terça-feira, março 18, 2014
Interrogada
Eu matei Wes.
Minhas mãos, arranhadas e tingidas de poeira roxa por causa do descarregamento desenfreado, podiam estar cobertas com seu sangue. Wes estava morto, e era tanto minha culpa como se eu tivesse apertado o gatilho.
Todos nós, menos cinco, estávamos na cozinha agora que o caminhão havia sido descarregado, comendo alguns dos perecíveis que pegamos na última parada – queijo e pão fresco com leite – ouvindo Jeb e Doc explicarem tudo a Jared, Ian e Kyle.
Eu sentei a uma pouca distancia dos outros, minha cabeça nas mãos, muito anestesiada com dor e culpa para fazer perguntas do jeito que eles faziam. Jamie estava sentado comigo. Ele eventualmente dava tapinhas nas minhas costas.
Wes já estava enterrado na gruta ao lado de Walter. Ele havia morrido há quatro dias, no dia em que Jared, Ian e eu observamos a família no parque. Eu nunca veria meu amigo novamente, escutaria sua voz... as lágrimas caíam na pedra da mesa, e os tapinhas de Jamie aumentaram.
Andy e Paige não estavam aqui. Eles tinham levado o caminhão e a van a seus esconderijos. Levariam o jipe de lá para sua garagem tosca, e então andariam de volta para casa. Estariam de volta no nascer do sol.
Lily não estava aqui.
— Ela não... está muito bem — Jamie murmurou quando me pegou procurando por ela.
Eu não queria saber de mais nada. Eu muito podia bem imaginar.
Aaron e Brandt não estavam ali.
Brandt agora tinha uma cicatriz circular rosada e lisa no espaço entre a clavícula e o meio do peito. A bala errou o coração e os pulmões por um fio, e então varara o ombro tentando escapar. Doc usou muito Curar para tirar a bala dele. Brandt estava bem agora.
A bala de Wes tivera mira mais certeira. Perfurou sua testa e estourou seu caminho de saída na parte de trás da cabeça dele. Não teve nada que Doc pudesse fazer, mesmo que ele estivesse bem ali ao lado dele com um galão de Curar à disposição.
Brandt, que agora carregava um coldre no quadril, um troféu pesado do encontro, estava com Aaron. Eles estavam no túnel onde nós teríamos estocado o que trouxemos se não estivesse ocupado. Se não estivesse sendo usado como prisão novamente.
Como se perder Wes não tivesse sido o suficiente.
Parecia a mim, terrivelmente errado que os números permanecessem os mesmos. Trinta e cinco corpos vivos, exatamente como antes de eu vir para as cavernas. Wes e Walter se foram, mas eu estava aqui.
E agora também a Buscadora. Minha Buscadora.
Se eu tivesse ido direto para Tucson. Se eu tivesse ficado em São Diego. Se eu tivesse saltado esse planeta e ido para algum lugar inteiramente diferente. Se eu tivesse me dedicado a ser Mãe como qualquer outra teria feito após cinco ou seis planetas. Se, se, se... Se eu não tivesse vindo aqui, se eu não tivesse dado a Buscadora as pistas que ela precisou para me seguir, então Wes estaria vivo.
Ela levou mais tempo para entender as pistas, mas quando entendeu, não precisou persegui-los com cuidado. Ela cruzou o deserto em uma SUV 4x4 , cobrindo de cicatrizes recentes e radiantes a frágil paisagem, cada vez chegando mais perto.
Eles tiveram que fazer algo. Eles tinham que pará-la.
Eu matei Wes.
Eles ainda teriam me pegado no início, Peg. Eu os guiei até aqui, não você.
Eu estava me sentindo miserável demais para responder.
Além disso, se não tivéssemos vindo, Jamie estaria morto. E talvez Jared também. Ele teria morrido esta noite sem você.
Morte por todos os lados. Morte em qualquer lugar que eu olhasse.
Por que ela teve que me seguir?, lamentei comigo mesma, eu não estou prejudicando as outras almas, não de verdade. Estou até salvando algumas vidas estando aqui, agora que Doc parou com suas trágicas tentativas. Por que ela tinha que me seguir?
Por que eles a mantém aqui?, Melanie rosnou. Por que não a mataram na hora? Ou bem lentamente... eu não me importo. Por que ela ainda está viva?
Medo enchia meu estômago. A Buscadora estava viva; a Buscadora estava aqui.
