terça-feira, março 18, 2014
Forçada
A boca de Ian se abriu.
— Você... o que?
— Eu explico em um minuto. Isso não é justo, mas... por favor, Ian. Só me beije.
— Isso não vai te incomodar? Melanie não vai te encher?
— Ian! — reclamei. — Por favor!
Ainda confuso, ele colocou as mãos na minha cintura e puxou meu corpo contra o dele. Seu rosto estava tão preocupado, que me perguntei se isso funcionaria. Eu não precisava de romance, mas ele talvez sim.
Ele fechou os olhos ao se aproximar de mim, uma coisa automática. Seus lábios se pressionaram levemente nos meus, e então se afastaram para olhar para mim.
Nada.
— Não, Ian. Por favor, me beije de verdade. Como... como se você estivesse tentando levar um tapa. Entende?
— Não. Qual o problema? Diga-me primeiro.
Eu pus meus braços em seu pescoço. Era estranho, eu não tinha certeza de como fazer isso direito. Eu fiquei na ponta dos pés e puxei a cabeça dele ao mesmo tempo até alcançar os lábios dele com os meus.
Isso não teria funcionado com outra espécie. Outra mente não teria sido tão facilmente dominada pelo corpo. Outra espécie teria suas prioridades em uma ordem melhor. Mas Ian era humano, e seu corpo respondeu.
Eu pressionei minha boca contra a dele, apertando o pescoço dele quando a primeira reação dele foi se afastar. Lembrando de como a boca dele se moveu contra a minha antes, tentei imitar aquele movimento. Seus lábios se abriram para os meus e eu senti uma onda se animação com o sucesso. Eu capturei seu lábio inferior com meus dentes e ouvi um som de surpresa nascer no fundo da garganta dele.
E então eu não precisei mais tentar. Uma das mãos de Ian segurava meu rosto enquanto a outra estava na base da minha coluna, me mantendo tão perto que era difícil puxar o ar para dentro do meu peito comprimido. Eu estava arfando, mas ele também estava. Sua respiração se misturava com a minha. Eu sentia a parede de pedra contra as minhas costas, pressionada contra ela. Ele a usava para me aproximar ainda mais. Não havia parte de mim que não estivesse fundida com uma parte dele.
Éramos só nós dois, tão próximos que mal contava como dois.
Só nós.
Ninguém mais.
Sozinhos.
Ian sentiu quando eu desisti. Ele devia estar esperando por isso – não inteiramente governado pelo corpo como eu imaginei. Ele aliviou o abraço assim que sentiu meus braços relaxarem, mas manteve o rosto próximo do meu, a ponta do nariz dele tocando a ponta do meu.
Eu deixei meus braços caírem, e ele respirou fundo. Lentamente ele soltou ambas as mãos e as pôs em meus ombros.
— Explique — ele disse.
— Ela não está aqui — murmurei, ainda arfando. — Eu não consigo encontrá-la. Nem mesmo agora.
— Melanie?
— Eu não consigo ouvi-la! Ian, como posso voltar para Jamie? Ele vai saber que eu estou mentindo! Como vou dizer a ele que perdi a irmã dele agora? Ian ele está doente! Eu não posso dizer isso para ele! Vai magoá-lo, dificultar a melhora dele. Eu...
Os dedos de Ian pressionaram os meus lábios.
— Shh. Shh. Vamos pensar sobre isso. Quando foi a última vez que você a ouviu?
— Ah Ian! Foi logo depois que eu vi... no hospital. Ela tentou defender vocês... e eu gritei com ela... e eu... eu a fiz ir embora! E eu não a ouvi desde então. Eu não consigo encontrá-la!
— Shh — ele fez de novo. — Calma. Okay. O que você realmente precisa? Eu sei que você não quer magoar Jamie, mas ele vai ficar bem de qualquer forma. Então considere... não seria melhor para você... apenas se...
— Não! Eu não posso apagar a Melanie! Não posso! Isso seria errado! Isso me faria um monstro também!
— Okay, okay! Shh. Então nós temos que encontrá-la?
