terça-feira, março 18, 2014
Arrebatados
Imaginei que vista de fora eu parecesse tão parada quanto uma estátua. Minhas mãos estavam entrelaçadas em minha frente, meu rosto sem expressão, minha respiração muito superficial para mover meu peito.
Por dentro, eu girava como uma centrífuga, como se meus átomos estivessem revertendo a polaridade e se dispersando em explosões.
Trazer Melanie de volta não o ajudou. Tudo o que eu podia fazer não era o suficiente.
O corredor do lado de fora do quarto estava lotado. Jared, Kyle e Ian haviam voltado da incursão desesperada de mãos vazias. Um saco de gelo foi tudo que eles conseguiram após três dias arriscando suas vidas. Trudy fazia compressas frias no pescoço, testa e peito de Jamie.
Mesmo que o gelo diminuísse a febre, que queimava fora de controle, até quando o ele duraria? Uma hora? Mais? Menos? Quanto tempo até Jamie estar morrendo novamente?
Teria sido eu a colocar o gelo nele, mas eu não conseguia me mover. Se eu me movesse, eu me desfaria em pedaços microscópicos.
— Nada? — Doc murmurou. — Vocês checaram...
— Todos os lugares que pudemos pensar — Kyle interrompeu. — Não é como os analgésicos, que muita gente via razões para guardar escondido. Antibióticos sempre ficaram à mostra. Não há mais nada, Doc.
Jared só encarava o garoto avermelhado na cama, sem falar.
Ian estava ao meu lado.
— Não fique assim — murmurou. — Ele vai superar, ele é resistente.
Eu não conseguia responder. Mal ouvia as palavras, na verdade.
Doc se ajoelhou ao lado de Trudy e ergueu a cabeça de Jamie. Com uma vasilha, pegou um pouco da água do gelo e deixou cair na boca de Jamie. Todos nós ouvimos o ruído áspero e doloroso de Jamie engolindo. Mas seus olhos não se abriram.
Eu sentia como se nunca fosse ser capaz de me mover novamente. Como se fosse virar parte da parede. Eu queria ser de pedra.
Se eles cavassem um buraco para Jamie no deserto, eles teriam que me colocar lá dentro também.
Isso não é o bastante, Melanie grunhiu.
Eu estava desesperada, mas ela estava cheia de fúria.
Eles tentaram.
Tentar não resolve nada. Jamie não vai morrer. Eles tem que voltar lá fora.
Com que propósito? Mesmo se eles encontrarem seus velhos antibióticos, quais são as chances de eles ainda funcionarem? E eles só funcionavam na metade dos casos. Ele não precisa dos seus remédios. Ele precisa de mais que isso. Algo que realmente funcione...
Minha respiração acelerou, se aprofundou quando percebi.
Ele precisa dos meus, eu percebi.
Mel e eu estávamos chocadas com a obviedade da ideia. A sua simplicidade.
Meus lábios finalmente se abriram.
— Jamie precisa de remédios de verdade. Remédio de alma. É o que precisamos arrumar para ele.
Doc franziu a testa.
— Nós não temos como saber como eles funcionam, o que eles fazem.
— Isso importa? — Um pouco da raiva de Melanie estava presente na minha voz. — Eles funcionam. Eles podem salvá-lo.
Jared me encarou. Eu podia sentir os olhos de Ian em mim também, e o olhar de Kyle, e todos os outros no quarto. Mas eu só via Jared.
— Nós não podemos pegá-los Peg — Jeb disse com um tom de derrota. Desistindo. — Nós só podemos entrar em lugares desertos. Sempre tem muitos de vocês em um hospital. Vinte e quatro horas por dia. Muitos olhos. Nós não ajudaremos Jamie sendo pegos.
— Claro — Kyle disse com rigidez. — As centopeias ficariam superfelizes em curar o corpo dele quando nos encontrarem aqui. E transformá-lo num deles. É isso que você quer?
