso.
Ele tinha algo pequeno, muito pequeno para ser tão mortal, entre os dedos.
— Espere.
Ele não podia morrer.
— Peg, nós não podemos arriscar. Nós não podemos vencê-los numa corrida. Se nós tentarmos correr, centenas virão atrás. Pense em Jamie.
A van estava diminuindo, indo para o acostamento.
— Uma tentativa — implorei. Eu peguei a pílula no meu bolso. — Deixe-me tentar nos tirar dessa. Eu a engolirei imediatamente se algo der errado.
— Você não vai conseguir mentir para um Buscador!
— Deixe-me tentar. Rápido! — Abri o meu cinto e me estiquei para abrir o dele. — Troque de lugar comigo. Rápido, antes que eles cheguem perto o suficiente para ver.
— Peg...
— Uma tentativa. Se apresse!
Ele era o melhor em decisões de última hora. Rápido e suavemente, ele saiu do banco do passageiro passando por cima de mim. Eu sentei no banco dele e ele sentou no meu.
— Cinto de segurança — ordenei. — Feche os olhos. Vire a cabeça para o lado de lá.
Ele fez como eu disse. Estava muito escuro para ver, mas a suave cicatriz rosada em seu pescoço seria visível desse ângulo.
Eu coloquei o cinto de segurança e inclinei a cabeça para trás.
Mentir com o corpo, essa era a chave. Era simplesmente questão de fazer movimentos certos. Imitação. Como os atores no programa de TV, só que melhor, como um humano.
— Me ajude Mel — murmurei.
Eu não posso te ajudar a ser uma alma melhor, Peg. Mas você pode fazer isso. Salve-o. Eu sei que você consegue.
Uma alma melhor. Eu só precisava ser eu mesma.
Estava tarde. Eu estava cansada, não teria que fingir essa parte.
Deixei minhas pálpebras caírem, deixei meu corpo se afundar no banco.
Culpa. Eu podia fingir culpa. Eu podia sentir isso agora.
Os cantos de minha boca vergaram numa careta acanhada.
O carro do Buscador não estacionou atrás de nós do jeito que eu podia sentir que Melanie esperava. Parou do outro lado da estrada, no acostamento, na contramão daquela pista de tráfego. Uma luz ofuscante explodiu pela janela do outro carro. Eu pisquei por causa dela, erguendo a mão para esconder meu rosto com lentidão deliberada.
Fracamente, em comparação com a luz do refletor, eu vi o reflexo prateado de meus olhos na estrada quando olhei para baixo.
Uma porta bateu. Passos ecoaram enquanto alguém atravessava o asfalto. Não houve som de pedra ou terra, portanto o Buscador tinha saltado do banco do passageiro. Eram dois, pelo menos, mas só um vinha me interrogar. Isso era um bom sinal, um sinal de bem-estar e confiança.
Meus olhos brilhantes eram um talismã. Uma bússola que não falhava – como a Estrela do Norte. Não tinha como duvidar.
Mentir com meu corpo não era a chave. Dizer a verdade com ele era suficiente. Eu tinha algo em comum com o bebê do parque: nada como eu havia existido antes.
O corpo do Buscador bloqueou a luz, e eu pude ver novamente.
Era um homem. Provavelmente de meia idade – seus traços conflitavam com outros, tornando difícil dizer; seu cabelo era todo branco, mas seu rosto era livre de rugas. Ele usava uma camiseta e bermudas, uma arma pesada visível no quadril. Uma mão descansava no punho da arma. Em sua outra mão uma lanterna. Ele não a ligou.
— Algum problema, senhorita? — ele disse quando estava alguns passos distante. — Você estava indo muito rápido para sua segurança.
Seus olhos estavam inquietos. Avaliaram minha expressão – que estava sonolenta, eu esperava – e então percorreram a van, a escuridão atrás de nós, a estrada na frente, iluminada pelos faróis e voltaram para meu rosto. Ele repetiu o percurso mais uma vez.
Ele estava ansioso. Isso deixou minhas palmas suadas, mas tentei manter o pânico longe da minha voz.