Eu acenei com urgência.
Ele respirou fundo novamente.
— Então você precisa... ser realmente sobrepujada, certo?
— Eu não sei o que você quer dizer.
Mas temia que soubesse.
Beijar Ian era uma coisa – até prazerosa, se eu não estivesse tão cheia de preocupação – mas qualquer coisa mais... elaborada... eu poderia? Mel ficaria furiosa se eu usasse o corpo dela assim. Era o que eu teria que fazer para encontrá-la? Mas e Ian? Seria muito injusto com ele.
— Eu já volto — Ian prometeu. — Fique aqui.
Ele me pressionou contra a parede para enfatizar e então saiu pelo corredor.
Foi difícil obedecer. Eu queria segui-lo, para saber o que ele estava fazendo e aonde ele estava indo. Nós tínhamos que conversar sobre isso. Eu precisava pensar. Mas eu não tinha tempo. Jamie estava esperando por mim com perguntas que eu não conseguiria responder com mentiras. Não, ele não estava esperando por mim, ele estava esperando por Melanie.
Como eu pude fazer isso? E se ela realmente tivesse ido embora?
Mel, Mel, Mel, volte! Melanie, Jamie precisa de você. Não de mim – ele precisa de você. Ele está doente Mel. Mel você consegue me ouvir? Jamie está doente!
Eu estava falando sozinha. Ninguém me ouvia.
Minhas mãos tremiam com medo e estresse. Eu não seria capaz de esperar aqui por muito mais tempo. Tive a impressão que a ansiedade ia me fazer inchar até eu explodir.
Finalmente eu ouvi passos. E vozes. Ian não estava sozinho. Confusão passou por mim.
— Só pense nisso como... um experimento — Ian estava dizendo.
— Você está maluco? — Jared respondeu. — Isso é alguma piada doentia?
Meus estômago parecia cair no chão.
Sobrepujada. Era isso que ele queria dizer.
Sangue queimou meu rosto, tão quente quanto a febre de Jamie. O que Ian estava fazendo comigo? Eu queria correr, me esconder em algum lugar melhor que o meu último esconderijo, algum lugar onde nunca, nunca me achassem, por mais lanternas que usassem. Mas minhas pernas estavam tremendo e eu não conseguia me mover.
Ian e Jared entraram no meu campo de visão. O rosto de Ian estava sem expressão, uma mão sobre o ombro de Jared, o guiando, quase o empurrando para frente. Jared encarava Ian com raiva e dúvida.
— Por aqui — Ian o encorajou, forçando Jared na minha direção. Eu me espremi contra a parede.
Jared me viu, viu minha expressão mortificada e parou.
— Peg, o que é isso?
Eu lancei um olhar reprovador a Ian e então tentei encontrar os olhos de Jared. Não consegui. Olhei para os pés dele ao invés disso.
— Eu perdi a Melanie — murmurei.
— Você perdeu ela??!?
Eu acenei, miseravelmente.
Sua voz estava dura e irritada.
— Como?
— Não tenho certeza. Eu a fiz se calar... mas ela sempre volta... sempre, antes... Eu não consigo ouvi-la agora... e Jamie..
— Ela se foi? — Agonia em sua voz.
— Eu não sei. Eu não consigo encontrá-la.
Respiração profunda.
— Por que Ian acha que eu devo beijar você?
— Não me beijar. — Eu disse, minha voz tão fraca que eu mal conseguia ouvir. — Beijar ela. Nada a irritou mais do que quando você nos beijou... antes. Nada a trouxe tão a tona. Talvez... Não... Você não precisa fazer isso. Eu vou tentar encontrá-la.
Eu ainda olhava para os pés dele, então vi ele dar um passo em minha direção.
— Você acha que se eu beijá-la...?
Eu não consegui nem mexer a cabeça. Eu tentei engolir.
Mãos familiares tocaram meu pescoço, descendo pelos ombros. Meu coração batia alto o bastante para eu me perguntar se ele conseguia ouvir. Eu estava tão sem graça forçando ele a me tocar assim. E se ele pensasse que isso era um truque – minha ideia e não de Ian?
