terça-feira, março 18, 2014

Horrorizada


Eu diminuí quando ouvi o som de vozes. Não estava perto o bastante do hospital para ser Doc.
Outros estavam vindo de lá. Eu me pressionei contra a parede de pedra e me arrastei para frente o mais silenciosamente que eu conseguia. Minha respiração estava alta devido a corrida e eu tampei a boca para abafar o som.
— ...por que continuamos a fazer isso? — Alguém reclamou.
Eu não sabia ao certo de quem era essa voz. Alguém que eu não conhecia muito bem. Violetta talvez? A voz tinha aquele tom deprimido que eu já havia notado. Isso apagou qualquer duvida sobre eu estar ou não imaginando coisas.
— Doc não queria. Foi idéia de Jared dessa vez.
Eu tinha certeza que era Geoffrey quem falava agora apesar da voz estar um pouco modificada pelo asco. Geoffrey havia ido com Trudy, claro. Eles faziam tudo juntos.
— Eu achava que ele era o maior oponente a isso.
Esse era Travis, eu achava.
—Ele está mais... motivado agora — Geoffrey respondeu. Sua voz baixa, mas eu podia ouvir que ele estava com raiva de alguma coisa.
Eles passaram a meio metro de mim. Eu congelei segurando a respiração.
— Eu acho que é doentio — Violetta murmurou. — Nojento. Nunca vai funcionar.
Eles caminhavam lentamente, os passos pesados com desgosto.
Ninguém respondeu. Ninguém falou novamente. Eu continuei imóvel até que os passos haviam ficado bem baixos, mas eu não podia esperar até eles sumirem completamente. Ian já podia estar me seguindo.
Engatinhei o mais rápido possível, então comecei a correr novamente quando decidi que era seguro.
Eu vi o primeiro sinal de luz do sol atrás da próxima curva, e mudei para um passo mais silencioso, mas ainda me movia com pressa. Eu sabia que assim que eu fizesse a curva eu poderia ver a entrada para hospital de Doc. Eu segui pela parede e a luz ficou mais clara. Eu me movia com cuidado agora, os passos minuciosamente calculados para não fazer barulho.
Estava muito quieto. Por um momento eu me perguntei se não estava errada e se não havia ninguém ali. Então quando a entrada irregular apareceu, iluminando a parede oposta, eu pude ouvir um soluço de choro baixo.
Na ponta do pé eu cheguei bem na entrada e parei, ouvindo.
O soluço continuou. Outros sons também se faziam ouvir.
— Pronto, pronto. — Era a voz de Jeb, grossa com alguma emoção. — Tá tudo bem, tudo bem, Doc. Não se martirize.
Passos apressados, mais de um par, se moviam pela sala. Tecido esfregando. Um som de escova.
Parecia para mim som de limpeza.
Havia um cheiro que não pertencia ali. Estranho... não exatamente metálico, mas próximo. O cheiro não era familiar – eu tinha certeza que nunca havia sentido ele antes – ainda assim eu tinha a estranha sensação que ele devia ser familiar.
Eu estava com medo de passar pela curva.
O que de pior eles podem fazer? Mel disse. Fazer-nos ir embora?
Você está certa.
As coisas definitivamente mudaram se essa era pior coisa que eu esperava dos humanos agora.
Eu respirei fundo – notando novamente o cheiro estranho e errado – e passei pela curva.
Ninguém me notou.
Doc estava ajoelhado no chão, seu rosto nas mãos, seus ombros sacudindo. Jeb inclinado sobre ele dando tapinhas em suas costas.
Jared e Kyle estavam esticando uma maca móvel ao lado de uma das macas no meio do cômodo. O rosto de Jared estava duro – a máscara voltou enquanto ele estava fora.
As macas não estavam vazias como normalmente estavam. Algo, escondido sob um lençol verde escuro, cobria as macas completamente. Longo e irregular, com curvas familiares...
A mesa rústica de Doc estava posicionada na frente dessas macas, no ponto mais iluminado. A mesa brilhava com prateado – bisturis resplandecentes e várias ferramentas médicas antiquadas que eu não sabia nomear. Mais brilhante do que isso eram as outras coisas prateadas. Segmentos tremeluzentes de prata estirados em pedaços torcidos, torturados sobre a mesa... minúsculos filamentos prateados perfurados, despidos e picados... respingos de líquido prateado espalhados sobre a mesa, lençóis, paredes...