— Eu lamento muito — me desculpei num sussurro alto. Olhei para Jared como se para checar se minhas palavras não o tinham acordado. — Acho... bem, eu acho que eu posso ter dormido. Não percebi que estava tão cansada.
Eu tentei sorrir com remorso. Eu podia dizer que eu soava rígida, como os atores excessivos na televisão.
Os olhos do Buscador fizeram sua rota novamente, dessa vez demorando-se em Jared. Meu coração pulsava dolorosamente. Eu apertei pílula em meus dedos com mais força.
— Foi irresponsabilidade minha dirigir por tanto tempo sem dormir — eu disse rapidamente, tentando sorrir um pouco. — Achei que poderíamos chegar em Phoenix antes de eu precisar descansar. Eu lamento muito.
— Qual o seu nome, senhorita?
Sua voz não estava dura, mas também não estava calorosa. Ele a manteve baixa, como eu.
— Folhas no Céu — eu disse, usando o mesmo nome do último hotel. Ele iria checar minha história? Eu precisaria de alguma referência para dar.
— Flor Invertida? — ele adivinhou. Seus olhos pararam no meio da rota de busca e se voltaram para mim.
— Sim, eu fui.
— Minha companheira também. Você estava na ilha?
— Não — eu disse rapidamente. — No continente. Entre os grandes rios.
Ele acenou, talvez um pouco decepcionado.
— Eu devia voltar a Tucson? — perguntei. — Estou bem acordada agora. Ou talvez tirar um cochilo aqui antes...
— Não! — ele interrompeu em uma voz um pouco mais alta.
Eu me assustei, e a pequena pílula escorregou pelos meus dedos. Caiu no piso metálico com um tinido que mal se ouviu. Eu senti o sangue deixar o meu rosto.
— Não foi minha intenção te alarmar — ele se desculpou rapidamente, seus olhos repetindo o circuito. — Mas você não devia permanecer por aqui.
— Por quê? — consegui murmurar.
— Houve um... desaparecimento recentemente.
— Eu não entendo. Um desaparecimento?
— Pode ter sido um acidente... mas pode haver... — ele hesitou, desconfortável ao dizer a palavra — humanos nessa área.
— Humanos? — Eu repeti alarmada, alto demais. Ele ouviu o medo em minha voz e interpretou da única forma que podia.
— Não há provas disso, Folhas no Céu. Ninguém viu nada. Não fique preocupada. Mas você deve ir para Phoenix sem mais atrasos desnecessários.
— Claro. Ou talvez Tucson? Deve estar mais perto.
— Não há perigo. Você pode continuar com seus planos.
— Se o senhor tem certeza, Buscador...
— Tenho certeza, sim. Só não vá vagar pelo deserto, Flor. — Ele sorriu. A expressão tornando seu rosto mais caloroso, gentil. Assim como todas as almas com as quais lidei. Ele não estava ansioso e preocupado quanto a mim, mas pormim.
Ele não estava procurando mentiras. E provavelmente não as perceberia se ouvisse. Era só mais uma alma.
— Eu não planejava fazer isso — sorri de volta. — E serei mais cuidadosa. Eu sei que não dormirei agora — olhei para o deserto pela janela de Jared com uma expressão suspeita, para que o Buscador pensasse que o medo me deixaria alerta.
Minha expressão ficou tensa e retesada quando vi um par de faróis refletidos no espelho lateral.
A espinha de Jared enrijeceu ao mesmo tempo, mas ele manteve a posição. Parecia um pouco rígida demais.
Meus olhos voltaram para o Buscador.
— Nisso eu posso ajudar — ele disse, ainda sorrindo, mas olhando para baixo enquanto procurava algo em seu bolso.
Ele não havia visto a mudança no meu rosto. Eu tentei controlar os músculos faciais, fazê-los relaxarem, mas não conseguia me concentrar o suficiente para isso.
No espelho retrovisor, as luzes do farol ficavam cada vez mais próximas.
— Você não deve usar com frequência — o Buscador continuou, procurando no outro bolso agora. — Não faz mal, é claro, ou os Curandeiros não teriam nos dado. Mas se você usar frequentemente vai alterar seu ciclo de sono... Ah, aqui está. Acordar.