Eu me perguntei se Ian ainda estaria ali, observando. O quanto isso o magoaria?
Uma das mãos de Jared continuou, como eu sabia que iria, descendo pelo meu braço até a cintura, deixando um traço de calor por onde passava. A outra foi parar na minha mandíbula, como eu sabia que devia, e ergueu o meu rosto.
Sua bochecha pressionada contra a minha, a pele onde estávamos conectados queimando, e ele murmurou em meu ouvido.
— Melanie. Eu sei que você está aí, volte para mim.
O rosto dele recuou lentamente, e seu queixo deslizou para o lado para que sua boca cobrisse a minha.
Ele tentou me beijar suavemente. Eu podia dizer que ele tentou. Mas sua intenção virou fumaça, assim como antes.
Havia fogo em toda parte, porque ele estava em toda parte. Suas mãos passavam por minha pele, queimando-a. Seus lábios provaram cada pedaço do meu rosto. A parede de pedra estava apertada contra as minhas costas, mas não havia dor. Eu não conseguia sentir nada além do fogo.
Minhas mãos agarraram seu cabelo, puxando-o para mim, como se fosse possível ficarmos mais perto. Usando a parede como apoio eu enrolei as pernas em volta da cintura dele. Sua língua torcendo com a minha, e não havia parte da minha mente que não estivesse invadida pelo insano desejo que me possuía.
Ele afastou a boca dele e pressionou os lábios em meus ouvido novamente.
— Melanie Styder! — sua voz estava alta em meus ouvidos, um rosnado que era quase um grito. — Você não vai me deixar. Você não me ama? Pois prove!Prove droga! Mel, volte aqui!
Seus lábios me atacaram novamente.
Ahhh... ela gemeu debilmente em minha cabeça.
Eu não conseguia pensar em cumprimentá-la. Eu estava em chamas.
O fogo queimou seu caminho até ela, lá no fundo onde ela estava diminuída, quase sem vida.
Minhas mãos agarraram o tecido da camiseta de Jared, a erguendo. Isso era ideia delas, eu não lhes dizia o que fazer. As mãos dele queimavam na pele das minhas costas.
Jared?, ela murmurou. Ela tentou se orientar, mas a mente que compartilhávamos estava muito desorientada.
Eu senti os músculos do seu estômago contra minhas palmas, minhas mãos esmagadas entre nós.
O quê? Onde... Melanie se esforçava.
Eu afastei os lábios dele para respirar, e seus lábios foram parar no meu pescoço. Eu enterrei meu rosto no cabelo dele, inalando.
Jared! Jared! NÃO!
Eu a deixei fluir pelos meus braços, sabendo que era isso o que eu queria, apesar de eu mal prestar atenção nisso agora. As mãos no estômago dele se enrijeceram, com raiva. Os dedos unharam a pele e então o empurraram tão forte quanto ela conseguiu.
— NÃO! — ela gritou pelos meus lábios.
Jared pegou as mãos dela, então me pegou contra a parede antes que eu pudesse cair. Eu o olhava pasma, meu corpo confuso pelos comandos conflitantes que estava recebendo.
— Mel? Mel!
— O que você está fazendo?
Ele deu um suspiro aliviado.
— Eu sabia que você conseguiria! Ah Mel!
Ela a beijou novamente, beijou os lábios que agora ela controlava, e ambas pudemos sentir o gosto das lágrimas que corriam por seu rosto.
Ela o mordeu.
Jared deu um pulo se afastando de nós, e eu escorreguei para o chão, caindo com um baque seco.
Ele começou a rir.
— Essa é a minha garota. Você ainda a tem aí, Peg?
— Sim — consegui dizer.
Que diabos é isso, Peg?, ela berrou para mim.
Onde você estava? Você tem ideia do que eu passei tentando trazer você de volta?
É, posso ver que você estava realmente sofrendo.
Ah, eu vou sofrer, prometi a ela. Já podia sentir a dor vindo. Como antes...
