terça-feira, março 18, 2014
Desconfortada
— Olá, Peregrina! Por que não se senta e fica à vontade?
Eu hesitei na soleira da porta do consultório da Confortadora, um pé do lado de dentro e um pé do lado de fora.
Ela sorriu, somente um minúsculo movimento no canto da sua boca. Era muito mais fácil ler expressões faciais agora; as pequenas contrações musculares e mudanças haviam se tornado familiares depois de meses de exposição. Eu podia ver que a Confortadora achava a minha relutância um tanto divertida. Ao mesmo tempo, eu podia sentir sua frustração por eu ainda ficar desconfortável ao vê-la.
Com um silencioso suspiro de resignação, eu entrei na sala pequena e vivamente colorida e sentei na poltrona de sempre – a vermelha acolchoada, a que ficava mais distante de onde ela sentava.
Os lábios dela se franziram.
Para evitar seu olhar, eu encarei através das janelas aberta as nuvens escapando para além do sol. O débil cheiro de salmoura do mar soprava suavemente através da sala.
— Então, Peregrina. Já faz um tempo desde que você veio me ver.
Eu encontrei seus olhos de maneira culpada.
— Eu deixei uma mensagem sobre essa última consulta. Eu tive um estudante que requisitou um pouco do meu tempo...
— Sim, eu sei. — Ela sorriu novamente com aquele diminuto sorriso. — Eu vi a sua mensagem.
Ela era atraente para uma mulher mais velha, no que dizia respeito aos humanos. Ela tinha deixado seu cabelo ficar com um cinza natural – era macio, tendendo na direção do branco mais do que para o prata, e ela o usava longo, puxado em um frouxo rabo-de-cavalo. Seus olhos tinham uma interessante cor de verde que eu nunca tinha visto em mais ninguém.
— Desculpe-me — eu disse, já que ela parecia estar esperando por uma resposta.
— Não tem problema. Eu entendo. É difícil para você vir aqui. Você desejava tanto que não fosse necessário. Nunca foi necessário para você antes. Isso te amedronta.
Eu encarei o chão de madeira.
— Sim, Confortadora.
— Eu sei que te pedi para me chamar de Kathy.
— Sim... Kathy.
Ela riu levemente.
— Você não está acostumada com nomes humanos ainda, está, Peregrina?
— Não. Para ser honesta, isso parece... uma capitulação.
Eu olhei para cima para vê-la acenar lentamente.
— Bem, eu posso entender porque você, especialmente, se sentiria dessa maneira.
Eu engoli ruidosamente quando ela disse isso, e encarei novamente o chão.
— Vamos falar sobre algo mais fácil por um momento — Kathy sugeriu. — Você continua gostando do seu Chamado?
— Continuo. — Isso era mais fácil. — Eu comecei um novo semestre. Eu me perguntava se iria ficar cansativo, repetir o mesmo material, mas até agora não ficou. Ter novos ouvintes faz as histórias ficarem novas outra vez.
— Eu escuto coisas boas sobre você do Curt. Ele diz que a sua aula é uma das mais requisitadas na universidade.
Minhas bochechas se esquentaram um tantinho com esse elogio.
— É bom ouvir isso. Como vai seu companheiro?
— Curt está maravilhoso, obrigada. Nossos hospedeiros estão em excelente forma para a idade deles. Nós temos muitos anos a nossa frente, eu acho.
Eu estava curiosa em saber se ela iria ficar nesse mundo, se ela iria se mudar para outro hospedeiro humano quando o tempo chegasse, ou se ela iria partir. Mas eu não queria fazer nenhuma pergunta que poderia nos mover para as áreas mais difíceis de discussão.
— Eu gosto de ensinar — eu disse ao invés. — É de certa forma relacionado ao meu Chamado com as Algas, então isso fica mais fácil do que alguma coisa que é desconhecida. Eu estou em dívida com Curt por ter me requisitado.