Eu me virei para encarar o homem enorme e cheio de desgosto. Meu corpo ficou tenso e eu inclinei para frente. Ian colocou a mão no meu ombro como se estivesse me contendo. Eu não achava que teria feito nenhum movimento agressivo em direção a Kyle, mas talvez eu estivesse errada. Eu estava longe de quem eu normalmente era.
Quando falei, minha voz estava morta, sem inflexão.
— Tem que haver uma maneira.
Jared maneava a cabeça. aquiescendo.
— Talvez algum lugar pequeno. A arma faria muito barulho, mas se estivermos em número suficiente para dominá-los, talvez pudéssemos usar facas...
— Não — meus braços se descruzaram e caíram com o choque. — Não. Não foi isso que eu quis dizer. Não matar...
Ninguém me ouviu. Jeb estava discutindo com Jared.
— Sem chance garoto, alguém chamaria os Buscadores. Mesmo que conseguíssemos entrar e sair, algo assim traria os Buscadores para cima de nós com tudo. Nós teríamos que correr e eles nos seguiriam.
— Espera, vocês não podem...
Eles ainda não estavam me ouvindo.
— Eu também não quero que o garoto morra, mas nós não podemos arriscar a vida de todos por causa de uma pessoa — Kyle disse. — Pessoas morrem aqui, acontece. Nós não podemos perder a cabeça para salvar um garoto.
Eu queria enforcar ele, acabar com o ar dele para cortar as palavras calmas. Eraeu, não Melanie, quem queria ver o rosto dele roxo. Melanie se sentia da mesma forma, mas eu sabia o quanto dessa violência vinha de mim.
— Nós temos que salvá-lo. — Eu disse, mais alto agora.
Jeb olhou para mim.
— Querida. Nós não podemos simplesmente entrar lá e pedir.
Bem aí, a verdade simples e óbvia me ocorreu.
— Vocês não podem. Mas eu posso.
O quarto ficou em um silêncio mortal.
Fui tomada pela beleza do plano se formando na minha cabeça. A perfeição dele. Eu falava mais para Melanie e para mim do que para eles. Ela estava impressionada. Isso funcionaria. Nós podíamos salvar Jamie.
— Eles não são desconfiados. Não mesmo. Mesmo eu sendo uma péssima mentirosa, jamais suspeitariam de mim. Eles não estariam procurando mentiras. Claro que não. Eu sou uma deles. Eles fariam qualquer coisa para ajudar. Eu diria que fui fazer uma trilha ou algo assim... e então arrumaria um jeito de ficar sozinha e pegar o máximo que pudesse esconder. Pense nisso! Eu poderia pegar o suficiente para curar todo mundo aqui por anos. E Jamie ficaria bem. Por que eu não pensei nisso antes? Talvez não fosse tarde demais nem para Walter.
Eu olhei para frente então, com olhos brilhantes. Era tão perfeito!
Tão perfeito, tão absolutamente certo, tão óbvio para mim, que levei um tempão para entender as expressões nos restos deles. Se Kyle não tivesse sido tão explícito, eu teria levado mais tempo ainda.
Ódio. Suspeita. Medo.
Mesmo a expressão poker face de Jeb não foi o suficiente. Seus olhos estavam cheios de desconfiança.
Cada rosto dizia NÃO.
Eles são loucos? Eles não veem como isso ajudaria a todos?
Eles não acreditam em mim. Acham que eu os machucaria, machucaria Jamie!
— Por favor — murmurei. — É a única forma de salvá-lo.
— Paciente não? — Kyle cuspiu. — Esperou bem a oportunidade, não acham?
Lutei contra o desejo de enforcá-lo.
— Doc? — implorei.
Ele não me encarou.
— Mesmo se houver um jeito de nós deixarmos você sair Peg... Eu não confiaria em drogas que não entendo. Jamie é forte, seu sistema vai lutar.