Ela estava passando pelos meus pensamentos o mais rápido que podia. Jamie?
É isso que eu estava tentando te dizer. Ele precisa de você.
Então por que não estamos com ele?
Porque ele provavelmente é muito jovem para ver esse tipo de coisa.
Ele procurou mais. Uau, Ian também. Que bom que eu perdi essa parte.
Eu estava tão preocupada. Eu não sabia o que fazer...
Bem, ânimo. Vamos logo.
— Mel? — Jared perguntou.
— Ela está aqui. Está furiosa. E quer ver Jamie.
Jared pôs os braços ao meu redor e me ajudou a levantar.
— Pode ficar irritada o quanto quiser, Mel. Só fique por aqui.
Por quanto tempo eu sumi?
Três dias.
A voz dela de repente diminuiu. Onde eu estava?
Você não sabe?
Eu não lembro... de nada.
Nós estremecemos.
— Tudo bem? — Jared perguntou.
— Mais ou menos.
— Era ela antes, falando comigo – falando em voz alta?
— Era.
— Você consegue... pode deixá-la fazer isso agora?
Eu suspirei. Eu estava exausta.
— Posso tentar. — Eu fechei os olhos.
Você consegue passar por mim?, perguntei. Consegue falar com ele?
Eu... Como? Onde?
Eu tentei me diminuir o máximo possível dentro de minha cabeça.
— Vamos — murmurei. Por aqui.
Melanie lutou, mas não tinha saída.
Os lábios de Jared desceram sobre os meus, fortes. Meus olhos se abriram em choque. Seus olhos com pontinhos dourados também estavam abertos, a menos de dois centímetros.
Ela jogou nossa cabeça para trás.
— Para com isso! Não toque nela!
Ele sorriu, as pequenas rugas em volta dos olhos apareceram.
— Oi, meu amor.
Isso não é engraçado!
Eu tentei respirar novamente.
— Ela não está rindo.
Ele deixou seu braço em volta de mim. Em volta de nós. Nós caminhamos para o entroncamento de túneis, e não havia ninguém lá. Nada de Ian.
— Eu estou te avisando Mel — ele disse, ainda sorrindo. Provocando. — É melhor você ficar por aqui. Eu não vou dar garantias do que eu farei ou não para ter você de volta.
Meu estômago se torceu.
Diga a ele que eu o afogarei se ele tocar em você assim de novo. Mas a ameaça dela era uma brincadeira também.
— Ela está ameaçando a sua vida agora — eu o disse. — Mas acho que ela está brincando.
Ele riu, abertamente com alivio.
— Você é tão séria o tempo todo Peg.
— As brincadeiras de vocês não são engraçadas — murmurei. — Não para mim.
Jared riu novamente.
Ah!, Melanie disse. Você está sofrendo.
Eu vou tentar não deixar Jamie ver isso.
Obrigada por me trazer de volta.
Eu não vou te suprimir, Melanie. Eu lamento não poder te dar mais do que isso.
Obrigada.
— O que ela está dizendo?
— Nós só estamos... fazendo as pazes.
— Por que ela não pôde falar antes, quando você tentou soltá-la?
— Eu não sei, Jared. Não há realmente espaço para nós duas. Eu não consigo me tirar do caminho completamente. É como... não conseguir segurar o fôlego. Como tentar fazer o coração parar de bater. Eu não consigo fazer com que eu não exista. Eu não sei como.
Ele não respondeu e meu peito latejava de dor. Como ele ficaria feliz se eu descobrisse um jeito de me suprimir!
Melanie queria... não me contradizer, mas me fazer sentir melhor; ela lutou para tentar encontrar palavras que suavizassem a agonia. Ela não conseguia achar as certas.
Mas Ian ficaria devastado. E Jamie. Jeb sentiria sua falta. Você tem tantos amigos aqui.
Obrigada.
Eu estava feliz por estarmos de volta em nosso quarto. Eu precisava pensar em algo diferente antes que começasse a chorar. Agora não era hora para autopiedade. Havia assuntos mais importantes do que meu coração, mais uma vez partido.
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