— Eles tem sorte em ter você. — Kathy sorriu calorosamente. — Você sabe o quanto é raro um Professor de História ter experiência no currículo em ao menos dois planetas? Ainda assim você viveu por uma duração em quase todos eles. E em Origem, para começar! Não existe uma escola nesse planeta que não amaria roubar você de nós. Curt trama maneiras de mantê-la ocupada para que você não tenha tempo de considerar se mudar.
— Professora honorária — eu a corrigi.
Kathy sorriu e então tomou um longo fôlego, seu sorriso desaparecendo.
— Você não tem vindo me ver há muito tempo, eu estava me perguntando se os seus problemas estavam se revolvendo sozinhos. Mas então eu imaginei que talvez a razão para a sua ausência era que eles estavam piorando.
Eu encarei as minhas mãos e não disse nada.
Minhas mãos eram de um marrom claro – um bronzeado que nunca desaparecia, quer eu passasse tempo no sol ou não. Uma sarda escura marcava a pele logo acima do meu pulso esquerdo. Minhas unhas estavam cortadas curtas. Eu não gostava da sensação de unhas compridas. Elas eram desagradáveis quando roçavam de modo errado contra a pele. E meus dedos eram tão longos e finos – o comprimento adicional de unhas fazia elas parecerem estranhas. Até mesmo para uma humana.
Ela limpou sua garganta depois de um minuto.
— Estou achando que a minha intuição estava certa.
— Kathy. — Eu disse seu nome lentamente. Protelando. — Por que você manteve o seu nome humano? Isso a fez se sentir... mais unificada? Com a sua hospedeira, eu quero dizer? — Eu teria gostado de saber sobre a escolha do Curt também, mas era uma pergunta tão pessoal. Teria sido errado perguntar pela resposta para qualquer um além do Curt, até mesmo sua companheira. Eu me preocupei por já ter sido muito rude, mas ela riu.
— Céus, não, Peregrina. Eu já não te contei isso? Hmm. Talvez não, já que não é meu trabalho falar, mas sim ouvir. A maioria das almas com as quais eu falo não precisam de tanto encorajamento quanto você. Você sabia que eu vim para Terra em uma das primeiras implantações, antes que os humanos tivessem ideia alguma que nós estávamos aqui? Eu tinha vizinhos humanos dos dois lados. Curt e eu tínhamos que fingir sermos nossos hospedeiros por vários anos. Até mesmo depois de nós termos assentado a área próxima, você nunca sabia quando um humano podia estar por perto. Então Kathy se tornou quem eu era. Além do mais, a tradução do meu nome anterior tinha quatorze palavras e não dava pra encurtar de um jeito bom.
Ela deu risada. A luz do sol inclinada através da janela capturou seus olhos e fez refletiu o verde-prateado dançando na parede. Por um momento, as íris esmeraldas brilharam com todas as cores do arco-íris.
Eu não tinha ideia que essa gentil e acalentadora mulher tinha feito parte da linha de frente de combate. Eu demorei um minuto para processar isso. Eu nunca tinha levado Confortadoras muito à sério – nunca precisei antes. Eles eram para aqueles que tinham dificuldades, para os fracos, e eu me envergonhava por estar aqui. Saber da história de Kathy me fez sentir ligeiramente menos estranha com ela. Ela entendia sobre força.
— Isso a incomodou? — eu perguntei. — Fingir ser um deles?
— Não, na verdade não. Veja bem, com essa hospedeira havia muito com o que se acostumar – havia tantas coisas que eram novidade. Sobrecarga sensorial. Seguir os padrões fixos era o máximo com o que eu poderia lidar no começo.
— E Curt... Você escolheu ficar com o esposo da sua hospedeira? Depois de ter acabado?
Essa questão era mais dirigida, e Kathy captou de primeira. Ela se mexeu em seu assento, puxando suas pernas para cima e cruzando-as debaixo de si mesma. Ela olhava ponderadamente para um ponto um pouco acima da minha cabeça enquanto respondia.