Eu não devia ter medo dela.
Claro, fazia sentido ter medo de que o desaparecimento dela trouxesse outros Buscadores. Todos estavam com medo disso. Enquanto espionavam as buscas pelo meu corpo, os humanos tinham visto quanto ela era eloquente em suas convicções. Ela tentara convencer os outros Buscadores que havia humanos escondidos no deserto. Nenhum a levou a sério. Eles foram para casa, ela foi a única que continuou procurando.
Mas agora ela tinha desaparecido no meio de uma busca. Isso mudava tudo.
Seu veículo tinha sido levado para longe, largado no deserto do outro lado de Tucson. Pareceria que ela havia desaparecido da mesma forma que eu: pedaços da mochila deixados para trás. Os lanches que ela carregava mastigados e espalhados. As outras almas aceitariam essa coincidência?
Nós já sabíamos que não. Não inteiramente. Eles estavam procurando. A busca ficaria mais intensa?
Mas ter medo da própria Buscadora? Isso não fazia sentido. Ela era fisicamente insignificante, provavelmente menor que Jamie. Eu era mais forte e mais rápida que ela. Estava cercada de amigos e aliados, e ela, pelo menos dentro das cavernas, estava sozinha.
Duas armas, a espingarda e a própria Glock dela – a mesma arma que Ian uma vez invejou, a arma que matou meu amigo Wes – estavam apontadas o tempo todo para ela. Só uma coisa a mantivera viva até agora, e isso não a salvaria por muito tempo.
Jeb achou que eu gostaria de falar com ela. Só isso.
Agora que eu havia voltado, ela estava condenada a morrer em algumas horas, eu falando ou não com ela.
Então por que eu sentia que estava em desvantagem? Por que essa estranha premonição de que seria ela a sair ilesa do nosso confronto?
Eu ainda não havia decidido se queria falar com ela. Pelo menos foi isso que eu disse a Jeb.
Sem a menor dúvida, eu não queria falar com ela. Estava apavorada de ver a cara dela novamente – uma cara que, por mais que eu tentasse, não conseguia imaginar parecer amedrontada.
Mas se eu dissesse que não tinha desejo de conversar com ela, Aaron lhe daria um tiro. Seria como se eu desse a ordem para matá-la. Como se eu puxasse o gatilho.
Ou pior, Doc tentaria extirpá-la do corpo humano. Estremeci com a memória do sangue prateado nas mãos do meu amigo. Melanie se contorcia desconfortável, tentando escapar do tormento em minha cabeça.
Peg? Eles só vão atirar nela. Não entre em pânico.
Isso devia me confortar? Eu não conseguia me impedir de imaginar a cena. Aaron, com suas mãos na arma da Buscadora, o corpo dela caindo lentamente no chão, sangue se empoçando ao redor dela...
Você não tem que assistir.
Isso não impediria o fato de acontecer.
Os pensamentos de Melanie ficaram um pouco frenéticos. Mas nós queremos que ela morra, certo? Ela matou Wes! Além disso, ela não pode ficar viva. Não importa o que aconteça.
Ela estava certa sobre tudo, claro. Era verdade que não tinha como a Buscadora continuar viva. Presa, ela faria tudo para fugir. Livre, seria a morte de minha família.
Era verdade que ela havia matado Wes. Ele era tão jovem e tão amado. Sua morte deixara um sofrimento ardente que agora queimava. Entendi o clamor de justiça humana que exigia a vida dela em retorno.
E também era verdade que eu a queria morta.
— Peg? Peg?
Jamie sacudiu meu braço. Eu levei um momento para perceber que alguém chamava meu nome. Talvez já estivesse chamando há algum tempo.
— Peg? — A voz de Jeb chamou novamente.
Eu olhei para cima. Ele estava em pé acima de mim. Seu rosto sem expressão, a fachada vazia que ele usava quando estava sentindo alguma grande emoção. Sua expressão "poker face".
— Os rapazes querem saber se você tem alguma pergunta para a Buscadora.
Eu pus uma mão na testa, tentando bloquear as imagens ali.
— E se eu não tiver?
— Eles já cansaram com o serviço de vigia. É um momento delicado. Eles prefeririam estar com os amigos.
Eu concordei com um gesto de cabeça.
— Okay. É melhor eu... ir vê-la logo então — dei um impulso na pedra e me ergui. Minhas mãos tremiam, então fechei os punhos.
Você não tem pergunta nenhuma.