— Nós vamos sair de novo Peg — Ian murmurou. — Nós vamos encontrar algo. Nós não voltaremos até encontrar alguma coisa.
— Isso não é o bastante. — As lágrimas enchiam os meus olhos. Eu olhei para a única pessoa que podia estar sentindo tanta dor quanto eu. — Jared. Você sabe. Você sabe que eu nunca deixaria nada machucar Jamie. Você sabe que eu posso fazer isso. Por favor.
Ele me encarou por um longo momento. Então olhou ao redor, para cada rosto. Jeb, Doc, Kyle, Ian, Trudy. Do lado de fora ele olhou para a plateia que tinha expressões como a de Kyle: Sharon, Violetta, Lucina, Reid, Geoffrey, Heath, Heidi, Andy, Aaron, Wes, Lily, Carol. Meus amigos misturados com os inimigos, todos com a expressão de Kyle. Ele encarou a fileira seguinte de pessoas, que eu não podia ver.
Então olhou para baixo, para Jamie. Não havia som de respiração no quarto inteiro.
— Não, Peg. — Ele disse baixinho. — Não.
Um suspiro de alívio do resto.
Meus joelhos se dobraram. Eu me lancei para frente e me livrei da mão de Ian quando ele tentou me erguer. Eu engatinhei até Jamie e empurrei Trudy com o cotovelo. O quarto silencioso observava. Eu peguei a compressa da cabeça dele e a mergulhei no gelo derretido. Eu não encontrei os olhares que eu podia sentir na minha pele. Eu não poderia vê-los de qualquer forma, as lágrimas estavam grossas demais.
— Jamie, Jamie, Jamie — eu gemia. — Jamie, Jamie, Jamie.
Eu não parecia ser capaz de fazer mais nada, só soluçar o nome dele e pegar os pacotes de gelo, repetidamente, esperando o momento em que fosse necessário trocá-los.
Eu os ouvi partir, poucos de cada vez. Eu ouvi suas vozes, a maioria com raiva, desaparecerem pelos corredores. Eu não conseguia entender as palavras, no entanto.
Jamie, Jamie, Jamie...
— Jamie, Jamie, Jamie...
Ian se ajoelhou ao meu lado quando o quarto estava quase vazio.
— Eu sei que você não faria nada... mas Peg, eles te matarão se você tentar — ele murmurou. — Depois do que aconteceu... no hospital. Eles temem que você tenha bons motivos para nos destruir... Mas de qualquer forma, ele vai ficar bem. Você tem que confiar nisso.
Eu virei a cara e ele foi embora.
— Desculpe, garota — Jeb murmurou enquanto saía.
Jared partiu. Eu não o ouvi sair, mas eu sabia que ele havia saído. Isso me pareceu certo. Ele não amava Jamie como nós. Ele provou isso. Ele devia ir embora.
Doc ficou, observando desesperançado. Eu não olhei para ele.
A luz do dia desvaneceu lentamente, ficando laranja e então cinza. O gelo derreteu e sumiu. Jamie começou a queimar nas minhas mãos.
— Jamie, Jamie, Jamie... — Minha voz estava rouca e falhando, mas eu não parei. — Jamie, Jamie, Jamie...
O quarto ficou escuro. Eu não conseguia ver o rosto de Jamie. Ele partiria esta noite? Será que eu havia visto seu rosto vivo pela última vez?
Seu nome era só um suspiro em meus lábios agora, baixo o suficiente para eu ouvir o ronco discreto de Doc.
Eu passava o pano pelo seu corpo sem parar. Conforme a água secava, ele esfriava. A queimação diminuiu. Comecei a acreditar que ele não morreria essa noite. Mas eu não conseguiria segurar ele para sempre, ele escaparia de mim. Amanhã, ou depois. E então, eu morreria também. Eu não viveria sem Jamie.