As luzes diminuíram a velocidade ao se aproximar.
Vão em frente, implorei em minha cabeça. Não parem. Não parem. Não parem.
Que seja Kyle no volante, Melanie acrescentou, as palavras como uma oração.
Não parem. Continuem dirigindo. Não parem.
— Senhorita?
Eu pisquei, tentando me concentrar.
— Hmm. Acordar?
— Basta inalar, Folhas no Céu.
Ele tinha uma lata de aerossol fina nas mãos. Ele liberou uma nuvem branca no ar a minha frente. Eu me inclinei e obedientemente respirei fundo, olhando no espelho ao mesmo tempo.
— Tem aroma de grapefruit — o Buscador disse. — Gostoso, não acha?
— Muito bom. — Meu cérebro de repente estava afiado e concentrado.
O grande caminhão diminuiu e então praticamente parou atrás de nós.
NÃO! Mel e eu gritamos juntas. Eu procurei no piso escuro por meio segundo, esperando sem esperança que a pequena pílula estivesse visível. Eu não conseguia nem enxergar meus pés.
O Buscador olhou em direção ao caminhão também, acenando para ele continuar, um sorriso forçado em meu rosto. Eu não conseguia ver quem estava dirigindo. Meus olhos refletiram a luz dos faróis, lançando sua própria luz.
O caminhão hesitou.
O Buscador acenou novamente, mais amplamente dessa vez.
— Vá em frente — ele murmurou para si mesmo.
DIRIJA! DIRIJA! DIRIJA!
Ao meu lado, a mão de Jared estava fechada em punho.
Lentamente, o grande caminhão de mudança avançou pelo espaço entre o meu carro e o dos Buscadores. A luz no carro do Buscador marcaram duas silhuetas, dois perfis escuros encarando a estrada a frente. O perfil no banco motorista tinha o nariz torto.
Mel e eu exalamos em alívio.
— Como você se sente?
— Alerta — disse a ele.
— O efeito vai passar em umas quatro horas.
— Obrigada.
O Buscador sorriu.
— Obrigado a você, Folhas no Céu. Quando nós te vimos correndo pela pista, pensamos que podíamos estar com humanos em nossas mãos. Eu estava suando, mas não era por causa do calor.
Eu estremeci.
— Não se preocupe. Você ficará perfeitamente bem. Se preferir, podemos segui-la até Phoenix.
— Eu estou bem. Não se incomode.
— Foi bom te conhecer. Eu ficarei feliz quando meu turno acabar e ir para casa dizer a minha parceira que encontrei outra Flor. Ela ficará muito excitada.
— Hmm... diga a ela por mim: "Sol brilhante, dia longo” — eu disse. Dando a ele a tradução do cumprimento e despedida comum no Planeta das Flores.
— Certamente. Tenha uma boa viagem.
— E você uma noite agradável.
Ele deu um passo para trás e a luz bateu nos meus olhos novamente, eu pisquei furiosamente.
— Apague isso, Hank — disse o Buscador, com a mão sob os olhos enquanto caminhava em direção ao carro. A noite ficou escura outra vez quando as luzes foram apagadas, e eu forcei outro sorriso em direção ao Buscador chamado Hank.
Eu liguei o carro com mãos trêmulas.
Os Buscadores foram mais rápidos. O pequeno carro preto, com a barra de luzes incongruentes na capota ganhou vida. Fez uma curva fechada em U e então as luzes traseiras eram tudo o que eu via. Elas desapareceram rapidamente.
Eu voltei para a estrada. Meu coração bombeava o sangue pelas minhas veias com violência. Eu podia sentir a pulsação forte nos meus dedos.
— Eles se foram — murmurei pelos dentes, que subitamente estavam batendo.
Eu ouvi Jared engolir em seco.
— Essa foi... por pouco — ele disse.
— Eu achei que Kyle fosse parar.
— Eu também.
Nenhum de nós conseguia falar mais alto do que um sussurro.
— O Buscador acreditou. — Seus dentes ainda estavam pressionados de ansiedade.
— Sim.