— Sim, eu escolhi Curt – e ele me escolheu. Primeiramente, é claro, foi uma oportunidade aleatória, uma missão. Nós nos unimos, naturalmente, por passarmos tanto tempo juntos, compartilhando o perigo da nossa missão. Como o presidente da universidade, Curt tinha muitos contatos, veja bem. Nossa casa era uma instalação para inserções. Nós recepcionávamos muito. Humanos entravam pela nossa porta e saíam de nossa espécie. Tudo isso tinha que ser muito rápido e silencioso – você sabe a violência que esses hospedeiros têm propensão. Nós vivíamos cada dia com o conhecimento de que podíamos encontrar um final a qualquer momento. Havia entusiasmo constante e medo frequente.
“Todas as boas razões do por que Curt e eu podemos ter formado ligação e decidirmos permanecer juntos quando o sigilo já não era mais necessário. E eu poderia mentir para você, aplacar seus medos, dizendo a você que essas foram as razões. Mas... — Ela balançou sua cabeça e então pareceu se acomodar mais profundamente em sua cadeira, seus olhos me perfurando. — Em tantos milênios, os humanos nunca entenderam o amor. Quanto é físico, quanto está na mente? Quanto é acidental e quanto é o destino? Por que combinações perfeitas desmoronavam e casais impossíveis prosperam? Eu não sei as respostas mais do que eles sabiam. O amor simplesmente está aonde está. Minha hospedeira amava o hospedeiro de Curt, e esse amor não morreu quando a posse da mente mudou.
Ela me observou cuidadosamente, reagindo com um ligeiro franzir de sobrancelhas quando eu desmoronei no meu assento.
— Melanie ainda está de luto por Jared — ela declarou.
Eu senti minha cabeça concordar sem ter desejado a ação.
— Você está de luto por ele.
Eu fechei meus olhos.
— Os sonhos continuam?
— Todas as noites — eu murmurei.
— Conte-me sobre eles. — Sua voz era suave, persuasiva.
— Eu não gosto de pensar neles.
— Eu sei. Tente. Pode ajudá-la.
— Como? Como vai me ajudar te contar que eu vejo o rosto dele toda vez que eu fecho meus olhos? Que eu acordo e choro quando ele não está lá? Que as memórias são tão fortes que eu já não posso mais separar as delas das minhas?
Eu parei abruptamente, cerrando meus dentes.
Kathy puxou um lenço branco de seu bolso e o ofereceu para mim. Quando eu não me movi, ela se levantou, andou até mim, e o derrubou no meu colo. Ela sentou no braço da cadeira e esperou.
Eu aguentei teimosamente por meio minuto. Então eu agarrei furiosamente o pequeno quadrado de tecido e sequei meus olhos.
— Eu odeio isso.
— Todo mundo chora em seu primeiro ano. Essas emoções são tão impossíveis. Nós todos somos crianças por um tempinho, quer nós queiramos isso ou não. Eu costumava chorar toda a vez que eu via um pôr do sol bonito. O gosto de pasta de amendoim fazia isso às vezes, também. — Ela deu um tapinha no topo da minha cabeça, então arrastou seus dedos gentilmente pelo cacho de cabelo que eu sempre mantinha enfiado atrás da minha orelha. — Um cabelo tão bonito e brilhante — ela notou. — Toda vez que eu te vejo está mais curto. Por que você faz isso?
Já chorando, eu não senti que tinha muita dignidade para defender. Por que alegar que era mais fácil de cuidar, como eu geralmente alegava? Afinal de contas, eu tinha vindo aqui para confessar e conseguir ajuda – eu podia muito bem dar prosseguimento a isso.
— Isso incomoda ela. Ela gosta dele longo.
Ela não ofegou, como eu meio que esperava que ela fizesse. Kathy era boa em seu trabalho. Sua resposta estava só um segundo atrasada e somente ligeiramente incoerente.
— Você... Ela... ela ainda está tão... presente?
A espantosa verdade saiu dos meus lábios.
— Quando ela quer estar. Nossa história a entedia. Ela é mais inativa quando eu estou trabalhando. Mas ela está ali, sim. Às vezes eu sinto que ela está tão presente quanto eu. — Minha voz era somente um sussurro na hora que eu terminei.