Jamie, Jamie, Jamie... Melanie gemia.
Jared não acreditou em nós. O lamento era de nós duas. Nós pensamos ao mesmo tempo.
Estava muito quieto. Eu não ouvi nada. Nada me alertou.
Então de repente, Doc gritou, o som abafado como se ele estivesse gritando com um travesseiro na boca.
No início, meus olhos não conseguiam entender as formas na escuridão. Doc estava se torcendo estranhamente. E ele parecia muito grande – como se tivesse muitos braços. Era assustador. Eu me inclinei sobre Jamie para protegê-lo do que quer que fosse. Eu não podia fugir enquanto ele ficava ali indefeso. Meu coração batia forte contra as costelas.
Então os braços que sacudiam ficaram parados. O ronco de Doc voltou, mais alto e mais forte do que antes. Ele escorregou no chão e as formas se separaram. Uma segunda figura se ergueu e ficou parado na escuridão.
— Vamos — Jared sussurrou. — Nós não temos tempo a perder.
Meu coração quase explodiu.
Ele acredita.
Eu me levantei num salto.
— O que você fez com Doc?
— Clorofórmio. Não vai durar muito.
Eu me virei rapidamente e entornei a água sobre Jamie, molhando suas roupas e o colchão. Ele nem se moveu. Talvez isso o mantivesse fresco até Doc acordar.
— Me siga.
Eu estava nos calcanhares dele. Ele se movia em silêncio, quase nos tocando, quase correndo, mas não exatamente. Jared se movia colado nas paredes e eu fazia o mesmo.
Paramos quando alcançamos a luz enluarada da grande caverna. Estava deserta.
Eu podia ver Jared claramente pela primeira vez. Ele tinha a arma pendurada nas costas, e uma faca na cintura. A mão estava erguida, e um tecido preto estava nela. Eu entendi imediatamente.
As palavras murmuradas saíram apressadas pela minha boca.
— Isso, tape meus olhos.
Ele concordou, e eu fechei os olhos enquanto ele amarrava o pano. Eu os manteria fechados de qualquer forma.
O nó foi rápido e apertado. Quando ele terminou, girei em torno de mim mesma – uma, duas vezes...
Suas mãos me pararam.
— Assim está bom — ele disse. E então me segurou com força e me ergueu do chão. Eu suspirei surpresa quando ele me jogou em seus ombros. Eu fiquei dobrada ali, minha cabeça e peito nas costas dele, ao lado da arma. Seus braços mantiveram minhas pernas contra seu peito, e ele já estava em movimento. Eu sacudia enquanto ele corria, meu rosto batendo contra a blusa dele a cada passo.
Eu não fazia idéia de onde estávamos. Eu não tentei adivinhar ou sentir. Eu me concentrei somente em contar os passos dele e os solavancos que eu dava. Vinte, vinte e um, vinte e dois, vinte e três...
Eu senti ele se abaixar e depois se erguer. Eu tentei não pensar nisso. Quatrocentos e doze, quatrocentos e treze, quatrocentos e catorze...
Eu soube quando estávamos do lado de fora. Senti o cheiro da brisa seca do deserto. O ar estava quente, apesar de estar perto da meia noite.
Ele me pôs no chão.
O chão era liso.
— Você acha que consegue correr vendada?
— Sim.
Ele segurou o meu cotovelo com firmeza e começou a correr, estabelecendo um passo bem rigoroso. Não era fácil. Vez ou outra ele me segurava, antes que eu pudesse cair. Eu me acostumei depois de um tempo, e mantinha o equilíbrio. Nós corremos até estarmos arfando.
— Se nós chegarmos... ao jipe... estaremos livres.
O jipe? Eu senti uma estranha onda de nostalgia. Mel não via o jipe desde a desastrosa viajem a Chicago, nem ao menos sabia que ele havia sobrevivido.
— E se... não... conseguirmos? — perguntei.