Eu pensarei em alguma.
Por que prolongar o inevitável?
Não faço ideia.
Você está tentando salvá-la, acusou Melanie, cheia de indignação.
Não há jeito de fazer isso.
Não, não há. E mais, você a quer morta. Então deixe que eles atirem nela.
Eu estremeci.
— Você está bem? — Jamie perguntou.
Eu acenei, não confiando na minha voz para falar.
— Você não precisa fazer isso — Jeb me disse, seus olhos me estudando.
— Tá tudo bem — murmurei.
Jamie pegou minha mão, mas eu a soltei.
— Fique aqui Jamie.
— Eu vou com você.
Minha voz ficou mais forte agora.
— Ah não, você não vai.
Nós nos encaramos por um momento, e pela primeira vez eu venci a discussão. Ele ergueu o queixo teimosamente, mas voltou a se sentar.
Ian, também parecia inclinado a me seguir, mas eu o parei com um único olhar. Jared me olhou sair da cozinha com uma expressão insondável.
— Ela é reclamona — Jeb me disse em voz baixa enquanto passávamos pelo buraco. — Não é exatamente como você era. Sempre pedindo mais... comida, água, travesseiros... Ela ameaça muito também. "Os Buscadores vão pegar todos vocês!" Esse tipo de coisa. Tem sido especialmente difícil para Brandt. Ela está levando a paciência dele além do limite.
Eu acenei, isso não me surpreendia.
— Mas, ela não tentou fugir. Muita conversa, pouca ação. Uma vez que as armas se erguem, ela recua rapidinho.
Eu estremeci.
— Meu palpite é que ela quer viver e muito — Jeb murmurou para si mesmo.
— Você tem certeza de que esse é o lugar mais seguro para mantê-la? — perguntei enquanto descíamos pelo túnel contorcido e escuro.
Jeb sorriu.
— Você não encontrou a saída — ele me lembrou. — Às vezes o melhor esconderijo é o que está debaixo do nariz.
Minha resposta foi simples.
— Ela está mais motivada do que eu estava.
— Os rapazes estão mantendo os olhos nela. Nada com o que se preocupar.
Nós estávamos quase lá. O túnel se torceu em um V fechado.
Quantas vezes eu havia percorrido aquela esquina, minhas mãos apalpando a parte interna do ângulo, exatamente como agora? Eu nunca tinha tateado a parede externa. Era irregular, com pedras afiadas que deixariam machucados e me fariam tropeçar... Ficar na parte interna da curva era o caminho mais curto para a saída.
Quando eles me mostraram pela primeira vez que o V era na verdade um Y – duas ramificações saindo de um outro túnel, o túnel – eu me senti bastante idiota. Como Jeb disse, esconder coisas bem debaixo do nariz era, às vezes, o melhor caminho. Nas vezes em que fiquei desesperada o suficiente para pensar em escapar das cavernas, minha mente havia perdido essa especulação. Aqui era o buraco, a prisão. Na minha cabeça, era o lugar mais escuro e profundo das cavernas. Foi lá que eles haviam me enterrado.
Mesmo Mel, mais acostumada com subterfúgios que eu, nunca imaginou que eles me manteriam a alguns passos da saída.
Não era nem a única saída. Mas a outra era pequena e apertada, um espaço para engatinhar. Eu não encontrei essa porque caminhava por essas cavernas a pé. Eu não procurei por esse tipo de túnel. Além disso, eu nunca explorei as imediações do hospital de Doc, evitei o local desde o início.
A voz, familiar apesar de parecer fazer parte de outra vida, interrompeu meus pensamentos.
— Eu me pergunto como vocês ainda estão vivos comendo assim. Eca!
Algo plástico bateu contra as rochas.
Eu podia ver a luz azul quando viramos a última esquina.
— Eu não sabia que os humanos tinham a paciência para matar alguém de fome. Parece um plano muito complexo para vocês, criaturas com tão pouca visão.
Jeb riu.
— Tenho que admitir. Estou surpreso com esses garotos. Surpreso de eles terem aguentado esse tempo todo.
Nós chegamos ao beco sem saída iluminado ao túnel. Brandt e Aaron, ambos sentados o mais longe possível do final do túnel onde a Buscadora andava em círculos, os dois com armas na mão, suspiraram de alívio ao nos ver aproximando.
— Finalmente — Brandt murmurou. Seu rosto estava marcado com profundas marcas de dor.