— Eu não teria. Sua atuação não melhorou muito.
Eu estremeci, dando de ombros.
— Eles não podem não acreditar em mim. O que eu sou... bem, é algo impossível. Algo que não devia existir.
— Algo inacreditável — ele concordou. — Algo maravilhoso.
Seu elogio derreteu um pouco do gelo no meu estômago, nas minhas veias.
— Buscadores não são assim tão diferentes do resto de nós — murmurei. — Nada para temer especialmente.
Ele balançou a cabeça lentamente para trás e para frente.
— Não há nada que você não consiga fazer, há?
Eu não tinha certeza de como responder isso.
— Ter você conosco vai mudar tudo. — Ele continuou ainda mais baixo, falando com si mesmo.
Eu podia sentir como as palavras dele fizeram Mel triste, mas ela não estava com raiva dessa vez. Ela estava conformada.
Você pode ajudá-los. Você pode protegê-los melhor do que eu pude. Ela deu um suspiro.
As luzes traseiras se movendo lentamente não me assustaram quando apareceram na estrada à frente. Elas eram familiares, um alívio. Eu acelerei – só um pouco, ainda abaixo do limite – para ultrapassá-los.
Jared pegou uma lanterna no porta luvas. Eu entendi o que ele estava fazendo: tranquilizando-os.
Ele iluminou seus próprios olhos quando passamos pela cabine do caminhão. Eu olhava além dele para a outra janela. Kyle assentiu com a cabeça e respirou fundo. Ian se inclinava sobre Kyle ansioso, seus olhos focados em mim. Eu acenei e ele sorriu para mim.
Nós estávamos chegando perto da nossa saída escondida.
— Eu devo ir até Phoenix?
Jared pensou sobre isso.
— Não. Eles podem nos ver no caminho de volta e nos parar novamente. Eu não acho que eles estejam seguindo. Estão concentrados na estrada.
— Não, eles não vão nos seguir. — Eu tinha certeza disso.
— Vamos para casa então.
— Casa — concordei de todo coração.
Nós apagamos as luzes, e Kyle fez o mesmo atrás de nós.
Nós levaríamos os dois veículos direto para as cavernas e descarregar rapidamente para que eles estivessem escondidos antes do amanhecer. A pequena cobertura na entrada da caverna não iria escondê-los.
Eu revirei os olhos ao pensar na entrada para as cavernas. O grande mistério que eu não consegui descobrir. Jeb era tão cheio de truques.
Um truque – assim como as direções que ele havia desenhado no álbum de fotografia. Elas não nos guiava para as cavernas de forma alguma. Não, ao invés disso, fazia as pessoas que seguissem o mapa andar em círculos, indo e vindo em frente ao seu lugar secreto, dando a ele ampla oportunidade de decidir se ele irá ou não convidar a pessoa a entrar.
— O que você acha que aconteceu? — Jared perguntou, interrompendo meus pensamentos.
— Como assim?
— O desaparecimento recente que o Buscador mencionou.
Eu encarava a frente, sem expressão.
— Não seria eu?
— Eu não acho que você seria considerada recente, Peg. Além disso, eles não estavam vigiando a estrada quando nós saímos. Eles estão procurando por nós. Aqui.
Ele estreitou os olhos. Os meus arregalaram.
— O que eles fizeram? — Jared subitamente explodiu, batendo a mão no painel.
Eu dei um pulo.
— Você acha que Jeb e os outros fizeram algo?
Ele não me respondeu, apenas encarava o deserto com olhos furiosos.
Eu não entendi. Por que os Buscadores procurariam por humanos só porque alguém desapareceu no deserto? Acidentes aconteciam. Por que eles chegariam a essa conclusão em particular? E por que Jared estava com raiva? Nossa família nas cavernas não faria nada para chamar atenção sobre si. Eles eram mais espertos do que isso. Eles não sairiam a não ser que houvesse algum tipo de emergência. Ou algo que eles sentissem que fosse urgente. Necessário.
Jeb e Doc andaram se aproveitando da minha ausência?
Jeb somente havia concordado em parar com a matança de pessoas enquanto eu estivesse sob o mesmo teto. Era esse o compromisso deles?