O silêncio do quarto foi abalado pelo meu grito. Todo o cômodo estava tremendo. Girava e tremia com o choque do som, me rodeava de forma que eu não conseguia achar a saída. As paredes, manchadas de prateado, se ergueram para bloquear minha saída não importava para que lado eu me virasse.
Alguém gritou meu nome, mas não percebi de quem era a voz. Os gritos eram alto demais, doía a minha cabeça. A parede de pedra, brilhando prateada, bateu em mim, e eu caí no chão. Mãos pesadas me seguraram lá.
— Doc, ajuda!
— O que ela tem?
— Ela está tendo um ataque?
— O que ela viu?
— Nada – nada. Os corpos estavam cobertos!
Mentira! Os corpos estavam horrivelmente descobertos, largados em contorções obscenas sobre a mesa. Mutilados, desmembrados, corpos torturados, estripados grotescamente...
Eu vi claramente os vestígios de antenas ainda conectados à parte anterior mutilada de um criança. Só uma criança. Um bebê! Um bebê despejado aos pedaços sobre uma mesa coberta com seu próprio sangue...
Meu estômago girava como as paredes, o ácido abrindo caminho até minha boca.
— Peg? Você consegue me ouvir?
— Ela está consciente?
— Eu acho que ela vai vomitar.
A última voz estava certa. Mãos fortes seguravam minha cabeça enquanto o ácido do meu estômago transbordava violentamente.
— O que agente faz Doc?
— Segura ela, não a deixe se machucar.
Eu tossi e me contorci tentando escapar. Minha garganta ficou limpa.
— Me solta! — finalmente consegui falar. As palavras saíram confusas. — Saiam de perto de mim! Saiam, monstros! Torturadores!
Guinchei sem palavras novamente, me torcendo contra os braços que me seguravam.
— Calma Peg! Shhh! Tá tudo bem! — Essa era a voz de Jared. E pela primeira vez isso não importava.
— Monstro! — eu gritei para ele.
— Ela está histérica — disse-lhe Doc — segura.
Um tapa, ardente estourou na minha cara.
Houve um engasgo de surpresa distante do caos.
— O que você está fazendo? — Ian rosnou.
— Ela está tendo um ataque ou algo assim, Ian. Doc está tentando trazer ela de volta.
Meus ouvidos estavam zumbindo, mas não do tapa. Era o cheiro – o cheiro do sangue prateado escorrendo nas paredes – o cheiro do sangue das almas. O quarto me cercava como se estivesse vivo.
A luz formava padrões estranhos, se curvando no formato de monstros do meu passado. Um Abutre abrindo as asas... uma besta de garras afiadas tocando o meu rosto... Doc sorriu e tentou me tocar com os dedos sujos de prata...
O quarto girou uma vez mais, lentamente, e então desmaiei.

A inconsciência não me segurou por muito tempo. Devia ter passado somente alguns segundos quando minha cabeça clareou. Eu estava lúcida demais; gostaria de poder continuar apagada por mais tempo.
Eu estava em movimento e estava escuro demais para ver. Felizmente o cheiro horrível havia sumido. O cheiro úmido das cavernas era como perfume.
A sensação de ser carregada era familiar. Naquela primeira semana após Kyle ter me machucado, eu passei muito tempo nos braços de Ian.
— ... pensei que ela havia imaginado o que nós fazíamos. Parece que eu errei — Jared murmurou.
— Você acha que foi isso que aconteceu? — A voz de Ian cortou com dureza. — Que ela ficou com medo porque Doc estava tentando tirar outras almas? Que ela estava com medo por ela?
Jared não respondeu por um minuto.
— Você não?
Ian fez um som com o fundo da garganta.
— Não. Não acho. Por mais que me enoje que você traga mais... vitimas para Doc, trazê-los agora! Por mais que isso revire o meu estômago, não é isso que a incomoda. Como você pode ser tão cego? Você não consegue imaginar como lá dentro deve ter parecido para ela?
— Os corpos estavam cobertos quando...
— Os corpos errados, Jared. Ah, eu tenho certeza que ela ficaria incomodada com corpos humanos – ela é tão delicada, violência e morte não fazem parte do mundo dela. Mas pense no que as coisas na mesa significam para ela.
Ele levou um momento.
— Ah.
— É. Se você ou eu entrássemos em um açougue humano, com corpos partidos, com sangue respingado em tudo, não teria sido tão ruim como foi para ela. Nós já vimos isso antes – mesmo antes da invasão, em filmes de terror, pelo menos. Eu aposto que ela nunca foi exposta a nada parecido com aquilo em todas as suas vidas.