A Buscadora interrompeu suas passadas.
Eu me surpreendi ao ver as condições em que ela era mantida.
Ela não estava metida no minúsculo buraco, mas livre, caminhando pela curta extensão do túnel. No chão, contra a parede do fundo, havia um colchonete e um travesseiro. Uma bandeja de plástico estava posicionada em um ângulo oposto ao da parede mais ou menos no meio da caverna; algumas raízes espalhadas perto da bandeja com uma tigela de sopa. Um pouco de sopa estava derramada onde tudo isso estava. Isso explicava o barulho que eu havia acabado de ouvir – ela jogara a comida ali. Mas parecia que havia comido a maior parte.
Eu olhei o lugar relativamente humano e senti uma estranha dor no estômago.
Quem nós matamos?, Melanie resmungou mal humorada. Isso a incomodava também.
— Você quer um minuto com ela? — Brandt perguntou a mim, e a dor me apunhalou novamente. Alguma vez Brandt se referiu a mim usando um pronome pessoal? Eu não me surpreendia por Jeb usar um para falar dela, mas os outros?
— Sim — sussurrei.
— Cuidado — Aaron avisou. — Ela é uma coisinha raivosa.
Eu acenei.
Os outros ficaram onde estavam. Eu caminhei para o fundo do túnel sozinha.
Foi difícil erguer os olhos, encontrar aquele olhar que eu podia sentir como dedos frios contra o meu rosto.
A Buscadora estava me encarando, um sorriso esnobe em seu rosto. Eu nunca vi uma alma usar uma expressão dessas antes.
— Bem, olá Melanie — ela zombou. — Por que demorou tanto para vir me visitar?
Eu não respondi. Caminhei em sua direção lentamente, tentando muito acreditar que o ódio que eu sentia no meu corpo não pertencia a mim.
— Os seus amiguinhos acharam que eu falaria com você? Revelaria todos os meus segredos porque você carrega uma alma lobotomizada em sua cabeça, refletindo através de seus olhos? — ela riu acidamente.
Eu parei a dois passos dela, meu corpo tenso preparado para correr. Ela não fez nenhum movimento agressivo em minha direção, mas eu não conseguia relaxar os músculos. Isso não era como encontrar o Buscador na autoestrada – eu não tinha a familiar sensação de segurança que sentia com as outras gentis almas. De novo, a estranha sensação que ela viveria muito ainda após eu ter ido passou por mim.
Não seja ridícula. Pergunte logo. Você já pensou em alguma?
— Então, o que você quer? Pediu permissão para me matar pessoalmente, Melanie? — a Buscadora sibilou.
— Eles me chamam de Peg aqui — eu disse.
Ela se afastou levemente quando eu abri a boca para falar, como se esperando que eu gritasse. Minha voz baixa e sem inflexão pareceu incomodá-la mais que o grito que ela havia antecipado.
Examinei seu rosto enquanto ela me encarava com olhos esbugalhados. Estava sujo, machado de poeira roxa e suor seco. Além disso, não havia nenhuma outra marca. Novamente, isso me deu uma estranha sensação de dor.
— Peg — ela repetiu secamente. — Bem, o que você está esperando? Eles não te deram permissão? Você planejava usar suas mãos ou minha arma?
— Eu não estou aqui para te matar.
Ela sorriu amargamente.
— Para me interrogar, então? Onde estão os instrumentos de tortura, humana?
Eu estremeci.
— Eu não vou machucá-la.
Em seu rosto surgiu um flash de insegurança que rapidamente foi substituído pelo sorriso esnobe.
— Por que estão me mantendo aqui então? Eles acham que podem me domesticar, como a sua almazinha de estimação?
— Não. Eles só... não queriam matá-la antes de me... consultar. Para o caso de eu querer falar com você antes.
Suas pálpebras desceram, estreitando seus olhos.
— Você tem algo a dizer?
Eu engoli.
— Eu estava imaginando... — eu só tinha uma mesma pergunta, a que eu não era capaz de responder por mim mesma. — Por quê? Por que você não me deixou morta como os outros? Por que você estava tão determinada a me caçar? Eu não queria machucar ninguém. Só... seguir meu próprio caminho.
Ela ficou na ponta dos pés, aproximando o rosto dela do meu. Alguém se moveu atrás de mim, mas eu não pude ouvir mais do que isso – ela estava gritando na minha cara.