— Peregrina! — Kathy exclamou, horrorizada. — Por que você não me contou que era tão ruim? Há quanto tempo está desse jeito?
— Está ficando pior. Ao invés de desaparecer, ela parece estar ficando mais forte. Não é tão ruim quanto o caso do Curandeiro ainda – nós falamos do Kevin, lembra-se? Ela não tomou controle. Ela não irá. Eu não deixarei isso acontecer!— A altura da minha voz subiu.
— É claro que não irá acontecer — ela me assegurou. — É claro que não. Mas se você está tão... infeliz, você devia ter me contado antes. Nós precisamos levá-la à um Curandeiro.
Eu levei um instante, emocionalmente distraída como eu estava, para entender.
— Um Curandeiro? Você quer que eu salte?
— Ninguém pensaria mal da sua escolha, Peregrina. É compreensível, se um hospedeiro é defeituoso...
— Defeituoso? Ela não é defeituosa. Eu sou. Eu sou fraca demais para esse mundo!
Minha cabeça caiu em minhas mãos a medida que a humilhação me lavava. Lágrimas frescas jorravam dos meus olhos.
Kathy acomodou seu braço em volta dos meus ombros. Eu estava lutando tanto para controlar minhas emoções selvagens que eu não me afastei, apesar disso trazer uma sensação íntima demais.
Incomodava Melanie, também. Ela não gostava de ser abraçada por uma alienígena.
É claro que Melanie estava muito bem presente nesse momento, e insuportavelmente presunçosa quando eu finalmente aceitei seu poder. Ela estava regozijada. Era sempre mais difícil controlá-la quando eu estava distraída por uma emoção desse tipo.
Eu tentei me acalmar para que eu pudesse ser capaz de colocá-la em seu lugar.
Você está no meu lugar. Seu pensamento era fraco, porém inteligível. Quão pior estava ficando; ela estava forte o bastante agora para falar comigo quando desejasse. Era tão ruim quanto aquele primeiro minuto de consciência.
Vá embora. É o meu lugar agora.
Nunca.
— Peregrina, querida, não. Você não é fraca, e ambas sabemos disso.
— Hmph.
— Me escute. Você é forte. Surpreendentemente forte. Nossa espécie é sempre a mesma coisa, mas você excede o padrão. Você é tão corajosa que me surpreende. Suas vidas passadas são provas disso.
— Minhas vidas passadas talvez, mas e essa vida? Onde está a minha força agora?
— Mas humanos são mais individualizados do que nós — Kathy continuou. — Há muita variedade, e alguns deles são muito mais fortes que os outros. Eu realmente acredito que se qualquer outro tivesse sido colocado nessa hospedeira, Melanie teria acabado com ele em dias. Talvez seja acidental, talvez seja o destino, mas me parece que a mais forte da nossa espécie está sendo hospedada pela mais forte da deles.
— Não diz muita coisa sobre a nossa espécie, diz?
Ela escutou sentido por trás das minhas palavras.
— Ela não está vencendo, Peregrina. Você é essa pessoa adorável ao meu lado. Ela é somente uma sombra no canto da sua mente.
— Ela fala comigo, Kathy. Ela ainda pensa seus próprios pensamentos. Ela ainda mantém seus segredos.
— Mas ela não fala por você, fala? Eu duvido que eu pudesse dizer o mesmo se estivesse no seu lugar seu lugar.
Eu não respondi. Eu estava me sentindo miserável demais.
— Eu acho que você deveria reconsiderar a reimplantação.
— Kathy, você acabou de dizer que ela iria acabar com uma alma diferente. Eu não sei se acredito nisso – você provavelmente só está tentando fazer o seu trabalho e me confortar. Mas se ela é tão forte, não seria justo dá-la a outra pessoa porque eu não posso dominá-la. Quem escolheria ficar com ela?
— Eu não disse isso para confortá-la, querida.
— Então o que...
— Eu não acho que essa hospedeira seria considerada para reutilização.
— Oh!