Eu estava enjoando novamente. As palavras dele estavam trazendo tudo de volta. A visão. O cheiro.
— Me solta — murmurei. — Me coloca no chão.
— Eu não quis te acordar. Desculpe. — A última palavra foi fervorosa, se desculpando por mais do que me acordar.
— Me solta.
— Você não está bem. Eu vou te levar para o seu quarto.
— Não. Me coloca no chão.
— Peg...
— Agora! — gritei. Eu forcei meu corpo contra o peito de Ian ao mesmo tempo em que chutava o ar com minhas pernas. Isso o surpreendeu, a ferocidade do ataque. Ele me soltou e eu caí meio agachada. Levantei-me em um salto, e saí correndo.
— Peg!
— Deixe-a ir.
— Não me toque! Peg, volte!
Parecia que eles estavam lutando atrás de mim, mas não diminuí. É claro que eles estavam brigando. Eles eram humanos. Violência era um prazer para eles. Eu não parei quando estava na luz de novo. Corri pela grande caverna sem olhar para nenhum dos monstros ali. Eu podia sentir seus olhos em mim, e eu não me importei.
Eu não me importava para onde estava indo também. Qualquer lugar no qual eu pudesse ficar sozinha. Eu evitei os túnel que eu sabia que tinha pessoas perto, correndo pelo primeiro vazio que eu encontrei.
Era o túnel leste. Era a segunda vez que eu corria por esse corredor hoje. Da última vez com alegria, dessa vez com horror. Era difícil me lembrar como me senti essa amanhã, sabendo que os viajantes haviam voltado. Agora tudo estava obscuro, incluindo o retorno deles. As próprias pedras pareciam malignas.
Mas essa era a escolha certa para mim. Ninguém tinha razão para vir aqui, e estava vazio.
Eu corri até o final do túnel, entrando na escuridão noturna da sala de jogos vazia. Joguei mesmo com eles há tão pouco tempo atrás? Acreditando nos sorrisos em seus rostos, sem ver as bestas por baixo...
Eu fui em frente até afundar meu tornozelo nas águas da nascente escura. Me afastei, esticando as mãos, procurando pela parede. Quando encontrei uma elevação na rocha, pontas afiadas sob meus dedos, me virei para a depressão atrás dessa elevação e me sentei, me enrolando apertado no chão ali.
Não era o que pensávamos. Doc não estava machucando ninguém de propósito, ele só estava tentando salvar...
SAIA DA MINHA CABEÇA!, gritei.
Ao afastá-la de mim, amordacei-a para não ter que ouvir as suas justificativas, e percebi o quão fraca ela havia ficado nesses meses de amizade. Quanto eu a vinha tolerando. Encorajando.
Era muito fácil silenciá-la agora. Tão fácil quanto devia ter sido desde o início. Era só eu agora. Só eu, a dor e o horror dos quais eu não podia escapar. Eu nunca afastaria aquela imagem da minha cabeça novamente. Eu nunca me livraria disso.
Seria para sempre parte de mim.
Eu não sabia como lamentar aqui. Eu não podia lamentar da forma humana por estas almas perdidas cujos nomes eu nunca saberia, pela criança despedaçada na mesa.
Eu nunca tive que lamentar em a Origem. Eu não sabia como se fazia lá, no real lar da minha espécie. Então eu me decidi pelo jeito dos Morcegos. Pareceu-me apropriado, aqui era tão negro que era como ser cego. Os Morcegos lamentavam com o silêncio – sem cantar por semanas até que a dor do vazio pela falta da música fosse pior do que a dor de perder uma alma. Eu havia conhecido a dor lá.
Um amigo morto em um acidente, uma árvore que caiu no meio da noite, encontrado muito tarde para ser salvo do corpo de seu hospedeiro esmagado. Espiralar... Ascender... Harmonia; essas eram as palavras que seriam o seu nome nessa língua. Não exatamente... mas perto. Não houve horror com a morte dele, só lamento. Um acidente.
O som da nascente era muito desarmonizado para lembrar nossas músicas. Eu podia lamentar mesmo com o som sem harmonia.
Eu enrolei meus braços firmemente nos ombros e lamentei pela criança e a outra alma que havia morrido com ela. Meus parentes. Minha família. Se eu tivesse encontrado uma saída desse lugar, se eu tivesse avisado a Buscadora, os seus restos não seriam tão casualmente largados e misturados naquele cômodo ensanguentado.