— Porque eu estava certa! — gritava. — Mais do que certa! Olhe para eles. Um ninho desprezível de assassinos, na espreita! Exatamente como pensei, só que muito pior! Eu sabia que você estava aqui com eles! Era uma deles! Eu disseque havia perigo! Eu disse!
Ela parou, respirando fundo, e deu um passo para trás, encarando por sobre meus ombros. Eu não olhei para ver o que havia feito ela se afastar. Deduzi que tivesse alguma relação com o que Jeb disse a respeito de ela ficar mansa quando as armas apareciam. Analisei sua expressão por um momento enquanto sua respiração se acalmava.
— Mas eles não te ouviram. Então você veio até nós, sozinha.
A Buscadora não respondeu. Ela deu outro passo para trás, dúvida contorcendo sua expressão. Ela pareceu estranhamente vulnerável por um segundo, como se minhas palavras tivessem partido o escudo atrás do qual ela se escondia.
— Eles procurarão por você, mas no fim das contas, eles nunca acreditaram em você, não foi? — eu disse, observando como cada palavra era confirmada em sua expressão desesperada. Isso me deixou muito segura. — Então eles não levarão as buscas muito além. Quando eles não a encontrarem, o interesse irá desvanecer. Nós seremos cuidadosos, como sempre. Eles não nos encontrarão.
Agora eu podia ver medo de verdade nos olhos dela pela primeira vez. A consciência terrível – para ela – de que eu estava certa. E eu me senti melhor em relação ao meu ninho de humanos, minha pequena família. Eu estava certa. Eles estariam seguros. Ainda assim, eu não me sentia bem quanto a mim mesma.
Eu não tinha mais perguntas para ela. Quando eu me afastasse, ela morreria. Eles esperariam até que eu estivesse longe o bastante para não ouvir o tiro? Havia algum lugar nas cavernas longe o bastante para isso?
Encarei seu rosto cheio de raiva e medo, e eu soube o quão profundamente a odiava. O quanto eu nunca queria ver eu rosto novamente pelo resto de nossas vidas. Esse ódio tornava para mim impossível deixá-la morrer.
— Eu não sei como te salvar — sussurrei, baixo demais para os humanos ouvirem. Porque isso soava como uma mentira aos meus ouvidos? — Não consigo pensar em uma maneira.
— Por que você iria querer isso? Você é uma deles! — Mas um brilho de esperança acendeu em seus olhos. Jeb estava certo. Toda a pose, todas as ameaças... Ela queria muito continuar viva.
Eu acenei para a acusação dela, um pouco distraída, pois estava concentrada em pensar – e rápido.
— Mas ainda sou eu — murmurei. — E não quero... eu não quero...
Como terminar essa frase? Eu não queria... que ela morresse? Não. Isso não era verdade.
Eu não queria... odiá-la? Odiá-la tanto a ponto de querer vê-la morta. Deixá-la morrer enquanto eu a odiava. Quase como se ela morresse devido o meu ódio.
Se eu realmente não a quisesse morta, eu seria capaz de pensar em uma forma de salvá-la? O meu ódio estava bloqueando minha resposta? Seria eu responsável se ela morresse?
Você está louca?, Melanie protestou.
Ela havia matado meu amigo, o matou no deserto, partindo o coração de Lily. Ela pôs minha família em perigo. Enquanto vivesse, ela seria um perigo para eles. Par Ian, Jamie, Jared. Ela faria tudo em seu poder para vê-los mortos.
É mais por aí, Melanie aprovou essa linha de pensamento.
Mas se ela morrer quando eu podia salvá-la se quisesse... isso faria o que de mim?
Você tem que ser prática, Peg. Isso é uma guerra. De que lado você está?
Você sabe a resposta para isso.
Eu sei. E é isso que você é, Peg.
Mas... mas e se eu pudesse fazer as duas coisas? E se eu pudesse salvar ela e manter todos seguros ao mesmo tempo?
Uma pesada onda de náusea enrolou meu estômago quando vi a resposta que eu tentava acreditar que não existia.
A única parede que eu havia construído entre mim e Melanie virou pó.
Não! Ela arquejou. Então gritou. NÃO!
A resposta que eu sabia que encontraria. A resposta que explicava minha estranha premonição.
Eu podia salvar a Buscadora. Claro que podia. Mas me custaria alguma coisa. Uma troca. O que Kyle havia dito? Uma vida por uma vida.
A Buscadora me encarava, seus olhos escuros cheios de maldade.
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