— Eles nos pegarão... matarão você. Ian estava certo... sobre essa parte.
Eu tentei correr mais rápido. Não para salvar minha vida, mas porque eu era a única que podia salvar Jamie. Tropecei de novo.
— Eu vou... tirar a venda. Você vai ficar... mais rápida.
— Tem certeza?
— Não... olhe em volta. Okay?
— Prometo.
Ele tirou a venda. Eu me concentrei somente no chão.
Aquilo fez muita diferença. A luz da lua estava forte e a areia estava muito suave e clara. Jared recomeçou a correr em um ritmo mais acelerado,. Eu acompanhava sem dificuldade agora. Correr grandes distâncias era algo familiar para o meu corpo. Eu acelerei no meu ritmo favorito, sabia que não conseguiria manter esse ritmo por muito tempo, mas eu cairia no chão exausta tentando.
— Você está ouvindo... alguma coisa? — ele perguntou.
Eu tentei ouvir algo. Só os nossos passos na areia.
— Não.
Ele grunhiu em aprovação.
Eu imaginei que essa havia sido a razão para ele levar a arma. Eles não seriam capazes de nos impedir à distância sem ela.
Levou uma hora ou mais. Eu estava diminuindo já, e ele também. Minha boca queimava por água.
Eu nunca olhei para cima, então me assustei quando ele cobriu meus olhos com as mãos. Eu parei e ele nos fez caminhar.
— Está tudo bem, agora. É só seguir em frente...
Ele deixou as mãos nos meus olhos e me guiou em frente. Eu ouvi nossos passos ecoarem em algo. O deserto não era tão reto aqui.
— Entre.
Suas mãos desapareceram.
Estava quase tão escuro como com os olhos vendados. Outra caverna. Não muito profunda. Se eu me virasse seria capaz de ver a saída. Não me virei.
O jipe se sobressaía na escuridão. Estava exatamente como eu me lembrava, esse veículo que eu nunca tinha visto. Eu entrei pela porta e sentei.
Jared já estava no banco. Ele se inclinou e pôs a venda nos meus olhos novamente. Eu fiquei quieta para facilitar.
O barulho do motor me assustou. Parecia muito perigoso. Havia tantas pessoas que não podiam nos encontrar agora.
Nós nos movemos em marcha ré por uns momentos e então o vento batia no meu rosto. Havia um som estranho atrás do jipe, algo que não se encaixava nas memórias de Melanie.
— Nós vamos para Tucson — ele me disse. — Nós nunca fizemos incursões lá – é muito perto. Mas nós não temos tempo para mais nada. Eu sei onde há um pequeno hospital, não muito dentro da cidade.
— Não é o Saint Mary, é?
Ele ouviu o alarme na minha voz.
— Não, por quê?
— Eu conheço alguém lá.
Ele ficou quieto por um minuto.
— Você será reconhecida?
— Não, ninguém vai reconhecer meu rosto. Nós não temos... pessoas procuradas. Não como vocês tinham.
— Okay.
Mas agora ele me fez pensar, pensar sobre a minha aparência. Antes que eu pudesse falar sobre isso, ele pegou minha mão e colocou algo muito pequeno nela.
— Mantenha isso perto.
— O que é isso?
— Se eles adivinharem que você está conosco, se eles forem colocar... alguém dentro do corpo de Mel, coloque isso na boca e morda com força.
— Veneno?
— É.
Eu pensei nisso por um momento. E então ri, não pude evitar. Meus nervos estavam tensos de preocupação.
— Isso não é uma piada, Peg. — Ele disse irritado. — Se você não pode fazer isso, então eu tenho que te levar de volta.
— Não, não. Eu consigo — tentei me controlar. — Eu sei que consigo. É por isso que estou rindo.
Sua voz estava rude.
— Eu não vi graça.