Eu queria chorar, afundar em miséria. Mas esse era o modo humano. Então eu fechei forte os lábios e abracei a escuridão, segurando a dor.
Meu silêncio, meu luto, me foram roubados.
Eles levaram poucas horas. Eu os ouvi procurando, ouvi suas vozes ecoarem pelos longos túneis de ar. Eles me chamavam esperando uma resposta. Quando não receberam uma resposta, trouxeram luzes.
Não as difusas azuis que nunca me revelariam no meu canto escondido, enterrada na escuridão, mas as lanternas de forte luz amarela. Elas passavam para frente e para trás, pêndulos de luz. Mesmo com as lanternas eles não me encontraram até a terceira busca. Por que eles não podiam me deixar em paz?
Quando a lanterna finalmente me desenterrou, houve um suspiro de alivio.
— Eu a encontrei! Diga aos outros para voltarem para dentro! Ela está aqui!
Eu conhecia a voz, mas não coloquei um nome nela. Só mais um monstro.
— Peg? Peg? Você está bem?
Eu não ergui a cabeça ou abri os olhos. Eu estava de luto.
— Cadê Ian?
— Nós devíamos trazer Jamie, não?
— Ele não deve ficar em pé com aquela perna.
Jamie. Eu estremeci com o nome. Meu Jamie. Ele era um monstro também. Ele era como os outros. Meu Jamie. Era uma dor física pensar nele.
— Cadê ela?
— Aqui, Jared. Ela não está... respondendo.
— Nós não tocamos nela.
— Aqui, me dá a luz — Jared disse. — Agora, o resto de vocês saiam daqui. A emergência acabou. Vamos dar a ela um pouco de ar, okay?
Houve um barulho de passos que não foram muito longe.
— É sério gente. Vocês não estão ajudando. Vão.
Os passos foram lentos no início, mas depois ficaram mais fortes. Eu podia ouvi-los se afastando e irem embora completamente.
Jared esperou até que ficasse silencioso novamente.
— Okay Peg, somos só eu e você.
Ele esperou por algum tipo de resposta.
— Olha, eu imagino que aquilo deve ter parecido muito... ruim. Nós nunca quisemos que você visse aquilo. Eu sinto muito.
Sentia? Geoffrey disse que foi idéia de Jared. Ele queria me cortar, me fatiar em pequenos pedaços, espalhar o meu sangue na parede. Ele lentamente me despedaçaria em milhões de pedaços se fosse para encontrar uma forma de manter sua monstra favorita viva com ele. Nos cortar todos em pedacinhos.
Ele ficou quieto por um longo tempo, ainda esperando eu reagir.
— Parece que você quer ficar sozinha. Tudo bem. Eu os manterei longe se é isso que você quer.
Eu não me movi.
Algo tocou meu ombro. Eu me encolhi, me afastando do toque.
— Desculpe — ele murmurou.
Eu o vi se erguer, e a luz, vermelha por trás de meus olhos fechados – começou a sumir conforme ele se afastava.
Ele encontrou com alguém na boca da caverna.
— Onde ela está?
— Ela quer ficar sozinha. Deixe-a.
— Não fique no meu caminho Howe.
— Você acha que ela quer conforto de você? De um humano?
— Eu não fiz parte disso...
Jared respondeu em uma voz baixa, mas eu ainda consegui ouvir os ecos.
— Não dessa vez. Você é um de nós Ian. O inimigo dela. Você ouviu o que ela disse lá? Ela estava gritando monstros. É assim que ela nos vê agora. Ela não quer o seu conforto.
— Me dá a luz.
Eles não falaram novamente. Um minuto passou, e eu ouvi passos de uma pessoa circular o cômodo seguindo pela parede. Eventualmente, a luz me iluminou, tornando minhas pálpebras vermelhas novamente.
Eu me encostei mais contra a parede, esperando que ele me tocasse.
Houve um pequeno suspiro, e então o som dele se sentando na pedra, não tão perto quanto eu esperava.
Com o clique, a luz desapareceu.
Eu esperei por um longo tempo em silêncio, esperando ele falar, mas ele estava tão silencioso quanto eu.
Finalmente, eu parei de esperar e voltei ao meu luto. Ian não me interrompeu. Eu fiquei ali sentada na escuridão do grande buraco e lamentei pelas almas perdidas com um humano ao meu lado.

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