Um choque de horror golpeou a minha espinha dorsal. E eu não fui a única que ficou abalada pela ideia.
Eu imediatamente senti repulsa. Eu não desistia. Através das longas rotações ao redor do sol no meu último planeta – o Mundo das Algas Visionárias, como elas eram conhecidas aqui – eu tinha esperado. Apesar da perseverança de estar enraizada tenha se desgastado muito antes do que eu achava que teria, apesar das vidas das Algas Visionárias poderem ser medidas em séculos nesse planeta, eu não tinha saltado a vida do meu hospedeiro. Fazê-lo seria desperdício, seria errado, ingrato.
Zombava da própria essência de quem as almas eram. Nós transformávamos nossos mundos em lugares melhores; isso era absolutamente essencial ou nós não os merecíamos.
Mas nós não éramos desperdiçadores. Nós transformávamos tudo o que pegávamos em coisas melhores, mais pacíficas e bonitas. E os humanoseram brutos e ingovernáveis. Eles tinham matado uns aos outros tão frequentemente que o assassinato tinha se tornado uma parte aceitável da vida. As variadas torturas que eles inventaram nos poucos milênios que duraram tinham sido demais para mim; eu não tinha sido capaz de tolerar nem mesmo o árido panorama oficial. Guerras tinham se alastrado em praticamente todos os continentes. Assassinato sancionado, ordenado e viciosamente eficaz. Aqueles que viviam em nações pacíficas tinham desviado o olhar enquanto os membros de sua própria espécie morriam de fome em suas soleiras. Não havia igualdade de distribuição dos abundantes recursos do planeta. Mais vil ainda, a prole deles – a próxima geração, que minha espécie quase cultuava pelo potencial deles – foi por vezes demais vítima de crimes hediondos. E não só cometidos por estranhos, mas cometidos pelos guardiões nos quais eles confiavam. Até mesmo a enorme esfera do planeta tinha sido posta em risco através de erros negligentes e gananciosos. Ninguém poderia comparar o que tinha sido e o que era agora e não admitir que a Terra era um lugar melhor graças a nós.
Você assassina uma espécie inteira e então se congratula.
Minhas mãos cerraram-se em punhos.
Eu poderia descartar você, eu lembrei a ela.
Vá em frente. Torne o meu assassinato oficial.
Eu estava blefando, mas a Melanie também estava.
Oh, ela pensava que queria morrer. Ela tinha se jogado no poço do elevador, afinal de contas.
Mas isso foi em um momento de pânico e derrota. Considerar isso calmamente em uma cadeira confortável era algo completamente diferente. Eu podia sentir a adrenalina – adrenalina sendo trazida pelo medo dela – sendo lançada através dos meus membros a medida que eu ponderava mudar para um corpo mais dócil.
Seria bom estar sozinha novamente. Ter a minha mente para mim mesma. Esse mundo era agradável de tantas maneiras originais, e seria maravilhoso ser capaz de apreciá-lo sem as distrações de uma pessoa sem importância desalojada e com raiva que deveria ter melhor juízo e não demorar-se sem ser desejada desse modo.
Melanie se contorcia, figurativamente, nos recessos da minha cabeça a medida que eu tentava considerar isso de modo racional. Talvez eu devesse dar-me por vencida...
As próprias palavras me fizeram hesitar. Eu, Peregrina, dar-me por vencida? Desistir? Admitir fracasso e tentar novamente com um hospedeiro fraco e sem personalidade que não me daria trabalho algum?
Eu balancei minha cabeça. Eu mal podia suportar pensar naquilo.
E... esse era o meu corpo. Eu estava acostumada à sensação dele. Eu gostava do jeito como os músculos se moviam por cima dos ossos, a arqueação das juntas e o puxão dos tendões. Eu conhecia o reflexo no espelho. A pele queimada do sol, os altos e elegantes ossos no meu rosto, a coroa de cabelos curtos e sedosos cor de mogno, o verde lamacento com castanho-claro dos meus olhos – essa era eu.
Eu queria a mim mesma. Eu não iria deixar o que era meu ser destruído.
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