— Você está bem? — Jared perguntou.
Minha garganta estava muito apertada para responder. Eu só balancei a cabeça. As lágrimas desciam pela minha bochecha e caiam no meu colo.
— É melhor eu dirigir.
Eu sacudi minha cabeça, negando. Eu podia enxergar suficientemente bem.
Ele não discutiu comigo.
Eu ainda estava chorando silenciosamente quando chegamos à pequena montanha que escondia o nosso vasto sistema de cavernas. Era na verdade só um monte – um monte de rocha vulcânica insignificante, como tantas outras. As milhares de pequenas aberturas estavam invisíveis, perdidos na confusão de rochas e pedrinhas de cor púrpura escura. Em algum lugar, fumaça devia estar subindo, preto no preto.
Eu desci da van e encostei-me à porta, secando os olhos. Jared veio ficar do meu lado. Ele hesitou, então pôs uma mão no meu ombro.
— Desculpe. Eu não sabia que eles estavam planejando isso. Não fazia ideia. Eles não deviam...
Mas ele só pensava isso por que de alguma forma foram pegos.
O caminhão de mudança parou atrás de nós. Duas portas bateram, e os pés correram em nossa direção.
— O que aconteceu? — Kyle exigiu.
Ian estava bem atrás dele. Ele deu uma olhada em minha expressão, as lágrimas ainda escorrendo, a mão de Jared no meu ombro, então ele se lançou para frente e me abraçou. Ele me puxou para seu peito. Eu não sei por que isso me fez chorar ainda mais. Eu me agarrei nele, as lágrimas molhavam sua camiseta.
— Tá tudo bem. Você foi ótima. Acabou.
— O Buscador não é o problema Ian — Jared disse, a voz controlada, sua mão ainda me tocando, mas ele teve que dar um passo a frente para manter esse contato.
— Hã?
— Eles estão vigiando a estrada por uma razão. Parece que Doc tem... trabalhado na nossa ausência.
Eu estremeci, e por um momento eu pareci sentir o gosto do sangue prateado no fundo da garganta.
— Por que esses...! — A fúria de Ian roubou a fala dele. Ele não conseguiu terminar a frase.
— Que ótimo — Kyle disse um uma voz desgostosa. — Idiotas. Nós ficamos longe por algumas semanas e eles conseguem arranjar uma patrulha de Buscadores. Eles podiam simplesmente ter nos pedido para...
— Cala a boca, Kyle — Jared disse rudemente. — Esse não é o momento. Nós temos que descarregar rápido. Quem sabe quantos estão procurando por nós? Vamos pegar um pouco e arrumar mais mãos para ajudar.
Eu me afastei de Ian para poder ajudar. As lágrimas não pararam de correr. Ian ficou perto de mim, pegando o pesado saco de sopa enlatada que eu havia pegado e a substituindo por uma grande, mas leve caixa de macarrão.
Nós começamos a descida, Jared na frente. A escuridão total não me incomodava. Eu ainda não conhecia bem o caminho, mas não era difícil. Direto para baixo, e então direto para cima.
Nós estávamos no meio do caminho quando uma voz familiar chamou de algum lugar distante. Ecoava pelo túnel a fracionando.
— Eles voltaram... aram... voltaram — Jamie estava gritando.
Eu tentei secar as lágrimas no meu ombro, mas não consegui secar todas.
Uma luz azul se aproximava, tremendo conforme seu carregador corria. Então Jamie estava visível. Sua expressão me derrubou.
Eu estava tentando me compor para recebê-lo, supondo que ele estaria feliz e não querendo chateá-lo.
Mas Jamie já estava chateado. Seu rosto estava pálido e tenso, seus olhos vermelhos. Suas bochechas sujas tinham caminhos pela poeira, linhas deixadas pelas lágrimas.
— Jamie? — Jared e eu dissemos juntos, largando nossas caixas no chão.
Jamie correu direto para mim e lançou os braços em volta da minha cintura.
— Ah Peg! Jared! — ele soluçava. — Wes está morto. Morto! A Buscadora o matou!
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