— Não entende? Por milhões da minha espécie, jamais fui capaz disso. Nem mesmo por meus próprios... filhos. Eu sempre tive medo dessa morte final. Mas eu posso fazê-lo por uma criança alienígena. Não faz sentido. Mas não se preocupe, eu posso morrer para proteger Jamie.
— Eu estou confiando nisso.
Ficou quieto por um momento, então eu me lembrei da minha aparência.
— Jared, eu não estou com a aparência certa para entrar em um hospital.
— Nós temos roupas melhores escondidas nos veículos... menos suspeitos. É para lá que estamos indo. Cerca de cinco minutos.
Não era isso que eu quis dizer, mas ele estava certo. Essas roupas não serviam. Eu esperei para falar com ele sobre o resto. Eu precisava olhar para mim mesma antes.
O jipe parou, e ele tirou a venda.
— Não precisa olhar para baixo aqui. — Ele me disse quando eu abaixei a cabeça. — Não há nada aqui que nos entregue... no caso do lugar ser descoberto.
Não era uma caverna. Mas um monte de pedras. Algumas das rochas maiores foram cuidadosamente furadas, deixando espaços escuros embaixo delas que ninguém suspeitaria que tivesse nada mais que pedras e terra.
O jipe já estava estacionado em um canto apertado. Estava tão perto da rocha que eu tive que subir na traseira do jipe para poder sair. Havia uma coisa esquisita amarrada ao para-choque; correntes e dois encerados sujos, completamente esfarrapados e sujos.
— Aqui — Jared disse, e me levou até uma fissura escura mais baixa do que ele. Retirou um poeirento encerado cor de terra e vasculhou a pilha escondida atrás. Pegou uma camiseta macia e limpa, ainda com etiquetas. Ele arrancou-as e jogou a camisa para mim. Então ele enfiou a mão mais ao fundo e encontrou uma calça cáqui. Verificou o tamanho e me passou também.
— Vista isso.
Eu hesitei por um momento enquanto ele esperava, pensando qual era o meu problema. Eu enrubesci e virei de costas. Tirei minha camisa e vesti a outra o mais rápido que meus dedos desajeitados permitiram.
Eu o ouvi limpar a garganta.
— Oh, eu vou... hã... vou buscar o carro.
Eu tirei as calças e coloquei as novas. Meus sapatos estavam em péssimas condições, mas não chamavam muita atenção. Além disso, sapatos confortáveis não eram muito fáceis de achar. Eu podia fingir ser apegada a esse par.
Outro motor rosnou, mais baixo que o jipe. Eu virei e vi um modesto, discreto sedã saindo de um canto escuro. Jared desceu e colocou as correntes do jipe no outro carro. Então ele dirigiu até onde eu estava e eu vi que as correntes e trapos apagavam a marca de pneus da areia.
Jared se inclinou no banco do passageiro para abrir a porta para mim. Havia uma mochila no banco. Estava vazia. Sim, eu precisaria disso.
— Vamos.
— Espere — eu disse.
Eu me estiquei para poder ver o meu rosto no espelho lateral.
Nada bom. Eu coloquei o cabelo no rosto, mas não era o suficiente. Eu toquei minha bochecha e mordi o lábio.
— Jared. Eu não posso ir com o rosto assim — apontei para a longa e avermelhada cicatriz na minha pela.
— O quê? — ele perguntou.
— Nenhuma alma teria um machucado assim. Eles a teriam tratado. Eles vão perguntar por onde andei. Farão perguntas.
Seus olhos se arregalaram e então se estreitaram.
— Talvez você devesse ter pensado nisso antes. Se eu te levar de volta agora, eles vão pensar que foi tudo um plano para você aprender a saída.
— Nós não vamos voltar sem remédio para Jamie. — Minha voz estava mais dura do que a dele.
A dele ficou ainda mais rude para se igualar.
— O que você sugere então, Peg?
— Eu vou precisar de uma pedra — suspirei. — Você vai ter que me bater.
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